Tiepolo fica, obrigado
O Estado português exerceu o direito de opção sobre Deposição de Cristo no Túmulo, de Giovanni Tiepolo. Foi ontem, por um milhão e meio de euros, preço base de licitação da obra que chegou mesmo a ir a leilão – sem, contudo, encontrar comprador interessado em manter o quadro em Portugal. Encaminha-se agora para o Museu Nacional de Arte Antiga, onde poderá ser visitado pelo público.
Sem mais conversa: muito bem e obrigado.
não é meu, mas também não sai cá de casa
Portugal tem um Tintoretto: é cada vez mais consensual que a tela A Adoração dos Reis Magos sita no mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, é um verdadeiro Jacopo Robusti (1518-1594). Mas Portugal tem mais arte veneziana, com o peso dos séculos a acenar que sim à mestria do autor. Tem um Giovanni Tiepolo (1696-1770).
Titulado Deposição de Cristo no Túmulo, a obra está classificada desde 1939 e, desde essa mesma altura, impedida de ser adquirida por um comprador estrangeiro. E é desde 1939 que o Estado português tem direito de opção sobre esta «pintura interessantíssima», como a classifica o director do Instituto dos Museus e da Conservação, Manuel Bairrão Oleiro, ao Público. Em Maio de 2003, o então ministro da Cultura, Pedro Roseta, tentou mesmo transformá-la em bem de interesse nacional. O Supremo Tribunal Administrativo não permitiu.
Deposição de Cristo no Túmulo (na imagem abaixo) vai a leilão na próxima quinta-feira, 29, pelas mãos da Leiria & Nascimento. A base de licitação é de um milhão e 250 mil euros. (A corrida pode ser, de resto, acompanhada online.) No mesmo artigo do Público, a jornalista Inês Nadais questiona a inércia estatal: «É incongruente a ministra da Cultura usar a escassez de obras de referência nas colecções nacionais para justificar investimentos como o do Hermitage e agora desperdiçar a oportunidade de enriquecer essas colecções com esta compra?» A própria responde: «Eventualmente.» Eu, aqui, posso ser mais taxativo: sim.
Escusado será dizer que a interdição do leilão ao mercado internacional vai baixar significativamente o valor da obra. Pedro Dias, do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, defende que «se o Estado decidir que não deve adquirir o quadro, também não deve impedir a sua saída para o estrangeiro.» E acrescenta, ao Público, com boa dose de razão: «ou o quadro tem interesse e o Estado vai ao fundo do baú para o licitar (e o paga honradamente, e a pronto, aos preços do mercado internacional sem arranjar subterfúgios para o desvalorizar), ou não tem interesse.»
Pois bem. Comprem-no. Prescindo das árvores de-Natal-maiores-da-Europa pelos anos que forem necessários.

se eu te der uma chiquilin, dás-me um beijinho?
BCP, SL Benfica, Museu Berardo. Tomou este caminho a conversa entre o Comendador do momento e o jornalista Mário Crespo, que acabou há instantes no Jornal das 9, da Sic Notícias.
Não me vou atirar aos dois primeiros assuntos, mas o último – que me é bastante caro: penso que o madeirense foi tratado como um lorde, por um Governo socialista – abraçou-me um esgar à cara. É que o man in black agradeceu o excelente «divulgação» feita pelos media ao seu museu, que de outra maneira não dispunha de recursos para grandes campanhas para atingir os actuais números; Crespo respondeu que «os acontecimentos valem por si» (?). Pensei: o calmo genocídio no Darfur valeu durante bastante tempo a atenção de uma única pessoa num único espaço público (dos grandes media, digo) – o New York Times. Ó, Mário…
O meu pai não percebeu o porquê da minha cara de gozo.
Manifesto Anti-Dantas
Esta chegou-me embrulhado nas mãos da menina Filipa. E a partilha é inevitável. A voz é do Mário Viegas; o texto de Almada Negreiros, pois claro.
arte & referente, lda.?
«O movimento surrealista procura o belo onde ninguém o adivinharia, revelando-o como o maravilhoso do insólito e da fealdade, mobilizando uma gramática que se constrói a partir de experiências psicológicas e sócio-culturais do sujeito. As experiências psicológicas são de recente espécie, pois o surrealismo descobrira Freud, os sonhos e o inconsciente. E com tudo isso o automatismo criativo, porque já assim falara Zaratustra, o que conta é esse impulso que “desperta a paixão, o ardor, a chama, a vontade de viver. E os surrealistas, a partir de André Breton, são muito niestzcheanos, lutam contra o preconceito, a convenção, os movimentos e escolas que dominam a arte e a dispõem aos interesses de classes.»
[em Lemos, Fernando (2002). A fotografia surrealista. Porto: Mimesis]
‘By this sword you must know’
Acabo de o apanhar na televisão. É este um excelente exemplo de um videoclip que alia as novas possibilidades tecnológicas à simplicidade e ao conhecimento da cultura e da sua história, nomeadamente do norte-americano Pollock (a propósito, passem ainda aqui). Quanto à banda, os Kasabian, têm aqui um tema bem melhor de qualquer coisa que me lembre deles no concerto no Sudoeste, em 2005 – confesso não ser um seguidor assíduo, quer da banda quer de toda a panóplia de Oasis followers.
Shoot The Runner, Kasabian (2006)
Calvin & Hobbes

(in Público, 2 de Abril de 2001)
Calvin & Hobbes

(in Público, 22 de Fevereiro de 2001)
Um dia em Cabul

Manuel Diogo, ‘Um dia em Cabul’
Diálogo de vanguardas
«a arte caminha e deve caminhar sempre em frente, sempre virgem nas suas manifestações, pois só o virgem é belo»

Amadeo de Souza-Cardoso, ‘Procissão Corpus Cristi’ (1913)
O Rascunho roubou mais uma colaboradora ao mundo. E que bem que ela começou.