
Nelson Mandela é a prova de que os homens fazem a história e não o contrário. Não sabemos o que seria a África do Sul sem Mandela, mas sabemos o que não seria: não seria o que é hoje. Muitos têm louvado o seu amor à justiça, uma forma de reclamar para quem elogia a virtude de quem se elogia. E porque não? O amor à justiça é a medida da grandeza humana. Mas Mandela tinha uma grandeza ainda maior: o amor aos inimigos. Um amor que nada tinha de retórico, sentimental ou ingénuo. Era pura inteligência política. Ele conhecia bem os abismos de perversidade a que podia descer o apartheid, mas sabia também que uma África do Sul moderna e democrática não podia apagar a história nem apagar os brancos.
Por isso, teve a grandeza de ver os seus compatriotas e ler os sinais dos tempos sem um olhar turvo pelo ódio. Renunciou à luta armada e ao socialismo ainda na prisão, mas foi a Queda do Muro de Berlim que mudou tudo. Depois de 89, o medo de uma África do Sul comunista deixou de fazer sentido. O regime do apartheid, até aí legitimado internacionalmente por esse medo, ficou ainda mais isolado. De um dia para o outro, Botha iniciou – e de Klerk prosseguiu – negociações secretas com Mandela. O fim do comunismo não libertou só a Europa de Leste do jugo soviético; do outro lado do mundo, também libertou Mandela da prisão perpétua e o ANC da prisão ideológica.
Na verdade, o homem que sai da cadeia em 1990 não é o mesmo que tinha sido preso um quarto de século antes. Compreendera o profundo complexo de cerco da “tribo branca” e o papel do rugby, desporto colectivo de combate, na cultura afrikaner. Para os descendentes dos boers, o rugby não é apenas um jogo: é o reflexo de uma visão do mundo em que defendem o seu território contra tudo e contra todos, dos zulus aos britânicos. Os All Blacks jogam com o orgulho dos predestinados, os australianos com o fôlego dos grandes espaços, os galeses com entrega romântica, os irlandeses com fighting spirit, os franceses com intuição e flair, os ingleses com fleuma e sentido prático, mas só os Springboks jogam como se estivessem a lutar pela vida (e talvez estejam). O resultado é um estilo duro, áspero, fechado, assente na conquista de terreno pelo bloco de avançados, palmo a palmo, e no jogo ao pé. Antipático, mas eficaz.
Como se viu na final do Mundial de 95, “o jogo que fez uma nação”, assim lhe chamaram. Todos conhecem a história pelo filme Invictus, de Clint Eastwood. E todos sabem que Mandela, sempre atento ao símbolos, apareceu no estádio, diante de 70 mil espectadores e de 43 milhões de sul-africanos, com a camisola 6 de François Pienaar, o capitão dos Boks. A mensagem não podia ser mais clara. A África do Sul venceu a ultrafavorita Nova Zelândia de Lomu (com a melhor prestação defensiva que já vi, evidentemente, mas isso fica para depois) e o país inteiro saiu à rua. Pela primeira vez, brancos e negros estavam do mesmo lado. Graças a Mandela, que nem gostava de rugby.
Que descanse em paz. E que a nação arco-íris também tenha paz.
PP