Afetos · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

E os pensamentos em dominó, igual contra igual.

11, junho,

E, no meio dos sonhos de outra pessoa, entrou a Scenarium… você escreveu e eu suspirei. Foi como se eu tivesse de bagagem em mãos e pela primeira vez, nessa viagem o sonho se justificaria em realidade. A menina de nove anos, os dedos cheio de lápis, um caerno ou qualquer papel e as palavras que queria gritar para o mundo. A mulher de 61 com sete livros publicados e outras tantas participações em projetos coletivos dizendo ao mundo: eu escrevo… a partir da Scenarium que ousou sonhar em apresentar para as pessoas um projeto de artes através de escritas e de pessoas que sonharam ou sonham igual.

Sei que poderia descrever a outra pessoa e a multidão que a Scenarium se transformou em apenas realização. Dos meus sonhos, dos de outras tantas que fizeram parte do projeto. Mas, aquela parte que a gente fala de sonho realizado é em mim tão tangente que se não fosse por vocês dois os textos e poemas pueris iriam continuar sendo escritos num blog de poucos visitantes e a realidade seguiria vida afora.

A maioria dos escritores citam os livros como filhos que você despeja para o mundo e quando minha poesia ganhou vida em O lado de dentro as outras histórias foram ganhando força e seguindo o chamado da Scenarium. Ou seria desafio? O fato é que, independentemente de qual caminho você escolha seguir, a minha realidade com sonhos realizados estará sempre aqui, de mãos estendidas e braços abertos para o abraço. O fato é que você e o tuo menino me deram a chance de gerar sete filhos feitos de poesia, histórias, amores e afetos.

O sonho e o projeto Scenarium me deu muito mais do que sete livros publicados e como coparticipante de mais de 30 projetos coletivos… Minhas palavras e poemas viajaram para além do oceano e alcançaram um mundo que nem nos melhores sonhos eu alcançaria… E o projeto me trouxe seu colo e pessoas lindas que posso chamar de amigos.

Sei que tuo cuore achará o tempo certo para a decisão ou não… porque a gente é assim também. A vida, às vezes, é dolorida, mas também é encantadora e o universo, como eu costumo falar sabe o tempo exato das coisas acontecerem.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Fui, como ervas, e não me arrancaram

10, junho,

Quando li seu texto e já suspirando com mil coisas na cabeça, desde a cozinha limpa com cheiro de ervas frescas, com a mesa posta e o queijo sendo ralado para o nhoque até a palavra doce me absorver e eu vagar pela senhora que sentiu prazer pela primeira vez, me lembrei da poesia de Caio Fernando Ribeiro: Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.

Viajei na mulher que fui me transformando e a que sempre cuidava de todo mundo e nunca de si. A que estava sempre pronta para socorrer a amiga no meio da noite após uma crise de pânico, a que ficava noites e noites com a sobrinha no hospital porque a irmã tinha compromissos, a que podia sempre ir aonde chamassem, carregando bagagem de outros e ouvindo a palavra p r e s t a t i v a, que usavam para se referir a mim… Já diziam que eu podia antes mesmo que pudesse dizer não, já me colocavam em grupos antes de perguntar se eu poderia ou queria participar, já me escalavam em afazeres – ou um trabalho inteiro – sem perguntar se eu queria ou podia ir… e não, eu nunca disse que poderia, mas ia… estava sempre lá a frente de qualquer coisa que me colocavam e na maioria das vezes, sendo o último lugar onde que queria estar. Não me lembro de quando comecei a dizer não. Mas lembro-me quando decidi dizer não.

Uma grave doença me afetou e com o diagnóstico em mãos corri para o colo de quem eu pensava que estaria ali comigo, de mãos estendidas, e mostrando que não estaria sozinha, para além do marido e filho e descobri que estava. A palavra você é forte, através de uma única mensagem e um telefonema e mais nada – e nunca mais, até obter a cura – vindo da pessoa que dizia sempre estar ali, caso eu precisasse, me fez enxergar através da cortinha cinza do hospital enquanto a máquina injetava o líquido em minha coluna que ninguém estaria lá fora para me aguardar. Eu é que tinha um adesivo escrito acompanhante no peito, porque estava sempre acompanhando alguém… a mãe de uma amiga, a irmã de outra, a família inteira, caso precisassem e não, eu não era e nunca fui a boa samaritana… eu era somente a que não sabia dizer não…

Quando eu disse que não podia a primeira vez, foi como se uma carga grande de culpa me atacasse… quase voltei atrás… a segunda foi menos penosa e as outras já não doem mais. Em algumas vezes, reluto e ainda vou, mas não como comissão de frente e sim como apoio e sabe de uma coisa? Fiquei mais leve, mas apta para me doar à quem eu quiser… Alguém me ensinou a me amar mais do que a qualquer outra coisa, outro ser, etc… e aprendi também que quem ama cuida de si e só assim pode ser pleno na tarefa de amar…

E voltando para a cozinha, o bolo de paçoquinha ficou pronto e mais claro que o seu, mas ainda assim, ficou delicioso… cortei uma fatia, peguei uma xícara de café e fui para a varanda aspirar e inspirar o doce gosto da vida… e repito a frase do poema de Caio: que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce.

Mariana Gouveia

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Amanhã é dos loucos de hoje…

9, junho,

O sol amanheceu ofuscado por uma névoa e a manhã aconteceu fria. Fiquei pensando depois de ler seu texto sobre as bibliotecas e a pergunta que você ouviu por aí: Para que ainda existem bibliotecas? Não tive tantas bibliotecas em minha vida… e as poucas eram de uma simplicidade que eu confundia com as prateleiras da minha casa – que tinham mais livros do que pratos – de onde a maioria do livros havia saído da nossa casa, dos livros que ganhávamos. Eu já conhecia todos os exemplares e enquanto para os meninos da região as figuras eram mais importantes, incluindo meus irmãos, eu queria ler histórias. Na pequena cidade, na região que nasci-cresci-vivi até os 11 anos a escola tinha uma sala que comportava uma mesa, quatro cadeiras e algumas poucas prateleiras de livros tão antigos, que alguns se desmanchavam quando eram tocados. Quando eu cheguei em Cuiabá, a minha primeira procura por biblioteca foi na escola onde fui matriculada… Uma sala ampla, com prateleiras de alumínio, e muitos livros, numa desordem que talvez só a moça que cuidava da sala soubesse organizar… haviam vários livros empoeirados. Ela disse que quase ninguém entrava ali e a sala se tornou meu refúgio preferido. Passava horas lendo entre uma fileira de livros quando podia ou quando uma aula fosse cancelada por algum motivo. O mais engraçado é que a primeira biblioteca grande que fui me causou espanto porque os livros eram difíceis de pegar… não havia escadas e as prateleiras eram enormes. O senhor que cuidava daquela biblioteca tomava conta do acervo mais do que de qualquer outra coisa. Contava os anos que passava dentro daquela sala e que seus dias vividos ali dariam um livro. As fileiras iam quase até o teto e ele puxava um fio, onde descia exatamente o livro que a gente pedia. O casarão antigo parecia mais um palácio e assim era seu nome: Palácio da Instrução e suas prateleiras enormes, preenchidas de alto a baixo com os mais variados livros e meus olhos procuravam os títulos deles e me arrepiava quando via algum que queria ler. É estranho como a biblioteca lá da minha infância feita de caixotes de frutas, com suas prateleiras de tábuas mudou a pessoa, a leitora e a escritora que eu sou. A paixão pelos livros nunca mudou e já me peguei também várias vezes olhando as prateleiras por trás das reportagens de algum entrevistado na TV só para saber o nome ou a capa do livro atrás dele e dentro do ônibus meu olho procura ver a capa se algum pessoa estiver lendo, o que se tornou mais raro hoje em dia. O fato é que as bibliotecas são lugares de conhecimento e embora em sua grande maioria tenham mudado a forma de pesquisas e estudos ainda existem lugares como onde eu nasci levando aprendizados e sonhos, e algumas prateleiras ainda são feitas de tábuas e caixotes.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Carregar um coração vazio no peito

8, junho,

Depois de te ler analisei os vazios do meu coração e dos amores ou ternuras que passaram por aqui. Não foram tantos, mas alguns que fizeram parte de minha história desde a infância-adolescência até aqui. Havia um vácuo sempre que eu pensava em andar de mãos dadas, conversar sobre amenidades, rir de bobagens e a medida que eu crescia o príncipe foi se desenhando em camadas que borrava tudo no final.

Houve um tempo em que eu queria só conversar com a Ana, que trazia Marte no nome e guardar poemas soltos, feitos em folhas de cadernos. Não queria preocupar-me se meus irmãos e eu teríamos qualquer coisa para comer amanhã… a cidade grande cobrava a “generosidade” de me deixar morar ali – já sem minha mãe que já havia morrido, sem meu pai de volta de onde mudamos – com três irmãos mais novos que eu. O amor que eu amava mais do que a mim era o programa de rádio do qual eu fazia parte e apesar de ainda nem ter saído da adolescência de vez.

Mas entre alguns dos amores que fizeram meu coração bater e emocionar havia a Ana que era de Marte mesmo e me levava para cavalgar nas nuvens só com um sorriso. Os olhos dela me trazia o alvoroço, a mão estendida me sacudia e o abraço causava um redemoinho no coração. E ele, Ita, que chegou como um sopro de brisa em dias turbulentos, com a certeza de que tudo ficaria bem. Com gestos que nem precisava de palavras e com as poucas palavras que me traziam equilíbrio e esperança.

São 40 anos juntos onde passamos por tanta coisa que daria um livro. Ele me ensinou a me amar mais do que qualquer outra pessoa. Me mostrou que confiança quando quebrada não tem conserto e que a paz a gente planta feito sementes de pé de ipê no quintal. Me ensinou também que amor deve ser regado, cuidado e colhido. Assim, ele se transformou em meu jardineiro e o amor que acalenta meu coração.

Mariana Gouveia

Colheita · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Ao semear,

cantava e seguia o rito das águas
A terra – em alguns períodos era árida

Molhava os dedos com a língua
… e ia jardim afora florir
a flor absurda do prazer.

Mariana Gouveia
in, Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Pinterest

6 on 6 · Das rotinas · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – a rotina do meu dia

Bambina mia,

Os dias atravessaram os meses e já é dia 6 de junho. Confesso que nem vi o tempo passar ou vi e nem me dei conta da sonoridade dos dias ou até me dei, mas não liguei tanto como em outros tempos. A vida da gente nos servem as horas como rotinas e cá estou eu a falar das minhas ou seriam nossas, porque a maior parte da minha – pelo menos nas manhãs – tem você e nossos diálogos aleatórios.

Logo pela manhã, antes de mais nada, a xícara de café e uma leitura de um livro – o que estiver ao alcance de minhas mãos. Acho que é quando acordo completamente e sorvo o líquido que salva meu dia. E isso, a gente repete ao longo da manhã ou revezamos por uma xícara de chá ou um chocolate quente. Depende de como o tempo nos abraça, né?

Depois, é tempo de dar pouso para as borboletas que nascem pela manhã até que elas estejam aptas para o voo… e claro que você sabe que entre um dia e outro a rotina só muda o tipo de inseto ou bicho… ou ave…

Energia abastecida, pés no chão e andanças no quintal, é hora de buscar a caixa de trabalho, para a preparação do material. É linha? Tecido? Agulhas? Tudo isso junto da companhia – ou seria soneca? – mais do que rotineira do Yoshi, que só muda o lugar de deitar, dependendo do lugar da casa que estou ou vou ficar.

No meio da manhã, entre nossos diálogos e café, trabalho feito, faltando apenas os arremates ou a conclusão de onde costurar, pausa para os afazeres da casa e do almoço.

À tarde, a rotina continua… ligo o notbook e me preparo para os textos, edições de fotografias e cuidados com outros trabalhos. Cada dia diferente, mas rotineiro e vivido no mesmo espaço: meu lugar, meu quintal e o seu, em falas onde nossos diálogos se misturam entre risos e canções…

Para finalizar, vou ali olhar o céu e independente da fase da lua grito seu nome, mas já foram as seis fotos e a lua – que está espetacular – vai via mensagem mesmo.

Amo tu!
Bacio,

Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Logo vai embranquecer diante da janela

5, junho

As manhãs de junho começaram frias nesse ano, apesar de que logo que o sol surge, com ele vem o calor costumeiro. Coloco a água no fogo e vou buscar as folhas de menta para o chá. Ainda não chega a ser manhã nem madrugada. É aquele entreposto de crepúsculo antes do dia ser anunciado.

Com o mel na xícara espero que a fervura atinja os 5 minutos enquanto repito a música que toca no rádio, sob o olhar pidão do Yoshi… o queijo derrete na frigideira e o pão recebe o ovo e o queijo derretido. Lembro do meu amigo que brinca de ser chef de que queijo é bom com tudo… devo concordar que sim, é. Pelo menos com os “tudo” que experimentei.

Fiquei pensando em seu quintal molhado de chuva e mentalmente ri ao me lembrar das invejas coloridas nossas, de tempos atrás. Acho que fiquei com uma invejazinha cor de chuva de você. Aqui está realmente seco e já fico preocupada com o Pantanal.

Brinquei com a mangueira aqui também, mas não molhei a janela e sim as plantas que, apesar de terem sido molhadas ontem a noite, parecem suplicar por água. O céu clareia e nenhuma nuvem para contar história. Será um dos dias mais quente aqui – a moça do tempo falou agora a pouco.

Abro a janela e inspiro os aromas do meu quintal. Afago o cão, coloco mais um pouco de chá na xícara e vou ao meu passeio matinal viver a vida.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Dentro da noite, além dos limites da solidão

4, junho

Hoje o quintal ficou quieto, como se qualquer folha que caísse pudesse causar um impacto no mundo. É aniversário do moço daqui e é estranho ver junho se desenhando entre nós nesse outono quase primaveril. Foi feriado – o dia já se rompe a cortina da noite – e o dia comprido parecia não acabar mais.

Sempre que você me fala de Susan vejo uma mulher à frente do seu tempo, à frente das convenções. Pouco sei dela, e o que sei foi lendo através de sua escrita. Não posso deixar de admirar a mulher e escritora que se apresentou aos meus olhos sob seu olhar.

Fico imaginando o quão difícil foi ser mãe, mulher, escritora com uma inteligência brilhante e penso que se escrevo hoje, talvez ela tenha sido um instrumento para que as mulheres pudessem se revelar e rebelar. Mas hoje, ao pensar nela penso apenas em fotografias e a realidade exposta em seus trabalhos. Não tenho nenhum livro dela, só os seus, que ocasionalmente me lembram ela.

Recalculo as rotas do quintal, vistorio os pequenos insetos nos galhos da erva cidreira porque um vento que começou silencioso se agitou por aqui. Já falamos sobre feriados e de como esses dias se prolongam e invadem a noite… o pássaro noturno canta e vou ali fazer um chá. Aceita?

Mariana Gouveia

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A noite se cala contra mim

3, junho,

Eu já te contei que a noite ronda meu lugar… não essa noite comum, de quando a tarde se avizinha do crepúsculo e abre as cortinas do céu – essa me dá colo logo que escurece e o sono me chama. Eu falo da noite que espreita as pessoas noturnas depois de meia noite.

É quando eu vagueio no meu quintal, já insone mais uma vez e os vagalumes buscam os desvios do meu quintal e as três marias entremeiam-se nas nuvens. A noite dos poetas e dos amantes. Essa, que me traz monstros articulados em troncos secos no quadrante dos muros e os cães latem para os gatos e a parede da casa da vizinha faz amor com as nuvens.

Às vezes, coloco um lençol no chão e deito-me à espreita de ver as estrelas enquanto o sono não acontece e faço silêncio para não acordar os que dormem e quando falo com as aves noturnas e o latido do cão soa quase como um cochicho. É regra não incomodar os que conseguem dormir.

De vez em quando ouço uma canção ao longe, o som do plim plim em uma tv vizinha e uma criança chorar pedindo colo de mãe. O vento, quase em uníssono com a ave que senta no telhado da vizinha balança os galhos do coqueiro. Tateio as paredes no escuro para não fazer barulho em busca do chá. Ninguém acorda e consigo sentir o sabor enquanto danço uma música imaginária.

Volto para a cama pouco antes do despertador acordar o moço madrugador daqui de casa que se apronta para o trabalho… a aurora começa a romper as cortinas do dia e um galo canta nos arredores e me pergunto onde foi parar o garnisé que cantava na vizinha da esquina. Nunca mais o ouvi cantar.

O dia amanhece enquanto escancaro as portas e faço o café. Converso com as plantas e os pássaros do dia que já surgem por aqui. Vamos ali viver o dia?

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Os adultos que durmam um sono tolo assim…

Junho, 2,

É engraçado como nossos diálogos sempre me levam para minha infância ou parte dela. Quando você cita as meninas e suas brincadeiras de roda um filme quase surge em minha frente. Eu, minhas três irmãs e três irmãos fazíamos isso com frequência.

Ciranda , cirandinha,
Vamos todos cirandar,
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.

Claro que volta e meia um largava a mão para catar a batata assada na fogueira ou um outro pedia para trocar de brincadeira. Uma noite dessas ouvi aqui na minha rua as vozes das crianças da vizinhança entre risos e canções. Estranhei um pouco e fui espiar no portão. Minha calçada havia se transformado em um grande palco para elas cirandarem. Ainda tenho a sensação da alegria – quando as memórias chegam – nos olhos dos meus irmãos ao rever o suor nos rostos desses meninos e meninas daqui.

No meu bairro, ou mais precisamente na minha rua, sempre vejo uma turma de crianças com as bolinhas de gude. Dei à elas algumas que ainda tenho aqui e ensinei alguns truques que aprendi com meus irmãos. É engraçado ver as crianças inventando as brincadeiras de antigamente, com novas roupagens e fora das telas dos celulares.

Quase sempre os meninos saem em debandada e atravessam as ruas olhando para o céu em busca de uma pipa que rodopia depois de ter sido cortada. Me encantei ao ver os cabelinhos cacheados do Breno sacudindo com o vento e o “troféu” na mão enquanto o riso ia de orelha a orelha.

À noite, a brincadeira é o pic esconde… há sempre um menorzinho – que não sei o nome – querendo se esconder atrás de mim, enquanto alimento o gato da rua. O nome que mais ouço é Helena, uma menina de olhos de jabuticaba e cabelos encaracolados, que fica sempre aos cuidados dos irmãos mais velhos e dos primos – que são meus vizinhos -e se tornou a minha preferida para ganhar, porque o riso dela alegra minha rua inteira e quando fecho o portão e a noite me chama para o sono vou respirando memórias outras de um antigamente que me transformou no que sou hoje.

Mariana Gouveia