aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS XI

Guardador de placa é profissão?

Escutei um – Ih! Ih! Ih! Ih! Coé! – vindo do fundo da sala…

– Ô Professora! Guardador de placa é profissão?

– Como é que é?

– Isso mesmo fessora… O Lelo tá dizendo que ele, mais o Vini, têm a profissão de guardador de placa.

– Guardador de placa, não. Nós é vigia de placa.

Aproximei-me dos meninos e curiosa quis saber:

– Me explica isso direito.

– Isso mesmo fessora, o Pedro está me esculachando, dizendo que vigia de placa não é profissão.

– O que vocês fazem exatamente? Como é esse trabalho?

– É assim fessora, nós tá em casa final de semana, passa a Kombi põe nós dentro e leva pra vigia placa lá na Barra e traz de volta no final da tarde.

– Como assim?

– Chega lá na Barra nós fica perto de uma placa de propaganda dos edifício, das casa, dos condomínio, que vão vender pros ricos, sabe?

– Sei. E vocês tomam conta das placas?

– Isso, se ela cai nós levanta, se alguém pergunta onde fica, nós informa.

– Vocês também vigiam para não roubá-las?

– Não, se rouba melhor, né? Nós termina o trabalho mais cedo.  Mas tem uma coisa sinistra.

– O quê?

– Se o supervisor passa e nós não tiver perto da placa e de pé, nós num ganha todo o dinheiro não.

– Não? Quanto vocês ganham?

– Depende, mas é entre 80 e 100 reais. Mas se não tivé perto da placa quando o supervisor passa, só ganha 35.

– E vocês acham que vale a pena esse trabalho?

– Trabalho não fessora, profissão…

Aproveitei para explicar que a profissão se aprende, precisa ter uma técnica, etc. Ele olha sério pra mim e diz:

Mas eu aprendi a levantar a placa, a fica perto dela, a indica o caminho certo para quem quer compra a casa, isso não é profissão, não?

Para não decepcioná-lo, expliquei, para ele e para a turma, a diferença entre profissão, trabalho e emprego.  No final ele disse:

– Melhor vigiar placa e ganhar 100, do que ficar em casa sem fazer nada.

Mais tarde… na mesma turma… o mesmo Lelo diz:

– Fessora! Hoje o bagulho tá estranho.

– Tá é? Por quê?

– Não viu não fessora?

– Vi o que Lelo?

– O Batman, os homi do Batman, tudo por aqui hoje. E passa os carrão branco pra lá e passa os carrão preto pra cá, na pista…

– Quem é Batman Lelo?

– As milícia fessora, as milícia, num sabe não, é?

– Eu não.

– O tempo vai fecha se eles encontrarem com o Coringa…

– Que Coringa?

– Os bandido, fessora, os bandido…Daí vai ter muito tiro…

Para o Lelo, meliciano não é bandido, vai ver ele acha que é uma profissão, mas isso eu não perguntei a ele, não.

CoNQuiSTa PeDaGóGiCa

Mais uma conquista pedagógica. Meus alunos são pra lá de especiais! Outro motivo para continuar lecionando.

Seis alunos do C.E. Hebe Camargo – Pedra de Guaratiba – orientados por mim, pela Professora Cristiane Alves (língua portuguesa) e pelo Professor Rodrigo Rosa (sociologia) foram pré selecionado para o Projeto Parlamento Jovem 2015. Parabéns a todos pela conquista. Também gostaria de parabenizar, outros dois alunos do C.E. Erich Walter Heine – Santa Cruz – Lucas Vaz Lisbôa​ e Lucas Silva​ que já foram meus alunos e conseguiram. Além deles, deixo um abraço carinhoso para meus amigos Professores,  Ailton Lima​ e Elizabeth Torres Miranda (legislação)​ pelo excelente trabalho que realizam no C.E Erich Walter Heine​. 

Zona Oeste mostrando competência e excelência na área educacional. 

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O que tem pra hoje?
(Des) vida.

Da janela do Celta já vejo que as barricadas voltaram.

1º Ato

– E ai professora! Suave?
– Suave…
– Tudo dois, é nós. Sabe de uma coisa?
– O quê?
– Já está resolvido.
– O que está resolvido?
– Vou entrar pra boca, pegar um ferro e aloprar.
– Então vai logo, porque de 16 a 20 anos você tem pouco tempo para deixar alguma coisa pra sua família.
– Sociedade injusta pra caralho!
– Muito, e você pensando assim não mudará as injustiças.
– Mas coloco uns otários no seu devido lugar. Nós num tá aqui pra servir de bucha, não.
– Mais um motivo. (Eu rezado para o assunto terminar)
– Sabe de uma coisa professora, a senhora além de ser piloto, porque já vi e dirige muito, tem coração, abraça a gente, trata nós tudo igual, sem diferença, até gosta dos nossos cabelos assim de negão, mas com estilo, né?
– Rindo com ele, gosto mesmo, vocês conseguem fazer uns penteados muito maneiros. Deviam inclusive fazer um portfólio com as fotos dos penteados.
– Port o que? Já vem a senhora falando difícil, exprica ai.
– Explico. Vocês podiam fotografar os penteados e colocar as fotografias organizadas numa pasta, isso é um portfólio.
– Serve pra que?
– Pra mostrar a identidade de vocês, mostrar que vocês tem um estilo próprio. Quem vocês são, o que pensam com esse estilo de cabelo…
– Boa isso, bem que a senhora podia fazer com nós, né?
– Faço sim, mas vocês que farão as fotos, beleza?
– Suave.

2º ATO

Na parte da manhã, dentro do colégio, as provas todas já distribuídas, alunos tentando achar sentido naquilo que vem de fora.
– Muito texto professora!
– Faz parte, tem que ler.
– Mas dá preguiça, ainda são oito e meia da manhã.
A coordenadora esbaforida entra em cada sala de aula, com a cara branca como se tivesse visto assombração.
– Recolhe tudo.
– Tudo o quê?
– As provas.
– Recolhe como?
– Eles estão ai, mataram um lá dentro ontem e querem a escola fechada. Luto.
– Quem foi professora?
– Não faço a menor ideia.
– Ex aluno, informou a coordenadora.
Provas recolhidas, alunos atônitos saindo nas carreiras para saber que era. E eu pergunto, precisa da redução da maioridade penal? Não, nós acabamos com eles antes que completem 18 anos. Mais um na estatística, que serviu de bucha. Mais um que queria uma justiça torta. Rezo por ele e agora, mais do que nunca, vou construir o portfólio com os penteados dos meus alunos, eles merecem.

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aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS IX

– Ô Professora!
– Oi Ingrid e esse batom? (Na verdade era um gloss incolor)
– Meu pai nem pode saber.
– Não é? Por quê?
– Ele diz que eu não tenho idade.
– Quantos anos você tem?
– Onze.
– Esse é dos bons, ele está muito certo. E sua mãe diz o quê?
– Minha mãe não mora com nós, meu pai é que tem a guarda.
– Puxa!
– Sabe professora, ela tem um namorado que bebe muito e eles sumiam, saiam deixava eu e minha irmãs sozinhas. Teve um dia que nós ficou uma semana sem comer, aí os vizinhos denunciaram e meu pai foi pegar nós e levou pra casa dele. Hoje a gente come direitinho, mas ele não deixa passar batom.

SoBRe a aMiZaDe

Morei 25 anos da minha vida sob a proteção de Todos os Santos, o bairro onde cresci, com a felicidade sempre ao redor. Depois ganhei mundo, vive em muitas cidades e até mesmo em outro país. Na vida acontecem muitos desencontros e comigo não foi diferente. Desencontros estabelecidos, quando decidi a volta, o meu caminho em direção a Ítaca, o lugar para onde pensei em regressar foi Todos os Santos. Assim aconteceu, segui o meu coração e parti para minha viagem, enfrentando, o canto das sereias, alguns monstros e Titãs.
Nesse bairro estão guardadas minhas memórias e muitos amigos, ainda que os mesmos morem em outros bairros, eles estão ali, nas suas casas, na claridade e na sombra de cada amendoeira das nossas ruas. Embora não more mais sob a proteção de Todos os Santos, sempre apareço, me reconheço e me sinto porque passeio não só pelas ruas, mas pelas histórias dos personagens do bairro e do próprio bairro.

Ontem, as memórias vieram nos visitar, digo nós, porque não estava sozinha. Invocamos a nossa memória coletiva e dos nossos baús de recordações vieram à tona as nossas histórias, os nossos encontros e a nossa luz. Era como se estivéssemos sentados no meio fio, desfrutando da sombra das amendoeiras que ajudamos a plantar e nesse momento percebemos que amizade que se plantou com cuidado não morre nunca, mesmo com toda a intempérie que podemos ter vivenciado ao longo do tempo.

Agradecida por ter estados com vocês amigos.

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Era 1985

Ontem, depois de participar de uma aula integrada impar de Filosofia, Ensino Religioso e Língua Portuguesa, para os meus alunos do Hebe Camargo sobre Rousseau e Renato Russo, deixei tudo de lado e fui viver o meu momento de ócio, assistindo ao filme Tim Maia. Não, não vou fazer nenhuma resenha sobre a película, mas ela me provocou lembranças doces e vividas com intensidade. A memória visitou o Cinema Gaumont, no Largo do Machado, nos idos anos de 1980, já século passado. Ganhávamos os ingressos da Hellen e do Grimaldo, que trabalhavam junto com a Bia e a Belina. Saímos da zona norte, respectivamente de Todos os Santos e Tijuca e íamos de ônibus para nossa aventura intelectual. O Estúdio Gaumont só apresentava filmes “cabeça”, hoje conhecido como de arte. Víamos Truffaut, Zeffirelli, Felline, Costa Gravas, Fassbinder, Jena Genet e depois discutíamos, éramos muito metidos e entendidos sobre essa sétima arte que nos deixava encantados, todos. Quando, algumas horas atrás, entrei no sala de projeção, minha mente entrou no nosso cinema emocional que tinha como companheiros, os meus primos, Marie, Mara, Speto, Rogério, Monica, Vera, Barata, Luis Carlos, Hellen e o Guto, que era o namorado do momento da Mara (como ela teve namorado!). Antes das sessões, ele entrava em uma casa de doces e comprava um monte de coisa, lembro perfeitamente da maria mole, nunca tinha visto ninguém comer maria mole dentro do cinema. Lá íamos nós todos, a pé, junto com o saco de doces de papel pardo do Guto. Não tínhamos celulares, carro e muito menos dinheiro, mas conseguíamos viver a arte, principalmente a de ser feliz.
Depois do cinema, voltávamos para Tijuca, passávamos pelo bar do Beco, para continuarmos o papo “cabeça” sobre o cine arte e principalmente ver o Belloba tocar junto com o Dynei. Belloba e sua cabeleira, achava um charme o jeito como ele segurava o cigarro entre os dedos seu vizinho e pai de todos. Minha alma viajava, Sangrando pela canção do Gonzaguinha, entoada pela voz do Belloba. Comíamos feijão na caneca, encontrávamos a Katia, Telma, Cosme, Marlynis, o meu irmão Betto, Ana Terra, Fernando, Eduardo (que eu chamava de estante porque ele me chamava de Bibelô) e tantos outros loucos e lúcidos que não lembro os nomes.
No Bar do Beco, escrevíamos poesias coletivas e sobre esse bar escrevi uma poema que fez parte de um livro, editado pela Christina Oiticica, mulher do Paulo Coelho, com direito a lançamento no Circo Voador e tudo. 

Quanto ao filme do Tim Maia? Acho que o Roberto Carlos não vai gostar nada de ver como foi caracterizado. 

Era 1985

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