O enriquecimento ilícito, a presunção de inocência e a inversão do ónus da prova.

corrupcao.gifIlustres figuras condenaram uma das propostas de Cravinho, (o Primeiro-Ministro, apelidou-a mesmo de “asneiras”), para a criação de um crime de enriquecimento ilícito, com o argumento que viola um princípio constitucional de presunção de inocência e de inversão do ónus da prova.

São conhecidos muitos casos de enriquecimento não esclarecido e que as leis actuais, a incompetência ou a falta de meios, não permitem descortinar as origens. De tempos a tempos é descoberto um caso ou outro, ainda assim difíceis de provar, porque os meios de fuga e de ocultação de provas, estão cada vez mais afinados e requintados. O enriquecimento ilícito configura um crime em que outrem é prejudicado para aquele enriquecer.

Não posso concordar que a obrigação de fazer prova de enriquecimento, seja presumir que passa a ser presumivelmente culpado. Não acho nada condenável, de qualquer ponto de vista, que alguém possa ser obrigado a demonstrar, os motivos para o acréscimo substancial dos seus bens patrimoniais. Se por exemplo, de repente, saldasse o meu empréstimo bancário, comprasse o último modelo do melhor carro e um iate, acharia normalíssimo, ser inquirido e obrigado a fazer prova, das razões para esse enriquecimento súbito. Não acharia, ninguém deveria achar, sendo o enriquecimento legítimo, que estavam a inculpar-me de qualquer coisa. Seria uma forma de dissuadir o crime.

Naturalmente que nestes casos estaríamos perante um caso de inversão do ónus da prova, mas não vejo, porque nos casos de “sinais evidentes de enriquecimento”, não possa estar consubstanciado na lei a inversão do ónus da prova.

Não percebo porque este tipo de propostas incomoda muita gente e são logo classificadas como asneiras, populistas ou demagógicas. E é tanto mais estranho, quando Cravinho pretendia apenas circunscrevê-las aos detentores de cargos políticos.

Em minha opinião, faz bem o Bloco de Esquerda em recuperar estas propostas de Cravinho, recusadas pelo PS e alargar a todos o âmbito deste crime. Quanto ao PSD, sinceramente, não acredito, apesar das primeiras declarações que vá para a frente com propostas idênticas.

Faço notar que Cravinho só retirou esta proposta do seu pacote de medidas anti-corrupção, para não servir de pretexto a um desviar da atenção, das suas outras propostas, dado saber que aquela teria a oposição de muitos, dentro e fora do Partido Socialista.

Brutalidades

A EDP quer dispensar 600 trabalhadores da área de distribuição, entre 2007 e 2010, tendo alocado 200 milhões de euros para rescisões de contrato e reformas antecipadas.

Até aqui, em principio, tudo bem. Quer as rescisões, quer a antecipação da reforma, dependem, em última análise, da concordância do trabalhador, com as propostas que lhes irão ser apresentadas, não obstante as “pressões” de que serão alvo, mesmo que aparentemente as condições possam ser atractivas. Sei-o por experiência própria.

O que está aqui em causa é que a EDP quer fazer repercutir nos consumidores os custos com a redução do pessoal. A proposta já foi feita à entidade reguladora (ERSE) que fixa os preços das tarifas e esta já disse que sim, espantem-se, se “existirem benefícios evidentes para os consumidores”. Benefícios para os consumidores como? Em quê?

Andam a brincar connosco! No início deste ano, os consumidores viram as suas tarifas aumentadas em 6 por cento. Mas como todos sabemos a EDP e a ERSE queriam que fosse 15,7 por cento. Queriam um aumento superior, para serem os consumidores a suportar os custos acumulados da construção das infra-estruturas de instalação e transporte da energia eléctrica, o chamado “défice tarifário”. Agora querem um novo aumento para poder dispensar trabalhadores. Parece que finalmente estamos a descobrir o rabo do gato escondido. Afinal o aumento pretendido de 15,7 por cento e que levou à demissão do Presidente da ERSE, já traria consigo um suporte adicional para estas reduções de pessoal. Ou conseguem imaginar um aumento de 15,7 seguido de mais outro, subtraído aos consumidores? Não me parece. Seriam aumentos ainda mais escandalosos.

O que não consigo perceber mesmo é como sendo a EDP, uma empresa com lucros fabulosos, precisa de ir mais ao bolso dos pobres consumidores.

O Primeiro-Ministro diz que é altura dos portugueses deixarem a fase do queixume e passarem à acção…

Eu também acho! (de que se está à espera?)