Nina e o sentido da perda

Perdi uma das minha gatinhas, a Kátia Marina, minha neta soube da notícia e veio me consolar via whatsapp.

– Vovó por que morreu sua gatinha? Ela era tão bonita. Qual gatinha que morreu? Abraço e beijo e ai, por que ela morreu? Ela era muito bonitinha. Por que você está triste, se a vida é assim… todos morrem. Um dia eu vi um cachorro morrido, coitado, mas eu não vou contar onde, é um segredinho.

 

aSSiM São oS PáTioS DaS eScoLas XVII

– Ô Professora! 
– Diga.
– Pensei que ia morrer sem fazer 15 anos.
– É mesmo! Por quê? 
– Voltando pra casa da escola, outro dia,foi sinistro…
– Foi? O que aconteceu? 
– Os polícia armados, apontaram a arma pra nós, sem dizer nada… Eu tremia pra caramba com medos deles…
– Mas você não é bandido, não deve nada pra eles, não precisava ficar com tanto medo né? 
– Qual é prof, não sou bandido, mas sou pretinho… Mais na frente perto do postinho…
– Que postinho? 
– Aquele ali perto da padaria, a senhora conhece não? 
– Não. 
– Ali veio os meliciano e perguntou se nós era traficante.
– E…
– Disse que não, né professora, mesmo que fosse não ia dizer, acabava na vala. Dai eles falou, fecha com a gente que tá tranquilo. É que eles estão querendo invadir aqui…e não acabou ainda. 
– Não? 
– Já perto de casa veio os traficante. E ai moleque, beleza? Beleza. Direto pra casa que hoje a chapa esquenta. Vaza, vaza, não fica na pista, entendeu? 
– …
– Tá vendo aí professora quase não completo 15 anos.

Depois fiquei analisando o acontecido.
A polícia aponta arma e só olha.
A milícia quer aumentar o contigente.
O traficante protege. 
Mas afinal é no final são todos do mesmo lugar. Periferia da periferia do Estado do Rio de Janeiro

CiuDad aLFaRo

Onde – Montecristis – Provincia de Manabi – Ecuador

Quando – janeiro de 2016. Esse lugar virou museu, pois ai foi decidida a nova Constituiçao Equatoriana.

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eN La CaSa Del MaGo

“Mistérios sempre há de pintar por aí”

Gilberto Gil

Todos tem algum Guru na vida, o meu é um chileno que vive em Quito, em ele confio, a ele daria toda minha vida de um único gole.

Desperto a curiosidade e digo; Mi Diablo Guardia, le quiero mucho y siempre, su Violeta.

Escrito nas estrelas

Carlos Rennó e Arnaldo Black

Você pra mim foi o sol
De uma noite sem fim
Que acendeu o que sou
E renasceu tudo em mim

Agora eu sei muito bem
Que eu nasci só pra ser
Sua parceira, seu bem
E só morrer de prazer

Caso do acaso
Bem marcado em cartas de tarôt
Meu amor, esse amor
De cartas claras sobre a mesa
É assim
Signo do destino
Que surpresa ele nos preparou
Meu amor, nosso amor
Estava escrito nas estrelas
Tava, sim

Você me deu atenção
E tomou conta de mim
Por isso minha intenção
É prosseguir sempre assim
Pois sem você, meu tesão
Não sei o que eu vou ser
Agora preste atenção
Quero casar com você
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Vovó Lilita

Trago em mim profundas e boas marcas e lembranças da minha avó paterna, Nerita Goulart de Carvalho.
Foi ela quem:
bordou parte do meu enxoval de bebê;
urou as minhas orelhas;
cuidou do meu umbigo e;
fez comidinha de verdade nas minhas panelas de brinquedo.

Deixou esse mundo com a minha idade, 54 anos. Quais serão as marcas e as lembranças que deixarei na minha neta?

aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS XIV

– Ô Professora!

– Que foi?

– Hoje a parada tá muito sinistra.

– Tá é! Por quê?

– Mataram um policial hoje. Quer vê a foto? E também mataram um bandido. Tem foto dos dois, quevê?

-Não, muito obrigada, pode guardar o celular.

-O policial foi morto lá no outro bairro, mas a polícia tá entrando nas casa de geral daqui

-É?

-Entram na minha hoje, eram cinco polícia, tudo armado, subiram tudo com a arma apontada pra gente, revistaram a casa toda e pegaram o meu celular.

-Por que pegaram o seu celular?

-Pra vê o que tem, se tiver proibidão, vídeo, foto e zap que eles não gostam…

-Eles levam o celular?

-Não, professora, eles quebram, bem quebrado e nós nem pode falar nada. Depois pra comprar outro, como?

-Que coisa!

No outro lado da sala.

-Mas lá em casa num acontece nada disso.

-Não, você também mora aqui?

-Moro, somos vizinhos, mas meu tio é amigo de geral, vive dando festa, e vão todos na festa, os polícia, as milícias e os bandidos, ficam tudo conversando igual amigo. Meu vô que fica boladão, num gosta, mas aceita, assim ninguém mexe com nós.

-Seu tio deve ser muito importante

-Que nada professora só é simpático e geral gosta dele.

No caminho de volta para casa me deparo com inúmeros carros de polícia, fazendo blitz, só paravam os negros nos carros velhos, os das motos e os carrões.

aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS XIII

Muito angustiada de ser testemunha desse e nesse século XXI.

 Hoje na escola, depois da aplicação da prova do Saerjinho via um aluno soprando o celular. Pensei: deve ter molhado, ou algo parecido e ele deve estar tentando enxugar. Que nada! Cheguei perto e o menino fumava, um cigarro de maconha virtual.

Perguntei: que é isso? – Um jogo, professora. Continuei: deixa ver.

Daí ele me mostra a tela do celular com um jogo que acontece em várias salas e que tem várias etapas.

1ª etapa enrola  cigarro de maconha, acendo com um isqueiro (também virtual) e traga, isso mesmo, traga onde fica o microfone do celular. Os pontos ganhos vão aparecendo ao lado da tela, quando termina essa etapa, passa-se para uma outra sala, mas até chegar nela, o jogador caminha por corredores ornamentados com folha de maconha e cogumelos.

Na 2ª etapa eu fiquei paralisada, pois o jogador se depara com uma lata de coca-cola, a amassa no meio, faz um furinho com uma tachinha e compra a droga, que agora é o crack, pega o isqueiro, acende e fuma, tragando mais uma vez pelo o microfone, o aluno, colocava a boca mesmo no celular e tragava com vontade.

Como tinha certeza que ninguém acreditaria em mim, chamo o professor que divide a turma comigo e mostro pra ele o tal jogo virtual, o menino já está em outra fase, nessa era a vez de um narguelê verde, sabe-se lá o que tinha dentro

Dessa etapa ele não ultrapassou, ou melhor, não o vimos ultrapassar, porque bateu a sirene do CIEP.  Isso, os CIEPs, têm umas sirenes ensurdecedoras.

Depois fui contar ao diretor o ocorrido, mas durante o caminho da sala até à direção pensava quais seriam as outras etapas e ficava mais angustiada de vivenciar esse século.

Daqui a pouco vão inventar um aplicativo que passa do virtual para a sensação que a droga causa, aí é final dos tempos. O traficante vai vender celular que vicia, haja estômago!

Fabio Costa​ me pediu e eu escrevi um texto sobre primavera, que li no Sarau do C. E. Erich Walter Heine.

Quero dedicá-lo ao meu amigo também professor Marcos Mello​ que me inspirou e a minha prima, Vera Lucia Lima Blanc​.

Primavera

Prima = primeira
Vera = verdade

Estação que antecede o verão.
Primavera lembra Tim Maia – “porque é primavera, te amo, meu amor, trago essa rosa.”

Beto Guedes também passa pela minha lembrança – “quando entrar setembro e as boas novas andar nos campo… A lição sabemos de cor, só nos resta aprender, sol de primavera abre a janela no meu corpo.”

Nerita, minha filha, chegou em plena primavera
Nina, minha neta, chegará em uma primavera plena.

Primavera traz na memória as aulas de história com a Primavera de Praga, uma longa primavera 1968 a 1990. Agora presenciaremos uma Primavera de Pragas, pois viveremos e entraremos a próxima primavera com:

Zica,

Refugiados Sírios distribuídos pelo mundo,

Alemanha abrindo as portas, ou seriam as pernas para parir pessoas que serão mutiladas, posto que escravizadas,

Nada de reajuste salarial para os professores do estado,

Vontade de dizer não à sociedade do espetáculo,

Mais um dia da árvore, em um planeta que as mesmas passam por um processo de extinção,

O eu mais potencializado nas redes sociais,

Os jogadores de futebol brigando por mais espaço na mídia

Jovens negros morrendo a rodo e sem serem afogados em uma praia mediterrânea, mas tentando refugiar-se em uma marquise qualquer,

Crianças indígenas espancada no Mato Grosso do Sul,

Gente dizendo mais do mesmo,

A mídia tentando enganar cada vez mais e mais a população,

Preconceito,

Mais um ENEM

Show do Criolo, Caetano e Gil,

Algum aluno dizendo: professora é pra copiar, posso ir ao banheiro, que horas que acaba essa aula?

Um monte de adolescentes grávidas ou querendo engravidar, porque está na moda é um outro monte querendo fazer um aborto porque não está na moda.

A realidade dos consumidos pela ganância acorda, ou tenta acordar, todos os dias, aqueles que estão dormentes, aqueles que perderam a capacidade do sonho. Muitas vezes lançar-se ao vazio parece ser a solução, ou não. E eu aqui escrevendo um texto primaveril, quando só passa pelos meus pensamentos a Primavera de Praga ou seria, a Primavera de Pragas acontecendo pelo mundo afora.

Recomponha a sua primavera, pois minha prima Vera não nasceu na primavera e adora o inverno.

aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS XII

Levando para dentro da sala de aula o vídeo onde o Leonardo Leandro Karnal fala sobre a potencialização do eu nas redes sociais e depois de muito debater, via uma aluna…
Professora! Olha a que ponto chegamos. Minha irmã, no banheiro, fazendo suas necessidades fisiológicas, percebeu que não tinha mais papel higiênico, o que ela fez?
– Gritou pedindo um, respondi.
– Que nada professora. Ela mandou um zap.