esta ortografia: liberdade
Não tenho problemas com o acordo ortográfico proposto para os países de expressão lusófona. No entanto, leio hoje, pela primeira vez nos últimos meses, uma opinião válida e a ter em conta na oposição ao processo. Assina Desidério Murcho, no segundo caderno do Público:
Agora que estamos perante o anunciado facto consumado de mais uma modificação legal da ortografia da nossa língua, que afinal não parece nossa, vale a pena pensar outra vez nesta questão.
Independentemente de saber se a nova ortografia é linguisticamente melhor, ou se há vantagens políticas numa ortografia unificada com o Brasil e os outros países lusófonos, a questão fundamental não parece ter sido discutida. E é esta: até que ponto faz sentido legislar sobre a língua? Devemos legislar exclusivamente sobre aquilo que ficaria pior se não legislássemos. Este é um princípio evidente quando prezamos a liberdade. Mas é claro que a cultura portuguesa nunca foi receptiva à ideia de liberdade, e pelo contrário seguimos o princípio de legislar sobre tudo o que é possível legislar.
Caso o princípio de liberdade estivesse enraizado na nossa cultura, encararíamos com assombro a ideia de fazer leis sobre a ortografia.
Não há tal coisa, tanto quanto sei, nos países de língua inglesa; e no entanto os livros americanos e ingleses circulam entre os dois países sem dificuldade.
A mentalidade salazarista portuguesa é tal que mal se fala de não legislar sobre a língua algumas pessoas imaginam que se trata de cada qual escrever à sua maneira.Não é disso que se trata, mas antes de permitir que as normas linguísticas evoluam naturalmente, por força das publicações relevantes dos especialistas: dicionários, gramáticas, enciclopédias e outras obras de consulta, além da escrita académica em geral e também da popular, como é o caso dos jornais.
É contraditório defender a evolução natural da língua, e ao mesmo tempo defender a legislação sobre a língua – pois legislar sobre a língua é impedir a sua evolução natural. Sem legislação, certas formas ortográficas e gramaticais serão gradualmente introduzidas, tal como certas palavras são acrescentadas ao léxico; e certas formas ortográficas e gramaticais serão abandonadas, como acontece também com o léxico. Imagine-se o que seria fazer uma lei sobre as palavras que pertencem ou deixam de pertencer ao léxico da língua portuguesa: isso não seria uma contribuição para a evolução natural do léxico. Para a evolução de uma língua ser natural tem de se basear no modo como realmente as pessoas usam a língua, e não no modo como um político qualquer decide que devemos escrever ainda que se rodeie dos melhores linguistas.
Qualquer linguista pode e deve propor as mudanças linguísticas que bem entender; mas propor, escrevendo gramáticas e dicionários, é muito diferente de obrigar-nos legislativamente a escrever “ótimo” em vez de “óptimo”.
A discussão sobre o acordo ortográfico não deve abordar exclusivamente a questão de saber se é linguisticamente acertado ou comercialmente vantajoso. Deve abordar também a questão mais fundamental de saber que tipo de sociedade queremos ser: uma sociedade que preza a liberdade, ou uma sociedade centralista, sufocada por leis sem as quais a vida não seria previsivelmente pior.
estava eu a dizer e…
Quem tem acompanhado os comentários do historiador Rui Tavares e da jornalista Helena Matos na últimas página do Público? O primeiro começou, terça-feira, por cumprimentar Zapatero pela postura democrática a propósito da polémica que envolve o Presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o Rei espanhol, Juan Carlos de Borbón, na Cimeira Ibero-Americana. E reprovou a postura real. A segunda fez do texto a massa ideológica preconceituosa do costume e disparou que Chávez era o «ditador de estimação» de Rui Tavares. E foi por aí fora.
O historiador dá hoje conta de vários percursos que vão «da amálgama à amálgama», explicando que «antes de ser de esquerada» é «antitotalitário». E, de encontro ao meu último post, escreve assim:
Chávez chama “fascista” a Aznar mais ou menos como Helena Matos chama “ditador” a Chávez – de forma repetitiva e sem a mínima consideração pelo significado das palavras. Reagindo a isso, Zapatero pediu respeito pelo seu antecessor e pelo povo que o elegeu. Mas foi talvez outra coisa que fez dele, naquele momento, um campeão da democracia: ter exigido respeito pelas palavras, que são os alicerces do debate honesto. Aznar não é um “fascista”. Nem a um adversário se devem distorcer as palavras. “Fascista” não significa dirigente eleito de que Chávez não goste, tal como “ditador” não significa dirigente eleito de que Helena Matos não gosta. Leio a resposta de Zapatero assim: sobretudo a um adversário não se devem distorcer as palavras.
derrogar
- do Lat. derogare
- v. tr.,
- anular;
- abolir;
- ab-rogar;
- substituir preceitos legais por outros;
- v. int.,
- causar derrogação;
- produzir alteração essencial.
cabriola
- do It. capriola
coriáceo
do Lat. coriaceu
- adj.,
- que se parece com o couro;
- que é duro como o couro.
painço
-
- do Lat. paniciu
- s. m., Bot.,
- planta gramínea;
-
- grão dessa planta também chamado milho-miúdo.
tropel
- do Prov. tropel
- s. m.,
- barulho produzido por grande número de pessoas que se agitam;
- grande estrondo feito com os pés;
- balbúrdia;
- conjunto de pessoas movendo-se em desordem;
- tumulto;
- confusão.
deliquescência
- do Lat. delinquescentia
- s. f.,
- fenómeno pelo qual certos corpos sólidos, com grande afinidade para a água, passam a líquidos, em presença do ar húmido;
- desagregação.
pletora
- do Gr. plethora, grande quantidade
- s. f.,
- excesso de humores ou sangue;
- excesso de seiva;
- superabundância.
espeleologia
do Gr. spélaion, caverna + lógos, tratado
- s. f.,
- parte da Geologia que se dedica ao estudo e exploração das cavidades naturais, tais como a formação das grutas, cavernas, fontes e águas subterrâneas.