“Entre passos escritos e olhares que acolhem, seguimos juntos — palavra e caminho, autor e leitor”.
Há quinze anos escrevo ao vento, mas é em vocês que minhas palavras pousam. Cada verso que deixei na estrada, cada rastro de pensamento, ganhou casa em seus olhares e repouso em seus corações.
Se hoje caminho mais firme, é porque me ensinaram que poesia não se faz sozinho. É ponte, é fogo, é abraço; é o encontro entre o que sinto e o que vocês permitem existir.
Agradeço a cada passo que deram comigo, a cada silêncio que virou leitura, a cada instante que dedicaram ao que escrevo com verdade.
Se minhas palavras seguem vivas, é porque vocês as acolhem. E que venham os próximos caminhos, sempre regados por essa gratidão que mora fundo em meu muxima.
“Entre o brilho do vagalume e o salto do grilo, o menino descobre que viver também é experimentar o impossível”.
Devo gostar de andorinhas, do seu voo deslumbrante, cortando os ares em velocidade, um belo voo, na verdade.
Um céu de andorinhas chega a ficar preto e branco, naquele seu bailar alucinante. O céu é o seu local de apresentação, e elas fazem isso com muita perfeição.
Assim como ao nível do chão, aquele bater de asinhas coloridas, cada uma mais bela que a outra. As borboletas também voam, e, quando pequenino, vivia a caçá-las — queria aquela beleza bem de perto.
À noitinha era a vez do voo dos vagalumes, aquelas lanterninhas piscando, e o céu ia iluminando. Também, mais uma vez, eu os queria bem de perto; então pegava às dúzias e colocava no saquinho de pipoca — pronto, estava feito meu lampião.
E pelos campos eu ia pulando na escuridão. Não maltratava demais e, logo adiante, soltava todos: era apenas uma interrupção momentânea, romantizar aquele momento, aproveitar aquele movimento e também me movimentar.
Chegava a vez dos grilos, verdinho que insistia em pular — era pura curiosidade de criança. Eu os pegava sempre, brincava, olhava e soltava logo depois. Alguns realmente saíam sem suas pernas de pulo; elas caíam muito fácil, mas nada disso os impedia de crescer.
Eram vidas que me chamavam muita atenção. Até morcegos eu pegava — esses, coitados, de fato morriam. Era com uma vara de bambu que eu agitava no ar, e os pobres morcegos eu vinha a pegar.
Queria ver como eram tão rápidos no desvio, e descobri algo de que eles não conseguiam fugir: o som do bambu zumbindo no ar. Isso os atraía e os fazia bater e cair.
Era, na época, uma alegria — a forma de um menino de roça se divertir. E aprendi que brincar também é tocar o mistério do viver.
“No sopro que move o deserto, cada grão recorda de onde veio — e para onde volta”.
Hoje fiquei mais contente: um de meus filhos me deu dois netinhos — uma menina linda e um molequinho.
O outro, o filho mais novo, havia me dito que não gostaria. Fiquei triste — queria a casa cheia, deixar essa molecada toda fazer besteira.
Hoje fiquei sabendo, por alto, que a intenção mudou. Deus queira que venham mais netinhos aqui para o vovô.
Acho ótimo aumentar a família, ver a semente se espalhar e evoluir. Já vim de uma família pequena, não tinha quase parentes, a não ser por parte de meu pai e de minha mãe.
Enfim, há famílias enormes e outras não. Fiquei apenas pensando como seria bom — melhor ainda se ele também me der dois. Serão então quatro que vão crescer, e se cada um deles se casar e tiver dois também, já aumenta para oito.
E assim segue a jornada para adiante, levando meu DNA um pouco mais à frente. E quem sabe sejam mais influentes.
Eu fiz muito em minha época de jovem, mas parece que nada marquei, nem sei. Posso, pelo menos, me orgulhar das coisas que fiz, daqueles que ajudei.
Afinal, para se fazer acontecer, nome não se precisa ter — temos é que ter consciência, mente tranquila ao deitar-se, sonhar com um futuro melhor a todos e poder ver isso adiante.
Sonhar por alguns instantes, assim como as areias do deserto, que se revoam e se moldam em cada duna, mas sempre serão os mesmos grãos, que somente os desertos podem unir, levando-as de lado a lado, até onde as mãos de Deus permitir.
“No baralho das palavras, me perco, me encontro — e a noite se faz companhia”.
Hoje deve ser dia de brigar com o sono, ele está chegando no momento em que comecei a escrever. Não vou descrevê-lo de novo para não viciar; sei que o sono é algo gostoso, mas tem que ter hora para chegar.
Não é assim: encosta e vai adormecendo. Tem que me dar tempo, afinal, estou escrevendo. Parece que formou uma ideia, e não quero deixar para amanhã.
Gosto de pô-la na pauta ainda quente, como se diz; depois, na revisão, vou moldando e passando o verniz. A coisa tem que ficar boa para mim, e não algo assim, assim.
Não precisa descrever nada, só o impulso de escrever. É como um compromisso que pretendo manter. Vou fazendo até onde der, claro, e os versos vão saindo como cartas em um baralho.
Podemos fazer trincas ou até canastras. Não sou nenhum cineasta; meu jeito é mesmo de jogador. Tiro uma palavra daqui, outra de lá.
O importante é não ter temor: deixar as palavras falarem por si e, com isso, eu poder me distrair.
E assim, no baralho das palavras, me perco e me encontro.
“Entre o pão da segunda e o sal do suor, o poeta descansa nas ondas do humor.”
Poderia começar com uma brincadeira, falar das poesias que descrevem o cotidiano, descartar tanto o sábado como o domingo; achei, sinceramente, que nesse poema houve apenas distração.
O problema maior de toda criação é o trabalho em estilo de escravidão, esse que atormenta. Sábado e domingo são dias de praia, não necessariamente Ipanema; há tantas outras tão belas e tão plenas, que descrever uma só é coloquial.
Nem tudo anda em trilhos — hoje já temos trens que flutuam. Assim como não houve ninguém para nos salvar, isso é apenas uma crença cristã, construída pelo homem, que serve mais para saquear.
Hoje é segunda, o pior dia para o trabalhador, e ele reza para a sexta chegar, e se livrar desse labor.
Cachaça e cervejinha nem sempre fazem parte; olhar a garota também não é de bom tom, como se diz, todo respeito é bom.
E eu paro por aqui, ficarei sempre a repetir: (porque hoje é segunda) (porque hoje é segunda) (porque hoje é segunda)
E assim, sucessivamente, até chegar a sexta, onde começo a ficar contente, — pois entre o riso e o repouso, o homem inventa o sentido da vida.
“Entre o som do piano e o tropel da lembrança, o tempo galopa sem pressa — e a alma, enfim, descansa.”
E no silêncio da noite, sentado no bar, ouvia apenas o piano tocar. E ele tocava com maestria — naquela noite, era tudo o que queria: descansar, acalmar a alma, um bom drink, sem exagero, queria passar a noite por inteiro.
Deixava a música embalar minhas lembranças, relembrei minhas andanças, matei saudades de algumas. Por vezes, o trago na bebida ajudava, mesmo que o gole enrolava. Era um ar bucólico, que me remetia aos tempos de galopes: vento ao rosto, andava no trote, de cima da minha montaria.
Eu sonhava, eu sorria, avistava tudo adiante, controlava a vida em sonante. Podia ser um berro, um uivo ou assovio — e de cima dele, atravessava o rio.
Às vezes parava para pescar, acender uma fogueira, tomar um café e sonhar. Tudo era simples e passava devagar. Não se corria nem da tempestade, que por vezes vinha assombrar.
Nada era mesmo tão natural quanto ver os bichos reunidos correndo para o curral. Vida de fazenda — coisa boa para quem lembra.
“Entre teclas e letras, há um som que se escreve no silêncio”.
Fico me perguntando o porquê de escrever, faço-me sempre essa pergunta, e ainda não consegui me responder. Sei que é algo de que gosto, que me faz sentir-me bem.
Poderia estar escrevendo músicas também, mas música já é mais difícil — deveria ter estudado mais. Saber tocar não significa saber escrevê-las.
Enfim, sei que para tudo existe tempo, mas sinto dificuldade nos professores de hoje: eles já têm o costume do mesmo método — pegar as cifras das músicas do momento.
E não seria bem isso o que pretendo. Queria algo mais espiritual, como é o jazz, ou mesmo as chill lounge. é difícil de encontrar,
então deixo como está. quando tenho oportunidade, faço uns acordes meus no teclado, só para espairecer — nada importante que se possa escrever.
Então prefiro isto aqui, onde escrevo com as letras do alfabeto, de um jeito predileto. a música, eu apenas a toco e deixo ir.