quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Defensores de assassinos

Editorial Gazeta do Povo - originalmente AQUI  (publicado em 12/02/2014)

"Os black blocs não chegaram aonde chegaram por acaso. Contaram com o apoio de muita gente"


A morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, da Band, atingido por um rojão lançado por um black bloc durante protesto no Rio de Janeiro na quinta-feira passada, causou uma onda nacional de comoção. Quando um artefato como esse, cujo poder letal é conhecido, é disparado diretamente contra outras pessoas, estamos diante de um crime – não importa se a vítima é jornalista, policial ou manifestante. Os assassinos precisam ser responsabilizados pelo que fizeram, mas o episódio também pede um exame de consciência daqueles que, desde o início das grandes manifestações de rua, criaram o cenário que permitiu aos black blocs acreditarem que podiam fazer o que bem entendessem.

Os black blocs não chegaram aonde chegaram por acaso. Contaram com o apoio, implícito ou explícito, de muita gente. Famosos e anônimos, mais ou menos influentes, muitas vezes contaminados por ideologias que veem legitimidade na violência quando usada para os fins que lhes apetecem. Repetem, assim, os tristes exemplos do historiador Eric Hobsbawm, para quem as dezenas de milhões de mortes provocadas por Stalin seriam justificáveis se servissem para concretizar a utopia comunista; e do arquiteto Oscar Niemeyer, que pensava da mesma forma. Hobsbawm e Niemeyer não viveram para ver os black blocs em ação no Brasil, mas, a julgar por suas ideias, talvez até endossassem a ação dos mascarados.
Em editorial de outubro do ano passado, a Gazeta do Povo manifestou sua preocupação com a construção, nas universidades brasileiras, de um arcabouço teórico que justificava a depredação black bloc, inspirado nos “autonomistas” italianos que providenciaram uma base intelectual para os terroristas que agiam naquele país, nos anos 70. Professores de universidades renomadas, como a USP e a FGV, escreveram em defesa dos mascarados meses atrás, provavelmente inspirados por autores como Slavoj Zizek, um dos principais intelectuais de esquerda da atualidade e defensor enfático da “violência revolucionária” como uma necessidade. Na mesma ocasião, lembramos que os professores da rede pública do Rio de Janeiro adotaram os black blocs como parceiros durante a greve da categoria, como direito a refrões como “uh, é black profes!”
Em um apoio menos teórico, mas mais midiático e instantâneo, alguns artistas manifestaram solidariedade adotando a estética black bloc, deixando-se fotografar imitando os vândalos mascarados. Foi assim com o rapper Marcelo D2 – explícito em seu apoio aos black blocs – e com o cantor e compositor Caetano Veloso, que, surpreso com a maneira como a imagem se espalhou pelas mídias sociais, contou a história da foto em um artigo no jornal O Globo. Caetano, para quem “proibir máscaras numa cidade como o Rio é violência simbólica”, disse que não fez a foto para ser divulgada e que nem era “anticapitalista convicto”, mas emendou: “Entendo que black bloc faz parte”.
Também é preciso lembrar a ação não menos eficaz de alguns setores da imprensa que se empenharam em demonizar a polícia até que, como lembrou a Gazeta recentemente, ela fosse sempre considerada “suspeita até prova em contrário”. Com isso, aqueles que tinham a possibilidade de frear os black blocs acabaram neutralizados, receosos da repercussão negativa que teriam caso apenas fizessem seu trabalho. Logo após Andrade ter sido ferido, um repórter afirmou que o rojão que atingiu o cinegrafista tinha partido da polícia. Depois, por muito tempo insistiu-se na narrativa segundo a qual “não se sabia de onde tinha partido o artefato” mesmo depois de ficar claro que a polícia não trabalhava com bombas que produzissem o efeito registrado nas imagens da agressão. É como se alguns jornalistas alimentassem um desejo secreto de que, no último instante, surgisse uma prova de que não tivessem sido os black blocs (tratados com condescendência em muitas reportagens, aliás) os responsáveis pelo ataque ao repórter cinematográfico.
Nesse sentido, não pode ser ignorado o teor da nota que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro emitiu no dia seguinte ao ataque. A julgar pelo texto divulgado, responsabilizar a emissora onde Andrade trabalhava por não ter lhe fornecido equipamentos de proteção parecia mais importante para a entidade que descobrir quem tinha sido o autor do ataque.
Os black blocs não se tornaram criminosos só agora que acrescentaram um homicídio à sua folha corrida; eles já eram bandidos muito antes disso. Se alguns repensarem seu endosso aos black blocs por causa da morte de Santiago Andrade, que aproveitem essa ocasião para se perguntar por que tiveram de esperar até que houvesse uma morte para tal. A essa altura, insistir em apoiar os vândalos (e agora também assassinos) mascarados mesmo depois desse episódio que entristece o Brasil significa assumir a cumplicidade com a barbárie. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

José Dirceu: um hotel para chamar de seu

por Celso Arnaldo Araújo


A cena não é real, mas o diálogo faz muito sentido. Um homem de 67 anos, corpulento, cabelos grisalhos escorrendo sobre a nuca, entra com passos lentos no quatro-estrelas St. Peter, o maior hotel da área central de Brasília, com 423 apartamentos, e se encaminha à recepção.
─ Vocês têm vaga?, pergunta o homem, com forte sotaque do interior de São Paulo.
─ Temos, sim, quantos dias o senhor pretende ficar conosco?
─ Sete anos e 11 meses. Mas não é para dormir.
─ Como, senhor? Quer se hospedar no hotel só durante o dia? E por sete anos? Perdão, mas nós não trabalhamos com o sistema de estadias prolongadas diurnas.
─ Acho que houve um mal entendido: eu perguntei de vagas de emprego no hotel.
─ Ah, temos várias. Mas isso é com o RH. Segundo andar, sala 21, Robson.
********************
─ Bom dia, sr. Robson?
─ Sim.
─ Vocês têm vagas no quadro de funcionários?
─ Diversas. Que área o senhor procura?
─ Cargo de chefia.
─ Pode resumir seu currículo?
─ Sou formado em Direito, mas nunca exerci. Fui líder estudantil, tive alguns problemas e precisei sair do Brasil. Morei muitos anos no México e em Cuba, onde não exerci nenhuma atividade profissional. Quando voltei, entrei para a política e me tornei funcionário público.
─ Em que área?
─ Funções políticas e partidárias. O senhor sabe, aqui em Brasília é difícil sair disso.
─ Alguma experiência em hotelaria?
─ Só de ficar hospedado. Mas conheço cinco estrelas do mundo todo.
─ O que o senhor considera como sua principal qualidade?
─ Eu abro portas.
─ Muito bem, mas acho que o emprego de chefe de portaria está fora de cogitação. O senhor merece coisa melhor. Que mais destacaria em seu perfil?
─ Como estamos falando de hotelaria, eu arrisco dizer: acomodo bem e no lobby sou muito articulado. Aliás, quando o senhor perguntou sobre minha experiência em hotel, esqueci de mencionar que fiquei algum tempo no lobby do hotel Naoum, aqui do lado, mas nada oficial. Não pus nem no currículo. E, se isso interessar à sua empresa, tenho excelentes contatos. Talvez os melhores do país no momento.
─ Ótimo. O senhor é o homem para preencher nossa vaga de gerente administrativo. Vínhamos tendo muitas dificuldades para contratar a pessoa certa. Foi uma longa busca, mas sinto que valeu a espera. O salário é de 20 mil reais por mês. O senhor aceita?
─ Fixo ou variável?
─ Para começar, fixo. Mas, dependendo do seu rendimento no posto, temos um sistema de participação nos lucros.
─ É como costumo trabalhar. Aliás, gostei daqui. Gostei do vai e vem, do entra e sai. Um detalhe: só posso trabalhar das 8 às 5. Algum problema?
─ Nenhum. Mas é uma pena que o senhor não possa estar conosco em nossos eventos noturnos, jantares, conferências, simpósios. São muito concorridos. Até ministro do Supremo frequenta aqui. Mas vamos ao que interessa. Trouxe a carteira de trabalho? Já sai daqui registrado.
─ Está aqui. Mas tenho que resolver alguns probleminhas antes de começar. Algum problema?
─ Nenhum. Com a carteira assinada, o senhor começa a ganhar a partir de agora. Faça o que precisa fazer e nos avise. Mas deixa eu preencher uma fichinha básica. Nome?
─ José Dirceu de Oliveira e Silva.
─ Endereço?
– Rodovia DF 465, quilômetro 04, Fazenda Papuda.
─ O endereço me parece familiar… Ah já sei! É aquele condomínio fechado aqui em São Sebastião, Distrito Federal, né? Aqui em Brasília só se fala nele como o novo endereço do poder. O senhor tem banqueiros, publicitários e até deputados como vizinhos, não é mesmo?
─ Isso mesmo.
─ Só falta uma informação na ficha. Ocupação atual?
─ Presidiário.
─ Ninguém é perfeito.
─ Muito grato por sua atenção. Ah, deixa eu lhe perguntar uma coisa. Tenho um grande amigo, vizinho de condomínio, que também procura uma colocação.
─ O que ele faz?
─ Já foi diretor financeiro de uma grande instituição. A contabilidade mensal dele é impecável. Mas, se não houver vaga nessa área aqui no hotel, ele se daria muito bem na lavanderia.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

‘O poder da burrice’ - por Nelson Motta

publicado em 13/09/2013 em O Globo

"Todos os governantes, políticos, empresários, juízes, policiais e burocratas corruptos estão aliviados e serão eternamente gratos aos black blocs e vândalos em geral, que lhes prestaram o grande serviço de expulsar das ruas as manifestações populares que exigem mudanças urgentes e têm neles os seus principais alvos. Por ignorância e estupidez, fazem de graça o trabalho sujo em favor do que há de pior no Brasil. E ainda se acham revolucionários… rsrs
Em São Paulo, um idiota mascarado dizia na televisão que o seu objetivo era dar prejuízos a empresas multinacionais do bairro. Se fosse o repórter, eu lhe perguntaria se ele nunca imaginou que a única consequência de uma vitrine de banco quebrada é o seguro pagar uma nova. E, se o seguro ficar mais caro, os bancos repassam o aumento para todos os seus clientes. Mas a anta encapuzada acha que está combatendo o capitalismo… rsrs
Outro bobalhão, no Rio, encurralado por um policial, exibia o cartaz “não há revolução sem violência”, mas não quer que o Estado democrático se defenda da revolução dele com todos os meios, inclusive a violência. As cenas das turbas desembestadas escoiceando vitrines, pulando em cima de carros, derrubando e incendiando latas de lixo, não evocam a queda da Bastilha ou as revoltas de maio de 68, mas as imagens grotescas e os grunhidos do “Planeta dos macacos”.
A violência é humana e pode ser legítima, criminosa, doentia, perversa, criadora, gratuita, justa ou inevitável, pode até ser o motor da história, e a sociedade democrática tem que conviver com ela e encontrar um equilíbrio entre os direitos individuais e coletivos. Mas nunca foi tão burra como agora no Brasil.
Atuando como tropa de choque dos políticos bandidos, esses anarquistas de araque não sabem que são apenas fascistas, e usam as liberdades e garantias da democracia para ameaçá-la, impedindo que a população ocupe as ruas duramente reconquistadas da ditadura e livrando os verdadeiros inimigos do povo da pressão popular. Nunca tão poucos, e tão burros, deram tanto prejuízo a tantos, não a bancos e seguradoras, mas à democracia no Brasil."

domingo, 8 de setembro de 2013

#VempraRua? 2014

Avaliando os protestos de 7 de setembro...

cartaz by narizgelado

No dia em que se deveria exaltar e festejar um BRASIL livre e independente, percebemos o quanto os "poderosos" - elite política governamental - , por ideologias equivocadas (pra não dizer claramente: totalitárias e cruéis), tentam nos manipular e escravizar.

Embora estivessem em um número muito menor, os eventos de hoje foram 'pautados' por uma súcia de baderneiros alugados.

A grande maioria da população, os verdadeiros manifestantes espontâneos de junho, está indignada e não aguenta mais tanta roubalheira e descaso dos nossos 'governantes'. 

Ninguém suporta mais pagar impostos altíssimos - 5 meses de salário suado ao ano - para, em troca, receber praticamente NADA de melhoria de vida. 

Os 'movimentos sociais' - fartamente financiados pelo governismo com a grana do trabalhador honesto - botam seus militantes nas ruas com bandeiras e pautas que não representam o desejo popular. 

Não passam de paus mandados, evidentemente comprados - e o que é pior, às nossas custas..

Os 'black blocs' (MST da vez, que agora está em 'moda') promovem a arruaça, desafiam criminosamente a polícia e tumultuam a ordem pública, usurpando, pela força e arrogância, o lugar dos cidadãos comuns.

A 'estratégia' petralha é justamente esta: incentivar os arruaceiros - alguns desinformados - e vândalos para evitar que as pessoas de bem se manifestem, pacificamente, cobrando as soluções que nunca chegam. 

É a ditadura velada - amoral e anti-ética -  que nos é imposta pelos 'donos' dos cofres públicos - que se consideram imunes às Leis, -  que CONFISCA o direito de expressão das pessoas honestas, afastando-as das ditas 'manifestações democráticas', por...  MEDO da violência 'nas ruas'...

Gananciosos, insensíveis e oportunistas, riem da nossa boa-vontade, desprezam nossos direitos, roubam-nos a dignidade.. 

BASTA!!!

Não somos imbecis, estamos vendo e acompanhando TUDO!
Não nos tratem por palhaços!


O troco virá, com certeza (como bem lembrou a NarizGelado)...

em 2014

#ForaPT

#VEMpraURNA

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Atualização 15:35
CQD:
Grupo dos Excluídos expulsa manifestante que distribuía placas contra a corrupção em Porto Alegre - matéria na íntegra e vídeo
"O folheto confeccionado para o 19º Grito dos Excluídos apresenta como slogan: "Expressar e participar: direito e liberdade".
Mas essa liberdade só vale para protestar por determinadas causas: um estudante de 18 anos que participava das manifestações em Porto Alegre, na manhã deste Sete de Setembro, foi expulso do movimento por estar distribuindo placas contra a corrupção." (ZH)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O fascismo do PT contra os médicos - Luis Felipe Pondé

artigo de Luis Felipe Pondé
publicado originalmente na Folha de São Paulo desta segunda-feira - 02/09/2013

O PT está usando uma tática de difamação contra os médicos brasileiros igual à usada pelos nazistas contra os judeus: colando neles a imagem de interesseiros e insensíveis ao sofrimento do povo e, com isso, fazendo com que as pessoas acreditem que a reação dos médicos brasileiros é fruto de reserva de mercado. Os médicos brasileiros viraram os "judeus do PT".

Uma pergunta que não quer calar é por que justamente agora o governo "descobriu" que existem áreas do Brasil que precisam de médicos? Seria porque o governo quer aproveitar a instabilidade das manifestações para criar um bode expiatório? Pura retórica fascista e comunista.

E por que os médicos brasileiros "não querem ir"?
A resposta é outra pergunta: por que o governo do PT não investiu numa medicina no interior do país com sustentação técnica e de pessoal necessária, à semelhança do investimento no poder jurídico (mais barato)?

O PT não está nem aí para quem morre de dor de barriga, só quer ganhar eleição. E, para isso, quer "contrapor" os bons cidadãos médicos comunistas (como a gente do PT) que não querem dinheiro (risadas?) aos médicos brasileiros playboys. Difamação descarada de uma classe inteira.

A população já é desinformada sobre a vida dos médicos, achando que são todos uns milionários, quando a maioria esmagadora trabalha sob forte pressão e desvalorização salarial. A ideia de que médicos ganham muito é uma mentira. A formação é cara, longa, competitiva, incerta, violenta, difícil, estressante, e a oferta de emprego descente está aquém do investimento na formação.

Ganha-se menos do que a profissão exige em termos de responsabilidade prática e do desgaste que a formação implica, para não falar do desgaste do cotidiano. Os médicos são obrigados a ter vários empregos e a trabalhar correndo para poder pagar suas contas e as das suas famílias.

Trabalha-se muito, sob o olhar duro da população. As pessoas pensam que os médicos são os culpados de a saúde ser um lixo.

Assim como os judeus foram o bode expiatório dos nazistas, os médicos brasileiros estão sendo oferecidos como causa do sofrimento da população. Um escândalo.

É um erro achar que "um médico só faz o verão", como se uma "andorinha só fizesse o verão". Um médico não pode curar dor de barriga quando faltam gaze, equipamento, pessoal capacitado da área médica, como enfermeiras, assistentes de enfermagem, assistentes sociais, ambulâncias, estradas, leitos, remédios.

Só o senso comum que nada entende do cotidiano médico pode pensar que a presença de um médico no meio do nada "salva vidas". Isso é coisa de cinema barato.

E tem mais. Além do fato de os médicos cubanos serem mal formados, aliás, como tudo que é cubano, com exceção dos charutos, esses coitados vão pagar o pato pelo vazio técnico e procedimental em que serão jogados. Sem falar no fato de que não vão ganhar salário e estarão fora dos direitos trabalhistas. Tudo isso porque nosso governo é comunista como o de Cuba. Negócios entre "camaradas". Trabalho escravo a céu aberto e na cara de todo mundo.

Quando um paciente morre numa cadeira porque o médico não tem o que fazer com ele (falta tudo a sua volta para realizar o atendimento prático), a família, a mídia e o poder jurídico não vão cobrar do Ministério da Saúde a morte daquele infeliz.

É o médico (Dr. Fulano, Dra. Sicrana) quem paga o pato. Muitas vezes a solidão do médico é enorme, e o governo nunca esteve nem aí para isso. Agora, "arregaça as mangas" e resolve "salvar o povo".

A difamação vai piorar quando a culpa for jogada nos órgãos profissionais da categoria, dizendo que os médicos brasileiros não querem ir para locais difíceis, mas tampouco aceitam que o governo "salvador da pátria" importe seus escravos cubanos para salvar o povo. Mais uma vez, vemos uma medida retórica tomar o lugar de um problema de infraestrutura nunca enfrentado.

Ninguém é contra médicos estrangeiros, mas por que esses cubanos não devem passar pelas provas de validação dos diplomas como quaisquer outros? Porque vivemos sob um governo autoritário e populista.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

"Câmara dos horrores"

Editorial Estadão em 30/08/2013

É ainda pior do que diz o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), dos costumes políticos brasileiros. “O povo saiu das ruas e já não se fala em mudanças”, comentou, desacorçoado, na sessão da quarta-feira, quando a Corte examinava mais três recursos pela redução das penas de réus do mensalão. É pior porque, enquanto as mudanças se esfumam, os horrores éticos se escarrapacham, desenvoltos, no Congresso. Ao fazer a sua desalentada constatação, Barroso decerto nem supunha que, horas depois, a Câmara perpetraria a enormidade de manter o mandato do deputado Natan Donadon, eleito pelo PMDB de Rondônia.
Em 2010, numa decisão sem precedentes, o Supremo condenou o parlamentar a 13 anos, 4 meses e 10 dias de prisão em regime fechado, além de multa, por peculato (crime praticado por servidor público contra a administração) e formação de quadrilha. Em junho passado, a Corte deu um basta aos intermináveis recursos protelatórios com que os seus advogados pretendiam impedir a consumação do castigo imposto ao cliente e determinou a remoção do político para o Presídio da Papuda, no Distrito Federal. Dali ele saiu algemado anteontem à noite para defender o seu mandato, entre lágrimas e invocações do nome de Deus. Antes de começar o espantoso espetáculo, a sua cassação era dada como certa pelos mais experientes membros da Casa.
Pelo visto eles não levaram na devida conta a ilimitada prontidão do chamado baixo clero para degradar o Legislativo federal, nem a solidariedade de seus colegas evangélicos, nem o frio cálculo de conveniências da bancada petista. Graças a essa aliança tácita – e às regras previstas para esse tipo de decisão – Donadon pôde tomar o camburão de volta para a cadeia, de novo algemado, mas levando consigo o mandato que, imagine-se como, conquistou no seu Estado. O regimento da Câmara determina que a cassação precisa ser aprovada por 257 deputados (metade mais 1 do total), em votação secreta. Donadon se safou porque faltaram 24 votos para removê-lo. Ele teve o apoio de 131 de seus pares, mas a sua tábua de salvação foram as 41 abstenções, 21 delas da bancada do PT.
Os petistas quiseram criar um precedente para evitar a cassação dos companheiros mensaleiros José Genoino e João Paulo Cunha, além de seus cúmplices Pedro Henry, do PP, e Valdemar Costa Neto, do PR. Exceto Cunha, os demais deverão cumprir pena em regime semiaberto. Mas o sucesso da manobra parece duvidoso. É fato que o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves, mandou convocar o primeiro suplente de Donadon, Amir Lando, para ocupar a sua cadeira, argumentando que, mesmo em posse do mandato, o condenado não teria como exercê-lo fisicamente. Já Costa Neto, Genoino e Henry poderiam ser deputados de dia e reclusos de noite – o cúmulo do surrealismo.
Só que isso talvez não se concretize, porque Henrique Alves, tendo segurado o início da fatídica sessão por quase cinco horas e mantido aberto o painel de votação por mais de duas horas – na esperança de que outros deputados aparecessem em plenário para salvar, literalmente, a honra da Casa –, tomou a melhor decisão possível nas circunstâncias. Com o poder que a função lhe concede, comunicou que só voltará a permitir que novos casos do gênero entrem na pauta de deliberações depois da aprovação da emenda constitucional que prevê o fim do voto secreto em processos de cassação. O próprio escândalo do mandato de Donadon poderá apressar o trâmite da proposta moralizadora.
De todo modo, a prerrogativa do Congresso de preservar ou não os mandatos de políticos condenados foi assegurada pelo STF no recente julgamento do senador Ivo Cassol, também de Rondônia, sentenciado a 4 anos, 8 meses e 26 dias por fraudar licitações quando prefeito de Rolim Moura. A decisão de entregar o seu destino político aos seus pares contrariou a posição tomada no caso dos políticos mensaleiros. Destes se pode dizer, caridosamente, que cometeram crimes na esfera política. Mas Donadon é um criminoso que só se diferencia de tantos outros porque tungava o Legislativo estadual de que era diretor financeiro. Os seus protetores na Câmara rivalizam com ele em estatura.