O texto que abaixo transcrevo é mais do que um comentário do João Carmo Lopes ao meu post, “Louçã lidera a oposição”. É um artigo que em minha opinião coloca questões muito concretas sobre o Bloco de Esquerda, sobre os equilibrios das diferenças tendências, sobre o futuro do Bloco. Revejo-me muito no que é dito e parecendo-me um documento de extrema importância para o debate, sobre as mudanças na esquerda e sobre o projecto do Bloco, deixo-o aqui completo, esperando que suscite alguma discussão. Vamos a isso!
Por João Carmo Lopes
Louçã é evidentemente um líder, singular infelizmente. Francisco Louçã passou a fase da moda e assume-se, e pelos vistos é reconhecido, como um homem de convicções, de princípios. Um líder inteligente, competente e lutador.Porem a liderança é também uma questão de estar consciente do que está acontecer ao grupo, ao seu partido, e agir apropriadamente. Aqui tenho serias dúvidas de que Louçã se afirme.
Não há dúvida de que [Louçã]se destaca, até pela afabilidade, do grupo dos quatro que lideram o partido que ajudou a fundar. A sua estrela brilha mais que qualquer uma, dos outros três aliás, alguns são meras candeias. Mas a liderança tem também uma outra vertente, um outro aspecto se quisermos, eventualmente administrativo, mas fundamental na capacidade de harmonizar as necessidades e disponibilidades dos indivíduos, dos militantes com as exigências da organização. Nesta questão, creio que Louçã tem ainda muito para calcorrear.
Enquanto não se espartilhar por completo os acordos tácitos do bando dos quatro, não é possível dar respostas à questão que colocas quando escreves «outra coisa bem diferente é a desconfiança, a falta de audácia, o temor pela mudança, pelo novo, o conservadorismo típico dos portugueses, os fantasmas que povoam as nossas mentes, o medo de novas políticas ao arrepio do pensamento único neoliberal».Liderança é a influência exercida e dirigida, através do processo de comunicação e de organização para a prossecução de propósitos comuns, de objectivos do partido. E isso Louçã não consegue. Ainda, espero eu.
Não consegue por causa dos equilíbrios. Louçã tem carisma suficiente para poder romper com praticas que gradualmente vão ganhando corpo no partido que ajudou a fundar. Se não tiver coragem para romper com elas, se em nome dos famosos equilíbrios fizer ouvidos de mercador aos rumores que vão chegando. Se, Louçã aceitar que a próxima convenção seja mais um estafado exercício de pseudo-democracia. Isto é: Se Louçã, se escudar nas couraças dos grupos de trabalho, ditos imbuídas da génese da democracia plena, onde toda a gente discute e manda bitates mas porque esses fóruns são órgãos abertos, onde a participação é um acto voluntário, dependendo da vontade do momento. Se não se tomam decisões, porque são órgãos abertos (não eleitos) l deixam terreno para que os “chicos espertos” do tipo pato-bravo (O pato bravo não é apenas uma ave que nidifica e procria na construção civil) chamem a si a decisão. Toda a gente que participa nesses fóruns são meras figuras decorativas, servem apenas para mesclar, com tintas de democracia as decisões que já estão tomadas. A democraticite é falsa democracia, escrevo mesmo inimiga mortal da democracia plena.Louçã, não apenas mas também, tem que saber romper com este estado de coisas.
Se o fizer é credor de toda essa simpatia que este povo que temos lhe devota, escrevi intencionalmente “devota”, se o não fizer corre o risco de ser mais uma desilusão, como já foram alguns dos seus companheiros do projecto original.
Adenda: Alguém ao lado sopra-me que os meus amigos do Bloco não vão gostar desta postagem. Era o que faltava! Se assim acontecer apenas lamento. O “meu” Bloco é isto. A livre discussão, a discussão sem limites, a discussão sem paredes (mesmo de vidro). Dizer bem e dizer mal, criticar ou aplaudir mas com lealdade, para continuar a privilegiar o projecto.
PS: Adenda minha (do Fernando).