Sandra de Sá chegou cantando Tim Maia e imediatamente viajei no tempo. I.A.P.I de Del Castilho, anos iniciais de 1970, casa dos meus avós paternos, Nerita e Balduino, onde eu e meu irmão passávamos os finais de semanas e as férias, quando não íamos para Cysneiros (uma cidade minúscula na Zona da Mata mineira).
Vovó sempre nos queria por perto, talvez já intuísse que ficaria pouco tempo entre nós e lá íamos ficar com eles, sexta-feira depois da aula e permanecíamos até o domingo.
A lembrança que vem – a partir do som de Tim Maia cantado por Sandra de Sá – em um momento mágico, ela estava acompanhada de alguma entidade, talvez as do universo musical, só quem esteve presente pode dizer como foi aquele momento de êxtase total:
Você é algo assim… é tudo pra mim… é como sonhava…. baby
Sou feliz agora… não, não vá embora… não
Vou morrer de saudade….
Digressão a parte, a lembrança é a do salão de cabeleireiro improvisado, pela minha Tia Sueli, no último quarto da casa. Sim, era um salão onde as vizinhas e as outras tias iam se arrumar para o final de semana. Penteados com bobs e depois a touca, que tinha que virar, e depois bobs de novo, nunca entendi muito bem essa engenharia capilar, mas os penteados ficavam bonitos, ainda tinha uma espécie de cestinha que colocava no topo da cabeça, passava o cabelo por cima e dava um volume legal, mamãe usou uma vez, acho que para um casamento. Outra técnica para dar volume ao cabelo era desfiá-lo com um pente bem fininho, ficava estranho no início, mas depois dos toques finais e muito laque luziam divinos.
Entre uma estória e outra da revista Grade Hotel, de fotonovelas, ficava olhando aquelas mágicas acontecerem, sem contar as sobrancelhas, feitas com gilete (a pinça veio depois), bem fininhas contornando os olhares das moças do bairro. Agora, o mais estranho mesmo era a hora do pedicure, os pés ficavam imersos em uma bacia de alumínio com água quente e um pouco de sabão, mergulhados por um tempo, depois de retirados, meio murchos, passava-se o barbeador, isso mesmo, aqueles antigos, com gilete novinha, pela sola dos pés (principalmente no calcanhar) para tirar as pelas mortas, fazia-se a barba nos pés, literalmente. Outra gilete era usada para depilar as pernas, Tia Sueli tinha pernas lindas, bem torneadas, depois de alguns dias de depilação, os pelos pinicavam em quem sentasse no seu colo, eu senti essa sensação algumas vezes, quando voltávamos de 680 (Méier – IAPI da Penha) de algum lugar e tinha que sentar no seu colo dentro do ônibus, ela usava uns vestidos mais curtos que deixava à mostra um pouco das suas coxas e essa parte picava muito.
Do rádio, no salão improvisado, saiam vários sons, escutávamos os sucessos da época e lembro perfeitamente de dois que ela adorava, Marcio Greyck e Martinha. Isso tudo acontecia na Rua B porque na rua C, na casa do meu avô (materno) o som era outro, de lá saia, da vitrola do Tio Luís, J’aime moi no plus, mas essa história fica para depois. As músicas estão ai embaixo.
Junto com o som de Sandra de Sá, veio um amigo, que já não via há alguns anos, Jorge Ferreira a quem dedico essa crônica.
