E voltamos ao assunto. Incontornável, como sói dizer-se. A malvada da «vaca fria».
Perante a enormidade e a gravidade da regressão social e política que estamos a viver, só mesmo os situacionistas da “luta”, aqueles para os quais tudo está bem desde que saia de um comité central ou de uma direcção tão infalível como o Papa, é que podem mostrar-se satisfeitos com a resposta anémica que os sindicatos têm dado ao momento actual. Em Portugal como na restante Europa (porque o problema, hélas, não é só português).
Vem isto a propósito de um artigo do Paulo Guinote que saiu ontem no Público, pugnando por um «sindicalismo não-indiferenciado».
Em síntese, o argumento do Paulo é o seguinte: o movimento sindical – e aqui talvez pudéssemos acrescentar: em Portugal como lá fora – está a seguir a estratégia errada de apostar na fórmula costumeira da unidade dos trabalhadores em geral, sem cuidar de atender às reivindicações sectoriais, não percebendo que, no mundo de hoje, os trabalhadores já não formam um proletariado indiferenciado com uma causa comum, mas sectores laborais marcados por problemas específicos. Sectores que se mobilizam muito mais facilmente em torno de questões que lhes tocam de perto. No entender do Paulo, um sindicalismo que incorporasse estas realidades teria de se reaproximar das bases laborais que diz representar e de retomar a ligação com as suas exigências próprias. A não fazer isto, ficar-se-á por aquilo que o autor tem vindo a designar, com piada e com acerto, a «coreografia» da «luta».
A este argumento conviria, talvez, juntar o texto igualmente estimulante que o «Farpas» escreveu, onde se mostra como certas «acções de luta», ao gosto das direcções sindicais, se esvaziam facilmente perante um universo laboral fragmentado e atomizado, no qual o velho proletariado da vulgata marxista-leninista cedeu o lugar a um «consumariado» individualista e hedonista.
O que temos a dizer sobre tudo isto? Em princípio, diríamos que, nos tempos que correm, uma coisa não deveria excluir a outra. Isto é: as lutas laborais à escala dos diferentes sectores profissionais não eliminam a necessidade de se construir um combate muito mais transversal, quando se sabe que o ataque aos direitos sociais e laborais é, de facto, global e transnacional. Afectando, de resto, grupos que só com dificuldade encontram expressão em sindicatos que foram historicamente formatados para representar trabalhadores com determinadas características. Hoje há todo um oceano de desempregados, de trabalhadores sujeitos às mais diversas formas de precariedade – contratos a prazo, recibos verdes, bolseiros de investigação sem direito a segurança social mas que são obrigados a trabalhar a custo zero em instituições do Ensino Superior, etc., etc. Nenhum destes casos encontra fácil abrigo no guarda-chuva sindical. E, no entanto, a sua mobilização e a necessidade de os articular com as lutas de trabalhadores em situação menos precária (e mais “sindicalizável”) seria absolutamente premente nos dias de hoje. Pois eles vão ser – já começam a ser – a grande massa do futuro próximo.
Mas o Paulo tem razão num ponto fundamental. De facto, não faz sentido esperar que os trabalhadores se mobilizem para acções «conjuntas» quando, na esfera laboral que lhes é próxima, os sindicatos se notabilizam pela cedência, pelo recuo, pela ambiguidade e, em última instância, pela traição do mandato que os trabalhadores neles depositam. E também não faz sentido esperar que estes últimos participem em “grandiosas” iniciativas de “unidade”, quando elas se resumem ao pacote mais rotineiro e, por isso, mais desajustado face à gravidade do momento presente: manifestações/procissões de rua, seguidas da inevitável missa com os oradores de sempre – os mesmos que se mantêm oligarquicamente agarrados às direcções sindicais como lapas; e greves gerais de um dia, realizadas uma vez por ano e, se possível, no mesmo dia do mês (os dirigentes sindicais devem achar que estas simetrias têm imenso simbolismo, vá-se lá saber porquê). Iniciativas que não deixam qualquer rasto, e que servem apenas para alimentar a alucinação colectiva de que se está a lutar “muito” e a boa consciência dos “lutadores” – os quais, esgotadas essas “jornadas”, regressam às pequenas misérias do seu quotidiano laboral sem que nada de substantivo tenha mudado.
Uma outra exigência se impõe. Mas, chegados a este ponto, temos de reconhecer vários becos sem saída:
– As direcções dos sindicatos e das centrais sindicais – de cujas orientações estamos dependentes – mostram-se mais empenhadas em proteger as rotinas que lhes assegurem a perpetuação nos cargos do que em arriscar um sindicalismo efectivamente combativo.
– Os trabalhadores, mesmo os que ainda vão participando nas tais lutas «coreografadas», acumularam um capital (justificado) de desconfiança em relação às direcções dos sindicatos que é, hoje, muito difícil de ultrapassar. Ainda que essas direcções se resolvessem a arrepiar caminho e a apontar para formas de resistência muito mais determinadas, as quais exigiriam (por exemplo) a constituição de fundos de greve.
– As lutas mais consequentes, e eventualmente mais eficazes, como as greves por tempo indeterminado, requerem um tempo de preparação e de maturação que não se compadece com a urgência que hoje nos afecta. E requerem a reconstrução da confiança nas direcções sindicais que também não se adquire de um dia para o outro.
Como sair daqui é a grande incógnita. Aquela que devia mobilizar as nossas meninges, sem preconceitos, sem ideias adquiridas, sem antolhos ideológicos.
Estamos abertos a sugestões (e fechados aos cães-de-fila que queiram arreganhar o dente sem o resquício de uma ideia na bagagem).
