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sábado, 15 de dezembro de 2012

Moacir Santos - Ouro Negro


Um dos maiores da música popular brasileira.
Um dos maiores desconhecidos da música popular brasileira.

Um dos Músicos dos Músicos.

"A benção Maestro Moacir Santos que não és um só, mas tantos, tantos como o meu Brasil de todos os santos, inclusive meu São Sebastião" ('Samba da Benção', Vinícius de Moraes)

Um exemplo do improvável: "transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos" (trecho retirado, como vários outros desta resenha, do encarte do cd e do Songbook).

"Tom Jobim dizia que, no Brasil, é proibido ao aborígene sair da taba. Moacir Santos foi um dos que saíram e o Brasil fez desabar sobre seu nome um manto de silêncio. Pois chega de silêncio. Nanã sabe das Coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir" (Ruy Castro)

Veio do interior para Recife, depois João Pessoa, Rio de Janeiro, Los Angeles, mundo. Você não conhece? Nunca ouviu falar? Envergonhe-se.

"Moacir foi Maestro, por concurso, da Rádio Nacional. Todos os músicos profissionais, naquela época, iam estudar música 'superior' com ele. Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas 'sabedorias', ficamos muito amigos e por causa dessa amizade ele começou a me mostrar as composições que fazia no piano e não mostrava a ninguém. Tocava para mim as músicas e dizia: - Olha essa 'coisa' que eu fiz, escuta essa outra 'coisa'." (Baden Powell)

A palavra 'Coisa' é muito usada pelo Maestro, arranjador, compositor e saxofonista Moacir José dos Santos. Nascido em Flores do Pajeú (na verdade ali foi registrado, o local de nascimento deu-se em local incerto do interior de Pernambuco, entre Serra Talhada, Bom Nome e Belmonte), em julho de 1926 (mesmo ano de Miles Davis e John Coltrane). Entregue a uma família branca 'remediada', teve instrução ginasial e musical, para sorte nossa. Aos 14 anos, dominando vários instrumentos de banda, além de banjo, violão e bandolim, fugiu: Serrânia, Arco Verde, Recife, Catro, Timabúba, João Pessoa, onde se torna sargento-músico da PM, depois integrando a legendária orquestra de Severino Araújo, de mudança para o Rio, onde chega casado com Cleonice.

"Sempre tive o anseio em produzir músicas com a catalogação erudita, como por exemplo Opus 3, Nº 1. Quando Baden Powell foi estudar comigo e me convidou para participar do disco com o baterista americano Jimmy Pratt, na antiga Phillips, o engenheiro de gravação perguntou o nome da música e eu respondi: 'Isso é uma coisa'...Aí me ocorreu a ideia de numerá-las." (Moacir Santos)

Ingressando na Rádio Nacional, RJ, como saxofonista, frequenta bailes também. Mas ao contrário de muitos de seus colegas, estudou sempre e muito, formando-se em Regência e tendo como mestres Cláudio Santoro, Guerra-Peixe, H. J. Koellreuter, de quem mais tarde seria assistente, e Ernst Kreneck, com quem aprende as manhas do dodecafonismo.

"A África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, qualquer que seja o lugar de onde venha ou para onde vá." (Jacques-Stephen Alexis, poeta haitiano)

Começa algum reconhecimento depois de promovido a arranjador e regente na Rádio, ao lado de Radamés Gnatalli, Leo Perachi e Lirio Panicalli, sendo eleito pelos colegas da Rádio 'o músico do ano'.

Teve muitos alunos conhecidos e reconhecidos na música popular brasileira: Paulo Moura, Sérgio Mendes, João Donato, Raul de Souza, Doum Romão, Bola Sete, Roberto Menescal, Geraldo Vespar, Chiquito Braga, Nara Leão, Dori Caymmi etc, o que o incluiu como um dos patronos da bossa nova.

Paralelamente, o maestro trabalhou com muitas e importantes trilhas para o Cinema Novo brasileiro, entre eles os filmes 'Seara vermelha', 'Ganga Zumba', 'Os fuzis', 'O beijo' e o mais importante, 'Amor no Pacífico (Love in the Pacific)', que lhe trouxe a oportunidade de trabalhar com uma orquestra de 65 excelentes músicos e lhe abriu o mercado internacional, levando-o a se mudar para os EUA, em 1967. Lá, gravou discos solos, um deles indicado ao Grammy, deu aulas e compôs trilhas para cinema (tendo trabalhado até na equipe de Henry Mancini), construindo uma sólida reputação como compositor, arranjador e docente, membro que era da Associação de Professores de Música da Califórnia.

Repito aqui o que já foi merecidamente reconhecido por grande parte da melhor crítica musical: Moacir Santos produziu, nas décadas de 60 e 70, a música popular mais sofisticada e ao mesmo tempo mais enraizada nas tradições afro-brasileiras.

À época do lançamento desse disco, uma coisa que se repetia muito era que a única crítica que o disco merecia era relativa ao título que, por ter sido patrocinado pela Petrobras, poderia remeter ao petróleo e não ao Maestro...

Esse é um disco irretocável, mesmo sendo duplo. As músicas foram recriadas em cima dos arranjos originais, que haviam se perdido quando o selo Forma foi vendida à PolyGram (na época Philips e hoje Universal...), de vários discos: Coisas (Forma, 1965, este que já foi o disco mais valorizado no mercado dos vinis), Maestro (Blue Note, 1972), Saudade (Blue Note, 1974) e Carnival of Spirits (Blue Note, 1975).

Juntamente ou posteriormente (não tenho certeza) foram lançados o Songbook (que eu tenho mas pratico e leio pouco) e um DVD (que encontrei agora no site Livraria da Folha).

Muitos excelentes músicos participam do disco, entre eles Mario Adnet (que também o produziu junto com Zé Nogueira), Ricardo Silveira, Cristóvão Bastos, Marcos Nimrichter, Jorge Helder, Nailos Proveta, Teco Cardoso, Hugo Pilger, Jessé Sadoc, Marcelo Martins etc.

Algumas das músicas receberam letras (por Nei Lopes) e cantores: Coisa nº 8, Navegação (com Milton Nascimento), Sou eu (com Djavan), Orfeu (com Ed Motta), Maracatu, Nação do amor (com Gilberto Gil), Oduduá (com João Bosco), De repente estou feliz (com Joyce e João Donato) e Bodas de prata dourada (com Sheila Smith e Muíza Adnet).
A título de curiosidade, 'Coisa nº 6' tornou-se 'Dia de festa' com letra do Geraldo Vandré, gravada pelo próprio; aqui neste disco está a versão instrumental.

Comentar cada faixa seria uma tarefa muito além da minha capacidade de traduzir esta Música em palavras, além de ficar chato por todos os detalhes musicais, então dessa vez vou transcrever os comentários do próprio Maestro diretamente do encarte.

CD 1:

'Coisa nº 5 - Nanã': "Fico muito feliz de vocês terem gravado a versão original porque foi assim que ouvi e assim que fiz. É uma grande procissão."

'Suk-cha': "Foi uma rosa que ofereci à minha primeira nora que era coreana..."

'Coisa nº 6': "Essa música é uma festa..."

'Coisa nº 8 - Navegação': "A inspiração vem de uma música de Luiz Gonzaga, 'Vem morena' e um tema de filme americano, estrelado por Kirk Douglas, que tinha semelhança com a de Gonzaga. Apenas três notinhas foram suficientes para que construísse o meu tema. Se essas notas me impressionam é o bastante..."

'Amphibious': "Estava viajando de João Pessoa para Recife, era maestro da Rádio Tabajara da Paraíba. Assis tocava trompete na orquestra e tínhamos muita afinidade. Ele me mostrou a primeira parte do tema, que já havíamos batizado de Amphibious e em seguida, fiz a segunda..."

'Mãe Iracema': "É a história de José de Alencar, das duas tribos que estavam em guerra. Iracema flechou um índio rival, no olho, e ele não reagiu quando viu que se tratava de uma mulher. Ela correu para prestar socorro e então isso resultou em um grande amor entre os dois. Quando nasceu o filho ela pronunciou o nome Moacy que, em tupi-guarani, significa 'Oh, filho da minha dor'. Essa música é dedicada a todas as Iracemas..."

'Coisa nº 1': "Foi apenas um truque rítmico, um drible de Moacir Santos..."

'Sou eu [Luanne]': "Esse nome, Luanne, surgiu exatamente onde ele é cantado na melodia. Isso é coisa dos anjos..."

'Bluishmen': "Bluishmen são os negros que, de tão retintos, chegam a ser azulados. Esses são de uma tribo africana que fica na costa, na mesma direção do Ceará. Deve ter sido o mesmo lugar, na época que os continentes eram uma coisa só. A paisagem é a mesma, praias, coqueiros, palmeiras..."

'Kathy': "Foi feita a pedidos para a namorada do Rick, tropetista que tocava na minha orquestra nos Estados Unidos. Apesar do nome ter cinco letras, o fato da música ser em 5/4 é pura coincidência. Coisa dos anjos..."

'Kamba': "Essa foi composta logo que chegamos ao Rio, em homenagem ao nascimento do nosso filho. Cleonice estava na maternidade Clara Basbaum, em Botafogo, e quando liguei para saber notícias, ele havia acabado de nascer. Comecei a cantar esa música no trem, a caminho do hospital. Nessa época, morávamos ao lado de um terreiro, ouvia frequentemente cantos de umbanda, mesmo que não quisesse..."

'Coisa nº 9': "Isso é um lamento.''

'Orfeu [Quiet Carnival]': "Estava dando uma aula numa escola dos Estados Unidos, chamada Nova Music, quando terminei fui para casa e ouvi no rádio uma música que estava no hit parade das 10 mais, uma coisa muito repetitiva. Dessas eu faço uma dúzia na hora! Comecei a compor uma música cheia de repetições, mudando as notas no final de cada frase. Isso fez tanto sucesso entre os músicos, que diziam que ganharia o Grammy..."

'Amalgamation': "Estava começando um curso de música para cinema na USLA, no início dos anos 70 e comecei ese tema naquela época. Adoro quebrar formas tradicionais usando solos ad libtum antes de apresentar o tema. Essa música foi concluída há uns dois anos."

CD 2:

'Coisa nº 7 [Evocative]': "Uma brincadeira pianística..."

'Coisa nº 2': "Antes de ir para São Paulo dirigir a orquestra da TV Record, participei de um curso de música internacional, em Teresópolis. Lá aconteceu um fato simples mas que me impressionou. N passagem entre uma aula e outra, uma moça deixou cair uns desenhos no chão e eu a ajudei a pegar. Ela estudava artes plásticas; começou então a me mostrar seus trabalhos e um deles era a pintura de uma rosa. Ela disse: 'Isso é Villa-Lobos' - apontando para a rosa. Mais tarde, em São Paulo, tive uma sensação parecida ao tocar um exercício simples, em Si Bemol, do Método de Czerny. Lembrei da história do quadro 'Villa-Lobos'. A inspiração veio dessa sensação..."

'Lamento astral': "Nós morávamos ainda em Nova Iorque, no final dos anos sessenta. Uma noite Cleonice passou mal, eu a coloquei no chuveiro e saí desesperado pela rua, atrás de uma farmácia. Foi assim que surgiu essa melodia na minha cabeça"

'Maracatu, Nação do Amor': "Antes de gravar o meu primeiro disco nos Estados Unidos, mostrei ao dono da gravadora Blue Note a trilha que havia feito para 'Amor no Pacífico'. Ele gostou, mas pediu que eu gravasse mais músicas ritmadas, nada tão doce como aquela trilha. Voltando para casa, olhei para o céu azul, me lembrei do Brasil e comecei a cantar essa coisa africana..."

'Coisa nº 4': "Foi como imaginei os negros fugindo das senzalas. A melodia, com as notas longas, significa a esperança..."

'Coisa nº 10': "Essa também é um truque musical..."

'Jequié': "Isso é uma inspiração no modo lídio. Coloquei esse nome por causa de uma viagem que fiz à minha terra natal e passei pela cidade de Jequié"
(nota minha: modos são 7, originados da cada nota escala maior, muito utilizados na Idade Média, antes e paralelamente ao sistema de tonalidades, 'primitivo' mas sempre redescoberto e reinventado; o modo Lídio é aquele que você ouve no tema dos Simpsons, por exemplo)

'Oduduá': "Pr uma incrível 'coincidência' os letristas da primeira versão não sabiam da minha história quando escreveram a letra. Só fui descobrir meu nome completo e minha idade exata na década de oitenta, nos registros da Igraja das Flores. Acho que os anjos contaram a eles..."
trecho da letra:
"Diz, Oduduá, quem sou eu?
Pra onde vou? De onde vim?
Quem me fez voar tantos céus
Navegar, tanto assim?"

'Coisa nº 3': "Fui assistir a um filme francês e ouvi, pela primeira vez, o som das ambulâncias de lá. Voltei para casa compondo..."

'Anon': "Anon quer dizer sem nome, vem de anônimo. É inspirada em uma marchinha de carnaval que ouvi quando era criança, em Recife. Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela. A capoeira apareceu no caminho..."

'Quermesse': "Compus esse tema na época da Rádio Nacional. Paulo Tapajóes era meu amigo e prometeu interceder a meu favor para ingressar no quadro dos maestros. Disse a ele que aceitaria desde que não interferisse nos meus estudos com Koellreuter. Escrevi a melodia para trompa e foi o meu tema para o programa 'Quando os maestros se encontram'. Mais tarde, nos Estados Unidos, transformei na festa que acontecia no pátio da Igreja de Flores"

'De repente, estou feliz': "Esta foi para Cléo, completamente"

'Maracatucutê': "Um tema típico de Moacir Santos que, de vez em quando, aparece na minha cabeça..."

'Bodas de prata dourada': "Esta foi composta em homenagem aos nossos quarenta anos de casados. Achei que talvez não chegasse às Bodas de Ouro"
[Moacir e Cleonice estavam casados há 54 anos em 2001, ano de lançamento deste CD]

Moacir faleceu em 2006.

Faça um favor a si mesmo, ouça!

Links:
Wikipedia
Tese de pós na UESC

(Dão)

sábado, 1 de dezembro de 2012

Jorge Ben - A Tábua de Esmeralda


(Esse é um dos 'clássicos', 'históricos' etc. Mas vou postar porque gosto muito, mesmo achando o som do violão - apontado como o ponto forte e original do Jorge - meia boca e em alguns momentos até incômodo na mixagem. Mas é uma viagem, no melhor dos sentidos, e um deleite musical)

Um grande álbum atenta a todos os detalhes, a começar pela capa. Esta aqui, belíssima, foi baseada 'nas figuras que Nicolas Flamel encontrou no Livro de Abrahão', sendo que toda a apresentação gráfica acompanha os motivos principais das músicas do disco.
A princípio, um álbum baseado em Alquimia não havia agradado à Phonogram, mas agradou ao gerente visionário André Midani. E ficava difícil e arriscado negar alguma coisa ao cara que havia inventado o samba-rock e era o maior destaque negro da música popular desde o lançamento de 'Samba esquema novo'.

E, ao mesmo tempo em que se baseia em conceitos abstratos como alquimia musical, agricultura celeste e quetais, ainda está lá o simples no conceito, como em 'Eu vou torcer', onde se canta a paz, a alegria, as moças bonitas, o verão, o inverno e, claro, o Mengão! Tudo bem a enorme derrapada que ele dá na afinação...
(Dizem que quando a Fernandinha Abreu regravou essa música ela disse que ia cantar vascão e o Jorge avisou que se ela fizesse isso ele não autorizaria. Muito bem, Salve Jorge!!!)

Outra que foi regravada é a 'Cinco minutos', pela Marisa Monte, por sinal muito bem e bem diferente. É a música que finaliza o disco, que descreve um encontro que não se deu porque ela não esperou 5 minutos,''pois você não sabe quanto vale 5 minutos na vida'', uma interpretação bem emocionada ainda que malabarista, emocionante.

Mas voltando ao começo...existe um pré-começo aqui, Jorge dando um clima de ao vivo no estúdio "Salve...não, não, senta, pra sair legal. Tem que dançar dançando"...Ao que entra naturalmente aquele violão conhecido e extremamente rítmico e bem tocado, tecladinho, vocais 'ô ô ô ô' e aí está: 'Os alquimistas estão chegando os alquimistas'! Alquimia musical, é melhor ouvir pra entender, de preferência acompanhado de frutos da agricultura celeste...Teve até clipe no Fantástico!

'O homem da gravata florida' homenageia Paracelso, um grande alquimista, sem esquecer a leveza, a alegria e o humor. Começam uns efeitos espaciais de reverb na voz, um meio solinho de violão no começo depois com uma violão ou guitarra com wah-wah...

Os efeitos continuam emendando em 'Errare humanum est', mais uma com o violão em destaque, cordas mais altas, bonito! Ecos e outras viagens, 'e pensar que eram os deuses astronautas/ e que se pode voar sozinho para as estrelas'. Foda (é, eu sou chato...) é a tropeçada gramatical ''e de pensar que não samos (sic) os primeiros seres terrestres, pois nós herdamos uma herança cósmica''...
O Jorge devia estar conversando muito com o Tim e sua viagem Racional...
E que se pode voar sozinho até as estrelas-las-las-las-las/Ou antes dos tempos conhecidos/Vieram os deuses de outras galáxias-as-as-as-as-as/Em um planeta de possibilidades impossíveis…

Uma ode poética à beleza brasileira "com malícia", vocais femininos lindos e uma piração meio rap no vocal no finalzinho, isso é 'Menina mulher da pele preta'.

'Magnólia' é daquelas meio melancólicas, mais uma em homenagem às mulheres, com cordas espaciais muito originais (será o Duprat?), um violão realmente sensacional e sussurros no fim.
"Já consultei os astros
Ela chega na primavera
Ela já se encontra a caminho"
Aqui terminava o Lado A.

Aqui começava o Lado B:
'Minha teimosia, uma arma pra te conquistar', bonitona, agora vocais masculinos (deve ter algum significado astrológico que me escapa no momento), essa eu até vejo o Fred 04 e o Chico Science ouvindo, essa é muito a cara do mundo livre s. a. (talvez seja por isso que o Fred também derrapa na afinação às vezes...).
"lá lá lá lá
lá lá lá lá lá lá lá lála"

'Zumbi' também tem muitas versões, sendo a minha preferida a do Soulfly, que é a mais pesada e, a meu ver, isso combina muito com o tema. Aqui a música original é bem delicada, quase lírica, com poucos instrumentos de cordas, mais roots.
"Eu quero ver o que vai acontecer quando Zumbi chegar
Zumbi é senhor das guerras, Zumbi é senhor das demandas,
Quando Zumbi chega é Zumbi quem manda"

Tão abusado o cara estava que gravou até em inglês: 'Brother', vocais espaciais poderosos, uma guitarrinha discreta mas muito legal, disco cheio de detalhes...

'O namorado da viúva' é um samba rock, gostoso e malandro, típico do Jorge Ben, maneiro e suingado.

A faixa central (e quase título) a meu ver é 'Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda', inspirada no lendário faraó sábio e possível alquimista, Hermes 'três vezes grande', cujos escritos foram encontrados pelos soldados de Alexandre da Macedônia na Pirâmide de Gizé, grifados com uma ponta de diamante numa tábua de esmeraldas, sacou? ;)
A música traz de volta os vocais femininos, narra sobre o Hermes e seus ensinamentos ("O que está em cima é como o que está embaixo" e outras viagens semelhantes).

O disco termina com 'Cinco minutos', já comentada acima.

Direção de produção por Paulinho Tapajós.

Fontes de consulta na rede:
Wikipedia
na mira do groove
Millarch
sacudinbenblog

(Dão)

domingo, 11 de setembro de 2011

Txai, Milton Nascimento




Atípicos! O cd e o fato de eu gostar dele. O mítico disco do Clube da Esquina provavelmente será um dos últimos a ser postados por aqui, apesar do seu mérito.

Mas fugirei do óbvio, até porque eu gosto deste aqui.

Por incrível que pareça, há uma conexão deste disco com o Roots do Sepultura, claro que não na sonoridade (apesar do Milton ter gravado com a banda de heavy metal Angra!), mas na ligação com os índios, ou melhor, os povos da floresta. Os dois discos trazem cantos gravados pelos índios e músicas inspiradas e/ou compostas com os citados povos. O que me lembra um outro disco que tenho que postar aqui, um de nome esquisito da Marlui Miranda - que inclusive participa deste disco.

O disco inicia já diferente, com Milton cantando ao fundo um tema composto para o Ballet David Parsons e um índio, Davi Kopenawa Yanomami, declamando um texto sobre as maldades do homem branco...

Em seguida a faixa título, bonita, simples, com a belísssima voz e uma levada bem jazzy-mpb-clubedaesquina, se é que vc me entende.
Esclarecendo, 'Txai': palavra dos índios Kaxinawu adotada no Acre como tratamento de respeito e carinho a todos os aliados dos povos da floresta.

'Baü mêtóro' lembra mais uma vez o Roots, sendo aqui um canto do povo Kayapó do A-Ukre.

Voltamos então ao universo mais típico, 'Coisas da vida', com o parceiro Fernando Brant, uma linda canção, límpida e clara.
'nunca é igual
se for bem natural
se for de coração
além do bem, do mal,
coisas da vida
o amor enfim
ficou senhor de mim
e eu fiquei assim
calado, sem latim
coisas da vida'

Mais uma canção indígena, 'Hoeiepereiga', do povo Paiter.

'Estórias da floresta' (Milton/ Fernando Brant) é muito legal, vozes do Milton e uma percussão discreta.

'Yanomami e nós (pacto de vida)' mais uma com Brant, é uma música bem triste e bela, com cordas melodramáticas, mas interpretação contida. Participação especial de Heitor TP no violão!

'Awasi', outra indígena, agora do povo Waiãpi.

'A terceira margem do rio' (Milton e Caetano) é destoante, intensa e com aquelas letras vagas e caetânicas...

'Benke' é cantada por Milton juntamente com Leonardo Bretas, um menino com voz bonita e, claro, infantil. Depois entra um coro infantil, que vejo aqui, inclui um Diogo Nogueira, será o futuro sambista?? As crianças aparecem por ser uma canção com o nome de um curumim e é dedicada a todos os curumins de todas as raças do mundo.

'Sertão das águas' traz o parceiro de composição Ronaldo Bastos numa bela e típica canção.

'Que virá dessa escuridão?' é mais uma triste composição desse disco sombrio, tocante e florestal.

Uma surpresinha, 'Curi curi' traz a voz do saudoso ator River Phoenix em livre interpretação sobre um texto do índio Tsaqu Waiãpi.

Agora uma canção indígena, composta por H. Villa-Lobos e Roquette Pinto, na voz e violão de Marlui Miranda, com a voz de Milton e uma percussão bem leve:'Nozani Na'.

E pra terminar, mais uma nas vozes dos índios, aqui com o povo Kayapó do A-Ukre.

Um disco diferente, só pra variar.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Verde anil amarelo cor de rosa e carvão, Marisa Monte



Dos 'medalhões' da MPB, esta é a única que faltava por aqui. Como a Andréa ainda não postou o primeirão, ao vivo, nosso preferido, começo por este aqui.
Tido como um dos melhores e pra mim o mais bem acabado, este disco marca algumas mudanças da Marisa, tais como a primeira produção dela própria, na verdade uma co-produção com Arto Lindsay (que já produzira o anterior, 'Mais'), além de reafirmar seu trabalho autoral e ao mesmo tempo ampliar o universo de seus colaboradores.
Nos bons tempos do mercado musical físico (o virtual continua a toda!), o disco vendeu mais de um milhão de cópias.
Estranhamente não consta no 1001 original, apesar da projeção internacional da artista.

O disco inicia com 'Maria de verdade' (Carlinhos Brown, parceiro cada vez mais presente na sua vida e obra), sutil, com voz e violão a princípio, depois permitindo a entrada da banda inteira, tornando a música até dançante, com um baixo de dar gosto. Belo início.

'Na estrada' (MM/Brown/Nando Reis, este também participando mais intensamente, se tornando mesmo marido se não me engano), mais uma quase acústica e cheia de vozes extras da própria cantora.

'Ao meu redor' (Nando Reis) traz como diferencial um trompete sinuoso e a mesma atitude acústica. Saltitante.

'Segue o seco' (Brown) deu origem a um video lindíssimo, sem esquecer que é uma bela e forte canção. Berimbaus e vozes de Brown ao fundo, antecipando o que seriam os Tribalistas.

Uma música de Lou Reed, 'Pale blue eyes', traz um aceno à cena americana. Boa e surpreendente escolha.

Em seguida, a belíssima versão de 'Dança da solidão' (Paulinho da Viola), com o auxílio luxuoso de Gilberto Gil no violão e vocais de apoio, sensacional, um dos pontos altos do disco!

'De mais ninguém' dialoga com o grupo Época de Ouro, do choro clássico carioca, mesmo a música sendo de Arnaldo Antunes e Marisa. Quase anacrônica, mas cabe no projeto abrangente do disco.

'Alta noite' já havia sido gravada pelo autor, Arnaldo Antunes, mas aqui ganha uma versão linda, acredito que com o saudoso violonista Raphael Rabelo. Belíssimas cordas ao fundo.



'O céu' (Marisa Monte/Nando Reis) é mais alegre e quase balançada, vc fica querendo dançar, seu corpo começa a querer sacudir, bem legal.


'Bem leve' (MM e Arnaldo Antunes) é fiel ao seu nome, meio valsa, violãozinho discretíssimo e um pandeiro dando o ritmo.


'Balança pema' (Jorge Ben) traz o balanço de volta, com violão, guitarra com wah-wah e bateria, com várias vozes da Marisa.


'Enquanto isso' (MM/ Nando Reis) traz mais vozes e uma narrativa bem legal (incluindo trechos em inglês by Laurie Anderson), além de belos violões.


Pra terminar com extrema classe, Marisa traz as pastoras da Velha Guarda da Portela pra fazer uns vocais lindos nessa canção que poderia ser um samba-enredo, se o carnaval de desfile suportasse sutilezas e cadenciamentos mais lentos. 'Esta melodia' foi um balão de ensaio do disco no qual a Marisa produziria esta mesma Velha Guarda, 'Tudo azul', que aparecerá por aqui inevitavelmente (é um dos meus discos de samba preferidos, inclusive pelo recurso sempre oferecido nos discos de MM: as músicas vem com letra e cifras com acordes!).


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Alfagamabetizado, Carlinhos Brown


Mais um da Bahia, meu rei...
Apesar dos protestos dos amigos sem tolerância musical, principalmente daqueles que nunca ouviram este excelente disco que, mesmo não sendo tão sofisticado quanto a próxima postagem do mestre X, tem seu borogodó.
O álbum também consta do livro '1001 discos para ouvir antes de morrer', na mesma página da Bethânia resenhada aí embaixo. Na resenha, diz-se do artista, 'o Prince brasileiro' (!), um ser capaz de representar a essência e a voz do seu povo (!!). Um exagero, talvez, mas tem seu fundo de razão. O livro ainda ressalta o fato do artista fundir a tradição musical tradicional com música moderna, com um 'resultado colossal' (!!!). Também toca no fato disso ser feito com 'maturidade e até sofisticação', com 'integração tão coesa que a linha de fusão se torna quase imperceptível', e aqui eu assinaria embaixo com tranqüilidade!
Buscando imagens da capa, descobri que o disco tem uma outra capa, mais vermelha, diferente da que eu tenho. Independente disso, é mais um disco com produção gráfica caprichada, fotos criativas e bonitas. Mas é meio difícil acompanhar as letras e saber dos músicos envolvidos...
O Carlinhos Brown, que também foi líder da Timabalada, apareceu para o grande público tocando percussão com o Caetano (ele é autor de 'Meia lua inteira'), num show do disco Estrangeiro que começava com luz no Carlinhos e ele, espertamente, direcionava a luz através do pandeiro pro Caê. Daí pro mundo e para os Tribalistas...mas isso já é outro disco, que, por precaução, pra evitar apedrejamento, vou sugerir que a minha filha de 13 anos faça...ou quem sabe a herdeira do Mateus, que eu nem sei se gosta também. Sei que ela gosta de Ramones, o que já é um baita desgosto...pro pai, claro, pra nós é divertido.

Mas vamos ao disco e suas (muitas) faixas:

1. Angel's Robot List: quase uma vinheta, com uma voz citando a alfabeto grego (isso é redundância?) e uns ruídos por trás;

2. Pandeiro-deiro: aqui começa com percussão africana seguida de belas vozes baianas e umas guitarras muito legais, além de um arranjo de sopros muito legal; a voz só aparece bem depois. Participação ilustre de Marcos Suzano no pandeiro solo. A letra, apesar de muito sonora, é total nonsense.

3. Covered Saints: uma das minhas preferidas, calminha, bonita, bilíngüe, solinho bacana de guitarra, merece a ouvida mesmo dos mais radicais. Além de belos vocais, aqui a letra acerta (ou pelo menos faz algum sentido). O porém fica por um violino que sola no limite da (des)afinação, o que, tendo em vista o capricho e o nível dos atuais programas de auto-afinação, deve ser proposital. Mas me irrita profundamente.
'Triste quer saber
se ainda mora em mim
não sei dizer
chega de você
te sinto mais livre no querer
o amor que diga
que fim dar
se de forma ímpar
in a beautiful way
you're devoring me'
Tocava muito na excelente e saudosa (pra mim) Rádio Globo carioca (ainda existe?).

4. Cumplicidade de armário: começa com aquele surdo virado típico do axé, mas não segue assim, acrescentando mais uma guitarra muderna e uma levada pop-reggae. Brown neste disco se cercou de músicos gringos, tendo um som bem internacional e pop, mas com a cara dele. Lembra um pouco a sonoridade do 'Lilás' do Djavan, só que mais animado.

5. Argila: mais uma muito bonita, com bons violões/guitarras, voz cantando sutilmente e harmonia surpreendente pra quem acha que o cara é monotemático.

6. Tour: bem pop, pra tocar na rádio, suingada e leve, com aquela percussão baianíssima e aquele refrão pra cantar no carnaval.
'all right
I'm allright
sinto felicidade
não invente de fazer maaala (sic)'

7. Bog la bag: esta aqui lembra o Prince mesmo! Se ele fosse à Bahia...vc já foi? Então vá. Percussão frenética, junto com a cantoria em carlinhosbrownês. Letra com ajuda do Celso Fonseca. E mais uma vez uma guitarrona, quase metal, a cargo do Roseval Evangelista (!).

8. O bode: mais uma com muita percussão que, apesar de repetitivo, é bem mixado sem embolar com as vozes e outros instrumentos. Mais uma que deve ter feito seu sucesso no carnaval.
'Levanta sacode
que lá vem o bode
corre Chico' (será um aviso ao ex-sogro?)

9. Comunidade-Lobos: um boa surpresa, uma composição quase instrumental e quase erudita com violoncelo e um monte de instrumentos tocados pelo Brown, calmaria com batucada.

10. Frases Ventias: calminha e bonita, a voz aparece limpa, com violões e violoncelo, seguidos de mais vozes e percussões (surdo baixo, enxada, vaso, cúpula de surdo, lé, djembê solo, o que será isso tudo??!).

11. Quixabeira (com música incidental 'Samba Santamarense' e 'Amor de longe'): música de domínio público, aqui com as luxuosas vozes da 'máfia do dendê', os Doces Bárbaros: Caetano, Gal, Bethânia e Gil, muito legal.
'Tu não faz como um passarinho
que fez um ninho e avoou
mas eu fiquei sozinho
sem teu carinho
sem teu amor'

12. Seo Zé: esta aqui tem uma curiosidade, traz o título de um outro disco ('Cor de rosa e carvão'), sendo a música de autoria de Bronw, Marisa Monte (em breve por aqui) e Nando Reis. É uma rumba/bolero destoando um pouco do disco, mas traz variedade. Tem também uns vocais discretos da Marisa.

13. Mares de ti: um pouco mais lenta, etérea e bonita, pop, podia até ter tocado nas rádios, o cara tem o faro pra facilidade, que parece mas não é fácil. Mais um solo de guitarra hard, curtinho!

14. Zanza: tem a diferença de ter a voz filtrada (isto é, com alterações de equalização, com o corte de algumas, sacou?) do Carlinhos, cadenciada e tranquila.

15. A namorada: o hit do disco! Pra levantar a galera, alterna umas guitarras pesadas com wah-wah, sopros (isto é, saxofones, trompete, trombones, sacou?) bem arranjados e claros, guitarra suingada, baixo sensacional do Arthur Maia, refrão grudento, iêiêiês, levada disco, rufos de bateria em fusas (1/16 de compasso, sacou?) e por aí vai...
'A namorada tem namorada'!!!
Apareceu até no filme 'Speed 2 - Cruise control'!

16. Vanju Concessa: pra terminar e acalmar a festa, clima capoeira com berimbau, percussão baiana e Suzanesca, guitarrinha pica-pau e aquela letra nonsense típica.

Produzido por Wally Badarou (Level 42, Fela Kuti, Salif Keifa etc) e Arto Lindsay.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Âmbar, Maria Bethânia







Continuando na Bahia, vamos à musa Maria Bethânia.

Este é um dos que também são citados no livro original, 1001 discos para ouvir antes de morrer.

É um disco belíssimo, às vezes com aquela performance e interpretação intensos da cantora, mas é assim mesmo, entrega e emoção.

Repertório primoroso, como é de costume em intérpretes não autoras que têm bom gosto, sensibilidade e curiosidade de garimpar novos autores.

Som extremamente límpido, tendo sida a gravação feita em vários locais: SP, RJ, LA, Bruxelas e Londres (Abbey Road!!), com a mixagem tb no Abbey e a masterização em LA zzzzzzz.....

Ainda mais o disco tem um trabalho gráfico muito caprichado e bonito, pena q eu não achei mais imagens para anexar aqui. Um bom motivo pra comprar.

Consta também que é um disco comemorativo: 35 anos de carreira, 35 álbuns e 50 anos de idade.

E começa com a bonita faixa-título, da Adriana Calcanhoto, um violão em estéreo discreto e bonito, um fundo orquestrado leve, assim como a percussão do multiplatinado Paulinho da Costa. Depois entra o trompete brilhante e sinuoso do Steve Tavaglione.

'Tá tudo aceso em mim

tá tudo assim tão claro

tá tudo brilhando em mim'



'Chão de estrelas' (Sílvio Caldas/Orestes Barbosa) é uma bela e depressiva canção, mas a versão definitiva é a dos Mutantes, eu sempre fico esperando a zoação deles...Mas nada com a Bethânia fica feio, né?

'E tu, pisava nos astros distraída

sem saber que a aventura dessa vida

é a cabrocha, o luar e o violão'



'Iluminada' é uma surpresa muito legal, um arranjo nada careta com muitas vozes 'saltitantes', fazendo fundo, percussão e harmonia. Quem será que são Marie Doulne (Zap Mama), Sabine Kabongo e Angelique Wilkie??



'Onde estará o meu amor' (Chico Cesar, parente do Xampu) começa só voz, grave e imponente, aos poucos entrando a harmonia através da harmônica (gaita, pros leigos) e depois a banda, com um clima meio sertanejo e rural, com o vialão de aço do Victor Biglione.



'Lua vermelha' (Carlinhos Brown/Arnaldo Antunes) é a mais bonita pra mim, etérea, calma, letra linda, auxílio luxuoso do pandeiro.



'O circo' (Orlando Moraes/Antônio Cícero) é daquela de crooner, bailão chique num grande salão com acantora vestida de gala. Arranjo meio jazzy, inclusive com uma slide guitar pelo Victor Biglione, que ao fim sola sem slide. Bonito isso.

'Leão, camelo, acrobata

e não há luar

E os deuses gostam de se disfarçar'



'Invocação', mais uma do primo do Xampu, é solene, quase uma oração pagã, com vozes graves ao fundo, bem percussiva e com cordas muito criativas.

'Deus dos sem deuses

Deus do céu sem Deus

Deus dos ateus

Rogo a ti cem vezes

Responde quem és?

Serás Deus ou Deusa?

Que sexo terá?

Mostra teu dedo, tua língua, tua face

Deus dos sem deuses'



Mais uma da Adriana Calcanhoto: 'Uns versos', belas cordas, belos violões, cordas lindas, letra bonita...Bethânia escolhe e interpreta com extremo bom gosto.



'Allez y', do Carlinhos Brown - e perguntem pra ele o que significa, é simples, voz, cordas e violão. Quando digo cordas, são os instrumentos orquestrais que usam cordas: contrabaixos, violoncelos, violinos e violas, sacou?



'Todos os lugares' é mais uma de crooner, piano, voz e cordas doces.



'Quando eu penso na Bahia' (Ary Barroso/ Luiz Peixoto) traz o convidado Chico Buarque cheio de 'iáiá' e 'iôiô' pra cá e pra lá...sambinha animado e legal.



'Ave Maria' tem aquele clima de igreja, violinos celestiais, beata beata beata. Mas é bela também, como uma oração sincera. E ainda tem guitarra e baixo!



'Eterno em mim', do mano Caetano, é grandiosa, com um arranjo que acentua isso, cordas em cascata, seguidas de um piano e voz que ficam bem bonitos.

'Duas coisas que dentro de mim

não podem ter fim

dois azuis no mesmo azul

meu horizonte sem nuvem nem monte

em mim o eterno é música e amor'



E pra terminar pra cima, 'Brisa', um poema musicado de Manuel Bandeira. VViola bonita, bem brejeiro (sempre quis usar esse adjetivo!), além de violão e guitarra discretos.

'Aqui faz muito calor

no nordeste faz calor também

mas lá tem brisa'

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Alumbramento, Djavan


Este artista aqui também estava faltando. O Mateus me disse que tinha postado o 'Luz', mas deve ser em alguma realidade alternativa, porque aqui eu não encontrei...
Por incrível que possa parecer, eu tenho a coleção quase completa do Djavan, e hoje de manhã foi difícil escolher um pra postar, cogitei o 'Malásia', mas esse o Mateus acho que também quer postar, e o 'Lilás' (o meu som preferido) tem a capa muito brega...então vamos neste aqui mesmo.
Alagoano de Maceió, nosso ídolo de hoje quase foi jogador de futebol pelo CSA. Mas felizmente pra nós, amantes da boa música e inimigos do mau futebol, optou por fazer e viver de sua música.
Começou com trilhas de novela lá pelos anos 70, explodindo mesmo depois de seu segundo álbum, principalmente através da gravação de 'Álibi' por Maria Bethânia, num álbum que vendeu mais de um milhão de cópias, bons tempos da mpb que não voltam mais. Também Nana Caymmi e Elis Regina gravaram músicas suas nessa época, além de Gal Costa e Roberto Carlos.
Chegava assim ao olimpo da mpb quando, em seu terceiro disco - este aqui comentado, passa a ter como companheiros de composição Aldir Blanc e Chico Buarque de Hollanda.

'Tem boi na linha' dá início ao disco, um bom samba com a cara original do Djavan, lembrando seus primeiros sucessos, 'Fato consumado' e 'Flor de lis', mas agora com auxílio luxuoso do citado Aldir Blanc e do Paulo Emilio. Nosso herói é freqüentemente criticado pelo uso de palavras pela sua sonoridade, às vezes resultando em algo non sense. Mas é música, não é narrativa e, se o som é bom, pra mim tá ótimo.

'Sim ou não' é mais lentinha. Bonita, com seu violão Ovation na cara e sua voz límpida. E tem cordas de verdade, um violoncelo que aparece ali de vez em quando, além daquele fundo orquestrado que parece aqueles teclados bregas dos anos 80.

'Lambada de serpente' é das minhas preferidas, nordestina e moderna, com viola e tudo! "Lambada de serpente/ a traição me enfeitiçou/ quem tem amor ausente/ já viveu a minha dor". No final vozes dobradas encorpam e terminam bem a linda canção.

'A rosa', do Chico e cantada com o próprio, é daqueles sambões clássicos, dispensa comentários, nem vou ficar citando trechos de letra, porque ela inteira é demais.

'Dor e prata' (belo nome) é a música que termina o lado A no disco de vinil, mais uma com aquelas letras djavaneando, um piano bonito espetado e um lindo arranjo de cordas de Oscar Castro Neves.

O (antigo) lado B começava com 'Meu bem querer', uma das mais belas canções de amor já escritas nesse universo, toda paixão, dor, êxtase e sofrimento sintetizadas e cantadas com a carne exposta e sangrando. Wagner Tiso caprichou na orquestração e regência. Um solinho discreto de guitarra e muitas vozes dobradas n segunda parte abrilhantam a pérola.

'Aquele um' tem uma sonoridade mais moderna, uns teclados meio distorcidos e filtrados, um sambão com cara mais californiana, mas sempre com aquele violão e aqueles vocais 'tchubiru' ao fundo (ouça com fones!). Legal! Parceria com Aldir Blanc.

'Alumbramento' começa lentinha, orquestra e piano (os dois a cargo de Luizinho Avelar), mais uma belíssima pra coleção do cara. Parceria com Chico, caprichadíssima. Solinho dividido entre a guitarra e os vocalises djavaneantes.

'Triste Baía da Guanabara' é a única que não é do cantor, desconhecida mas que cai bem no conjunto.

'Sururu de Capote', que eu não faço ideia do que significa e a letra também não ajuda muito, termina bem o disco, arranjo com metais à Tim Maia, tecladeira moderna, que inclusive deu origem ao nome da banda que acompanhou Djavan por algum tempo.

Depois vem mais Djavan.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O cair da tarde, Ney Matogrosso




Como tenho pegado pesado por aqui (e assim continuarei, amigos não metálicos), hoje vou dar uma breve aliviada, afinal, ninguém é de ferro, com exceção do Tony Stark, Lemmy & Ozzy & Keith...


Gosto muito de 'Olhos de farol', também do Ney, que postarei aqui se ninguém o fizer primeiro, mas esse disco aqui é belíssimo, desde a escolha do repertório (imbatível na música brasileira!), a interpretação sempre excelente, os arranjos, o grupo de músicos 'acompanhantes' e finalmente, o projeto gráfico de extremo bom gosto. Por isso, inclusive, incluí mais uma imagem além da capa. Também porque o Ney, além de importantíssimo pra música brasileira, é um homem lindo em muitos sentidos.


Essa semana peguei o disco para ouvir no carro e entendi porque demorei pra postá-lo aqui, pois desde que o tenho, sempre o achei sensacional.

Mas a verdade é que é um disco melancólico, bem triste (o que, em se tratando do melhor repertório possível, talvez informe algo sobre a música e a alma, dentre as muitas possíveis, brasileiras). E aqui em Curitiba, principalmente nos meses frios (que são quase todos) e cinzentos (que são a maioria), ouvir música triste, mesmo que linda, não é aconselhável se você não planeja cortar os pulsos. Mas para aquela específica tarde pós tatuagem na barriga (não aconselho, dói MUITO), o bálsamo veio a calhar.

Vamos à obra então, que começa em alto nível com a faixa que dá nome ao disco, uma das 6 músicas do Maestro Heitor Villa-Lobos gravadas, aqui em parceria com Dora Vasconcellos. Piano lindo a cargo do também arranjador Leandro Braga, guitarra do craque Ricardo Silveira e colaboração do grupo 'experimental' Uakti, que comparece com tambor d´água e pios (!!!). Vocês, amigos colaboradores, deviam ver se aquele amigo bizarro tocador de vagem não foi recrutado pelo Uakti...


'Modinha' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) dá seqüência ao disco, com sua melancolia e beleza infinitas. Mais um arranjo delicadamente lindo.


'Veleiros', mais uma do Villa-Lobos, traz um pouco mais de cadência, um balanço de mar ao piano, uns sopros angelicais dividindo espaço com a voz do nosso intérprete garimpador. "Quanta tristeza/ ondas do mar/ nesse vai e vem/ sem me levar/ pois sempre eu fiz muita atenção/ em não pisar teu coração".


'Tema de amor de Gabriela' (que eu achava que era do Caymmi, mas é do Tom) continua trazendo doses de tristeza e requinte ao caldeirão. "A tua boca é meu doce, é meu sal/ mas quem sou nesta vida tão louca?/ mais um palhaço no teu carnaval/ Casa de sombra, vida de monge/ quanta cachaça na minha dor/ volta pra casa, fica comigo/ vem, que eu te espero tremendo de amor". Segura as pontas, ouvinte amigo, toma o lítio e não se mate!


Outra música chamada 'Modinha (serestas)', esta do Villa-Lobos com Manuel Bandeira, continua maltratando nossos corações e acariciando nossos ouvidos. "Na solidão da minha vida/ morrerei, querida/ do teu desamor/ muito embora me desprezes/ te amarei constante/ sem que a ti distante/ chegue a longe e triste voz do trovador".


'Sem você' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) me faz pensar sobre o mito lingüístico de que a palavra saudade só existe em português. Porque é esse o sentimento predominante em grande parte do cancioneiro popular (e erudito/clássico, como esse disco demonstra), talvez a saudade lusitana tenha se somado ao banzo africano e à desilusão indígena.

"Meu amor/ meu amor/ nunca te ausentes de mim/ pra que eu viva em paz/ para que eu não sofra mais/ tanta mágoa assim/ no mundo sem você"


'Melodia sentimental', mais uma do Villa-Lobos/Dora Vasconcellos, é mais uma belezura, falando da lua, da noite, da sombra, da espera. Um pouco menos triste. Arranjo minimalista, quase inteiro só voz e piano, com uma discreta percussão.


'Canção em modo menor' (da dupla Tom/Vinícius) já me faz questionar sobre a influência dos tais modos menores (a saber: eólio, dórico, frígio e lócrio) em músicas mais tristes. Mas me falta conhecimento ou ouvido absoluto para emitir uma opinião técnica sobre as composições desse disco. Aqui só piano e voz. Triste, triste, triste. Bela, bela, bela. "Porque cada manhã me traz o mesmo sol sem resplendor/ e o dia é só um dia a mais/ e a noite é sempre a mesma dor/ porque o céu perdeu a cor/ e agora em cinza se desfaz"


'Prelúdio Nº 3 (Prelúdio da solidão)", de Villa-Lobos e Hermínio Bello de Carvalho dispensa explicação, mais do mesmo excelente vinho amargo. Meio etérea, quase flutuante.


Daqui pra frente o disco dá uma animada, primeiro adentrando no terreno do folclore, depois finalizando com o creme de la creme.


'Caicó (cantigas)' ainda é um pouco triste, mas o apelo popular e a familiaridade quase nos fazem sorrir.

O pout pourri 'Cirandas' traz músicas que todos cantamos ou ouvimos nas nossas infâncias: 'Se essa rua fosse minha', 'Terezinha de Jesus', 'Condessa', 'O cravo brigou com a rosa (instrumental)', 'A maré encheu' e 'Passa, passa, gavião (instrumental)'. O arranjo privilegia o som do Uakti, com percussões melódicas com sons exóticos, além dos belos sopros fazendo elementos de passagem.


E aí, se sobrevivemos a tanta beleza triste, somos premiados com três das melhores músicas já escritas nesse belo planeta azul, bem mais felizes (talvez as tonalidades sejam maiores por aqui, impressão minha), principalmente em relação ao repertório anterior: 'Trenzinho do caipira' (Heitor Villa-Lobos com poema de Ferreira Gullar!) , 'Águas de março' e 'Pato preto' (essa com um instrumento meio oriental e um solinho de viola!) , você sabe de quem, ou deveria saber!


Enfim, ouça, curta, se emocione, mas escolha um dia feliz, ensolarado e em boa companhia, sacou? Ou tome rivotril, prozac ou outro psicoativo eufórico.


E pra terminar uma sacada do grande frasista Tom Jobim, nosso maestro soberano, transcrita aqui no disco: "O Villa-Lobos é asim meu pai, é meu tudo. Estou com vontade de botar uma música do Villa-Lobos no meu disco. É mais do que uma homenagem, é pro disco ficar mais bonito. Pra eu sentir que tinha alguém que gostava mais de música do que eu".