Atrizes: Carmen Miranda

Lembrando a Pequena Notável no dia de seu aniversário. Carmen Miranda nasceu no dia de hoje, 9 de fevereiro, em 1909.

Embora tenha sido a artista brasileira de maior projeção internacional em todos os tempos, Carmen Miranda era portuguesa, nascida Maria do Carmo Miranda da Cunha na cidade de Marco de Canaveses, em 9 de fevereiro de 1909. Era a segunda filha do barbeiro José Maria Pinto da Cunha (1887 – 1938) e de sua esposa, Maria Emília Miranda (1886 – 1971). O casal já tinha uma filha, Olinda, nascida em 1907. A família mudou-se para o Brasil no ano seguinte ao nascimento de Carmen e se estabeleceu no Rio de Janeiro, abrindo uma barbearia na Rua da Misericórdia, número 70. Para ajudar na renda da família, a mãe de Carmen administrava uma pensão que servia refeições. Mais tarde a família mudou-se para a Rua Joaquim Silva, número 53, na Lapa. No Brasil, nasceram os outros quatro filhos do casal: Amaro, Cecília, Aurora e Óscar.

A menina ganhou o apelido de Carmen graças ao gosto que seu tio Amaro tinha por óperas. Ela estudou em uma escola de freiras e, aos 14 anos, teve seu primeiro emprego. Trabalhou em uma loja de gravatas e, depois, em uma chapelaria onde aprendeu a fazer chapéus – que se tornariam uma marca registrada ao longo de sua carreira – e começou a desenvolver seus talentos, cantando para atrair clientes, segundo o biógrafo de Carmen, Ruy Castro. Carmen já gostava de cantar e era elogiada por isso. Em 1928, foi apresentada ao músico Josué de Barros que trabalhava na Rádio Sociedade Professor Roquete Pinto, e por intermédio dele passou a se apresentar lá. No ano seguinte, fez a sua primeira gravação, o samba “Não Vá Sim’bora”, composição de Josué de Barros. Carmen Miranda foi apresentada ao diretor da gravadora RCA Victor, onde iniciou sua carreira gravando “Dona Balbina” e “Triste Jandaia”, seguidas pelas canções “Barucuntum” e “Iaiá Ioiô”.

Carmen Miranda com Dorival Caymmi e Assis Valente.

Carmen e Aurora Miranda (sentadas) no estúdio da rádio Mayrink Veiga, em 1932, com Manuel de Nóbrega (segundo em pé da esquerda para direita) e, segurando a flauta, Pixinguinha. Fonte: Wikipedia.

Em 1930, Carmen Miranda gravou a marcha-canção “Pra Você Gostar de Mim”, também chamada de “Taí”. O disco vendeu 35 mil cópias apenas no ano de lançamento — um recorde que fez com que a jovem cantora fosse aclamada como “a melhor do Brasil”. O sucesso no rádio a levou para o cinema. Em 1926, ela apareceu como figurante em “A Esposa do Solteiro”, e, quatro anos depois, assinou contrato para “Degraus da Vida”, que não chegou a ser rodado. Ela também apresentou um número musical em “O Carnaval Cantado no Rio” (1932), o primeiro documentário sonoro sobre o tema popular, e três músicas em “A Voz do Carnaval” (1933), que combinou imagens reais das celebrações do carnaval de rua no Rio com um enredo fictício, oferecendo infinitos pretextos para números musicais.

Seu filme seguinte, “Alô, Alô, Brasil” (1935), definiu o status de Carmen Miranda como a grande artista brasileira da época. Adhemar Gonzaga, o chefe dos estúdios Cinédia, ficou tão encantado com ela que selecionou o número de Carmen para “Primavera no Rio” para o encerramento do filme, substituindo o do cantor Francisco Alves, como havia sido planejado inicialmente. O sucesso do filme levou a Cinédia a contratar Carmen para um novo musical, “Estudantes” (1935), no qual interpretou Mimi, uma jovem cantora de rádio (que apresenta dois números no filme), que se apaixona por um estudante universitário interpretado pelo cantor Mário Reis. Hoje, o filme é considerado perdido.

Carmen Miranda e Barbosa Júnior em uma cena de Estudantes, de 1935.

Ela logo começou a ser chamada de “A Pequena Notável” – devido à sua estatura baixa -, apelido dado, na época, pelo radialista César Ladeira, e o musical “Alô, Alô, Carnaval” (1936) consagrou Carmen em definitivo. O filme contou com um elenco de estrelas da música popular, incluindo a irmã de Carmen, Aurora Miranda. Pelos padrões brasileiros da época, foi uma grande produção. O set reproduziu o interior do luxuoso Cassino Atlântico do Rio, onde algumas das cenas foram filmadas, e os cenários para determinados números musicais. Embora a versão original do filme tivesse dado a Francisco Alves o número final, foi o memorável desempenho de Carmen e Aurora em “Cantores de Rádio” que conquistou o público. Quando uma cópia restaurada do filme foi lançada em 1974, foi precisamente o seu número musical que foi escolhido para fechar o filme.

Carmen Miranda se tornou a primeira cantora a assinar um contrato com uma emissora de rádio, em uma época em que artistas da música recebiam por cachê, primeiro com a rádio Mayrink Veiga e depois com a rádio Tupi, se tornando a artista de rádio mais bem paga do país. Em 1939, Carmen apareceu pela primeira vez caracterizada de baiana, personagem que a lançou internacionalmente, no filme “Banana da Terra”, dirigido por Ruy Costa. O filme, o último feito por ela no Brasil, foi o primeiro a apresentar a versão mais icônica de Carmen Miranda: ela vestindo uma versão estilizada de um figurino que representava uma baiana tradicional. Carmen cantava clássicos nacionais como “Jardineira” e “O que é que a Baiana Tem?”, de Dorival Caymmi, e que ajudaram a estabelecer sua imagem junto ao público. Infelizmente, o filme se perdeu e apenas algumas cenas foram preservadas.

Carmen Miranda em uma cena de Banana da Terra, de 1939.

Cartaz original do musical da Broadway The Streets of Paris com participação de Carmen Miranda.

Carmen Miranda com Bud Abbott e Lou Costello em uma foto promocional.

Segundo vários estudiosos, teria sido Caymmi quem ajudou a moldar a persona artística de Carmen Miranda. Ele orientou a cantora até no gestual para o filme “Banana da Terra”, mas enquanto a música de Caymmi refletia uma certa melancolia e uma espiritualidade basicamente regionais, foi graças à Carmen que o universo idealizado pelo artista ganhou cor, exuberância e teatralidade, tornando-se um reflexo de um Brasil tropical, alegre e exagerado. Em 1939, o produtor Lee Shubert ofereceu a Carmen Miranda um contrato de oito semanas para se apresentar no musical da Broadway “The Streets of Paris”, depois de vê-la se apresentar no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro durante o qual ela cantou “O que é que a Baiana Tem?”, de Caymmi. Shubert era um magnata do entretenimento, dono da empresa que geria metade dos teatros da Broadway, mas Carmen só aceitou o contrato mediante a exigência de que o Bando da Lua a acompanhasse. Em 18 de maio de 1939, Carmen Miranda chegou a Nova York. Na noite seguinte, ela e o Bando da Lua fizeram sua primeira apresentação na Broadway.

A revista LIFE escreveu: “Perto do final do primeiro ato de ‘Streets of Paris’, uma jovem chamativa, vestindo uma roupa estranha de cores vivas, se contorce através das cortinas e começa a confundir o público já deslumbrado em um breve número de canções em português. Em parte porque sua melodia incomum e ritmos fortemente acentuados são diferentes de tudo o que já se ouviu em uma revista musical em Manhattan, e em parte porque não há nenhum significado, exceto os olhos insinuantes de Carmen Miranda, ela e suas músicas são o hit do show”. O show foi um sucesso e permaneceu em cartaz em Nova York por todo um semestre, totalizando 274 apresentações. Sendo depois levada para Pittsburgh, Filadélfia, Baltimore e Washington D.C., chegando a Chicago, Detroit e Cleveland. Em 5 de março de 1940, Carmen Miranda ela fez uma performance perante o presidente Franklin D. Roosevelt durante um banquete na Casa Branca.

Nos Estados Unidos, Carmen Miranda fez sucesso com suas vestes estilizadas e o arranjo de frutas sobre a cabeça. Os intelectuais brasileiros da época torceram o nariz. Para eles, aquilo era uma visão estereotipada e errônea do Brasil. A verdade é que Carmen Miranda foi uma das primeiras artistas a representar o Brasil no exterior de forma icônica, antes mesmo de Pelé ou da bossa nova, estabelecendo uma imagem alegre e exótica do país através da música e que acabou sendo preservada ao longo do tempo por meio do turismo e da publicidade que insistia em mostrar um Brasil imaginário tipo exportação e que permanece até hoje no inconsciente coletivo do público, mesmo daqueles que nunca assistiram a um filme estrelado por Carmen Miranda.

Se por um lado a fama  e o sucesso de Carmen em Hollywood ajudou a promover a imagem do Brasil no exterior, também criou um estereótipo do país e que muitas vezes pesaria contra a própria artista. Autora de um estudo acadêmico sobre Carmen Miranda, a professora e pesquisadora Renata Couto acredita que paire um preconceito sobre a relevância de Carmen Miranda como artista. “Boa parte das pessoas faz um julgamento muito apressado sobre ela”, afirmou. “Parte disso, por ela ser mulher. A outra parte é pela figura que ficou consagrada da Carmen, que incorpora essa baiana estilizada, quase uma caricatura do que seria o Brasil.”

Carmen Miranda em fotos promocionais para Serenata Tropical, de 1940, que marcou sua estreia no cinema norte-americano.

A estreia de Carmen em Hollywood veio em 1940, estrelando a comédia musical da 20th Century Fox, “Serenata Tropical” (Down Argentine Way), ao lado de Don Ameche e uma novata chamada Betty Grable. O filme, no qual Carmen interpretou a si mesma, foi um grande sucesso e criou um tipo de musical hollywoodiano totalmente novo, que definiria em grande parte o avançado estilo da Fox durante a década seguinte. Com a Segunda Guerra Mundial, a chamada política de boa vizinhança entre os Estados Unidos e a América Latina, acabou favorecendo uma artista como Carmen Miranda, como parte do projeto geopolítico norte-americano de soft power que assim como a outros artistas estrangeiros, explorava não apenas o talento de Carmen mas sua imagem de garota latino-americana alegre e extrovertida para conter influências europeias e garantir apoio hemisférico. Ela se tornou, inconscientemente, uma embaixadora cultural informal.

Seu auge no cinema foi justamente durante os anos da Segunda Guerra Mundial, quando estrelou 8 de seus 14 filmes nos Estados Unidos. Além de “Serenata tropical”, seus filmes mais importantes (e todos grandes sucessos de crítica e de público) no período foram: “Uma Noite no Rio” (That Night in Rio, 1941), novamente com Don Ameche, “Aconteceu em Havana” (Week-End in Havana, 1941), “Minha Secretária Brasileira” (Springtime in the Rockies, 1942), que a reuniu com Betty Grable, e “Entre a Loira e a Morena” (The Gang’s All Here, 1943), dirigido pelo mestre dos musicais, Busby Berkeley. Os musicais de Berkeley eram famosos por seu espírito inovador e sua maestria com a câmera, e o papel de Carmen Miranda como Dorita caracterizou definitivamente sua carreira como “The Lady in the Tutti Frutti Hat” (título de uma das canções de Carmen no filme). Este foi o primeiro filme em cores dirigido por Berkeley, cujos números musicais extravagantes receberam elogios da crítica.

Carmen Miranda em uma foto publicitária para Uma Noite no Rio, de 1941.

Carmen Miranda, Don Ameche e Maria Montez em Uma Noite no Rio, de 1941.

Carmen Miranda em Aconteceu em Havana, de 1941.

Carmen Miranda com Betty Grable, Cesar Romero, Charlotte Greenwood, e John Payne em Minha Secretária Brasileira, de 1942.

Carmen Miranda com Phil Baker e Alice Faye em Entre a Loira e a Morena, de 1943.

Seus filmes seguintes na Fox não foram grandes sucessos. “Serenata Boêmia” (Greenwich Village, 1944), dirigido por Walter Lang, e que a reuniu mais uma vez com Don Ameche, já não mostrou a mesma química de antes, mesmo assim Carmen roubou a cena com seus números musicais “I’m Just Wild About Harry”, “I Like to Be Loved by You” e “Give Me a Band and a Bandana”. Em “Alegria, Rapazes!” (Something for the Boys, 1944), uma comédia baseada em um musical de sucesso da Broadway do ano anterior, com música e letras de Cole Porter, percebe-se principalmente o descaso do estúdio que selecionou um aparato de produção inferior aos filmes anteriores de Carmen. Mesmo assim, ela brilhou em seus números solos “Batuca Nêgo” e “Samba Boogie”.

Em 1945, Carmen Miranda era a mulher mais bem paga dos Estados Unidos, segundo o Departamento do Tesouro, ganhando mais de 200 mil dólares no ano. Curiosamente, as personagens interpretadas por ela nesses filmes não eram identificadas como brasileiras, mas sim latino-americanas, de modo genérico e indefinido. A essa altura Carmen já havia se instalado nos estados Unidos e frequentava as festas e eventos mais badalados aparecendo ao lado da elite de Hollywood da época. Como convinha a uma estrela, morava em Beverly Hills, na Califórnia.

Carmen Miranda em uma foto publicitária para Serenata Boêmia, de 1944.

Carmen Miranda, Vivian Blaine, Stephen Dunne e Dennis O’Keefe em Sonhos de Estrela, de 1945.

Sua carreira perdeu fôlego após a Segunda Guerra Mundial, com sua imagem exótica atraindo mais a atenção do que seus dons para a música e a atuação – uma visão estereotipada da cultura brasileira criada por Hollywood e rejeitada por puristas brasileiros com o qual ela precisou lutar pelo resto da carreira. A Fox também pareceu perder o interesse nela. Em vez de aparecer em luxuoso e vibrante Technicolor, Carmen foi vista em um monótono preto e branco em “Sonhos de Estrela” (Doll Face, 1945), no qual ela recebeu apenas o quarto faturamento e aparece em um único número musical, “Chico Chico (From Porto Rico)”, ao lado do Bando da Lua. O filme foi uma decepção nas bilheterias e seu filme seguinte, “Se Eu Fosse Feliz” (If I’m Lucky, 1946), também não fez sucesso. Seu contrato com a Fox já estava terminado quando o filme estreou com críticas negativas.

Carmen tentou dar um novo rumo à sua carreira no cinema como atriz freelancer, e aceitou estrelar ao lado de Groucho Marx a comédia da United Artists “Copacabana”, de 1947, no qual ela interpreta dois papéis distintos: o da loira Mademoiselle Fifi e o da cantora brasileira Carmen Navarro. Apesar do sucesso e das críticas favoráveis, Carmen continuava presa ao estereótipo pelo qual ela se notabilizou. Em “O Príncipe Encantado” (A Date With Judy, 1948), produção da Metro-Goldwyn-Mayer, Carmen aparece em várias cenas sem seus figurinos de baiana e com mais oportunidades de exibir seus talentos como atriz. O filme foi um dos maiores sucessos de bilheteria do ano, ajudando a manter o nome da artista em alta em Hollywood. O final da década marcou o retorno de Carmen aos shows, com a artista se apresentando em turnê nos Estados Unidos e Europa.

Carmen Miranda, Jane Powell, Xavier Cugat e Elizabeth Taylor em O Príncipe Encantado, de 1948.

Carmen Miranda em Romance Carioca, de 1950.

Carmen Miranda e Frank Fontaine em Romance Carioca, de 1950.

Ela retornou à Hollywood em 1950, mas o musical “Romance Carioca” (Nancy Goes to Rio), uma refilmagem de “It’s a Date” (1940), não fez o sucesso esperado, mesmo filmado em Technicolor e com um elenco encabeçado por Ann Sothern, Jane Powell, Barry Sullivan e Louis Calhern. Seu filme seguinte, a comédia da dupla Jerry Lewis & Dean Martin, “Morrendo de Medo” (Scared Stiff, 1953), marcou o fim da carreira de Carmen Miranda em Hollywood. Além de servir para uma imitação constrangedora de si mesma feita por Lewis, a maioria das cenas de Carmen no filme foram cortadas na sala de edição. Ela aparece ao lado de Lewis e Martin em dois números musicais pouco inspirados, “Bongo Bingo” e “Enchiladas”.

Foram 14 anos sem pisar no Brasil, para onde voltou, em férias, em dezembro de 1954. Carmen estava casada com David Alfred Sebastian, um empregado de estúdio que ela conheceu durante as filmagens de “Copacabana” (eles se casaram em 17 de março de 1947) mas estava enfrentando problemas conjugais com o marido, que era alcóolatra e a agredia, humilhava, gerenciava seus contratos e possivelmente foi o responsável por atirá-la ao alcoolismo. Durante uma consulta médica, ela foi diagnosticada como dependente química — desde seu início em Hollywood, Carmen abusava constantemente de barbitúricos para suportar a carga de trabalho extenuante — e seu médico decidiu submetê-la a um tratamento de desintoxicação de quatro meses em uma suíte do hotel Copacabana Palace. Ela voltou aos Estados Unidos somente em abril de 1955.

Carmen Miranda e David Sebastian, ao assinarem a certidão de casamento em Los Angeles, em 1947.

Carmen Miranda ainda faria uma turnê em Las Vegas e em Cuba e receberia uma proposta do canal CBS para ter um programa semanal na TV, “The Carmen Miranda Show”, que seria coestrelado por Dennis O’Keefe, em um formato semelhante ao de “I Love Lucy”. No dia 4 de agosto de 1955, ela gravou sua participação no programa de Jimmy Durante, na NBC, sendo esta a sua última aparição pública. Na manhã seguinte, Carmen Miranda foi encontrada morta no corredor de sua casa em Beverly Hills, vítima de um ataque cardíaco. Seu médico afirmou que a artista não tinha histórico de problemas cardíacos e que, além de uma breve bronquite nas últimas semanas, ela se encontrava em perfeita saúde.

Dos catorze filmes que Carmen Miranda fez nos Estados Unidos entre a década de 1940 e a década de 1950, nove deles foram somente na 20th Century Fox. A artista passou anos enfileirando um projeto atrás do outro. Foi uma fase de filmes que tinham um fio de enredo criado apenas como pretexto para encadear números musicais e explorar sua persona extremamente popular. Carmen Miranda ajudou a definir os anos 30 e 40 como nenhuma outra artista com sua incrível versatilidade, sua onipresença, seu gigantismo nos palcos ou diante das câmeras. A exuberância com que apresentava seus números musicais, sua voz inconfundível e sua presença cênica marcaram para sempre o mundo teatral, musical e cinematográfico.

Carmen Miranda e Groucho Marx em Copacabana, de 1947.

Carmen Miranda, Groucho Marx e Gloria Jean em Copacabana, de 1947.

Sua morte súbita em 5 de agosto de 1955, aos 46 anos, provocou uma comoção mundial. O anúncio de sua morte precipitou um Carnaval solene e fora de época no Rio de Janeiro que ela tanto amava. Nem bem a notícia chegou ao Brasil, todas as emissoras brasileiras passaram a tocar hits eternizados pela Pequena Notável: “Taí”, “Disseram que Voltei Americanizada”, e “O que é que a Baiana Tem?”, tão alegres e carnavalescas, mas que comunicavam a tristeza que permeava a nação. Quem contou a história foi o jornalista Ruy Castro em “Carmen – A Vida de Carmen Miranda, a brasileira mais famosa do século XX” (Companhia das Letras, 2005), a mais completa e detalhada biografia a respeito dessa mulher que, nascida em Portugal e alçada ao estrelato internacional nos Estados Unidos, onde viveu e morreu, e acabou se tornando o maior símbolo da cultura brasileira, a primeira e única Brazilian Bombshell.

Segundo desejo de Carmen, ela foi enterrada no Rio, no cemitério São João Batista. De acordo com “Carmen Miranda foi a Washington” (Record, 1999), escrito pela jornalista Ana Rita Mendonça, 12 igrejas do Rio celebraram missa de sétimo dia em memória da artista. O caixão chegou ao país apenas na semana seguinte e, na noite do dia 12 para o 13 de agosto, houve um velório aberto na Câmara dos Vereadores. “Alguns se chocaram com o fato de Carmen estar vestida de vermelho, penteada e maquiada; outros se encantaram com isso — em Hollywood, até a morte era em Technicolor!”, escreveu Castro.

“Por toda a noite de 12 para 13 de agosto, o Rio desfilou em silêncio diante de Carmen. E gente de outras cidades, usando todos os transportes disponíveis, veio se despedir dela”, continuou o jornalista: “Nem o frio da madrugada afugentou seus adoradores”. Membros da Velha Guarda, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e outros companheiros, tentaram tocar “Taí” para saudá-la pela última vez, postados nas escadarias da Câmara. Não conseguiram. “As gargantas se fechavam, o saxofone e a flauta não produziam som, a emoção era muita”, descreveu Castro. A marchinha acabou sendo entoada por um coro de mais de 50 mil vozes de populares que compareceram ao velório. Em dado momento, o cortejo rumo ao cemitério, em carro de bombeiros, foi seguido por um caminhão de som que tocava as músicas de Carmen. O último percurso da estrela, assim, foi como os fãs gostavam de vê-la: com música, muita música. O país inteiro queria se despedir da mais famosa artista brasileira de todos os tempos.

Carmen Miranda não teve filhos. Na década de 1930, manteve um relacionamento amoroso com o músico Aloysio de Oliveira, integrante do Bando da Lua, de quem chegou a engravidar, mas fez um aborto, pois estava no auge de sua carreira e não queria ter filhos no momento. Mais tarde, ela chegou a fazer diversos tratamentos até conseguir engravidar, mas sofreu um aborto espontâneo em 1948 que a deixou estéril. Isso agravou suas crises de depressão, levando-a a um uso excessivo e descontrolado de bebidas, cigarros, antidepressivos, ansiolíticos e calmantes. Ela teve romances com o ator mexicano Arturo de Córdova, os atores americanos John Payne e Dana Andrews, e com o produtor de cinema brasileiro Carlos Niemeyer, primo do arquiteto Oscar Niemeyer e criador do popular cinejornal Canal 100.

Entre suas conquistas mais importantes, Carmen Miranda foi a primeira artista latino-americana a ser convidada a imprimir suas mãos e pés no pátio do Grauman’s Chinese Theatre de Hollywood, em 1941. Ela também se tornou a primeira sul-americana a ser homenageada com uma estrela na Calçada da Fama. Em 20 anos de carreira Carmen deixou sua voz registrada em 279 gravações somente no Brasil e mais 34 nos EUA, em um total de 313 canções. Sua influência é notável até os dias de hoje, e ela foi uma das figuras inspiradoras do Tropicalismo dos anos 60.

Carmen Miranda imortalizando a marca de suas mãos e pés no Grauman’s Chinese Theatre, em 1941:

Fonte: Wikipedia, G1

Atrizes: Ida Lupino


Nascida no dia de hoje, 4 de fevereiro, em 1918, Ida Lupino é mais conhecida como uma figura pioneira no mundo das cineastas. Ela foi atriz, diretora, escritora e produtora. Ao longo de sua carreira de 48 anos, atuou em 59 filmes e dirigiu oito, trabalhando principalmente nos Estados Unidos, onde se tornou cidadã em 1948. Ela é amplamente considerada a cineasta feminina mais proeminente atuante na década de 1950 durante o sistema de estúdios de Hollywood. Ida Lupino também dirigiu mais de 100 episódios de programas de televisão em diversos gêneros.

Embora fosse bastante requisitada durante a década de 1940, Ida Lupino nunca se tornou uma grande estrela, apesar de frequentemente ter o primeiro nome nos créditos de seus filmes, a frente de atores como Paul Henreid e Humphrey Bogart, e de ter sido repetidamente elogiada pela crítica por seu estilo de atuação realista e direto. Com sua produtora independente, ela escreveu e produziu vários filmes com mensagens sociais e se tornou a primeira mulher a dirigir um filme noir, “O Mundo Odeia-me”, em 1953.

Sua curta, porém imensamente influente carreira como diretora, abordando temas de mulheres presas por convenções sociais, geralmente sob uma roupagem melodramática ou dramas noir, é um exemplo pioneiro do feminismo no cinema. O Assim Era Hollywood faz uma pequena homenagem a essa atriz e pioneira da Sétima Arte que influenciou muitas atrizes e contribuiu imensamente para que mais mulheres seguissem carreiras de sucesso também atrás das câmeras.

Herança familiar

Nascida em uma família britânica ligada ao teatro em 4 de fevereiro de 1918, no antigo condado de Middlesex, nos arredores de Londres, Ida Lupino foi incentivada a entrar no mundo do entretenimento tanto por seus pais, a atriz Connie O’Shea (também conhecida como Connie Emerald) e o comediante de music hall Stanley Lupino, quanto por seu tio, o cineasta e gerente de teatro Lupino Lane. Seu pai construiu um teatro ao ar livre para Ida e sua irmã Rita (1921–2016), que também se tornou atriz e dançarina. Ida escreveu sua primeira peça aos sete anos e fez turnês com uma companhia de teatro itinerante quando criança.

Ida Lupino, aos 15 anos, 1933.

Aos dez anos, Ida Lupino já havia memorizado os principais papéis femininos das peças de Shakespeare. Após sua formação na infância para peças teatrais, o tio de Ida, Lupino Lane, a ajudou a dar o passo em direção à atuação no cinema, conseguindo para ela um trabalho como figurante no British International Studios. Ela queria ser escritora, mas para agradar ao pai, matriculou-se na Real Academia de Arte Dramática. Em 1931, Ida fez sua estreia no cinema na comédia britânica “The Love Race”, dirigida por seu tio Lupino. No ano seguinte, aos 14 anos, trabalhou com o diretor Allan Dwan em “Her First Affaire”, em um papel para o qual sua mãe havia feito um teste anteriormente.

Em pouco tempo, Ida Lupino descobriu que não gostava de ser atriz e passou a se sentir desconfortável com muitos dos primeiros papéis que lhe eram dados, geralmente escalada para viver garotas más ou prostitutas. Ela sentia que foi pressionada a entrar na profissão devido ao seu histórico familiar e isso se refletiu em seus primeiros trabalhos em frente às câmeras. “Meu pai me disse uma vez: ‘Você nasceu para ser má’, e era verdade. Fiz oito filmes na Inglaterra antes de vir para a América, e interpretei uma vagabunda ou uma prostituta em todos eles”, comentou a atriz. Apelidada de “a Jean Harlowinglesa”, ela foi descoberta pela Paramount no filme “Money for Speed”​​(1933), interpretando um papel duplo de mocinha e vilã.

Ida Lupino com Ronald Collman em A Luz Que Se Apaga, de 1939, o filme que lançou sua carreira como atriz dramática.

Quando chegou a Hollywood, os produtores da Paramount não sabiam o que fazer com sua sensual protagonista em potencial e a princípio a submeteram a um teste para o papel principal em “Alice no País das Maravilhas” (1933). Ela não ficou com o papel mas conseguiu um contrato de cinco anos para atuar em papéis menores até 1939. Nesse período Ida estrelou mais de uma dúzia de filmes, e foi emprestada para atuar em filmes de outros estúdios, um dos quais foi o drama de época da Paramount Pictures, “A Luz Que Se Apaga” (The Light That Failed, 1939), dirigido por William Wellman e baseado na novela de Rudyard Kipling, em um papel que ela conseguiu depois de invadir o escritório do diretor sem avisar, exigindo uma audição. O astro do filme, Ronald Colman, queria Vivien Leigh, mas Ida, cujo sotaque cockney rouba o filme, surpreendeu a todos com sua atuação, dando início à sua carreira de atriz dramática.

Mark Hellinger, produtor associado da Warner Bros., ficou impressionado com a atuação de Ida no filme e a contratou para o papel da femme fatale Lana Carlsen no drama noir “Dentro da Noite” (They Drive by Night, 1940), dirigido por Raoul Walsh, contracenando com George Raft, Ann Sheridan e Humphrey Bogart. O filme foi muito bem-sucedido e a crítica concordou que mais uma vez Ida Lupino roubou a cena, particularmente em sua cena no tribunal. A Warner Bros. ofereceu-lhe um contrato que ela negociou para incluir o direito de trabalhar como freelancer para outros estúdios. Ela trabalhou novamente com o diretor Walsh e o astro Bogart em “Seu Último Refúgio” (High Sierra, 1941), e novamente foi bastante elogiada pela crítica.

 

 

Ida Lupino em sua famosa cena no tribunal e com Ann Sheridan e George Raft em Dentro da Noite, de 1940.

Ida Lupino finalmente passou a ser levada a sério como atriz dramática e seus papéis melhoraram. Ida frequentemente se autodenominava “uma Bette Davis dos pobres” ao aceitar os papéis que a própria Davis rejeitava. Ela foi escalada ao lado de Paul Henreid para o drama de guerra “Viveremos Outra Vez” (Our Time, 1944), dirigido por Vincent Sherman, onde viveu uma turista inglesa que se casa com um conde polonês pouco antes da invasão da Polônia pelos nazistas em 1939.Ela também estrelou “Que Falta Faz um Marido” (Pillow to Post, 1945), dirigido por Vincent Sherman, que foi seu único papel principal em uma comédia. Baseado na peça “Pillar to Post”, de Rose Simon Kohn, o filme conta a história de uma vendedora viajante que arma uma farsa com um soldado para dormirem como marido e mulher em um hotel exclusivo para casais casados durante a escassez de moradias na Segunda Guerra Mundial, mas ao longo de muitas confusões, acaba se apaixonando por ele.

Ida Lupino frequentemente irritava os executivos da Warner Bros. ao recusar papéis que considerava mal escritos ou inferiores à sua capacidade como atriz e fazendo revisões de roteiro consideradas inaceitáveis ​​pelo estúdio. Em represália, foi suspensa pelo estúdio tantas vezes que a maior parte de seu contrato na Warner ela passou sob suspensão. Em 1941, ela recusou um papel importante em “Em Cada Coração um Pecado” (Kings Row, 1942), mesmo com a insistência do diretor Sam Wood para que ela fosse escalada como Cassandra Tower (papel cobiçado pela estrela do estúdio Bette Davis), dizendo que ela “tinha algo natural que Cassie deveria ter”. Ida também recusou o principal papel feminino no drama “Pés Inquietos” (Juke Girl, 1942), que acabou com Ann Sheridan, por considerá-lo inferior à sua capacidade artística. Como resultado, foi novamente suspensa pelo estúdio.

 

Ida Lupino com Humphrey Bogart e o diretor Raoul Walsh no set de Seu Último Refúgio, de 1941.

Ida Lupino e Paul Henreid em uma cena do drama de guerra “Viveremos Outra Vez”, de 1944.

Apesar da rebeldia da atriz e satisfeita com sua atuação em “Dentro da Noite”, a Warner escalou Ida Lupino para estrelar o drama noir, “Seu Último Refúgio” (High Sierra, 1941), onde ela repetiu as parcerias com o diretor Raoul Walsh e Humphrey Bogart, tendo seu nome nos cartazes a frente do nome de Bogart, que ainda era um ator em ascensão, um ano antes de ele atuar em “Casablanca”. O roteiro foi coescrito por John Huston, amigo e companheiro de bebida de Bogart, adaptado do romance de William R. Burnett, e não só promoveu a passagem de Huston de roteirista para diretor, como consolidou a fama de Bogart como anti-herói e consagrou Ida Lupino como uma das maiores femmes fatales do cinema noir.

O estúdio escalou Ida Lupino para estrelar o musical dramático com toques de “Nasce Uma Estrela” e baseado na vida real da estrela Ginger Rogers com seu primeiro marido Jack Pepper (com quem ela se casou em 1928 aos 17 anos) e sua mãe Lela, “É Difícil Ser Feliz” (The Hard Way, 1943). Dirigido por Vicente Sherman, traz Ida no papel de Helen Chernen, uma mulher ambiciosa que manipula a vida de sua irmã mais nova e talentosa (interpretada por Joan Leslie) para escapar da pobreza.

Ida Lupino e Joan Leslie em “É Difícil Ser feliz”, de 1943.

Como parte do esforço de guerra promovido por Hollywood, os trabalhos seguintes de Ida Lupino foram em filmes colaborativos destinados a arrecadação de fundos de guerra, entre eles o drama de guerra com elenco multiestelar e sete diretores, “Forever and a Day” (1943), e a comédia musical “Thank Your Lucky Stars” (1943) estrelada por Joan Leslie e Eddie Cantor, no qual Ida Lupino e outras estrelas como Bette Davis, Olivia de Havilland, Humphrey Bogart e muitos outros tem pequenas participações como eles mesmos. O último desses filmes com participação de Lupino foi a comédia romântica “Um Sonho em Hollywood” (Hollywood Canteen, 1944), estrelada por Joan Leslie e Dane Clark. Superando as expectativas, o filme fez grande sucesso, ganhou três indicações ao Oscar e 40% do lucro obtido nas bilheterias foi doado pela Warner Bros. para a verdadeira Cantina de Hollywood que oferecia apoio aos soldados em campanha no exterior.

Foi durante uma de suas suspensões, que Ida passou a aproveitar seus períodos de inatividade para estudar os processos por trás das câmeras e aprender sobre as técnicas de filmagem observando o trabalho nos bastidores. “É muito mais divertido. Criar você mesmo, não apenas desfilar na frente de uma câmera”, declarou a atriz. Após o término das filmagens do drama “O Vale do Destino” (Deep Valley, 1947), dirigido por Jean Negulesco, Ida Lupino deixou a Warner Bros. depois de recusar um contrato exclusivo de quatro anos. Baseado no romance de mesmo nome de Dan Totheroh, o filme trazia Ida como uma jovem infeliz que vive isolada em uma fazenda com seus pais até o dia em que se apaixona por um fugitivo da prisão e ambos planejam fugir juntos.

 

Ida Lupino com Fay Bainter e Henry Hull, e com Dane Clark. no drama romântico O Vale do Destino, de 1947.

Um ano depois, ela apareceu para a 20th Century Fox como cantora de boate no drama noir “A Taverna do Caminho” (Road House, 1948) interpretando seus próprios números musicais no filme. No mesmo ano em que se tornou cidadã norte-americana, Ida Lupino  e seu então marido, o produtor e roteirista Collier Young, formaram uma empresa independente, a The Filmakers Inc., para “produzir, dirigir e escrever filmes de baixo orçamento com foco em questões sociais”, com Ida Lupino como vice-presidente, Collier Young como presidente e o roteirista Malvin Wald como tesoureiro.  A Filmakers produziu 12 longas-metragens, seis dos quais Lupino dirigiu ou codirigiu, cinco dos quais ela escreveu ou coescreveu, três dos quais ela atuou e um dos quais ela coproduziu.

Pioneirismo

Ao que tudo indica, o primeiro trabalho de Ida Lupino como diretora surgiu quando o diretor do filme “Mãe Solteira” (Not Wanted, 1949), Elmer Clifton, sofreu um ataque cardíaco que o levaria à morte três dias após o início das filmagens. Ida assumiu a direção do filme do qual era uma das roteiristas e produtoras e recusou os créditos em respeito a Clifton. O filme é sobre uma jovem (Sally Forrest) que engravida e enfrenta o ostracismo social, explorando temas de gravidez na adolescência. O drama “Quem Ama não Teme” (Never Fear, 1949), um filme sobre poliomielite, doença que a própria Lupino contraiu aos 16 anos, foi seu primeiro trabalho creditado como diretora.

Ida Lupino com o produtor Howard Hughes em Palm Springs, California.

A experiência com a poliomielite deu à Ida Lupino a coragem necessária para se concentrar em suas habilidades intelectuais em vez de simplesmente em sua aparência física, como declarou diversas vezes: “Percebi que minha vida, minha coragem e minhas esperanças não estavam no meu corpo. Se esse corpo estivesse paralisado, meu cérebro ainda poderia trabalhar diligentemente… Se eu não fosse capaz de atuar, eu seria capaz de escrever. Mesmo que eu não fosse capaz de usar um lápis ou uma máquina de escrever, eu poderia ditar”. Ao longo da vida, ela trabalhou para várias organizações sem fins lucrativos para arrecadar fundos para pesquisas sobre poliomielite.

Howard Hughes estava procurando fornecedores de filmes de baixo orçamento e assinou um contrato para financiar e distribuir os três próximos filmes da The Filmakers através da RKO Pictures, recém-adquirida por ele, dando à The Filmakers controle total sobre o conteúdo e a produção dos filmes. Em 1950, Ida dirigiu o drama noir “O Mundo É o Culpado” (Outrage), e coescreveu o roteiro com os produtores Malvin Wald e Collier Young, abordando o tema então controverso do estupro. O filme inicialmente recebeu críticas mistas, notável por ser apenas o segundo filme na Hollywood pós-Código Hays a abordar a questão do estupro, depois de “Johnny Belinda”, de 1948. Posteriormente, ganhou reavaliação e foi incluído no Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos por ser “culturalmente, historicamente ou esteticamente significativo”.

Ida Lupino no set do faroeste “The Only Man in Town”, que ela dirigiu para a série semanal da CBS, “Hote De Paree”, e exibido em 27 de novembro de 1959.

Ida Lupino repetiu o tema polêmico em “O Bígamo” (The Bigamist, 1953), dirigindo e também atuando no filme ao lado de Joan Fontaine e Edmond O’Brien. É considerado o primeiro longa-metragem americano da era do cinema sonoro em que a protagonista feminina dirigiu a si mesma. O enredo explora de forma irreverente aspectos da própria vida privada de Lupino, como o fato de seu ex-marido, o coprodutor e roteirista Collier Young, ser casado com a estrela Joan Fontaine, além de uma gravidez extraconjugal com o ator Howard Duff. Quando as duas protagonistas trocam olhares no tribunal, ambas sabiam o que significava ser casada com o mesmo homem na vida real — uma piada interna que não passou despercebida em Hollywood. Por conta do tema  polêmico, A RKO acabou desistindo do filme, forçando a Filmmakers a bancar a sua produção e distribuição. Ida Lupino recebeu elogios da crítica do The New York Times como “a melhor oferta de cineastas até o momento” e o filme foi incluído no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. 

Em seguida, Ida estrelou o drama noir “Cinzas que Queimam” (On Dangerous Ground, 1951) como Mary Malden, a jovem cega que protege o irmão acusado de assassinato e que se torna o interesse amoroso do truculento policial interpretado por Robert Ryan, e pode ter assumido algumas das tarefas de direção do filme enquanto o diretor Nicholas Ray esteve doente. Em 1953, ela foi a primeira mulher a dirigir um filme noir, “O Mundo Odeia-me” (The Hitch-Hiker), uma produção da RKO que ela escreveu junto com seu ex-marido Collier Young. O filme foi selecionado em 1998 para preservação no Registo Nacional de Filmes dos Estados Unidos por ser “culturalmente, historicamente ou esteticamente significativo”. Sobre a mudança de ofício, Ida Lupino declarou: “Eu havia decidido que nada me aguardava além da vida de uma estrela de filmes neurótica, sem família e sem lar”. Ela se referia a si mesma como uma “mãe” no set de filmagem. O encosto de sua cadeira de diretora tinha a inscrição Mother of Us All (“Mãe de Todos Nós”).

Ida Lupino dirigindo um dos episódios da série de TV Os Intocáveis (The Untouchables) em 1963.

Lupino em ação no set de filmagens:

 

 

 

 

Embora a direção tenha se tornado a paixão de Ida Lupino, ela continuou atuando em outros filmes mais para ganhar dinheiro suficiente para fazer suas próprias produções. Ela se tornou uma cineasta astuta de baixo orçamento, reutilizando cenários de outras produções do estúdio e chegando até mesmo a convencer seu médico particular a aparecer como médico na cena do parto de “Mãe Solteira“. Ela usou o que hoje é chamado de product placement, colocando produtos de marcas famosas dentro de seus filmes. Ida Lupino também era extremamente atenta às considerações orçamentárias, planejando cenas na pré-produção para evitar erros técnicos e refilmagens, e filmando em locais públicos para evitar custos de aluguel de cenários. Ela brincava que, se ela havia sido a “Bette Davis dos pobres” como atriz, agora havia se tornado o “Don Siegel dos pobres” como diretora.

A produtora Filmakers encerrou suas atividades em 1955, mas ao longo da década, Ida Lupino permaneceu uma das poucas diretoras em Hollywood e foi apenas a segunda mulher a ser admitida no Sindicato dos Diretores. Ida continuou atuando, dirigindo e escrevendo filmes e programas de televisão ao longo das décadas de 1950, 60 e 70, com destaque para “The Donna Reed Show”, “The Untouchables”, “77 Sunset Strip”, “Bonanza”, “The Ghost and Mrs. Muir”, “The Riflemen”, “Gilligan’s Island”, “The Virginian”, “Alfred Hitchcock Presents”, “The Twilight Zone”, “The Fugitive” e “Bewitched”.

Ida Lupino como a vilã Dra. Cassandra Spellcraft em um episódio da série de TV dos anos 60, Batman.

Em 1965, Ida Lupino dirigiu a comédia sobre uma colegial católica, “Anjos Rebeldes” (The Trouble With Angels), lançada em 1966, estrelada por Hayley Mills e Rosalind Russell, que foi o seu último filme como diretora. Ela continuou atuando, seguindo para uma carreira de sucesso na televisão ao longo das décadas de 1960 e 1970, participando de vários filmes e programas de TV. Ida Lupino se aposentou do mundo do entretenimento em 1978. Seus interesses fora da indústria do entretenimento incluíam escrever contos e livros infantis, e compor música. Sua composição “Aladdin’s Suite” foi apresentada pela Orquestra Filarmônica de Los Angeles em 1937. Ela a compôs enquanto se recuperava da poliomielite em 1935.

Ida Lupino era extremamente reservada, casou-se e divorciou-se três vezes. O primeiro casamento foi com o ator Louis Hayward em novembro de 1938 e permaneceu casada com ele até o divórcio em maio de 1945. Seu segundo casamento foi com o roteirista e produtor Collier Young em 5 de agosto de 1948. Eles se divorciaram em 1951 quando ela já estava grávida do amante, o ator Howard Duff, com quem se casou em 21 de outubro de 1951. Sua filha Bridget nasceu em 1952. Em 1984, ela e Duff finalmente assinaram o divórcio depois de viverem separados desde 1966.

 

Enquanto lutava contra um câncer de cólon, Ida Lupino sofreu um derrame e faleceu em 3 de agosto de 1995, aos 77 anos. Seu livro de memórias “Ida Lupino: Beyond the Camera” recebeu lançamento póstumo. Ida tem duas estrelas na Calçada da Fama de Hollywood por suas contribuições para a televisão e o cinema, localizadas nos números 1724 da Vine Street e 6821 da Hollywood Boulevard.

Galeria de Imagens (40 Fotos)

Audrey Hepburn: De bailarina à espiã durante a Segunda Guerra Mundial

Audrey Hepburn em 1953.

Quando adolescente, crescendo na Holanda, a atriz vencedora do Oscar corajosamente levou mensagens para a resistência holandesa durante a ocupação nazista.

No podcast History’s Youngest Heroes (“Os Heróis Mais Jovens da História”) da BBC Radio 4, Nicola Coughlan lança luz sobre histórias extraordinárias de rebelião, risco e o poder radical da juventude, contando histórias de jovens que ao longo da história mudaram o mundo.

Um dos episódios focou em Audrey Hepburn, que se tornou um ícone do cinema e da moda nas décadas de 1950 e 1960. Ela foi indicada a cinco Oscars e ganhou o prêmio de melhor atriz em 1953 por sua atuação em “A Princesa e o Plebeu” (Roman Holiday). No entanto, na adolescência, durante a Segunda Guerra Mundial, ela desempenhou um papel muito diferente: encenar apresentações secretas de balé para servir como mensageira e arrecadar fundos para a resistência holandesa à ocupação nazista.

Audrey Hepburn com sua mãe Ella van Heemstra em 1946. A Atriz disse mais tarde que nunca perdoou sua mãe por suas simpatias nazifascistas.

Infância traumática

Audrey Hepburn nasceu em Bruxelas, em 4 de maio de 1929, filha de uma baronesa holandesa, Ella van Heemstra, e de um empresário britânico-austríaco, Joseph Hepburn-Ruston. Em Londres, seus pais se sentiram atraídos por Oswald Mosley, líder da violenta e antissemita União Britânica de Fascistas (BUF). Van Heemstra conheceu Hitler e escreveu um artigo sobre o que ela via como as glórias da Alemanha nazista. Em 1935, Hepburn-Ruston abandonou a família quando Hepburn tinha seis anos, o que causou-lhe um trauma permanente. Mais tarde, ele seria preso como “associado de fascistas estrangeiros” e passaria a guerra em uma prisão britânica. Nos anos 60, já uma atriz famosa, Audrey reencontrou o pai e, embora permanecessem afastados, o sustentou até o fim da vida.

“Mesmo quando pequena, ela era extrovertida, ria, brincava, atuava. Meu avô a chamava de ‘quebra-cabeça de macaco’”, disse Luca Dotti, o filho mais novo da atriz, fruto do relacionamento dela com o psiquiatra Andrea Dotti, nascido em 8 de fevereiro de 1970, a Robert Matzen, autor de Dutch Girl, que narra a vida de Audrey Hepburn durante a Segunda Guerra Mundial, em uma entrevista para o History’s Youngest Heroes. “A mãe de Audrey decidiu que a Inglaterra em geral e Kent em particular não eram lugar para Audrey por causa da ameaça iminente de que os alemães invadiriam a França e depois a Inglaterra”, diz Matzen.

Van Heemstra tirou a filha do internato britânico. Mudaram-se para uma propriedade da família em Arnhem, na Holanda, e Audrey matriculou-se em uma escola de dança, com um nome que soava mais holandês, Adriaantje van Heemstra. Mais tarde, ela mudaria o sobrenome para Hepburn quando começou a atuar. Sua mãe ainda admirava Adolf Hitler e acreditava que ele jamais invadiria seu país. “Mudar-se para a Holanda não foi como voltar para casa. Audrey não falava holandês. Teve que frequentar uma escola holandesa sem entender uma única palavra, com crianças novas que zombavam dela”, diz Dotti sobre a experiência de sua mãe na Holanda.

Audrey Hepburn, na Holanda, por volta de 1942.

Hitler invadiu e ocupou a Holanda em maio de 1940. “A Frente Oriental era uma fornalha na qual não era possível despejar recursos com rapidez suficiente. Os alemães precisavam de comida e roupas para as tropas, e tudo isso foi tirado dos holandeses e dos outros países ocupados”, diz Matzen sobre a situação.

O tio de Audrey, o Conde Otto van Limburg Stirum, era casado com Miesje, a irmã mais velha de Ella, e assumiu uma posição de liderança contra os nazistas. Em 1942, um grupo da resistência tentou explodir um trem alemão perto de Roterdã. Embora van Limburg Stirum não estivesse envolvido, ele foi preso por ser uma figura antinazista proeminente. Agentes nazistas o levaram, junto com outras quatro pessoas, para a floresta, atiraram neles e jogaram seus corpos em covas sem identificação. Audrey amava seu tio como a um pai substituto e ficou devastada com seu assassinato. “Tornou-se um incidente nacional, um ponto de incitação para o povo holandês”, diz Matzen.

Após a morte de seu tio, Audrey, Ella e Miesje deixaram Arnhem para morar com seu avô, o Barão Aarnoud van Heemstra, na cidade vizinha de Velp. Esses eventos familiares foram o ponto de virada na atitude da mãe de Audrey, que até então era simpatizante do nazismo. O meio-irmão de Audrey, Ian, foi deportado para Berlim para trabalhar em um campo de trabalho alemão, e seu outro meio-irmão, Alex, entrou na clandestinidade para evitar o mesmo destino.

“Se soubéssemos que seríamos ocupados por cinco anos, talvez tivéssemos nos suicidado. Pensávamos que poderia acabar na semana seguinte… em seis meses… no ano seguinte… foi assim que sobrevivemos.” – Audrey Hepburn

Além de todos esses eventos traumáticos, Audrey testemunhou o transporte de judeus holandeses para campos de concentração, afirmando mais tarde:

“Mais de uma vez eu estava na estação vendo trens lotados de judeus sendo transportados, vendo todos aqueles rostos por cima do vagão. Lembro-me, muito nitidamente, de um menino pequeno em pé com seus pais na plataforma, muito pálido, muito loiro, usando um casaco que era muito grande para ele, e ele entrou no trem. Eu era uma criança observando outra criança.”

Embora sua família fosse privilegiada, os nazistas desviaram alimentos e recursos da Holanda, e a família Van Heemstra passou fome. Quando Audrey completou 15 anos, foi obrigada a se filiar à Kulturkammer nazista, o sindicato dos artistas, ou a desistir de dançar em público. Ela optou por desistir de se apresentar. “Através da dança, ela podia sonhar, voar, esquecer. Era a maneira de escapar da realidade”, diz Dotti sobre a paixão de sua mãe.

Audrey dançava em um local seguro, com as persianas fechadas e apenas uma vela para iluminá-la, para que não fosse descoberta. Um piano tocava suavemente enquanto ela se apresentava – mas não podia haver aplausos. Ao final do espetáculo, arrecadava-se dinheiro para a resistência.

Audrey Hepburn fotografada em Londres ao lado de sua mãe, a Baronesa Ella van Heemstra, em 1949.

De bailarina a espiã

Na primavera de 1944, Audrey Hepburn se ofereceu como assistente voluntária de um médico – Hendrik Visser ‘t Hooft – que era membro da resistência e usava o hospital em Velp como centro das atividades da resistência holandesa. Embora a mãe de Audrey fosse amplamente vista como colaboradora dos nazistas, Visser ‘t Hooft precisava desesperadamente de ajuda para sustentar milhares de pessoas que se escondiam dos nazistas. Ele confiava em Audrey o suficiente para aceitá-la.

“Vimos jovens serem colocados contra a parede e fuzilados, e eles fechavam a rua e depois a abriam, e você podia passar novamente… Não desconsidere nada de horrível que você ouça ou leia sobre os nazistas. É pior do que você pode imaginar.” – Audrey Hepburn

Em 17 de setembro de 1944, Audrey estava na igreja quando o hino foi interrompido pelo zumbido de motores. A Operação Market Garden, um plano das Forças Aliadas para tomar nove pontes sobre o Rio Reno, havia começado – e quando ela correu para fora e olhou para cima, milhares de soldados aliados estavam descendo de paraquedas.

Infelizmente, duas divisões nazistas fortemente blindadas estavam se reagrupando na área. Tanques nazistas avançaram em frente à casa dos Van Heemstra. Hepburn e sua família se esconderam no porão enquanto a batalha durou por nove dias. Quando saíram, ouviram a notícia de que os nazistas haviam vencido. Ela ouviu gritos vindos de um prédio onde os nazistas realizavam represálias: torturavam e matavam membros da resistência holandesa. Segundo Audrey, sua família escondeu temporariamente um paraquedista britânico em sua casa durante a Batalha de Arnhem.

Quando os aviadores aliados que se dirigiam à Alemanha tiveram que fazer um pouso de emergência na Holanda, Visser ‘t Hooft enviou Audrey à floresta para encontrar um paraquedista britânico com palavras-código e uma mensagem secreta escondida em sua meia. Ela foi ao encontro, mas, ao sair da floresta, viu a polícia holandesa se aproximando. Ela se abaixou para colher flores silvestres e, em seguida, as apresentou, de forma sedutora, aos policiais. Eles ficaram encantados e não a interrogaram. Depois disso, ela passou a levar mensagens para a resistência.

“Ela acreditava muito que há uma luta entre o bem e o mal e que é preciso tomar partido” – Luca Dotti

“Os alemães não levavam as crianças a sério. ‘Sai da minha frente, garoto’. Sabe, esse tipo de coisa. Os holandeses eram práticos o suficiente para ver que as crianças, por não serem suspeitas de nada, poderiam ser as responsáveis ​​por transmitir as mensagens, por fazerem essas coisas vitais para a resistência, e as crianças adoravam. Era emocionante, era perigoso, e elas se tornavam heroínas da resistência”, acrescenta Matzen.

Audrey Hepburn recebe o Oscar de melhor atriz por seu papel em “A Princesa e o Plebeu” usando um vestido feito por seu amigo Givenchy, 1954.

Em fevereiro de 1945, havia relatos de que semanalmente 500 holandeses morriam de fome. Como tantos outros, Audrey Hepburn e sua família sofriam de uma escassez desesperada de alimentos. Foi nessa época, aos 15 anos, que adquiriu o vício do cigarro. Ela fumava para se acalmar e para enganar a fome. Houve períodos em sua vida em que ela chegou a fumar três carteiras por dia. Sua mãe aprendeu a fazer farinha a partir de bulbos de tulipas para assar bolos e biscoitos e Audrey se alimentava de gramíneas e endívia e costumava beber bastante água para ter a impressão que a barriga estava cheia. Ao final da guerra Audrey pesava 39 quilos.

“A liberdade tem um cheiro especial para mim – o cheiro de gasolina britânica e dos cigarros britânicos. Quando corri para receber os soldados, invejei seus vapores de gasolina como se fossem um perfume inestimável e exigi um cigarro, mesmo que me fizesse engasgar.” – Audrey Hepburn

Com a luta feroz acontecendo novamente do lado de fora da porta da frente, Audrey e sua família se esconderam no porão por três semanas. Finalmente, em 16 de abril de 1945, tudo ficou em silêncio. Ela sentiu cheiro de tabaco, algo impossível de encontrar na Holanda durante a guerra. Subiu as escadas do porão e abriu a porta para ver cinco soldados canadenses fumando cigarros e apontando metralhadoras para ela. Imediatamente, começou a falar com eles em inglês. Um deles gritou: “Não só libertamos uma cidade – libertamos uma garota inglesa!”

Audrey Hepburn, vestindo um tailleur desenhado por Hubert de Givenchy, assina um livro de autógrafos para duas meninas no set de filmagem de Sabrina, em outubro de 1953.

Sofrendo com os efeitos da desnutrição, após o fim da guerra, Audrey ficou gravemente doente com icterícia, anemia, edema e uma infecção respiratória. Em outubro de 1945, uma carta de Ella pedindo ajuda foi recebida por Micky Burn, um ex-amante e oficial do Exército Britânico com quem ela havia se correspondido enquanto ele era prisioneiro de guerra no Castelo de Colditz. Ele enviou de volta milhares de cigarros, que Ella conseguiu vender no mercado negro e assim comprar a penicilina que salvou a vida da filha. 

Mais tarde, Audrey disse ao filho que nunca perdoou a mãe por suas simpatias nazifascistas. Quando a guerra acabou, ela ganhou uma bolsa de estudos para o Ballet Rambert, em Londres. Embora talentosa, sua constituição física foi permanentemente prejudicada pela desnutrição, e ela não tinha energia para se tornar bailarina. Em vez disso, ela se voltou para a atuação, com pequenos papéis no teatro do West End e em filmes produzidos na Inglaterra como “O Mistério da Torre” (The Lavender Hill Mob, 1951).

Audrey Hepburn em Hanói, em 1990, em sua função de embaixadora da boa vontade da UNICEF – ela dedicou seus últimos anos ao trabalho beneficente.

“Os instintos de Audrey foram aguçados ao extremo pela guerra e por tudo que ela passou, e ela tinha tanta experiência que conseguiu se colocar no lugar desses vários personagens”, diz Matzen.

Em 1953, depois de conquistar fama e prestígio como atriz de teatro, Audrey conquistou seu primeiro papel principal no cinema em “A Princesa e o Plebeu”. O filme foi um enorme sucesso de crítica e público e, além do Oscar de Melhor Atriz, ela ganharia também os prêmios Emmy, Grammy e Tony ao longo da carreira. A partir dos anos 60, Audrey passou a fazer longas pausas entre seus trabalhos como atriz para dedicar mais tempo à família. Em seus últimos anos, ela continuou atuando e se dedicando à caridade, notadamente como embaixadora da boa vontade da UNICEF. Audrey Hepburn faleceu vítima de câncer, em 20 de janeiro de 1993, aos 63 anos.

Fonte: BBC, Wikipedia | Imagens adicionais: Acervo do Blog

Falecimentos: Brigitte Bardot (91)

A atriz francesa Brigitte Bardot, que se tornou um dos maiores ícones do cinema surgidos da Nouvelle Vague, faleceu em 28 de dezembro, aos 91 anos.

Nascida em Paris, França, em 28 de setembro de 1934, Brigitte Bardot estudou balé no Conservatório de Paris e, aos 15 anos, já trabalhava como modelo e estampava capas de revistas como a Elle. Ela estrelou como a problemática, porém encantadora, colegial no musical “Naughty Girl” antes de alcançar maior fama como protagonista do filme “E Deus Criou a Mulher”, a estreia na direção de Roger Vadim, seu futuro marido. Bardot logo se tornou um dos maiores símbolos sexuais das décadas de 1950 e 1960, devido à sua tendência de interpretar personagens sensuais e sexualmente promíscuas, incluindo papéis em “O Desprezo” (1963) e “Masculino-Feminino” (1966), de Jean-Luc Godard, dois dos filmes mais aclamados da Nouvelle Vague.

Ela anunciou sua aposentadoria em 1973 e, a partir de então, ficou conhecida como uma ferrenha ativista dos direitos dos animais através da Fundação Brigitte Bardot, criada em 1986. Ela também se tornou uma figura controversa em seus últimos anos, devido às suas críticas ao movimento MeToo, sua postura antifeminista e o apoio a políticos de extrema direita como Marine Le Pen. Suas falas sobre imigração, islamismo e homossexualidade levaram a uma série de condenações por incitação ao ódio racial.

Brigitte Bardot, 1960

O adeus a um ícone do cinema

Prestando homenagem a Bardot no domingo, o presidente francês, Emmanuel Macron, escreveu nas redes sociais que a França estava de luto por “uma lenda do século”.

“Seus filmes, sua voz, seu brilho deslumbrante… suas tristezas, sua generosa paixão pelos animais, seu rosto que se tornou Marianne, Brigitte Bardot personificou uma vida de liberdade”, disse Macron.

A morte de Bardot, em sua casa em Saint-Tropez, La Madrague, na Riviera Francesa, foi anunciada por sua fundação. “A Fundação Brigitte Bardot anuncia com imensa tristeza o falecimento de sua fundadora e presidente, Madame Brigitte Bardot, atriz e cantora de renome mundial, que optou por abandonar sua prestigiosa carreira para dedicar sua vida e energia ao bem-estar animal e à sua fundação”, dizia o comunicado. A causa da morte não foi divulgada. Bardot foi brevemente hospitalizada em outubro para o que seu gabinete chamou de procedimento “menor”.

A prefeitura de Saint-Tropez, onde Bardot passava férias na infância e onde mais tarde filmou “E Deus Criou a Mulher”, afirmou que a atriz “ajudou a fazer com que Saint-Tropez brilhasse no mundo todo”. A cidade afirmou que Bardot era sua “embaixadora mais radiante” e parte da “memória coletiva de Saint-Tropez, que devemos preservar”.

Brigitte Bardot aos 18 anos. Foto Walter Carone para a revista Paris Match, 1952.

Bardot alcançou fama internacional em 1956 com o filme “E Deus Criou a Mulher”, escrito e dirigido por Roger Vadim, e pelas duas décadas seguintes foi considerada a personificação do arquétipo da “gatinha sexy”. No início dos anos 1970, no entanto, ela anunciou sua aposentadoria da atuação e tornou-se uma defensora ferrenha dos direitos dos animais, além de se envolver cada vez mais na política de extrema direita.

Os comentários incendiários de Bardot sobre minorias étnicas, imigração, islamismo e homossexualidade resultaram em uma série de condenações por incitação ao ódio racial. Tribunais franceses a multaram seis vezes entre 1997 e 2008 por seus comentários, particularmente aqueles direcionados à comunidade muçulmana da França. Em um dos casos, um tribunal de Paris a multou em 15.000 euros por descrever os muçulmanos como “essa população que está nos destruindo, destruindo nosso país com seus atos”.

Jordan Bardella, presidente do partido de extrema-direita Reunião Nacional (RN) de Marine Le Pen, apoiado por Bardot, escreveu: “Brigitte Bardot era uma mulher de coração, convicção e caráter. Uma patriota fervorosa, dedicada aos animais que protegeu ao longo de toda a sua vida, ela personificou toda uma era francesa, mas também, acima de tudo, uma certa ideia de coragem e liberdade.”

Brigitte Bardot em Paris, 1962. Foto: André Sas

Le Pen, a quem Bardot certa vez descreveu como “a Joana d’Arc do século XXI”, escreveu nas redes sociais que Bardot era “excepcional por seu talento, coragem, franqueza e beleza”. “Ela era incrivelmente francesa”, disse. “Livre, indomável, completa. Sentiremos muito a sua falta.”

Tal era o papel de Bardot no panteão cultural da extrema-direita que ela também recebeu homenagens do governo italiano, onde o vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini, a chamou de “uma estrela atemporal, mas acima de tudo uma mulher livre, inconformista, protagonista de batalhas corajosas em defesa de nossas tradições”.

O ministro da Cultura italiano, Alessandro Giuli, afirmou: “Brigitte Bardot não foi apenas uma das grandes protagonistas do cinema mundial, mas também uma extraordinária intérprete das liberdades fundamentais ocidentais”. Ele acrescentou que ela “defendeu resolutamente sua visão de valores culturais e sociais e de engajamento cívico”.

Brigitte Bardot em 2007. Foto: Eric Feferberg.

Filmes e Ativismo

Brigitte Anne-Marie Bardot nasceu em 28 de setembro de 1934, em Paris, e  cresceu em uma família católica conservadora e próspera. Seu pai Louis Bardot era um engenheiro e dono de várias indústrias, e sua mãe Anne-Marie Mucel, era filha de um diretor de uma companhia de seguros. Ela tinha uma irmã mais nova, Mijanou Bardot. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando Paris estava ocupada pela Alemanha nazista, Bardot passava a maior parte do tempo trancada no apartamento de sete quartos da família ouvindo discos e dançando. Sua mãe viu um potencial artístico e investiu em aulas de dança em um estúdio local.

Em 1949, a jovem Brigitte Bardot se destacou o suficiente como bailarina para ser admitida no prestigiado Conservatório de Paris. Ao mesmo tempo, começou a trabalhar como modelo, aparecendo na capa da revista Elle em 1950, com apenas 15 anos. Como resultado de seu trabalho como modelo, recebeu propostas para papéis no cinema, o primeiro deles em “Les Lauriers sont coupés”, do diretor Marc Allégret, apesar da oposição de seus pais. Na audição, ela conheceu Roger Vadim, e embora ela não tenha conseguido o papel, eles se apaixonaram. Seus pais eram contra o romance e decidiram mandar a filha para um internato em Londres. Desesperada, Bardot reagiu colocando a cabeça em um forno com fogo aberto, mas seus pais a impediram e finalmente aceitaram o relacionamento, com a condição de que ela se casasse com Vadim quando completasse 18 anos.

Após mais um tempo trabalhando como modelo, aos 17 anos, Bardot foi escalada para seu primeiro papel no cinema, na comédia “Le Trou normand” (1952), dirigido por Jean Boyer e pelo qual ela recebeu 200.000 francos (cerca de US$ 575 em 1952) pelo pequeno papel interpretando uma prima da personagem principal. Seu segundo papel no cinema foi como a protagonista de “Manina, la fille sans voiles” (1952). Após mais alguns trabalhos, incluindo um pequeno papel em “Mais Forte que a Morte” (Act of Love, 1953), um filme norte-americano filmado em Paris, dirigido por Anatole Litvak e estrelado por Kirk Douglas, Bardot ganhou destaque ao participar do Festival de Cannes em abril de 1953.

Brigitte Bardot no começo dos anos 50.

Ela passou a colecionar vários papéis de destaque e o protagonismo em filmes como o drama histórico italiano “Tradita” (1954) e o drama francês “Futures vedettes”, escrito e dirigido por  Marc Allégret, mas foi como o interesse amoroso de Dirk Bogarde na comédia “A Noiva do Comandante” (Doctor at Sea, 1955), que Bardot interpretou seu primeiro papel importante em inglês, um campeão de bilheteria no Reino Unido. Para o épico italiano “Mio figlio Nerone” (1956), Bardot, que era morena, foi solicitada pelo diretor a aparecer como loira. Ela tingiu o cabelo em vez de usar uma peruca e ficou tão satisfeita com o resultado que decidiu manter a cor. Seus filmes seguintes em 1956 a transformaram em uma estrela internacional: o musical “Garota Levada” (Cette sacrée gamine), dirigido por Michel Boisrond e coescrito por Roger Vadim, e a primeira vez que Bardot apareceu ao lado de Alain Delon; e as comédias “Desfolhando a Margarida” (En effeuillant la marguerite), dirigida por Marc Allégret, e “Brotinho do Outro Mundo” (La mariée est trop belle), com Louis Jourdan.

Mas foi o filme “E Deus Criou a Mulher” (Et Dieu… créa la femme, 1956), que marcou a estreia de Roger Vadim na direção, no qual Bardot interpretou uma adolescente imoral e desinibida em Saint-Tropez, contracenando com Jean-Louis Trintignant e Curt Jurgens, que consolidou sua imagem de “gatinha sexy” e a transformou em um ícone internacional. O filme foi um enorme sucesso na França, catapultando Bardot para a vanguarda das atrizes francesas. Nos Estados Unidos foi o filme estrangeiro de maior bilheteria de todos os tempos, arrecadando US$ 4 milhões, mesmo tendo sido proibido em alguns estados e alguns gerentes de cinema chegaram a ser presos apenas por exibi-lo.

Os filmes seguintes foram geralmente grandes sucessos de público: a comédia dramática com Charles Boyer “Uma Parisiense” (Une parisienne, 1957), o drama policial com Jean Gabin “Amar é Minha Profissão” (En cas de malheur, 1958), e os dramas “A Mulher e o Fantoche” (La femme et le pantin, 1959), dirigido por Julien Duvivier, e “Quer Dançar Comigo?” (Voulez-vous danser avec moi ?, 1959), dirigido por Michel Boisrond. O melodrama “The Night Heaven Fell” (Les Bijoutiers du clair de lune, 1958) a reuniu com o diretor Vadim (de quem ela se divorciou em 1957), mas o filme de maior sucesso de Bardot no período foi a comédia da Segunda Guerra Mundial “Babette Vai à Guerra” (Babette s’en va-t-en guerre, 1959). Em 1960, ela estrelou o drama de tribunal “A Verdade” (La Vérité), dirigido por  Henri-Georges Clouzot, mas os bastidores das filmagens chamaram mais a atenção quando ficou público o caso que a atriz teve com seu colega de elenco Sami Frey, o que resultou no término de seu casamento com o segundo marido, Jacques Charrier, e uma tentativa de suicídio de Bardot cortando o pulso.

Brigitte Bardot fotografada por Philippe Halsman, 1951.

Brigitte Bardot em A Noiva do Comandante, de 1955.

Brigitte Bardot em Brotinho do Outro Mundo, de 1956.

Brigitte Bardot em 1958.

Além de ser uma inspiração para o público do cinema, Bardot rapidamente se tornou uma referência para intelectuais e artistas, principalmente para os jovens John Lennon e Paul McCartney, que exigiam que suas namoradas da época pintassem o cabelo de loiro em imitação a ela. O colunista Raymond Cartier escreveu um longo artigo sobre “o caso Bardot” na revista Paris-Match em 1958, enquanto Simone de Beauvoir publicou seu famoso ensaio “Brigitte Bardot e a Síndrome de Lolita” em 1959, retratando a atriz como a mulher mais liberal da França. Em 1969, Bardot foi escolhida como a primeira modelo da vida real para Marianne, o símbolo da República Francesa.

Além de “A Verdade”, que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, no início da década de 1960, Bardot participou de uma série de filmes franceses de grande destaque, incluindo “Vida Privada” (Vie privée, 1962), de Louis Malle, ao lado de Marcello Mastroianni, “O Desprezo” (Le Mépris, 1963), de Jean-Luc Godard, e “As Malícias do Amor” (Une ravissante idiote, 1964), de Édouard Molinaro, com Anthony Perkins. Na segunda metade da década, Bardot aceitou diversas propostas para atuar em Hollywood, entre elas Minha Querida Brigitte” (Dear Brigitte, 1965), seu primeiro filme americano, uma comédia estrelada por James Stewart como um acadêmico cujo filho se apaixona por Bardot, que tem um breve papel no filme. Mais bem-sucedido foi “Viva Maria!” (1965), uma comédia de época ambientada no México com Jeanne Moreau que se tornou muito popular na França. Seu filme seguinte não ajudou sua carreira em Hollywood, o faroeste “Shalako” (1968), dirigido por Edward Dmytryk, em que atuou ao lado de Sean Connery, um fracasso de bilheteria.

Bardot também teve uma carreira musical paralela à de atriz, e participou de vários shows musicais e gravou muitas canções populares nas décadas de 1960 e 1970, principalmente em colaboração com Serge Gainsbourg, Bob Zagury e Sacha Distel, entre elas a gravação original de “Je T’Aime… Moi Non Plus”, de Gainsbourg, que ele havia escrito especialmente para ela enquanto mantinham um caso extraconjugal. Com medo de escândalo após seu então marido, Gunter Sachs, descobrir, Bardot pediu a Gainsbourg que não lançasse a música. Ele a regravou com Jane Birkin, obtendo enorme sucesso comercial. A versão com Bardot foi lançada somente em 1986.

Brigitte Bardot com seu dachshund em St. Tropez, 1962.

Brigitte Bardot com Anthony Perkins em As Malícias do Amor, 1964.

Brigitte Bardot no set de Viva Maria, em 1965. Foto Ralph Crane.

Brigitte Bardot com Sean Connery em uma foto promocional para Shalako, de 1968.

O filme seguinte de Bardot, “As Mulheres” (Les Femmes, 1969), foi um fracasso, embora a comédia maluca “O Urso e a Boneca” (L’Ours et la Poupée, 1970) tenha tido melhor desempenho. Seus últimos filmes foram, em sua maioria, comédias: “As Noviças” (Les Novices, 1970), “Boulevard do Rum” (Boulevard du Rhum, 1971) com Lino Ventura, e o faroeste cômico “As Petroleiras” (Les Pétroleuses, 1971), uma produção conjunta entre França, Itália, Espanha e Reino Unido que se tornou muito popular, impulsionado pela participação de Bardot ao lado de Claudia Cardinale. Bardot fez mais um filme com Vadim, “Don Juan, ou Se Don Juan Fosse uma Mulher” (Don Juan ou si don Juan était une femme, 1973), no qual interpretou o papel principal. O diretor usou o filme para desconstruir o mito de Bardot que ele mesmo havia ajudado a criar com “E Deus Criou a Mulher”. Durante as filmagens, a atriz comentou: “Se ‘Don Juan’ não for meu último filme, será o penúltimo.”

Bardot achava a pressão da fama cada vez mais incômoda, e declarou ao The Guardian em 1996: “A loucura que me cercava sempre me pareceu irreal. Eu nunca estive realmente preparada para a vida de uma estrela”. Ela cumpriu a promessa e após “Don Juan” fez apenas mais um filme: a comédia de época “A Edificante e Alegre História de Colinot” (L’histoire très bonne et très joyeuse de Colinot Trousse-Chemise), de 1973. Brigitte Bardot se aposentou da atuação naquele mesmo ano, aos 39 anos. Seu foco principal passou a ser o ativismo em prol dos animais, se tornou vegetariana e participou de protestos contra a caça às focas em 1977. Ela fez leilão de joias e pertences pessoais para arrecadar fundos para criar a Fundação Brigitte Bardot para o bem-estar e a proteção dos animais em 1986.

Posteriormente, Bardot enviou cartas de protesto a líderes mundiais sobre questões como o extermínio de cães na Romênia, a matança de golfinhos nas Ilhas Faroé, o abate de gatos na Austrália, e o consumo de carne de cavalo na Europa e na Ásia pelo qual recebeu inclusive ameaças de morte em 1994. Ela também expressava regularmente opiniões contundentes sobre o abate de animais por motivos religiosos. Em seu livro de 2003, “Um Grito de Silêncio” (Un Cri dans le Silence), ela defendeu políticas de direita e criticou gays e lésbicas, professores e a chamada “islamização da sociedade francesa”, resultando em seis condenações por incitar o ódio racial.

Brigitte Bardot foi casada por quatro vezes: com Roger Vadim, entre 1952 e 1957; com Jacques Charrier, entre 1959 e 1962, com quem teve um filho, Nicolas, nascido em 1960; com Gunter Sachs, de 1966 a 1969; e com o ex-conselheiro de Jean-Marie Le Pen, Bernard d’Ormale, com quem se casou em 1992. Ela também teve vários relacionamentos de grande repercussão, incluindo Jean-Louis Trintignant e Serge Gainsbourg.

Bardot do lado de fora do tribunal em Edimburgo, em 1998, comemorando o indulto de Woofie, o cachorro que seria sacrificado por perseguir um carteiro. Foto: Murdo MacLeod/The Guardian.

Fonte: The Guardian, Wikipedia | Fotos adicionais: Acervo do Blog

Galeria de Imagens: 40 Fotos

Aniversariante do Dia: Humphrey Bogart

Humphrey Bogart, 1946. Foto de Yousuf Karsh.

Humphrey DeForest Bogart nasceu no dia de Natal de 1899, em Nova York. As atuações de Bogart, ou “Bogie” como os amigos o chamavam, no cinema clássico de Hollywood o transformaram em um ícone cultural americano. Em 1999, o American Film Institute o elegeu o maior astro masculino do cinema clássico americano.

Bogart começou a atuar em peças da Broadway. Estreou no cinema em The Dancing Town (1928) e, durante mais de uma década, atuou em papéis secundários, interpretando regularmente gângsteres. Foi elogiado por sua atuação como Duke Mantee na adaptação para as telas da peça dramática “A Floresta Petrificada” (The Petrified Forest, 1936), repetindo seu papel dos palcos graças ao astro do filme Leslie Howard, que também atuou na peça e insistiu que o estúdio contratasse Bogart. O ator também recebeu críticas positivas por sua interpretação do gângster Hugh “Baby Face” Martin em “Beco Sem Saída” (Dead End, 1937), de William Wyler, e do escroque James Frazier em “Anjos de Cara Suja” (Angels With Dirty Faces, 1939), de Michael Curtiz, dois papéis secundários mas que ajudaram Bogart a se firmar como um dos atores mais proeminentes da sua época.

Humphrey Bogart aos 4 meses de vida fotografado com a mãe Maud, em 1900.

Humphrey Bogart, James Cagney e George Bancroft em Anjos de Cara Suja, de 1939.

Humphrey Bogart em uma foto publicitária para Seu Último Refúgio, de 1941.

Mary Astor, Humphrey Bogart e Jerome Cowan em Relíquia Macabra, de 1941.

Sua grande oportunidade surgiu com o drama noir “Seu Último Refúgio” (High Sierra, 1941), de Raoul Walsh, e ele ascendeu ao estrelato como protagonista em “Relíquia Macabra” (The Maltese Falcon, 1941), de John Huston, considerado um dos primeiros grandes filmes noir. Os detetives particulares interpretados por Bogart, Sam Spade em “Relíquia Macabra” e Philip Marlowe em “À Beira do Abismo” (The Big Sleep, 1946), de Howard Hawks, tornaram-se modelos para detetives em outros filmes noir da época e até os dias de hoje. Ele interpretou um herói de guerra em outro filme noir importante, “Confissão” (Dead Reckoning, 1947), envolvido em uma perigosa teia de brutalidade e violência enquanto investiga o assassinato de um amigo, contracenando com Lizabeth Scott.

Seu primeiro papel romântico como protagonista seria o mais memorável de todos: Rick Blaine, o cínico e desiludido dono de um bar que reencontra seu grande amor do passado, Ilsa Lund, interpretada por Ingrid Bergman, agora casada com um líder da resistência francesa, em “Casablanca” (1942), de Michael Curtiz. Blaine foi considerado o quarto maior herói do cinema americano pelo American Film Institute (AFI), e o romance entre Blaine e Lund, a maior história de amor do cinema americano em todos os tempos, também pelo AFI. Raymond Chandler, em uma carta de 1946, escreveu que “Assim como Edward G. Robinson quando era mais jovem, tudo o que ele precisa fazer para dominar uma cena é entrar nela.”

Bogart, então com 44 anos, e Lauren Bacall, com 19, se apaixonaram durante as filmagens de “Uma Aventura na Martinica” (To Have And Have Not, 1944), de Howard Hawks. Em 1945, poucos meses após o início das filmagens de “À Beira do Abismo”, o segundo filme que fizeram juntos, ele se divorciou de sua terceira esposa e se casou com Bacall. Após o casamento, interpretaram um par romântico nos thrillers de suspense “Prisioneiro do Passado” (Dark Passage, 1947) e “Paixões em Fúria” (Key Largo, 1948), de John Huston, cineasta com quem Bogart formou uma amizade e uma parceria que atravessou duas décadas. Suas atuações em “O Tesouro de Sierra Madre” (The Treasure of Sierra Madre, 1948), de Huston, e “No Silêncio da Noite (In a Lonely Place, 1950) , de Nicholas Ray, são hoje consideradas entre as melhores de sua carreira, embora não tenham sido reconhecidas dessa forma na época de seus lançamentos.

Humphrey Bogart com Dooley Wilson em uma cena de Casablanca, 1942.

Lauren Bacall e Humphrey Bogart em Uma Aventura na Martinica, de 1944, o primeiro de quatro filmes que fizeram juntos.

Lauren Bacall e Humphrey Bogart na recepção do casamento deles, 1945.

Lauren Bacall e Humphrey Bogart em uma cena de À Beira do Abismo, de 1946.

Ele reprisou esses personagens inquietos e instáveis ​​como o comandante de um navio da Marinha durante a Segunda Guerra Mundial em “A Nave da Revolta” (The Caine Mutiny, 1954), que foi um sucesso de crítica e público e lhe rendeu outra indicação ao Oscar de Melhor Ator. Ele ganhou o Oscar de Melhor Ator por sua interpretação de um capitão de barco a vapor rabugento, contracenando com Katharine Hepburn, que fazia o papel de missionária, no filme de aventura passado na Primeira Guerra Mundial, “Uma Aventura na África” (The African Queen, 1951), outra colaboração com Huston.

Outros papéis importantes em seus últimos anos incluem “A Condessa Descalça” (The Barefoot Contessa, 1954), com Ava Gardner, e sua competição nas telas com William Holden pelo amor de Audrey Hepburn em “Sabrina” (1954), um papel que Bogart detestou por se sentir mal escalado devido à grande diferença de idade entre ele e Audrey, e porque ele tentou sem sucesso convencer o diretor Billy Wilder que sua esposa Lauren interpretasse a protagonista. Além do profissionalismo no set, Bogart era conhecido por sua generosidade. Ele ajudou uma insegura e emocionalmente instável Gene Tierney a dizer suas falas quando fizeram “Do Destino Ninguém Foge” (The Left Hand of God, 1955) e incentivou-a a buscar tratamento psicológico, e apoiou Joan Bennett e insistiu em tê-la como sua colega em “Não Somos Anjos” (We’re No Angels, 1955), quando um escândalo a tornou persona non grata dentro da Warner Bros.

Bogart tornou-se pai aos 49 anos, quando Bacall deu à luz seu filho Stephen Humphrey Bogart em 6 de janeiro de 1949, nome tirado de Steve, o apelido do personagem de Bogart em “Uma Aventura na Martinica”. A segunda filha do casal, Leslie Howard Bogart, nasceu em 23 de agosto de 1952. Seu primeiro e segundo nomes homenageiam Leslie Howard, amigo e colega de Bogart em “A Floresta Petrificada”, e responsável por dar ao ator sua primeira chance de estrelar uma produção importante.

Lauren Bacall e Humphrey Bogart em Prisioneiro do Passado, 1947.

Lauren Bacall e Humphrey Bogart em uma cena de Paixões em Fúria, de 1948, o último filme em que atuaram juntos.

Humphrey Bogart e Fred MacMurray no set de A Nave da Revolta, 1954.

Humphrey Bogart é preparado com sanguessugas de borracha aplicadas ao seu corpo para as filmagens de “Uma Aventura na África”, de 1951, pelo qual recebeu seu único Oscar de Melhor Ator.

Fumante e alcoólatra inveterado, Bogart desenvolveu câncer de esôfago e adoeceu rapidamente. Após muita insistência de sua esposa Lauren, ele decidiu procurar um médico, mas era tarde demais. Após uma cirurgia para remover o esôfago, dois linfonodos e uma costela, ele foi submetido à quimioterapia em novembro de 1956. Em 13 janeiro de 1957, Bogart em uma cadeira de rodas recebeu a visita de seus amigos Frank Sinatra, Katharine Hepburn e Spencer Tracy. Hepburn relembrou depois:

“Spence deu um tapinha no ombro dele e disse: ‘Boa noite, Bogie.’ Bogie voltou os olhos para Spence muito silenciosamente e, com um sorriso doce, cobriu a mão de Spence com a sua e disse: ‘Adeus, Spence.’ O coração de Spence parou. Ele entendeu.”

Humphrey Bogart e Lauren Bacall relaxando em casa, 1945.

Lauren Bacall, Humphrey Bogart e Stephen na noite de Natal em 1951.

Bogart entrou em coma e morreu no dia seguinte. Na época de sua morte, pesava apenas 36 kg. Seu último filme foi o drama esportivo “A Trágica Farsa” (The Harder They Fall, 1956), ao lado de Rod Steiger. Sobre a coragem e a gentileza de Bogart durante sua última atuação, o ator declarou:

“Bogey e eu nos demos muito bem. Ao contrário de algumas outras estrelas, quando tinham closes, você podia ser relegado a um plano duplo ou simplesmente cortado da cena. Bogey não entrava nesses jogos. Ele era um profissional e tinha uma autoridade tremenda. Chegava exatamente às 9h e saía pontualmente às 18h. Lembro-me de uma vez, caminhando para almoçar entre as filmagens, e ver Bogey no estúdio. Ele não deveria estar lá, porque o trabalho dele já tinha terminado. Perguntei por que ele ainda estava lá, e ele disse: ‘Eles querem refilmar alguns closes meus porque meus olhos estão lacrimejando muito’. Pouco tempo depois, após o filme, alguém veio falar comigo sobre a morte de Bogey. Foi aí que me dei conta. Os olhos dele estavam lacrimejando porque ele estava com muita dor por causa do câncer. Pensei: ‘Como você pode ser tão burro, Rodney!'”

Quatro filmes em que Bogart atuou — “Casablanca”, “Relíquia Macabra”, “O Tesouro de Sierra Madre” e “Uma Aventura na África” — entraram para a lista dos maiores filmes americanos de todos os tempos do American Film Institute em 1998, com “Casablanca” ocupando o segundo lugar. Sobre a popularidade duradoura do marido, Lauren Bacall disse mais tarde:

“Havia algo que o permitia ser um homem independente, e isso transparecia em seu trabalho. Havia também uma pureza, o que é incrível considerando os papéis que ele interpretava. Algo sólido também. Acho que, com o passar do tempo, todos nós acreditamos cada vez menos. Aqui estava alguém que acreditava em algo”.

Fonte: Wikipedia.

Bastidores: A Felicidade Não Se Compra (1946)

A máquina de fazer neve no set de filmagem de “A Felicidade Não Se Compra” (It’s a Wonderful Life, 1946), de Frank Capra, representou um grande avanço técnico para a época, produzindo neve mais realista do que a vista anteriormente em filmes. Como resultado, Russell Shearman e a equipe de efeitos especiais da RKO Radio Pictures foram agraciados com um Oscar especial em 1947, o Prêmio de Realização Técnica, pelo desenvolvimento desse novo método para simular queda de neve em sets de filmagem.

Lançado nos cinemas dos Estados Unidos no dia de hoje, 20 de dezembro em 1946, o filme, uma fantasia dramática e um projeto pessoal do diretor Frank Capra, fracassou nas bilheterias e foi recebida com frieza pelos críticos, que não estavam preparados para as inovações estéticas e narrativas elaboradas por Capra. O tempo, porém, se encarregou de transformar “A Felicidade Não Se Compra” no filme de Natal preferido de muitos cinéfilos e uma verdadeira instituição cinematográfica, das melhores já produzidas por Hollywood em qualquer período.

O filme de Natal preferido de muitos cinéfilos

“A Felicidade Não Se Compra” se originou de “The Greatest Gift”, um conto escrito em 1939 por Philip Van Doren Stern, escritor e historiador norte-americano. Como não conseguiu nenhuma editora interessada em publicar a história, o próprio autor a publicou como um livreto de 24 páginas e enviou para 200 familiares e amigos no Natal de 1943. De algum modo, Cary Grant ficou conhecendo a história e se interessou em interpretar o personagem principal, e através dele ou de seu agente, a RKO Radio Pictures adquiriu os direitos da história por US$ 10 mil para que o ator estrelasse o filme. Os problemas de pré-produção e as dificuldades em chegar a um roteiro final para o qual diversos escritores contribuíram, entre eles Dalton Trumbo, afastaram Grant do projeto e o filme acabou engavetado pela RKO. A esse ponto, George Bailey não era um corretor, mas um político idealista que decide tirar a própria vida após perder uma eleição. Um anjo intervém e mostra como seria sua cidadezinha Bedford Falls se ele nunca tivesse entrado para a política.

O projeto ganhou vida novamente quando Frank Capra, ao fim de seu tempo servindo ao Exército durante a Segunda Guerra, procurava por uma boa história para marcar seu retorno à Hollywood e lançar sua nova produtora, a Liberty Films, que havia assumido um contrato de nove filmes com a RKO. O chefe do estúdio, Charles Koerner, insistiu para que Capra lesse o conto de Stern e imediatamente o diretor enxergou todo o potencial da história, comprou os direitos da RKO e retrabalhou o roteiro com outros escritores, entre eles Frances Goodrich e Albert Hackett, o renomado casal de roteiristas e dramaturgos responsáveis pela peça vencedora do Pulitzer “O Diário de Anne Frank” e os primeiros filmes da série “Thin Man”. Divergências criativas entre o diretor e os roteiristas, levaram a disputas legais sobre sua autoria depois que Capra rebatizou a história como It’s a Wonderful Life e ele e Jo Swerling realizaram mudanças na história. O roteiro do filme acabou creditado a Capra, Goodrich e Hackett, com “cenas adicionais” de Swerling.

James Stewart e o diretor Frank Capra no set de A Felicidade Não Se Compra, de 1946.

Frank Capra escreveu em sua autobiografia:

“De todos os personagens, acredito que o mais difícil seja o de um Bom Samaritano que não sabe que é um Bom Samaritano. Eu conhecia um homem que poderia interpretá-lo… James Stewart. Falei com Lew Wasserman, o agente da MCA que representava Jimmy, e disse a ele que queria contar a história com Jimmy. Wasserman disse que ele aceitaria o papel de bom grado, mesmo sem ouvir a história.”

James Stewart já havia atuado em dois filmes de Capra, “Do Mundo Nada Se Leva”, de 1938, e “A Mulher Faz o Homem”, de 1939. Mas não foi a primeira escolha para George Bailey, e sim Henry Fonda. Com Fonda escalado para “Paixão dos Fortes”, de John Ford, Stewart ficou com o papel, enquanto sua colega nos dois filmes anteriores que ele fez com Capra, Jean Arthur, foi cogitada para viver a esposa de Bailey, Mary Hatch. A atriz, porém, sofreu uma exaustão provocada pelo excesso de trabalho em filmes e nos palcos, e Olivia de Havilland, Martha Scott, Ann Dvorak e Ginger Rogers foram consideradas. Rogers recusou o papel e mais tarde em sua autobiografia se arrependeria da decisão. Donna Reed ganhou o papel que a transformaria na esposa ideal do cinema americano.

Uma longa lista de atores foi considerada para o papel do vilão Sr. Potter: Edward Arnold, Charles Bickford, Edgar Buchanan, Louis Calhern, Victor Jory, Raymond Massey, Thomas Mitchell e Vincent Price. Lionel Barrymore, que acabou sendo escalado, já era um famoso Ebenezer Scrooge em dramatizações radiofônicas de “Um Conto de Natal” de Charles Dickens na época, e foi uma escolha natural para o papel. O ator também havia trabalhado com Capra e Stewart no filme vencedor do Oscar de 1938, “Do Mundo Nada Se Leva”, em um papel totalmente oposto ao do Sr. Potter, considerado um dos vilões mais odiados do Cinema.

Robert Mitchum foi um dos atores cogitados para viver Bert, antes de Ward Bond ser confirmado. Walter Brennan e WC Fields foram cogitados para o papel de Tio Billy, enquanto Henry Travers ficou com o papel do anjo Clarence Odbody. Jimmy, o Corvo (o animal de estimação de Tio Billy no filme) já havia aparecido em “Do Mundo Nada Se Leva” e em outros filmes seguintes de Capra. Como ator, ele apareceu em mais de mil filmes entre 1938 e 1954, incluindo uma participação em “O Mágico de Oz”, de 1939. “Quando chamavam ‘Jimmy’, nós dois respondíamos”, comentou Jimmy Stewart sobre as filmagens de “A Felicidade Não Se Compra”, observando que o corvo era “o ator mais inteligente do set”, exigindo menos repetições do que seus colegas humanos.

Jimmy, o Corvo, fez sua estreia nas telas em 1938 em um filme de Frank Capra, “Do Mundo Nada Se Leva”, e participaria de mais de mil filmes até sua morte em 1954, incluindo todos os filmes seguintes de Capra.

“A Felicidade Não Se Compra” foi filmado nos estúdios da RKO Radio Pictures em Culver City, na Califórnia, aproveitando os cenários já existentes de “Cimarron”, de 1931. Uma avenida inteira foi erguida para a cena em que George Bailey enfrenta uma nevasca enquanto caminha por uma realidade alternativa de Bedford Falls, com 3 quarteirões, 75 imóveis incluindo casas e prédios, e 20 carvalhos adultos plantados só para aquela cena. O chefe de efeitos especiais da RKO, Russell Shearman, desenvolveu um novo composto usando água, flocos de sabão, espuma e açúcar para criar o efeito de neve para o filme. Antes disso, a neve em filmes era geralmente feita de flocos de milho não torrados, que faziam tanto barulho ao serem pisados ​​que os diálogos tinham que ser dublados posteriormente. As filmagens começaram em 15 de abril de 1946 e terminaram em 27 de julho de 1946, exatamente no prazo do cronograma principal de filmagens de 90 dias.

Algumas cenas eram inicialmente diferentes da versão final, como o acidente em que Harry cai no lago e é salvo por George. Durante a partida de hóquei no gelo, o disco cai na propriedade de Potter, que manda soltar seus cachorros atrás dos garotos. Na fuga, Harry cai no rio e é salvo por George. Algumas cenas foram filmadas, mas posteriormente descartadas na montagem final, incluindo finais alternativos. Além dos problemas com os roteiristas, Capra ganhou a inimizade do compositor Dimitri Tiomkin, que já havia trabalhado em vários filmes do diretor, depois que Capra removeu duas músicas que ele fez para o filme. Capra também não estava satisfeito com o diretor de fotografia Victor Milner e aproveitou que ele precisou se afastar por uns dias por motivo de doença para substitui-lo por Joseph Walker, emprestado pela Columbia e que havia trabalhado em 19 de seus filmes. Quando Walker foi requisitado de volta à Columbia, o veterano operador de câmera Joseph Biroc assumiu a fotografia do filme. Como resultado do trabalho de três diretores de fotografia, várias cenas de “A Felicidade Não Se Compra” apresentam estilos visuais bastante diferenciados.

James Stewart, Lionel Barrymore e o diretor Frank Capra (ao fundo) no set de A Felicidade Não Se Compra, de 1946.

Após a estreia de “A Felicidade Não Se Compra”, talvez o fato mais inusitado tenha sido um memorando emitido pelo FBI onde alguém cujo nome não foi revelado acusava o filme de ser um manifesto comunista, já no início da caça às bruxas do macarthismo. O filme foi visto como uma tentativa de desacreditar os banqueiros através da representação mesquinha e avarenta de Lionel Barrymore e para difamar a classe alta, tentando mostrar que as pessoas que tinham dinheiro eram personagens desprezíveis, e, segundo o memorando, “um truque comum usado pelos comunistas”. Por sua vez, o historiador de cinema Andrew Sarris observou como “curioso” que “os censores nunca perceberam que o vilão Sr. Potter se safa do roubo sem ser pego ou punido de qualquer forma”, algo que não era permitido pelo rigoroso Código de Produção.

“A Felicidade Não Se Compra” teve uma pré-estreia antecipada para 20 de Dezembro de 1946 para que o filme já pudesse ser indicado ao Oscar no ano seguinte, o que se mostrou um erro de estratégia do estúdio. Na 19ª cerimônia de entrega do Oscar, realizada em março de 1947, apesar das suas cinco indicações, incluindo as de Melhor Filme, Diretor e Ator, “A Felicidade Não Se Compra” perdeu nessas três categorias para o favorito “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”, de William Wyler, sócio de Capra junto com George Stevens na Liberty Films. Se o filme tivesse sido inicialmente lançado em 7 de janeiro de 1947, quando entrou em circuito nacional, seria indicado para a 20ª cerimônia do Oscar no ano seguinte, e enfrentaria bem menos concorrência em um ano em que “A Luz É Para Todos” venceu como Melhor Filme.

“A Felicidade Não Se Compra” fracassou nas bilheterias e a crítica menosprezou os esforços de Capra, afirmando que ele havia perdido o toque como cineasta. Apesar de algumas críticas positivas publicadas pelas revistas Time e Variety, não foram suficientes para entusiasmar o público da época pouco preparado para as inovações propostas pelo diretor.

Donna Reed e James Stewart ensaiando para a cena de dança em A Felicidade Não Se Compra, de 1946.

Entre as grandes inovações de Capra está inserir um tema fantástico em um cenário urbano e que envereda por uma narrativa dramática, em um momento em que a fantasia no cinema estava limitada a musicais ou comédias como “Que Espere o Céu” (1941), já abrindo o filme com uma cena simples mas inédita em que dois anjos conversam escondidos em uma nuvem. Em um momento do filme, outra inovação surge quando uma cena com James Stewart é congelada para que o protagonista, George Bailey, seja apresentado ao público. Enquanto o filme mistura tempo presente e narrativa em flashback – outra inovação poucas vezes utilizada até então -, Capra ainda prepara uma realidade alternativa sombria que vai contra o clima otimista e quase simplório de seus filmes anteriores.

Com o fracasso de “A Felicidade Não Se Compra”, que mal pagou seus custos de produção, a Liberty Films declarou falência e foi adquirida pela Paramount Pictures, tornando-se uma de suas subsidiárias até seu fechamento definitivo em 1951. Os direitos do filme foram vendidos para uma distribuidora independente, a M&A Alexander, e depois repassados para a National Telefilm Associates. Um erro administrativo na NTA impediu a renovação adequada dos direitos autorais em 1974 após o período legal de 28 anos, que poderiam ter sido renovados por outros 28 anos, fazendo com que o filme caísse em domínio público.

A ascensão de “A Felicidade Não Se Compra” como objeto de culto começou nas férias de 1976 quando o filme passou a ser exibido frequentemente na televisão dos Estados Unidos, gerando uma legião de admiradores, especialmente no período natalino. “É a coisa mais incrível que já vi”, disse Capra ao The Wall Street Journal em 1984. “O filme tem vida própria agora, e posso olhar para ele como se não tivesse nada a ver com isso. Sou como um pai cujo filho cresce e se torna presidente. Estou orgulhoso… mas foi o filho quem fez o trabalho. Eu nem pensei nisso como uma história de Natal quando me deparei com ela pela primeira vez. Eu apenas gostei da ideia.”

Acompanhado por uma forte campanha publicitária, A Felicidade Não Se Compra estreou no Globe Theatre, na cidade de Nova York, em 20 de Dezembro de 1946, mas acabou sendo um fracasso de bilheteria.

Ao longo dos anos 80, com o mercado de vídeo doméstico se expandindo graças aos formatos VHS e Betamax, várias distribuidoras lançaram versões do filme que incluíam cópias colorizadas por computador que ajudaram a trazer a visão pioneira e sentimental de Capra a uma nova geração de espectadores. Em 1993, a Republic Pictures, sucessora da NTA, fez valer sua reivindicação de direitos autorais. Embora os direitos autorais do filme não tivessem sido renovados, a Republic ainda detinha os direitos cinematográficos do conto de origem “The Greatest Gift”, de modo que os demandantes puderam argumentar seu status como obra derivada de uma obra ainda protegida por direitos autorais. Em 1994, o estúdio vendeu os direitos exclusivos de televisão para a NBC, que desde então transmite o filme na véspera do Natal, uma espécie de evento nacional.

“A Felicidade Não Se Compra” rendeu a Frank Capra o Globo de Ouro de Melhor Diretor. Muito pouco se considerarmos o que o filme representou em termos de inovações em soluções técnicas e recursos narrativos, influenciando gerações de cineastas desde seu lançamento em 1946. Steven Spielberg disse certa vez sobre o filme: “‘A Felicidade Não Se Compra’ mostra que cada ser humano neste planeta importa – e essa é uma mensagem muito poderosa”. Ele classificou o filme em primeiro lugar em sua lista de 20 filmes favoritos. Em 1990, “A Felicidade Não Se Compra” tornou-se um dos 25 filmes selecionados para preservação no Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso por ser considerado “culturalmente, historicamente ou esteticamente significativo”.

IMDb: https://www.imdb.com/title/tt0038650/.

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Atrizes: Rita Moreno

Rita Moreno é uma das últimas lendas vivas de Hollywood. A atriz vencedora do Oscar, Tony, Emmy e Grammy está completando 94 anos no dia de hoje.

Nascida Rosa Dolores Alverío Marcano, em 11 de dezembro de 1931, em um hospital de Humacao, Porto Rico, ela é filha de Rosa María, costureira, e Francisco José Alverío, agricultor. Apelidada de “Rosita”, em 1936, aos 5 anos, ela mudou-se com a mãe para a cidade de Nova York após o divórcio de seus pais. Seu irmão, Francisco, ficou em Porto Rico e ela só voltaria a vê-lo em 2021. A menina recebeu o sobrenome Moreno do padrasto, Edward Moreno, e viveu sua infância no subúrbio de Valley Stream, em Long Island.

O padrinho de Rita Moreno no mundo do entretenimento foi o tio de Rita Hayworth, Paco Cansino, que lhe ensinou os primeiros passos de dança e levou a garota de 6 anos para se apresentar com ele em espetáculos de canto e dança. Aos 11 anos, Rita Moreno já fazia dublagens em espanhol para filmes americanos. Em 1945, aos 13 anos, fez sua estreia nos palcos da Broadway como “Angelina” na peça “Skydrift”. A carreira no cinema começou logo após ela e a mãe se mudarem para uma casa de campo em Culver City, próximo de onde ficavam os estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer.

Uma artista formidável que além de tudo é EGOT

Conhecida por seus papéis na televisão, no cinema e no teatro e com uma carreira que abrange oito décadas, Rita é uma sobrevivente da Era de Ouro — seus filmes, produções teatrais e música a levaram a entrar para a seleta lista de vencedores do EGOT, os quatro maiores prêmios do mundo do entretenimento. Em 1961, ela estrelou como Anita em “Amor, Sublime Amor”, adaptação cinematográfica de Robert Wise e Jerome Robbins do inovador musical de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim, West Side Story, que havia sido interpretado por Chita Rivera na Broadway. Sua atuação no filme recebeu aclamação dos críticos e ela ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante, entre os dez prêmios que o filme recebeu, entre eles o de Melhor Filme. O Oscar, porém, não ajudou sua carreira:

“Eu mostrei a eles. Não fiz outro filme por sete anos depois de ganhar o Oscar… Antes de Amor, Sublime Amor , sempre me ofereciam os papéis estereotipados de latina. As Conchitas e Lolitas nos faroestes. Eu estava sempre descalça. Era humilhante, constrangedor. Mas eu fazia porque não havia mais nada. Depois de Amor, Sublime Amor, foi praticamente a mesma coisa. Muitas histórias de gangues.”

Na década de 1970, Rita Moreno passou a trabalhar na televisão e em 1973 ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Musica Infantil por seu trabalho na série da PBS, “The Electric Company”. Por seus trabalhos na televisão ganhou dois Emmys, o primeiro em 1977 por sua participação em um episódio de “The Muppet Show”, e em 1978 por interpretar uma ex-prostituta em um arco de três episódios da série de TV “The Rockford Files”. Por sua atuação como Googie Gomez na peça da Broadway de 1975, “The Ritz”, ela ganhou o Tony de Melhor Atriz Coadjuvante. Rita repetiria o papel na adaptação cinematográfica de 1976 da peça, dirigida por Richard Lester, e estrelada por vários outros atores da montagem original. Ela foi indicada ao Globo de Ouro por esse papel.

Rita Moreno no começo dos anos 50.

Quando West Side Story ganhou uma nova versão para o cinema em 2022, Rita Moreno, então com 90 anos, foi convidada pelo diretor Steven Spielberg para uma participação especial interpretando Valentina, uma personagem criada especialmente para ela. Rita também atuou como produtora executiva do filme. Justin Chang, da NPR, escreveu:

“Sessenta anos depois, Rita Moreno é produtora executiva de West Side Story, de Spielberg. Ela também oferece uma atuação comovente no novo papel de Valentina, a viúva de Doc, o dono da farmácia. Com sua presença, Moreno nos ensina como abordar este filme, tanto como uma homenagem afetuosa quanto como uma correção sutil.”

Incansável, Rita Moreno segue exercendo várias atividades e fazendo o que mais gosta: atuar. Recentemente ela foi vista na comédia esportiva “80 For Brady” ao lado das também veteranas Lily Tomlin, Sally Field e Jane Fonda, e interpretou Abuelita Toretto, a avó do personagem de Vin Diesel em “Velozes e Furiosos X”. Seu filme mais recente foi a comédia “Family Switch”, de 2023. A vida da atriz foi retratada no documentário de 2021, “Rita Moreno: Just a Girl Who Decided to Go for It” (“Rita Moreno: Apenas uma Garota que Decidiu Ir em Frente”), produzido por Lin-Manuel Miranda.

Alguns anos atrás, Rita Moreno foi entrevistada pelo The Weekly por ocasião da produção da nova versão de “Amor, Sublime Amor”. O texto original pode ser acessado aqui.

Filmes, Marlon Brando e como fazer sucesso em Hollywood

Em seu primeiro dia em Hollywood, Rita Moreno, de 16 anos, entrou nos estúdios da MGM com uma mistura de apreensão e entusiasmo. Um olheiro de talentos descobriu a adolescente porto-riquenha em um recital de dança espanhola. Dias depois, o chefe do estúdio, Louis B. Mayer, contratou Rita imediatamente, tão impressionado ficou com sua semelhança com outra estrela adolescente. “Meu Deus!”, exclamou ele quando ela chegou para o encontro acompanhada de sua mãe, Rosa, em sua cobertura no Waldorf Astoria, em Nova York. “Ela é uma Elizabeth Taylor espanhola!”

Rita Moreno foi chamada de “uma Elizabeth Taylor espanhola” por Louis B. Mayer quando assinou contrato aos 16 anos.

“Nunca me esquecerei daquele primeiro dia nos estúdios, foi tão emocionante”, diz Rita, agora com 90 anos, em entrevista ao The Weekly de sua casa em Berkeley, na Califórnia. “Eu praticamente me mudei para lá. Visitei os sets de filmagem, visitei o refeitório onde serviam comida para as grandes estrelas. Tinha um balcão térmico com comida de verdade, coisas como torta de maçã, feijão à moda de Boston e rosbife com molho. Coisas que eu nunca comia em casa — nós comíamos arroz com feijão. Era hora do almoço quando me levaram lá e, de repente, entram Lana Turner e Elizabeth Taylor. Pensei que ia me mijar de emoção. Consegue imaginar?”

Com isso, Rita solta uma gargalhada, claramente ainda achando graça de que “essa garota de 16 anos do gueto” pudesse ter se encontrado em tal situação.

Durante a infância, Elizabeth Taylor era seu ídolo — uma jovem que, assim como ela, realizaria seu sonho de se tornar uma estrela de cinema. Quando chegou aos Estados Unidos em 1936, aos cinco anos de idade, não havia atrizes latinas para servir de inspiração. Ou melhor, havia, mas elas haviam sido obrigadas a se reinventar para apagar todos os traços de sua verdadeira etnia. A mais famosa na época era Rita Hayworth — ou Margarita Cansino, seu nome de batismo — que tingiu os cabelos escuros de ruivo e adotou um nome anglicizado para interpretar papéis tipicamente americanos. “Ela é um bom exemplo do que acontecia naquela época quando você era hispânico — você fazia o possível para não aparentar”, diz Rita.

Por mais inusitado que pareça, foi justamente o tio de Rita Hayworth, Paco, quem apresentou a jovem Rita Moreno (ou Rosita, como era conhecida na época) ao mundo do entretenimento. Ele não só a ensinou a dançar, como também escolheu a talentosa jovem para acompanhá-lo em uma apresentação em uma boate em Greenwich Village.

Rita por volta de 1955.

“Ele tinha apenas um metro e meio de altura e uma aparência feroz; era pequeno, mas poderoso — era como um touro”, lembra Rita agora. “Fizemos uma dança de pares com castanholas e tudo o que eu conseguia pensar era que o público me adorava. Como não adorariam? Quem não adoraria uma menininha de seis anos com olhos grandes e um traje de dança espanhola? E eu pensei: ‘É isso que eu quero fazer. É isso que eu quero fazer para o resto da minha vida.’”

Após aquele encontro fatídico com Louis B. Mayer, Rita foi escalada para seu primeiro filme, o musical dramático “Quando Eu Te Amei” (The Toast of New Orleans, de 1950) estrelado por Kathryn Grayson e o tenor e ator Mario Lanza. Mas, ao contrário da famosa Rita que a precedeu, em vez de usar maquiagem branca, foi com o rosto pintado de preto que ela passou a usar em uma sucessão de papéis nos quais interpretou uma variedade de mulheres “exóticas”.

“Garotas nativas, garotas da ilha ou senhoritas muito sexualizadas”, ela recorda. “Quando vejo fotos minhas com aquela maquiagem bem escura, que obviamente não combinava com o meu rosto, sempre me sinto muito envergonhada e triste”. Sempre que achava que um papel a impulsionaria para além do estereótipo, ela se decepcionava. Ela teve um papel memorável em “Cantando na Chuva” (Singin’ in the Rain, 1952), interpretando a estrela do vaudeville Zelda Zanders. “Esse é o meu filme de Natal”, exclama ela agora. “Eu assisto quase todos os anos. Eu adoro esse filme e, claro, um dos meus heróis estava nele, Gene Kelly. Ele era uma estrela.”

Rita ao lado de uma foto sua na calçada da Hollywood Boulevard em 1956. Em 1995 ela seria homenageada com sua própria estrela.

Sua atuação como Tuptim — a ex-concubina birmanesa do rei interpretado por Yul Brynner em “O Rei e Eu” (The King And I, 1956) — também não lhe rendeu papéis mais substanciais. Mas esse não era o único obstáculo que ela enfrentava. Quando ela começou na carreira de atriz na década de 1950, Hollywood era comandada por homens. E nem todos eles tinham em mente o melhor interesse das jovens atrizes que contratavam. “Era aterrorizante”, diz Rita sobre a pressão — tanto implícita quanto muito real — que era exercida sobre as jovens.

“Eu me sentia muito fraca e impotente. Eu era uma daquelas jovens que tinha medo de dizer não porque foi assim que fui criada. Então, sempre que alguma pessoa famosa ou executivo tomava alguma atitude, eu ficava apavorada. Eu não tinha poder nenhum.”

Rita Moreno com Marlon Brando no set de Désirée, o Amor de Napoleão (1954).

No início da carreira, ela conta que foi estuprada pelo seu agente. Mesmo assim, continuou trabalhando com ele. Ela não se dava conta do que tinha acontecido com ela, do que ele tinha feito, pois estava tão doutrinada com a ideia de que deveria acatar tudo o que se esperava dela. E então veio Marlon Brando. Naquela época, ele era o homem mais desejado da cidade, um símbolo sexual e vencedor do Oscar. Quando Rita visitou o set de filmagem de seu filme “Désirée, o Amor de Napoleão” (Désirée, 1954), ela se apaixonou perdidamente. “Senti-me imediatamente atraída por ele; ele era famoso e poderoso — e era poderoso porque era famoso”, diz ela sobre o caso que durou oito anos, com idas e vindas, e que acabou por levá-la a tentar tirar a própria vida.

“Claro, ele talvez fosse a pior pessoa do mundo para se envolver, porque era péssimo com mulheres, simplesmente horrível. Ele sempre tinha uma mulher ao seu lado, mulheres em sua vida por todos os lados”, relembra Rita. “E quando percebi que eu não era a única — o que mostra o quão ingênua eu era — fiquei com o coração partido. Mesmo assim, continuei a vê-lo. Em certo momento, pensei: ‘Não posso mais ser massacrada emocionalmente o tempo todo. E a única maneira que conheço de não ter que passar por isso de novo é me livrar de mim mesma.’ Foi uma época horrível e triste.”

Rita Moreno atuou ao lado de Deborah Kerr e Yul Brynner em O Rei e Eu.

A salvação veio na forma de trabalho. Jerome Robbins havia sido o coreógrafo dela em “O Rei e Eu”. E ele sugeriu que ela fizesse um teste para o filme de 1961 do qual ele seria um dos diretores — uma versão cinematográfica do musical de sucesso da Broadway, “West Side Story”.

“Meu Deus, eu queria muito esse papel. Fiz um teste de vídeo, uma audição presencial, uma cena de atuação e depois uma de dança. Trabalhei tanto para conseguir esse papel, que quando finalmente consegui, desabei em lágrimas. Estava radiante de felicidade.”

Como um modelo para garotas que não tinham ninguém que se parecesse ou soasse como elas para se inspirar, Rita Moreno se tornou um ícone para a comunidade hispânica nos Estados Unidos. “Pela primeira vez, interpretei uma jovem latina que tinha opinião e a expressava”, diz ela. “Uma latina que tinha dignidade e muito amor-próprio. Então, é claro, inevitavelmente ela se tornou meu modelo muito tarde na minha vida”. O clima no set era de pura alegria, lembra Rita. Jerome Robbins e Robert Wise proibiram os atores que interpretavam membros das gangues rivais, os Sharks e os Jets, de socializarem. “Eles sempre queriam que houvesse alguma tensão entre nós”, sorri Rita. “Então, era sempre Sharks, Sharks, Sharks. Éramos um grupo muito barulhento, como os latinos costumam ser, e eu certamente era a líder desse grupo.”

Rita em uma cena de Amor, Sublime  Amor (1961). Ela caiu em prantos ao conseguir o papel de Anita.

Mais uma vez, porém, Rita foi obrigada a usar maquiagem escura — apesar de sua ascendência porto-riquenha. “A maquiagem ficava borrando porque era escura demais”, ela dá de ombros. “Era meio ofensivo, mas se você ia participar desse filme, tinha que fazer isso. O mesmo aconteceu com a protagonista, Natalie Wood.”

“Ela era… ok”, diz Rita, escolhendo as palavras com cuidado ao ser questionada sobre a relação de trabalho delas. “Ela não era muito… calorosa e amigável. Também não era fria. Era meio indiferente. Ela me pediu ajuda com o sotaque. Isso durou apenas dois dias e depois ela perdeu o interesse. Digamos assim: não éramos próximas”. Quando “Amor, Sublime Amor” foi lançado em outubro daquele ano, foi um sucesso. Rita foi indicada a Melhor Atriz Coadjuvante tanto no Globo de Ouro quanto no Oscar. Ninguém ficou mais surpreso do que ela ao ganhar ambos os prêmios.

Rock Hudson entregou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante a Rita Moreno na cerimônia de premiação em 1962.

Finalmente, pensou ela, seu dia havia chegado — não seria mais forçada a usar blackface, a interpretar os papéis dos quais lutara por uma década para se livrar. Aliás, se lhe oferecessem esses papéis, ela recusaria imediatamente. “Bem, eu mostrei para eles”, diz ela com uma risada amarga. “A única coisa que me ofereceram depois disso foram mais filmes de gangues, em menor escala. Fiquei um ano sem trabalhar. Não conseguia emprego. Foi de partir o coração e assustador… Achei que minha carreira tinha acabado.”

Utilizando a força interior que tanto lutou para conquistar, Rita trocou de agente — e esperou o momento certo. Ela ainda apareceu em pequenos papéis em dois ou três filmes durante o hiato de sete anos em que se refugiou nos palcos. Rita teve um retorno triunfal estrelando ao lado de seu antigo amor, Marlon Brando, no thriller policial “A Noite do Dia Seguinte” (The Night of the Following Day, 1969). O tapa que ela lhe deu na tela foi o último desabafo emocional sobre o caso que os separou, o que levaria a uma reconciliação há muito esperada.

Elenco de The Electric Company, da esquerda para a direita: Lee Chamberlin, Bill Cosby, Rita Moreno, Judy Graubart, Skip Hinnant e Morgan Freeman.

Ao longo das décadas seguintes, Rita Moreno continuou a evoluir, conquistando prêmios não apenas por seu trabalho, mas também por seu ativismo. E quando se espalhou a notícia em 2018 de que “Amor, Sublime Amor” ganharia um remake — que teria apenas atores latinos em papéis latinos — ela foi uma das primeiras a saber. “Achei que fosse um erro”, diz ela com franqueza. “Aquele filme é tão icônico, sabe? Mas, por outro lado, meu diretor favorito no mundo, Steven Spielberg, ia dirigi-lo. E eu sabia de uma coisa: ele consegue fazer praticamente qualquer coisa que se proponha a fazer.”

O papel de Valentina foi criado especialmente para Rita, que também se tornou produtora executiva do filme. “Ela é uma personagem maravilhosa e doce. Não tem nada a ver com a Anita”, diz Rita sobre Valentina, viúva do dono da farmácia Doc, interpretado em 1961 por Ned Glass. “O filme original era mais focado no canto, na dança e na música. Os aspectos sociais eram meio que deixados de lado… Obviamente, esta versão ainda tem música gloriosa, dança fabulosa e todas as coisas maravilhosas que fizeram do original um filme icônico. E é uma das poucas vezes [na minha vida] que eu realmente gostei de assistir às minhas cenas. Eu me amo neste filme — você consegue imaginar?”

O elenco do novo West Side Story comemora com o diretor Steven Spielberg a estreia em Nova York. Foto de Jamie McCarthy.

Fontes do texto: The Weekly, Wikipedia | Fotos adicionais: Acervo do Blog

Imagem da Semana: Lillian Gish e Greta Garbo no set de Vento e Areia (1928)

Greta Garbo visita Lillian Gish no set de filmagem de Vento e Areia (The Wind, 1928).

Em seu livro The Western Film, Charles Silver escreveu:

O próprio cinema mudo estava prestes a se extinguir, e talvez seu maior faroeste tenha surgido pouco antes do fim. As citações são necessárias porque Vento e Areia é mais um estudo psicológico que por acaso se passa no Velho Oeste. No entanto, contém elementos centrais a tantos faroestes, como o isolamento humano em uma vasta paisagem, a alienação da mulher na sociedade do Velho Oeste e a brutal indiferença da natureza… Vento e Areia é talvez a expressão mais pura de uma forma rara, a fantasia de uma mulher sobre a vida no Oeste, em um gênero dominado quase exclusivamente por fantasias masculinas.

À medida que nos aproximamos do fim da era do cinema mudo, Victor Sjöström (1879–1960) — conhecido como “Victor Seastrom” durante seus anos na MGM — se tornou um diretor um tanto negligenciado. Estreando na direção em 1913 comIngeborg Holm”, logo adquiriu prestígio como um dos maiores realizadores do período silencioso ainda em seu país natal, a Suécia. Seus trabalhos entre 1917 e sua partida para Hollywood em 1923, incluindo “Terje Vigen”, “O Fora da Lei e Sua Esposa”, “A Carruagem Fantasma” e suas inúmeras adaptações dos romances de Selma Lagerlöf, o colocam na primeira linha dos diretores de cinema mudo, e ele foi pioneiro nos desafios de dirigir a si mesmo como ator antes de Chaplin, Stroheim ou Keaton. Vários de seus nove filmes em Hollywood não sobreviveram, embora os dois filmes que fez com Lillian Gish, “A Letra Escarlate” (1926) e “Vento e Areia” (1928), ainda existam e pareçam ser os melhores de todos. Victor Sjöström retornou à Europa em 1928, e dirigiu apenas dois filmes falados, mas continuou a atuar em filmes suecos até sua brilhante atuação para Ingmar Bergman em “Morangos Silvestres” (1957), aos 78 anos de idade.

Lillian Gish em Vento e Areia (1928).

Durante seus poucos anos em Hollywood, ele presidiu uma pequena colônia de expatriados suecos na MGM, que incluía Mauritz Stiller (ator e diretor nascido na Finlândia e que trabalhava no estúdio Svenska-Bio, em Estocolmo), Greta Garbo (descoberta por Stiller e dirigida por Sjöström no filme perdido da MGM de 1928, “A Mulher Divina”), Lars Hanson (ator sueco descoberto por Stiller e dirigido por Sjöström em “A Letra Escarlate”, “A Mulher Divina” e “Vento e Areia“) e uma atriz de Springfield, Ohio, chamada Lillian Gish (que também estrelou “A Letra Escarlate”“Vento e Areia”), que atuava em filmes desde 1912. Gish teria escolhido Sjöström para dirigir “A Letra Escarlate” porque sua origem escandinava parecia semelhante à do austero Nathaniel Hawthorne, um típico nova-iorquino com quem ele se sentia à vontade para trabalhar. Garbo se sentiu atraída por Gish, uma atriz mais experiente, devido à comovente compaixão de Lillian pela morte da irmã de Greta na Suécia, enquanto Lillian sempre foi muito próxima de sua irmã, Dorothy, tanto profissional quanto pessoalmente. É gratificante pensar nessas duas — as maiores atrizes do cinema mudo — sendo amigas e, por fim, vizinhas por vários anos nas proximidades de Sutton Place, na cidade de Nova York.

Desde que Al Jolson acabou com o cinema mudo, muitos filmes sonoros excelentes foram produzidos. No entanto, como diz Norma Desmond em “Crepúsculo dos Deuses” (1950) naquela época eles tinham rostos. A boca franzida de Lillian, seu narizinho perfeito e os olhos que pareciam enxergar a eternidade eram como argila de modelar para diretores de olhar sensível, e que podia ser moldada em uma miríade de mulheres sem voz que viveram, amaram e perseveraram desde o início dos tempos. Após quase três décadas, essa arte inestimável deixou de ser desejada quando a cinema se rendeu ao som. Porém, naquele momento turbulento que anunciava o início de uma nova era, Lillian Gish havia alcançado uma precisão de expressão e gestos. Seu desgosto pelo beijo forçado de Lars Hanson, seu medo paralisante do vento, seu horror quando Montagu Love parece ressuscitar dos mortos, sua terna aceitação do amor de Hanson após sua provação — tudo isso é alcançado com uma graça aparentemente sem esforço. É como se Lillian estivesse exclamando, com toda a sua elegância: “Vejam isso! Como vocês podem abandonar algo tão sublime?”

Charles Silver, curador, Departamento de Filmes do MoMA

Atrizes: Sybil Seely

Chaplin descobria suas próprias protagonistas e depois as treinava para atuarem em seus filmes, como Georgia Hale em “Em Busca do Ouro”, Virginia Cherrill em “Luzes da Cidade”, e Paulette Goddard em “Tempos Modernos”, mas nenhuma delas representou tanto para ele quanto sua companheira em inúmeros curtas-metragens em seu início de carreira: Edna Purviance.

Pode-se dizer o mesmo de Buster Keaton, que rivalizou com Chaplin como um dos maiores comediantes do cinema mudo, mas encontrou na graciosa Sybil Seely a sua Edna Purviance, a sua protagonista ideal. Charmosa, natural e de espírito gracioso, a jovem morena apareceu em apenas cinco curtas com Buster Keaton, mas deixou uma impressão marcante nos espectadores ao longo do tempo.

A protagonista mais encantadora de Buster Keaton

Ela era uma californiana, nascida Sibye Travilla em 2 de janeiro de 1900, em Los Angeles. Seus pais eram Harry Richard Travilla e sua esposa Lucie Ellen Boyker. De ascendência francesa, inglesa e escocesa, Sybil era a segunda mais nova de sete filhos: Edith, Guy, Jack, Ford, Elaine e Connie. Harry Travilla, nascido na Pensilvânia, era um empresário, descrito por um jornal local como “um dos homens mais cavalheiros que tivemos a sorte de conhecer em muito tempo”. Ele foi, em diferentes momentos, hoteleiro, dono de bar e revendedor de pneus.

Sybil pertencia a uma família de atletas. Seus três irmãos eram campeões de natação e participaram de inúmeras competições em Catalina, na Califórnia. Jack, apelidado de “O Submarino Humano”, chegou a deter o recorde de 128 jardas nadando com nove polegadas de profundidade, enquanto Ford prendeu a respiração debaixo d’água por quatro minutos e 35 segundos. Guy se tornou um dos melhores mergulhadores acrobáticos da Califórnia. Seus feitos foram noticiados em jornais e, de 1912 a 1917, os irmãos decidiram usar seus talentos para ganhar a vida como os Irmãos Travilla, um popular número de vaudeville que apresentava acrobacias em um enorme tanque no palco, usando uma foca treinada chamada Winks, anunciada como “A Foca com Cérebro Humano”.

O sucesso dos irmãos Travilla foi importante para a família. O pai, Harry, havia falecido em 1905. A decisão de Sybil de tentar a sorte no crescente mercado cinematográfico pode ter sido, em parte, para ajudar a mãe viúva e, também, para se sustentar. Sybil juntou-se ao estúdio de Mack Sennett como uma de suas Bathing Beauties (“Belezas de Banho”) em meados da década de 1910, atuando como figurante e em pequenos papéis. Essas beldades exuberantes em seus trajes de banho provocantes eram frequentemente usadas como chamariz de público nos filmes produzidos por Sennett e em anúncios publicitários a partir de 1917, e o rosto de Sybil era um dos mais graciosos que ajudaram a fazer das Bathing Beauties um elemento popular nas comédias do período silencioso.

Sua primeira aparição nas telas foi aos 17 anos em um papel não creditado no curta-metragem “Her Nature Dance”, que começou a ser filmado no final de 1916 e foi lançado em 8 de abril de 1917. Ela interpretou uma das várias dançarinas dedicadas à “dança grega ao ar livre”, vestida com um traje de deusa grega transparente. Apenas um outro registro cinematográfico de 1917 é conhecido: “Secrets of a Beauty Parlor”, e ela não teve nenhuma aparição em 1918, embora seja possível que tenha aparecido em filmes que agora estão perdidos. Ela também era creditada como “Sibye Trevilla” e até o final da década de 1910, Sybil continuou aparecendo em curtas de Sennett, que contavam com estrelas da comédia como Ben Turpin, Ford Sterling, Charlie Murray, Louise Fazenda e Billy Bevan. Ela também teve uma pequena participação no longa-metragem de Raymond Griffith, “Love, Honor and Behave”, de 1920.

Sybil Seely posa sobre um tapete de urso, sentada com um guarda-sol à extrema esquerda, e usando um vestido de pele de onça em fotos publicitárias para o estúdio de Mack Sennett.

Em 1920, Sybil Seely casou-se com Jules Furthman, um roteirista de 31 anos nascido em Chicago e que atuava em Hollywood desde 1915, escrevendo principalmente faroestes e histórias de aventura. Um dia, ele seria reconhecido como o autor de clássicos consagrados como “O Expresso de Shanghai”, “O Grande Motim”, “Uma Aventura na Martinica”, “À Beira do Abismo” e “Rio Bravo”, e que a crítica de cinema Pauline Kael descreveu como o sujeito que “escreveu cerca da metade dos filmes mais divertidos que saíram de Hollywood”. Por volta de 1920, alguns de seus projetos eram comédias para a Fox e ele chegou a dirigir três filmes, um deles chamado “A Terra do Jazz”, que recebeu críticas mistas.

Ainda em 1920, a carreira de Sybil tomou um novo rumo quando Sennett a emprestou para ser a protagonista em uma comédia curta estrelada por um comediante promissor chamado Buster Keaton. Keaton havia acabado de concluir seu período de três anos trabalhando com o lendário comediante Roscoe Arbuckle e já havia finalizado seu primeiro filme como produtor independente, “The High Sign”, com a protagonista Bartine Burkett. Porém, insatisfeito com os resultados, ele engavetou o filme, que não seria lançado até o ano seguinte, e buscava por um projeto mais distinto. Esse projeto distinto se tornaria o aclamado “One Week” (1920).

Buster Keaton e Sybil Seely em One Week (1920).

Como Buster escolheu Sybil em particular é um mistério, mas existe a possibilidade de que seu codiretor, Eddie Cline, tenha tido algo a ver com isso. Cline havia sido um dos melhores diretores de comédia de Sennett e teve um papel fundamental na criação das Bathing Beauties. É possível que ele se lembrasse de Sybil e a tenha sugerido. Em “One Week”, Sybil interpreta a noiva de Keaton, um azarado construtor de casas pré-fabricadas. A atriz demonstrou uma química encantadora com Keaton em cena, atuando com uma naturalidade que complementava sua persona “inexpressiva”, sem deixar de lado seu charme singular. Ela também se mostrou destemida, realizando com coragem suas próprias cenas de ação, como pular de um carro em alta velocidade para outro e se agarrar a uma parede giratória alta.

Sybil recebeu bastante tempo de tela e surpreendeu o público da época com uma piada visual um tanto ousada em que sua personagem, na banheira, deixa cair o sabonete no chão e uma mão aparece diante da lente da câmera para que ela possa ir até ele e pegá-lo sem revelar nada. Mesmo na época, o momento foi comentado: “Há um toque picante em uma cena”, observou uma crítica no The Film Daily, “mas é inofensivo e perfeitamente inocente”. E, de fato, Sybil interpreta a cena com uma leveza descontraída, sorrindo para agradecer à câmera assim que o sabonete está em suas mãos novamente. Sua personalidade imperturbável em frente às câmeras, bem como a capacidade de acompanhar Keaton e realizar suas próprias cenas de ação, renderiam a ela papéis em outros quatro curtas de Keaton. 

Buster Keaton and Sybil Seely em One Week (1920).

Buster Keaton, Sybil Seely e Roscoe Arbuckle no set de filmagem.

Buster Keaton com Sybil Seely em uma cena de The Scarecrow (1920).

Em “Convict 13″ (1920), o papel de Sybil como a filha do diretor da prisão que ajuda salvar a vida do personagem de Keaton é um pouco menor, embora a inventividade de sua personagem seja importante para o filme. Seu filme seguinte com Keaton foi o encantador “The Scarecrow” (1920), no qual ela vive a filha de um fazendeiro cuja mão é disputada por Keaton e um rival,e oferece a ela mais oportunidades de brilhar. Após este filme, Sybil foi substituída por Virginia Fox, outra das Bathing Beauties, que atuou como a noiva de Keaton em seu filme seguinte, “Neighbors”. O motivo dessa substituição não ficou claro. O crítico e estudioso do cinema Rudi Blesh acreditava que ela poderia ter se mostrado “um pouco frágil” para as cenas de humor físico de Keaton.

O mais certo é afirmar que na época das filmagens de “The Scarecrow”, Sybil já estava grávida de seu filho com Futherman, Jules Jr., que nasceu em 20 de março de 1921 . É plausível que ela tenha decidido dar uma pausa na carreira cinematográfica, o que levou Keaton a procurar uma nova protagonista. E, de fato, no início de setembro de 1920, os jornais especializados anunciaram que Virginia Fox havia assinado contrato com o estúdio de Keaton — logo após o  término das filmagens de “The Scarecrow”. Virginia se tornaria uma das mais recorrentes protagonistas de Keaton, aparecendo em “The Haunted House”, “Cops” e “The Paleface”, entre outos, mas abandonaria a atuação em 1924 quando se tornou a esposa do chefão da Fox, Darryl F. Zanuck, com quem seguiu casada até a morte dele em 1979.

Buster Keaton and Sybil Seely em One Week (1920).

O último papel de Sybil no cinema em 1920 foi uma pequena participação em um curta-metragem de Sennett chamado “Bungalow Troubles” e ela não apareceu em mais nenhum filme até retornar ao estúdio de Keaton para atuar não creditada como a esposa dele em “The Boat”(1921). No filme, Keaton faz um pai de família desastrado que constrói um barco mas uma série de contratempos atrapalham seus planos de navegar nele com a esposa e os filhos. Há mais do que um simples paralelismo entre a casa destruída pelo trem em “One Week” e a casa destruída pelo barco em “The Boat”. Keaton considerou combinar ambos os curtas em um único filme de quatro rolos que acompanharia as aventuras de um jovem casal. Para isso, Virginia Fox, que originalmente interpretaria a esposa em “The Boat”, foi substituída por Sybil Seely, que interpretou a esposa em “One Week”. No entanto, a ideia de combinar os filmes nunca se concretizou.

Depois de “The Boat”, Sybil fez aparições em alguns filmes de Sennett e também na Fox, onde seu marido foi roteirista de 1919 a 1923. Seu último trabalho com Keaton foi o da esposa de seu personagem em “The Frozen North”, de 1922, uma sátira debochada aos filmes de faroeste de William S. Hart e uma resposta de Keaton ao testemunho incriminador dado por Hart no processo em que Roscoe Arbuckle era acusado do assassinato da atriz Virginia Rappe. Após “The Frozen North”, Sybil se aposentou das telas para se dedicar ao lar e à criação de seu filho Jules Jr. que necessitava de cuidados especiais. Seu marido Jules Sr. se tornou um dos roteiristas mais famosos dos Estados Unidos, respeitado por sua capacidade de escrever para qualquer gênero. Os Furthmans permaneceram casados ​​e felizes até a morte de Jules em 1966 após sofrer um derrame.

No final da vida, Sybil morou com sua irmã Connie em sua casa em Culver City. Em 26 de junho de 1984, ela faleceu em casa, vítima de insuficiência cardíaca. Foi sepultada ao lado do marido no cemitério Forest Lawn. Sua lápide traz a inscrição “Amada Esposa e Mãe” e “Deus é a Minha Vida”. Apesar de uma filmografia relativamente curta, Sybil Seely deixou uma marca indelével na comédia muda. Buster Keaton teve sorte em tê-la descoberto e sua presença revigorante em seus primeiros filmes foi um fator importante para a excelência deles e ainda contribuiu para a capacidade que ainda hoje têm de cativar novos públicos.

Os cinco filmes que Sybil Seely estrelou ao lado de Keaton estão em domínio público e podem ser assistidos ou baixados de graça através do site Internet Archive:

One Week (1920)
Convict 13 (1920)
The Scarecrow (1920)
The Boat (1921)
The Frozen North (1922)

Fonte: Silent-ology, Wikipedia | Fotos adicionais: Acervo do Blog

Aniversariante do Dia: Gene Tierney

Gene Tierney, uma das atrizes mais encantadoras da Era de Ouro de Hollywood, deixou uma marca indelével na indústria cinematográfica com suas performances cativantes e beleza atemporal. Nascida em 19 de novembro de 1920, no Brooklyn, Nova York, ela foi criada em uma família abastada que incentivou suas aspirações artísticas. Durante uma visita aos estúdios da Warner Bros. na adolescência, Gene chamou a atenção de executivos de cinema que sugeriram que ela seguisse a carreira de atriz.

Depois de estudar em uma escola de etiqueta na Suíça e aprimorar seu talento no teatro de Nova York, ela fez sua estreia na Broadway em “The Male Animal” (1940), que rapidamente recebeu aclamação da crítica. Sua beleza estonteante e talento natural logo a levaram a um contrato com a 20th Century Fox, marcando o início de uma carreira prolífica. Os primeiros papéis de Gene no cinema incluíram a comédia dramática “Caminho Áspero” (Tobacco Road, 1941) e a comédia fantástica “O Diabo Disse Não” (Heaven Can Wait, 1943), que mostraram sua versatilidade, elegância e inegável presença em cena.

Gene Tierney em uma cena do thriller noir Tensão em Shangai (The Shanghai Gesture, 1941).

Gene Tierney e Henry Fonda na comédia romântica Ela Queria Riquezas (Rings on Her Fingers, de 1942).

Gene Tierney e Dana Andrews no drama noir Laura (1944), o filme pelo qual ela é mais lembrada.

Em meados da década de 1940, Gene Tierney ascendeu ao estrelato, consolidando seu lugar como uma das atrizes mais icônicas de Hollywood. Sua interpretação de Laura Hunt no clássico drama noir “Laura” (1944) permanece uma das performances mais celebradas de sua carreira. A beleza melancólica da personagem-título, combinada com a presença magnética de Tierney, solidificou o filme como uma obra-prima e a atriz como um ícone cultural.

Essa fase de sua carreira também incluiu papéis marcantes em “Amar Foi Minha Ruína” (Leave Her to Heaven, 1945), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Sua capacidade de incorporar charme e complexidade permitiu que ela se destacasse em diversos gêneros, de romance fantástico como “O Fantasma Apaixonado” (The Ghost and Mrs. Muir, 1947) a thrillers e dramas como “A Ladra” (Whirlpool, 1949). As performances de Tierney eram marcadas por uma profundidade emocional que ressoava com o público, tornando-a uma figura amada durante a era de ouro do cinema.

Gene Tierney e Jeanne Crain estudam o roteiro no set do filme noir Amar Foi Minha Ruína (Leave Her to Heaven, 1945).

Gene Tierney e Tyrone Power em uma foto publicitária para o drama noir O Fio da Navalha (The Razor’s Edge, 1946).

Gene Tierney e Richard Widmark em uma foto publicitária para o drama noir Sombras do Mal (Night and the City, 1950).

Apesar dos desafios pessoais, Gene Tierney permaneceu um símbolo de graça e resiliência. Na década de 1950, ela aceitou menos papéis enquanto enfrentava problemas de saúde mental, uma jornada que mais tarde detalhou com notável franqueza em sua autobiografia. Sua coragem ao lidar com esses desafios acrescentou mais uma camada ao seu legado, inspirando inúmeros admiradores. Gene retornou às telas no início da década de 1960 para alguns filmes antes de se aposentar da atuação para se concentrar em sua vida pessoal.

Gene Tierney faleceu em 6 de novembro de 1991, mas seu impacto no cinema perdura. Suas performances, celebradas por sua elegância e nuances emocionais, continuam a cativar o público. A carreira de Gene Tierney permanece um testemunho de seu talento artístico e de sua capacidade de navegar pelas complexidades da fama com uma elegância incomparável, garantindo seu lugar como uma das figuras mais icônicas da Era de Ouro de Hollywood.

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