A academia de boxe cheirava a sovaco, suor peludo, impregnado nas lonas ensebadas e maturadas pela umidade cozida em um teto de zinco. O ar pastoso era movido por preguiçosos ventiladores que faziam as vezes de uma colher de pau. Uma lufada de ar sortuda podia se arrastar lá dentro por anos até ganhar a liberdade através de um ou outro basculante emperrado aberto no alto das paredes do galpão.
O lugar era um gelo, mas a gente estava sempre lá. Na quitinete dela. Ombro a ombro, no sofá de couro branco. Apesar da amizade, não éramos íntimos. Nem chegávamos a dividir o mesmo cobertor. Timidez demais, perigos e entraves, você sabe como é. Havia o vinho, claro, e a maconha, uma paixão comum. Aquela pontinha babada de seda, indo de uma boca a outra. Ela curtia, mas sem exageros. Beber e fumar atrapalha a fruição dos clássicos, e às vezes dá margem a confusões indesejadas, uma pena.
Um dos filmes lançados nos últimos anos de que mais gostei foi A Grande Beleza. Gostaria de escrever uma resenha sobre ele, mas estou sem tempo e numa ressaca braba da festa maravilhosa de ontem, na Urca, na residência de amigos. O casal acaba de se mudar para o bairro. Linda vivenda. Ontem, os garçons não deixavam os copos chegar na metade, fossem de cerveja, uísque ou espumante. Foi prudente terem deixado os papeletes de Engov no banheiro. Tomei um antes, um no meio e um depois da festa. Posso afirmar, o Engov já não é mais o mesmo, ou eu é que não sou.
Bom, dei um google e encontrei as informações básicas sobre o filme. A Grande Beleza é um drama/comédia, de 2013, dirigido por Paolo Sorrentino, com o roteiro dele e de Umberto Contarello. Vou copiar e colar aqui a sinopse: em Roma, durante o verão, o escritor Jep Gambardella reflete sobre sua vida. Ele tem 65 anos de idade. Desde o grande sucesso do romance “O Aparelho Humano”, escrito décadas atrás, ele não concluiu nenhum outro livro. A vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade e os luxos e privilégios de sua fama. Quando se lembra de um amor inocente da sua juventude, Jep cria forças para mudar sua vida e, talvez, voltar a escrever.
Também fiz questão de anotar algumas frases ditas por Jep de que gostei muito:
“Para esta pergunta, quando éramos crianças, meus amigos todos sempre davam a mesma resposta: vagina. Eu respondia: o cheiro da casa dos velhos. A pergunta era: o que você mais ama na vida? Eu estava destinado à sensibilidade. Eu estava destinado a ser um escritor. Eu estava destinado a me tornar Jep Gambardella.”
“Os trens das nossas festas são os melhores de Roma. Eles são os melhores porque rodam rodam e não levam a lugar nenhum.”
“Foi lindo não fazer amor esta noite.”
“É assim que sempre termina: com a morte. Mas primeiro há a vida, escondida sob o blá-blá-blá. Está tudo resolvido de acordo com a vibração e o barulho, o silêncio e o sentimento, a emoção e o medo. Os abatidos flashes inconstantes de beleza. E então a miserável e infeliz humanidade. Todos enterrados sob a capa do constrangimento de estar no mundo, blá-blá-blá. Do outro lado, é o que está além. E eu não sei lidar com o que está além. Portanto, aqui começo este romance. Afinal, é apenas um truque. Sim, é apenas um truque.”
Mas por que eu estou trazendo essas informações do nada?
Charlotte estranhou quando o motorista chegou para buscá-la no aeroporto. Geralmente aquele serviço de táxi tinha carros ao menos razoáveis, diferente do veículo velho, com a porta batida, que agora se abria para ela entrar. Também estranhou que o motorista não a tenha ajudado com a bagagem, que ela mesma colocou no porta-malas, para só então sentar-se no banco de trás. Mesmo depois de ter entrado, o motorista ainda demorou alguns segundos para virar-se para ela, distraído que estava estalando os dedos no ritmo da música.
Com um golpe de martelo na mandíbula, Leonard iria sentir aquilo por semanas, mas não conseguiria lembrar de onde vinha aquela dor. Enquanto estava consciente de tudo o que estava acontecendo naqueles poucos instantes antes de vir a amnésia de memórias recentes, teve foco para segurar o braço de Oh Dae-su antes de levar mais uma martelada. Desta vez, direto no olho. Torceu o braço do sujeito que gritou com um som estranho. Não era um grito qualquer. Parecia que estava faltando alguma coisa para o som parecer realmente humano. Um gordo com tetas enormes arranca o martelo da mão daquele oriental maluco e grita “Isso não pode!”. Oh Dae-su não interrompe seu urro descomunal para dar uma joelhada no abdômen de Leonard. Ele se curva sentindo o impacto em algum lugar entre o baço e o pâncreas. Com o rosto voltado para o chão, Leonard vê uma meia dúzia de fotos polaroid. No meio de uma luta, não havia como entender mais o que elas significavam. Ele sabia que tinha algo a ver com vingança. Sua mulher foi morta. Ele precisava se vingar. Era natural. É o que homens fazem. Mas ele não lembrava. Alguém ali no porão do bar do Moe chamava ele de Dory e dizia para revidar. Dory? Por que diabos aquele gordo com tetas de puta chamava Leonard de Dory?
As galinhas despertaram com a empolgação de quem não tem planos ou esperanças futuras. Assim que o galo deu seus primeiros berros anunciando o fim da escuridão, o galinheiro se encheu com o som de cacarejos e fofocas, todas querendo saber quantos ovos cada uma havia botado e quais delas seriam motivo de chacota por não ter cumprido com sua missão divina.
É um dia frio e cinza, daqueles capazes de deixar a cidade que já é grande ainda maior. Uma garota de cabelos laranja caminha entre a multidão de pessoas encasacadas que não se olham a não ser naqueles breves momentos nos quais um código de olhar rápido se faz necessário para que elas não trombem umas nas outras. O laranja do cabelo dela quebra o silêncio do mundo, acha o seu espaço entre a sinfonia de buzinas, motores e conversas altas em celulares. O silêncio do mundo é cheio de sons, cheio de excessos. É tudo, menos vazio. Diz tudo, mas não comunica. Ela, a garota do cabelo laranja, vestindo um casaco de frio azul, agora fuma um cigarro em frente a um restaurante enquanto observa o caminhar do mundo que não para, desejando por um segundo que a Terra não mais girasse, mas permanecesse em suspensão por um minuto, calma, como dois amantes que após o gozo dormem abraçados segurando o sol para que o dia não amanheça e separe seus corpos novamente.