“… tomara que outro Zeca Afonso rasgue a mentira desta dinastia.”

Do livro Do Tempo de Quando de Adelaide Graça, as palavras da avó (Adelaide Graça) “à minha neta Camila, vinte anos depois da morte do Zeca Afonso.”

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E outras flores virão …

Olha o vento da janela e as flores no vaso. Estas são vermelhas. Estas são amarelas.

Trago-te uma boneca e biscoitos. Ah, já sei, precisas de tempo para te afeiçoares às coisas e às pessoas. E às bonecas. Preferes o boneco Tim-Tim. Eu também gostei dele mal o vi, talvez pelo jeito desarrumado e descuidado. Queres partilhar com ele o biscoito. E comigo. As migalhas não. As do chão não. São para o cão, o Taurus.

Vamos dançar. Olha os meus pés. Olha os pés desta avó.

Estás a ouvir? Estão a cantar as canções do Zeca Afonso. Estás a dizer não! Claro tu não sabes, não sabes ainda quem é o Zeca Afonso. Um dia dir-te-ei quem foram os Zecas Afonsos todos e mais aqueles de quem nunca ninguém falou.

Sabes, tomara que outro Zeca Afonso rasgue a mentira desta dinastia. De muitas outras dinastias.

Depois, meu amor, minha inocente criança … depois, sentirás o vento a correr pelo meio das árvores e a desfolhar as flores, não as do vaso, mas as dos jardins. De todos os jardins. E outras flores virão com outras cores … muitas outras cores, acredita.

E verás as pétalas, as vermelhas e as amarelas, a irem alto e a dançarem com outros pés, noutros sapatos, e as tuas bonecas e o Tim-Tim a perder as calças e o Nenuco que entretanto cresceu, a correrem na prais atrás do vento, das pétalas e das cores.

As migalhas, essas, não voam, lambe-as o cão, o gato, não todos os cães nem todos os gatos.