Lembrando a Pequena Notável no dia de seu aniversário. Carmen Miranda nasceu no dia de hoje, 9 de fevereiro, em 1909.
Embora tenha sido a artista brasileira de maior projeção internacional em todos os tempos, Carmen Miranda era portuguesa, nascida Maria do Carmo Miranda da Cunha na cidade de Marco de Canaveses, em 9 de fevereiro de 1909. Era a segunda filha do barbeiro José Maria Pinto da Cunha (1887 – 1938) e de sua esposa, Maria Emília Miranda (1886 – 1971). O casal já tinha uma filha, Olinda, nascida em 1907. A família mudou-se para o Brasil no ano seguinte ao nascimento de Carmen e se estabeleceu no Rio de Janeiro, abrindo uma barbearia na Rua da Misericórdia, número 70. Para ajudar na renda da família, a mãe de Carmen administrava uma pensão que servia refeições. Mais tarde a família mudou-se para a Rua Joaquim Silva, número 53, na Lapa. No Brasil, nasceram os outros quatro filhos do casal: Amaro, Cecília, Aurora e Óscar.
A menina ganhou o apelido de Carmen graças ao gosto que seu tio Amaro tinha por óperas. Ela estudou em uma escola de freiras e, aos 14 anos, teve seu primeiro emprego. Trabalhou em uma loja de gravatas e, depois, em uma chapelaria onde aprendeu a fazer chapéus – que se tornariam uma marca registrada ao longo de sua carreira – e começou a desenvolver seus talentos, cantando para atrair clientes, segundo o biógrafo de Carmen, Ruy Castro. Carmen já gostava de cantar e era elogiada por isso. Em 1928, foi apresentada ao músico Josué de Barros que trabalhava na Rádio Sociedade Professor Roquete Pinto, e por intermédio dele passou a se apresentar lá. No ano seguinte, fez a sua primeira gravação, o samba “Não Vá Sim’bora”, composição de Josué de Barros. Carmen Miranda foi apresentada ao diretor da gravadora RCA Victor, onde iniciou sua carreira gravando “Dona Balbina” e “Triste Jandaia”, seguidas pelas canções “Barucuntum” e “Iaiá Ioiô”.
Carmen Miranda com Dorival Caymmi e Assis Valente.
Carmen e Aurora Miranda (sentadas) no estúdio da rádio Mayrink Veiga, em 1932, com Manuel de Nóbrega (segundo em pé da esquerda para direita) e, segurando a flauta, Pixinguinha. Fonte: Wikipedia.
Em 1930, Carmen Miranda gravou a marcha-canção “Pra Você Gostar de Mim”, também chamada de “Taí”. O disco vendeu 35 mil cópias apenas no ano de lançamento — um recorde que fez com que a jovem cantora fosse aclamada como “a melhor do Brasil”. O sucesso no rádio a levou para o cinema. Em 1926, ela apareceu como figurante em “A Esposa do Solteiro”, e, quatro anos depois, assinou contrato para “Degraus da Vida”, que não chegou a ser rodado. Ela também apresentou um número musical em “O Carnaval Cantado no Rio” (1932), o primeiro documentário sonoro sobre o tema popular, e três músicas em “A Voz do Carnaval” (1933), que combinou imagens reais das celebrações do carnaval de rua no Rio com um enredo fictício, oferecendo infinitos pretextos para números musicais.
Seu filme seguinte, “Alô, Alô, Brasil” (1935), definiu o status de Carmen Miranda como a grande artista brasileira da época. Adhemar Gonzaga, o chefe dos estúdios Cinédia, ficou tão encantado com ela que selecionou o número de Carmen para “Primavera no Rio” para o encerramento do filme, substituindo o do cantor Francisco Alves, como havia sido planejado inicialmente. O sucesso do filme levou a Cinédia a contratar Carmen para um novo musical, “Estudantes” (1935), no qual interpretou Mimi, uma jovem cantora de rádio (que apresenta dois números no filme), que se apaixona por um estudante universitário interpretado pelo cantor Mário Reis. Hoje, o filme é considerado perdido.
Carmen Miranda e Barbosa Júnior em uma cena de Estudantes, de 1935.
Ela logo começou a ser chamada de “A Pequena Notável” – devido à sua estatura baixa -, apelido dado, na época, pelo radialista César Ladeira, e o musical “Alô, Alô, Carnaval” (1936) consagrou Carmen em definitivo. O filme contou com um elenco de estrelas da música popular, incluindo a irmã de Carmen, Aurora Miranda. Pelos padrões brasileiros da época, foi uma grande produção. O set reproduziu o interior do luxuoso Cassino Atlântico do Rio, onde algumas das cenas foram filmadas, e os cenários para determinados números musicais. Embora a versão original do filme tivesse dado a Francisco Alves o número final, foi o memorável desempenho de Carmen e Aurora em “Cantores de Rádio” que conquistou o público. Quando uma cópia restaurada do filme foi lançada em 1974, foi precisamente o seu número musical que foi escolhido para fechar o filme.
Carmen Miranda se tornou a primeira cantora a assinar um contrato com uma emissora de rádio, em uma época em que artistas da música recebiam por cachê, primeiro com a rádio Mayrink Veiga e depois com a rádio Tupi, se tornando a artista de rádio mais bem paga do país. Em 1939, Carmen apareceu pela primeira vez caracterizada de baiana, personagem que a lançou internacionalmente, no filme “Banana da Terra”, dirigido por Ruy Costa. O filme, o último feito por ela no Brasil, foi o primeiro a apresentar a versão mais icônica de Carmen Miranda: ela vestindo uma versão estilizada de um figurino que representava uma baiana tradicional. Carmen cantava clássicos nacionais como “Jardineira” e “O que é que a Baiana Tem?”, de Dorival Caymmi, e que ajudaram a estabelecer sua imagem junto ao público. Infelizmente, o filme se perdeu e apenas algumas cenas foram preservadas.
Carmen Miranda em uma cena de Banana da Terra, de 1939.
Cartaz original do musical da Broadway The Streets of Paris com participação de Carmen Miranda.
Carmen Miranda com Bud Abbott e Lou Costello em uma foto promocional.
Segundo vários estudiosos, teria sido Caymmi quem ajudou a moldar a persona artística de Carmen Miranda. Ele orientou a cantora até no gestual para o filme “Banana da Terra”, mas enquanto a música de Caymmi refletia uma certa melancolia e uma espiritualidade basicamente regionais, foi graças à Carmen que o universo idealizado pelo artista ganhou cor, exuberância e teatralidade, tornando-se um reflexo de um Brasil tropical, alegre e exagerado. Em 1939, o produtor Lee Shubert ofereceu a Carmen Miranda um contrato de oito semanas para se apresentar no musical da Broadway “The Streets of Paris”, depois de vê-la se apresentar no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro durante o qual ela cantou “O que é que a Baiana Tem?”, de Caymmi. Shubert era um magnata do entretenimento, dono da empresa que geria metade dos teatros da Broadway, mas Carmen só aceitou o contrato mediante a exigência de que o Bando da Lua a acompanhasse. Em 18 de maio de 1939, Carmen Miranda chegou a Nova York. Na noite seguinte, ela e o Bando da Lua fizeram sua primeira apresentação na Broadway.
A revista LIFE escreveu: “Perto do final do primeiro ato de ‘Streets of Paris’, uma jovem chamativa, vestindo uma roupa estranha de cores vivas, se contorce através das cortinas e começa a confundir o público já deslumbrado em um breve número de canções em português. Em parte porque sua melodia incomum e ritmos fortemente acentuados são diferentes de tudo o que já se ouviu em uma revista musical em Manhattan, e em parte porque não há nenhum significado, exceto os olhos insinuantes de Carmen Miranda, ela e suas músicas são o hit do show”. O show foi um sucesso e permaneceu em cartaz em Nova York por todo um semestre, totalizando 274 apresentações. Sendo depois levada para Pittsburgh, Filadélfia, Baltimore e Washington D.C., chegando a Chicago, Detroit e Cleveland. Em 5 de março de 1940, Carmen Miranda ela fez uma performance perante o presidente Franklin D. Roosevelt durante um banquete na Casa Branca.
Nos Estados Unidos, Carmen Miranda fez sucesso com suas vestes estilizadas e o arranjo de frutas sobre a cabeça. Os intelectuais brasileiros da época torceram o nariz. Para eles, aquilo era uma visão estereotipada e errônea do Brasil. A verdade é que Carmen Miranda foi uma das primeiras artistas a representar o Brasil no exterior de forma icônica, antes mesmo de Pelé ou da bossa nova, estabelecendo uma imagem alegre e exótica do país através da música e que acabou sendo preservada ao longo do tempo por meio do turismo e da publicidade que insistia em mostrar um Brasil imaginário tipo exportação e que permanece até hoje no inconsciente coletivo do público, mesmo daqueles que nunca assistiram a um filme estrelado por Carmen Miranda.
Se por um lado a fama e o sucesso de Carmen em Hollywood ajudou a promover a imagem do Brasil no exterior, também criou um estereótipo do país e que muitas vezes pesaria contra a própria artista. Autora de um estudo acadêmico sobre Carmen Miranda, a professora e pesquisadora Renata Couto acredita que paire um preconceito sobre a relevância de Carmen Miranda como artista. “Boa parte das pessoas faz um julgamento muito apressado sobre ela”, afirmou. “Parte disso, por ela ser mulher. A outra parte é pela figura que ficou consagrada da Carmen, que incorpora essa baiana estilizada, quase uma caricatura do que seria o Brasil.”
Carmen Miranda em fotos promocionais para Serenata Tropical, de 1940, que marcou sua estreia no cinema norte-americano.
A estreia de Carmen em Hollywood veio em 1940, estrelando a comédia musical da 20th Century Fox, “Serenata Tropical” (Down Argentine Way), ao lado de Don Ameche e uma novata chamada Betty Grable. O filme, no qual Carmen interpretou a si mesma, foi um grande sucesso e criou um tipo de musical hollywoodiano totalmente novo, que definiria em grande parte o avançado estilo da Fox durante a década seguinte. Com a Segunda Guerra Mundial, a chamada política de boa vizinhança entre os Estados Unidos e a América Latina, acabou favorecendo uma artista como Carmen Miranda, como parte do projeto geopolítico norte-americano de soft power que assim como a outros artistas estrangeiros, explorava não apenas o talento de Carmen mas sua imagem de garota latino-americana alegre e extrovertida para conter influências europeias e garantir apoio hemisférico. Ela se tornou, inconscientemente, uma embaixadora cultural informal.
Seu auge no cinema foi justamente durante os anos da Segunda Guerra Mundial, quando estrelou 8 de seus 14 filmes nos Estados Unidos. Além de “Serenata tropical”, seus filmes mais importantes (e todos grandes sucessos de crítica e de público) no período foram: “Uma Noite no Rio” (That Night in Rio, 1941), novamente com Don Ameche, “Aconteceu em Havana” (Week-End in Havana, 1941), “Minha Secretária Brasileira” (Springtime in the Rockies, 1942), que a reuniu com Betty Grable, e “Entre a Loira e a Morena” (The Gang’s All Here, 1943), dirigido pelo mestre dos musicais, Busby Berkeley. Os musicais de Berkeley eram famosos por seu espírito inovador e sua maestria com a câmera, e o papel de Carmen Miranda como Dorita caracterizou definitivamente sua carreira como “The Lady in the Tutti Frutti Hat” (título de uma das canções de Carmen no filme). Este foi o primeiro filme em cores dirigido por Berkeley, cujos números musicais extravagantes receberam elogios da crítica.
Carmen Miranda em uma foto publicitária para Uma Noite no Rio, de 1941.
Carmen Miranda, Don Ameche e Maria Montez em Uma Noite no Rio, de 1941.
Carmen Miranda em Aconteceu em Havana, de 1941.
Carmen Miranda com Betty Grable, Cesar Romero, Charlotte Greenwood, e John Payne em Minha Secretária Brasileira, de 1942.
Carmen Miranda com Phil Baker e Alice Faye em Entre a Loira e a Morena, de 1943.
Seus filmes seguintes na Fox não foram grandes sucessos. “Serenata Boêmia” (Greenwich Village, 1944), dirigido por Walter Lang, e que a reuniu mais uma vez com Don Ameche, já não mostrou a mesma química de antes, mesmo assim Carmen roubou a cena com seus números musicais “I’m Just Wild About Harry”, “I Like to Be Loved by You” e “Give Me a Band and a Bandana”. Em “Alegria, Rapazes!” (Something for the Boys, 1944), uma comédia baseada em um musical de sucesso da Broadway do ano anterior, com música e letras de Cole Porter, percebe-se principalmente o descaso do estúdio que selecionou um aparato de produção inferior aos filmes anteriores de Carmen. Mesmo assim, ela brilhou em seus números solos “Batuca Nêgo” e “Samba Boogie”.
Em 1945, Carmen Miranda era a mulher mais bem paga dos Estados Unidos, segundo o Departamento do Tesouro, ganhando mais de 200 mil dólares no ano. Curiosamente, as personagens interpretadas por ela nesses filmes não eram identificadas como brasileiras, mas sim latino-americanas, de modo genérico e indefinido. A essa altura Carmen já havia se instalado nos estados Unidos e frequentava as festas e eventos mais badalados aparecendo ao lado da elite de Hollywood da época. Como convinha a uma estrela, morava em Beverly Hills, na Califórnia.
Carmen Miranda em uma foto publicitária para Serenata Boêmia, de 1944.
Carmen Miranda, Vivian Blaine, Stephen Dunne e Dennis O’Keefe em Sonhos de Estrela, de 1945.
Sua carreira perdeu fôlego após a Segunda Guerra Mundial, com sua imagem exótica atraindo mais a atenção do que seus dons para a música e a atuação – uma visão estereotipada da cultura brasileira criada por Hollywood e rejeitada por puristas brasileiros com o qual ela precisou lutar pelo resto da carreira. A Fox também pareceu perder o interesse nela. Em vez de aparecer em luxuoso e vibrante Technicolor, Carmen foi vista em um monótono preto e branco em “Sonhos de Estrela” (Doll Face, 1945), no qual ela recebeu apenas o quarto faturamento e aparece em um único número musical, “Chico Chico (From Porto Rico)”, ao lado do Bando da Lua. O filme foi uma decepção nas bilheterias e seu filme seguinte, “Se Eu Fosse Feliz” (If I’m Lucky, 1946), também não fez sucesso. Seu contrato com a Fox já estava terminado quando o filme estreou com críticas negativas.
Carmen tentou dar um novo rumo à sua carreira no cinema como atriz freelancer, e aceitou estrelar ao lado de Groucho Marx a comédia da United Artists “Copacabana”, de 1947, no qual ela interpreta dois papéis distintos: o da loira Mademoiselle Fifi e o da cantora brasileira Carmen Navarro. Apesar do sucesso e das críticas favoráveis, Carmen continuava presa ao estereótipo pelo qual ela se notabilizou. Em “O Príncipe Encantado” (A Date With Judy, 1948), produção da Metro-Goldwyn-Mayer, Carmen aparece em várias cenas sem seus figurinos de baiana e com mais oportunidades de exibir seus talentos como atriz. O filme foi um dos maiores sucessos de bilheteria do ano, ajudando a manter o nome da artista em alta em Hollywood. O final da década marcou o retorno de Carmen aos shows, com a artista se apresentando em turnê nos Estados Unidos e Europa.
Carmen Miranda, Jane Powell, Xavier Cugat e Elizabeth Taylor em O Príncipe Encantado, de 1948.
Carmen Miranda em Romance Carioca, de 1950.
Carmen Miranda e Frank Fontaine em Romance Carioca, de 1950.
Ela retornou à Hollywood em 1950, mas o musical “Romance Carioca” (Nancy Goes to Rio), uma refilmagem de “It’s a Date” (1940), não fez o sucesso esperado, mesmo filmado em Technicolor e com um elenco encabeçado por Ann Sothern, Jane Powell, Barry Sullivan e Louis Calhern. Seu filme seguinte, a comédia da dupla Jerry Lewis & Dean Martin, “Morrendo de Medo” (Scared Stiff, 1953), marcou o fim da carreira de Carmen Miranda em Hollywood. Além de servir para uma imitação constrangedora de si mesma feita por Lewis, a maioria das cenas de Carmen no filme foram cortadas na sala de edição. Ela aparece ao lado de Lewis e Martin em dois números musicais pouco inspirados, “Bongo Bingo” e “Enchiladas”.
Foram 14 anos sem pisar no Brasil, para onde voltou, em férias, em dezembro de 1954. Carmen estava casada com David Alfred Sebastian, um empregado de estúdio que ela conheceu durante as filmagens de “Copacabana” (eles se casaram em 17 de março de 1947) mas estava enfrentando problemas conjugais com o marido, que era alcóolatra e a agredia, humilhava, gerenciava seus contratos e possivelmente foi o responsável por atirá-la ao alcoolismo. Durante uma consulta médica, ela foi diagnosticada como dependente química — desde seu início em Hollywood, Carmen abusava constantemente de barbitúricos para suportar a carga de trabalho extenuante — e seu médico decidiu submetê-la a um tratamento de desintoxicação de quatro meses em uma suíte do hotel Copacabana Palace. Ela voltou aos Estados Unidos somente em abril de 1955.
Carmen Miranda e David Sebastian, ao assinarem a certidão de casamento em Los Angeles, em 1947.
Carmen Miranda ainda faria uma turnê em Las Vegas e em Cuba e receberia uma proposta do canal CBS para ter um programa semanal na TV, “The Carmen Miranda Show”, que seria coestrelado por Dennis O’Keefe, em um formato semelhante ao de “I Love Lucy”. No dia 4 de agosto de 1955, ela gravou sua participação no programa de Jimmy Durante, na NBC, sendo esta a sua última aparição pública. Na manhã seguinte, Carmen Miranda foi encontrada morta no corredor de sua casa em Beverly Hills, vítima de um ataque cardíaco. Seu médico afirmou que a artista não tinha histórico de problemas cardíacos e que, além de uma breve bronquite nas últimas semanas, ela se encontrava em perfeita saúde.
Dos catorze filmes que Carmen Miranda fez nos Estados Unidos entre a década de 1940 e a década de 1950, nove deles foram somente na 20th Century Fox. A artista passou anos enfileirando um projeto atrás do outro. Foi uma fase de filmes que tinham um fio de enredo criado apenas como pretexto para encadear números musicais e explorar sua persona extremamente popular. Carmen Miranda ajudou a definir os anos 30 e 40 como nenhuma outra artista com sua incrível versatilidade, sua onipresença, seu gigantismo nos palcos ou diante das câmeras. A exuberância com que apresentava seus números musicais, sua voz inconfundível e sua presença cênica marcaram para sempre o mundo teatral, musical e cinematográfico.
Carmen Miranda e Groucho Marx em Copacabana, de 1947.
Carmen Miranda, Groucho Marx e Gloria Jean em Copacabana, de 1947.
Sua morte súbita em 5 de agosto de 1955, aos 46 anos, provocou uma comoção mundial. O anúncio de sua morte precipitou um Carnaval solene e fora de época no Rio de Janeiro que ela tanto amava. Nem bem a notícia chegou ao Brasil, todas as emissoras brasileiras passaram a tocar hits eternizados pela Pequena Notável: “Taí”, “Disseram que Voltei Americanizada”, e “O que é que a Baiana Tem?”, tão alegres e carnavalescas, mas que comunicavam a tristeza que permeava a nação. Quem contou a história foi o jornalista Ruy Castro em “Carmen – A Vida de Carmen Miranda, a brasileira mais famosa do século XX” (Companhia das Letras, 2005), a mais completa e detalhada biografia a respeito dessa mulher que, nascida em Portugal e alçada ao estrelato internacional nos Estados Unidos, onde viveu e morreu, e acabou se tornando o maior símbolo da cultura brasileira, a primeira e única Brazilian Bombshell.
Segundo desejo de Carmen, ela foi enterrada no Rio, no cemitério São João Batista. De acordo com “Carmen Miranda foi a Washington” (Record, 1999), escrito pela jornalista Ana Rita Mendonça, 12 igrejas do Rio celebraram missa de sétimo dia em memória da artista. O caixão chegou ao país apenas na semana seguinte e, na noite do dia 12 para o 13 de agosto, houve um velório aberto na Câmara dos Vereadores. “Alguns se chocaram com o fato de Carmen estar vestida de vermelho, penteada e maquiada; outros se encantaram com isso — em Hollywood, até a morte era em Technicolor!”, escreveu Castro.
“Por toda a noite de 12 para 13 de agosto, o Rio desfilou em silêncio diante de Carmen. E gente de outras cidades, usando todos os transportes disponíveis, veio se despedir dela”, continuou o jornalista: “Nem o frio da madrugada afugentou seus adoradores”. Membros da Velha Guarda, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e outros companheiros, tentaram tocar “Taí” para saudá-la pela última vez, postados nas escadarias da Câmara. Não conseguiram. “As gargantas se fechavam, o saxofone e a flauta não produziam som, a emoção era muita”, descreveu Castro. A marchinha acabou sendo entoada por um coro de mais de 50 mil vozes de populares que compareceram ao velório. Em dado momento, o cortejo rumo ao cemitério, em carro de bombeiros, foi seguido por um caminhão de som que tocava as músicas de Carmen. O último percurso da estrela, assim, foi como os fãs gostavam de vê-la: com música, muita música. O país inteiro queria se despedir da mais famosa artista brasileira de todos os tempos.
Carmen Miranda não teve filhos. Na década de 1930, manteve um relacionamento amoroso com o músico Aloysio de Oliveira, integrante do Bando da Lua, de quem chegou a engravidar, mas fez um aborto, pois estava no auge de sua carreira e não queria ter filhos no momento. Mais tarde, ela chegou a fazer diversos tratamentos até conseguir engravidar, mas sofreu um aborto espontâneo em 1948 que a deixou estéril. Isso agravou suas crises de depressão, levando-a a um uso excessivo e descontrolado de bebidas, cigarros, antidepressivos, ansiolíticos e calmantes. Ela teve romances com o ator mexicano Arturo de Córdova, os atores americanos John Payne e Dana Andrews, e com o produtor de cinema brasileiro Carlos Niemeyer, primo do arquiteto Oscar Niemeyer e criador do popular cinejornal Canal 100.
Entre suas conquistas mais importantes, Carmen Miranda foi a primeira artista latino-americana a ser convidada a imprimir suas mãos e pés no pátio do Grauman’s Chinese Theatre de Hollywood, em 1941. Ela também se tornou a primeira sul-americana a ser homenageada com uma estrela na Calçada da Fama. Em 20 anos de carreira Carmen deixou sua voz registrada em 279 gravações somente no Brasil e mais 34 nos EUA, em um total de 313 canções. Sua influência é notável até os dias de hoje, e ela foi uma das figuras inspiradoras do Tropicalismo dos anos 60.
Carmen Miranda imortalizando a marca de suas mãos e pés no Grauman’s Chinese Theatre, em 1941:
Fonte: Wikipedia, G1


















































































































































