Direito de Resposta
Exmos. Srs.
Usando do direito de resposta, gostaria de manifestar a minha preocupação, e manifesto desagrado, pelo tom populista e até provocador da vossa capa da semana passada. Diabolizar os professores e as suas importantes reivindicações, colocando-os no papel de carrascos que vitimam os alunos é, no mínimo, indigno e irresponsável. Sim, os alunos são vítimas, mas das políticas de vários governos que há anos têm delapidado a escola pública. E se vos seduz o discurso da vitimização, podem então acrescentar como vítimas os professores e os seus filhos. Assim como o futuro do ensino em Portugal, que está igualmente ameaçado.
É perfeitamente legítimo que os pais procurem apoio extra para os seus filhos, há anos que o fazem. Mas, se pretendem fazer um trabalho de jornalismo sério sobre a presente situação, tratem de saber quantos também o fazem porque há muitos professores por colocar ao longo do ano letivo, sendo cada vez mais difícil substituí-los. E procurem saber a que se deve esta situação, crescente de ano para ano. E façam também contas ao número de professores que vão deixar de o ser nos próximos anos, assim como ao número de professores recém-formados para os substituir. Interroguem-se, igualmente, sobre as consequências das políticas educativas de vários anos, que levam a que haja tão poucos jovens interessados em serem professores. Façam serviço público e reflitam, e levem a população a refletir, se esta profissão não deveria estar no topo das mais aliciantes, levando a que os bons alunos a procurassem, garantindo, assim, a formação de novos professores de qualidade, tão necessários para o futuro.
Um bom trabalho de jornalismo de pesquisa levaria a que os pais, e todos os cidadãos, compreendessem que, no futuro, o recurso a apoio extraescolar virá a ser crescentemente necessário e é precisamente contra esse futuro que os professores se insurgem. Porque cada golpe que é desferido contra os professores, enquanto classe profissional, é também desferido contra a Escola, pilar essencial na construção de um país evoluído.
Fátima Inácio Gomes
Professora de Português no Agrupamento de Escolas de Barcelos
