Respondendo ao desafio da Trilby.
O que eu queres ser quando fores grande? Mudando os tempos dos verbos para o passado e recuando mais de quatro décadas essa pergunta era quase descabida. Não me lembro de ter grandes sonhos. A minha mãe era sucateira, umas vezes, calcorreando as aldeias e as ruas da cidade, comprando ferro velho, garrafas e farrapos, agarrado ao carro de mão, com duas grandes rodas de ferro, a parar aqui e ali, para depois levar para o seu próprio armazém de sucata, armazém que era, simultaneamente, a nossa habitação. Outras vezes à espera que as pessoas pobres, curioso como foram os pobres que alimentaram a indústria da sucata, naqueles tempos, apanhado ali ou acolá, uns ferros velhos, os cartões de embalagens, o cobre dos fios eléctricos, o alumínio dos tachos deitado ao lixo, para ir vender à minha mãe. Depois a minha mãe vendia a um grande sucateiro, que adiantava ainda algum dinheiro, de modo a permitir à minha mãe comprar aos outros.
O que queria ser quando fosse grande? Bem eu com 10 anos, já trabalhava, depois de vir da escola. Mais tarde ainda fiz o ciclo preparatório até que aos 13 anos, deixei de estudar de dia e tive o meu primeiro emprego a sério, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e fui estudar à noite. Nessa altura queria ser electricista. Sim electricista era o que eu queria ser! Os meus irmãos esses, ficaram uns pela 4ª classe, já trabalhavam há muito e eram bombeiros e por influência deles, também cheguei a pensar ser bombeiro. Nunca cheguei a ser. Mas sou associado isto é, pago as cotas. Não cumpri de um modo, cumpri de outro mais tarde. As minhas duas irmãs, uma disse-nos “adeus” mais cedo, e aos dezassete anos, saiu de casa e casou. A outra teve de deixar a escola aos sete anos para ir servir para a casa de uma senhora. Ah e tinha ainda uma irmã deficiente mental.
O que eu queria ser quando fosse grande? Ser feliz apenas, ter uma vida melhor, ajudar a minha mãe (o meu pai tinha partida para outra, com outra e levou-me com ele, mas a minha mãe, meteu pés ao caminho e foi-o descobrir em Camarate, lá para Lisboa, imaginem, ela que nunca tinha andado de comboio que não conhecia nada, uma analfabeta…). E queria brincar… brincar muito. Jogar à bola, jogar à lerpa, ao bilhar, assaltar os quintais para roubar fruta, partir os ovos dos galinheiros, fazer as maiores patifarias aos gatos. Deixei de estudar à noite. Custava tanto sair do trabalho, atravessar o Campo da Agonia naqueles Invernos fortes, chegar á escola molhado, sem comer até ao fim da noite… eu queria lá saber. Só fazia o primeiro período. E foi assim durante uns dois, três anos porque a minha mãe não desistia.
O que queria ser quando fosse grande? Quase dois anos depois vim no “balão” dos Estaleiros. Chamava-se “balão” ao despedimento por falta de trabalho. Mas três meses depois já estava nos CTT (hoje PT) até sempre. Depois deixei de ter sonhos. Apenas força de carácter para tentar ultrapassar obstáculos. Fui como jornaleiro (ganhava à jorna, por semana, sem vinculo). Depois quis ser instalador telefónico e como tinha algum conhecimento de electricista, fui contratado. Mais tarde sim. Foi uma luta intensa. Aproveitei uma prova para acesso a técnico de telecomunicações e com o apoio de um professor amigo (nessa altura já andava pela política, na OCMLP) em mais de oitenta candidatos, fui um de dois a passar. Com seis meses de formação, tive a vontade de regressar aos estudos e voltei à escola. Depois, num novo concurso para quadro médio, concorri e consegui o lugar, mas obrigou-me a abandonar outra vez a escola. Mais tarde, um chefe maior impediu-me de concorrer a uma carreira equivalente a quadro superior por falta de habilitações académicas. Faltavam-me duas disciplinas… por concluir, por causa concurso anterior e não ter professor a essas duas disciplinas, no ano anterior.
O que queria ser quando fosse grande? Queria ter sido o que fui, sinceramente.
O que quero ser quando for grande? Quero continuar a ser o homem de esquerda que sempre fui. O homem de combate que sempre fui, um homem justo, independente e solidário. Sem ser sectário, respeitando e tentando perceber os que pensam diferente de mim. Gosto de fazer o exercício do contra. Tipo advogado do diabo.
E acho que já disse muito, Trilby, muito mais do que pensava dizer. As coisas foram saindo assim.
O que achas que poderia querer ser, alguém que no primeiro dia de aulas, na primária, leva uma faca para matar o professor… que se coloca entre as traves dos caminhos-de-ferro e deixa o comboio passar por cima… que recebia dinheiro de pais de alunos mais ricos para tomar conta dos seus filhos … que obrigava o filho do director da escola a levar todos os dias um pão com manteiga para mim … que fazia as piores maldades … que fugia de uma casa de recolhimento dos pobres … um bandido, um Robim dos Bosques, sei lá bem.
Agradeço à minha mãe em particular e à participação na politica muito cedo, que me permitiu fazer o enquadramento da minha revolta, até ali não compreendida. Hoje, há muitos anos já, sou uma pessoa moderada, mas muito firme nos objectivos nobres. E acabaram-se as vaidades.
E o convite segue para o malaposta, a LuzFrancesa e a RupturaVizela. Agarrem faz favor.