aSSiM São oS PáTioS DaS eScoLas XVII

– Ô Professora! 
– Diga.
– Pensei que ia morrer sem fazer 15 anos.
– É mesmo! Por quê? 
– Voltando pra casa da escola, outro dia,foi sinistro…
– Foi? O que aconteceu? 
– Os polícia armados, apontaram a arma pra nós, sem dizer nada… Eu tremia pra caramba com medos deles…
– Mas você não é bandido, não deve nada pra eles, não precisava ficar com tanto medo né? 
– Qual é prof, não sou bandido, mas sou pretinho… Mais na frente perto do postinho…
– Que postinho? 
– Aquele ali perto da padaria, a senhora conhece não? 
– Não. 
– Ali veio os meliciano e perguntou se nós era traficante.
– E…
– Disse que não, né professora, mesmo que fosse não ia dizer, acabava na vala. Dai eles falou, fecha com a gente que tá tranquilo. É que eles estão querendo invadir aqui…e não acabou ainda. 
– Não? 
– Já perto de casa veio os traficante. E ai moleque, beleza? Beleza. Direto pra casa que hoje a chapa esquenta. Vaza, vaza, não fica na pista, entendeu? 
– …
– Tá vendo aí professora quase não completo 15 anos.

Depois fiquei analisando o acontecido.
A polícia aponta arma e só olha.
A milícia quer aumentar o contigente.
O traficante protege. 
Mas afinal é no final são todos do mesmo lugar. Periferia da periferia do Estado do Rio de Janeiro

eNTReGa – eRa uMa VeZ No PaPeLão

Os livros e as bonecas Abayomis produzidos pelos meus alunos foram entregues para as crianças de Sepetiba, uma ação que se denomina Crianças com Oxalá. Essas crianças são apadrinhadas, recebem presentes e um dia com brincadeiras, músis e muita pizza.

Os adolescentes da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro está deixando um legado para os pequenos. Obrigada a todos os meus alunos pela bondade e disposição.

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A MeNiNa CLaRa, CLaReou Meu Dia

Ontem, tive a grata satisfação de escutar o texto – Mulheres Negras do Facção Central, declamado por uma das lindas alunas, Clara, que estavam presentes no evento – 5º Seminário das relações étnicos-raciais, promovido pela Metropolitana IV – SEEDUC/RJ. Belo momento, quando a menina lia entre as suas lágrimas. Foi forte.

Dedicado a todas as minhas alunas que lutam, diariamente, para serem ouvidas e vistas como ser que faz parte dessa sociedade.

Mulheres Negras
Eduardo – Facção Central

Enquanto o couro do chicote cortava a carne,
A dor metabolizada fortificava o caráter
A colônia produziu muito mais que cativos,
Fez heroínas que pra não gerar escravos, matavam os filhos
Não fomos vencidas pela anulação social
Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial
O sistema pode até me transformar em empregada,
Mas não pode me fazer raciocinar como criada
Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo,
As negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo
Lutam pra reverter o processo de aniquilação
Que encarcera afrodescendentes em cubículos na prisão
Não existe lei Maria da Penha que nos proteja
Da violência de nos submeter aos cargos de limpeza
De ler nos banheiros das faculdades hitleristas,
Fora macacos cotistas
Pelo processo branqueador não sou a beleza padrão,
Mas na lei dos justos sou a personificação da determinação
Navios negreiros e apelidos dados pelo escravizador
Falharam na missão de me dar complexo de inferior
Não sou a subalterna que o senhorio crê que construiu
Meu lugar não é nos calvários do Brasil
Se um dia eu tiver que me alistar no tráfico do morro,
É porque a Lei Áurea não passa de um texto morto
Não precisa se esconder, segurança
Sei que cê tá me seguindo, pela minha feição, minha trança
Sei que no seu curso de protetor de dono praia,
Ensinaram que as negras saem do mercado com produtos em baixo da saia
Não quero um pote de manteiga ou um xampu,
Quero frear o maquinário que me dá rodo e URU
Fazer o meu povo entender que é inadmissível,
Se contentar com as bolsas estudantis do péssimo ensino
Cansei de ver a minha gente nas estatísticas,
Das mães solteiras, detentas, diaristas.
O aço das novas correntes não aprisiona minha mente,
Não me compra e não me faz mostrar os dentes
Mulher negra não se acostume com termo depreciativo
Não é melhor ter cabelo liso, nariz fino
Nossos traços faciais são como letras de um documento
Que mantém vivo o maior crime de todos os tempos
Fique de pé pelos que no mar foram jogados,
Pelos corpos que nos pelourinhos foram descarnados
Não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria,
É atrair gringo turista interpretando mulata
Podem pagar menos pelos mesmos serviços
Atacar nossas religiões, acusar de feitiços
Menosprezar a nossa contribuição na cultura brasileira,
Mas não podem arrancar o orgulho de nossa pele negra
Mulheres negras são como mantas Kevlar,
Preparadas pela vida para suportar
O racismo, os tiros, o eurocentrismo,
Abalam mais não deixam nossos neurônios cativos.

aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS XV

Porque hoje foi dia de conversar e debater com meus alunos sobre o cabelo. Muitas meninas e meninos sentem vergonha da sua identidade e não se reconhecem como negros e lindos.

Hoje ouvi muitas dizerem: – professora, meu cabelo é ruim, é duro e é por isso que eu aliso.

Comecei a mudar esse pensamento a partir de dois documentários, mas não é nada fácil. Muito triste o que fazem com eles desde pequenos. Mas não desisirei até que eles percebam que tem talento, valor e uma estética invejável e linda!

Segum os documentários que estão disponíveis no youtube

“Era uma vez no papelão”

O projeto: “Era uma vez no papelão” traz o livro elaborado pelos alunos das turmas 2003 e 2004 do CIEP 336 – Octávio Malta, intitulado – Parnasianismo e Simbolismo.
As mandalas trazem a reflexão da “arte pela arte” o homem contido na estética e para o simbolismo os alunos escreveram poesias que deviam conter duas figuras de linguagem muito usadas pelos poetas simbolistas: personificação e sinestesia. Assim ficou a obra final.

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aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS XIII

Muito angustiada de ser testemunha desse e nesse século XXI.

 Hoje na escola, depois da aplicação da prova do Saerjinho via um aluno soprando o celular. Pensei: deve ter molhado, ou algo parecido e ele deve estar tentando enxugar. Que nada! Cheguei perto e o menino fumava, um cigarro de maconha virtual.

Perguntei: que é isso? – Um jogo, professora. Continuei: deixa ver.

Daí ele me mostra a tela do celular com um jogo que acontece em várias salas e que tem várias etapas.

1ª etapa enrola  cigarro de maconha, acendo com um isqueiro (também virtual) e traga, isso mesmo, traga onde fica o microfone do celular. Os pontos ganhos vão aparecendo ao lado da tela, quando termina essa etapa, passa-se para uma outra sala, mas até chegar nela, o jogador caminha por corredores ornamentados com folha de maconha e cogumelos.

Na 2ª etapa eu fiquei paralisada, pois o jogador se depara com uma lata de coca-cola, a amassa no meio, faz um furinho com uma tachinha e compra a droga, que agora é o crack, pega o isqueiro, acende e fuma, tragando mais uma vez pelo o microfone, o aluno, colocava a boca mesmo no celular e tragava com vontade.

Como tinha certeza que ninguém acreditaria em mim, chamo o professor que divide a turma comigo e mostro pra ele o tal jogo virtual, o menino já está em outra fase, nessa era a vez de um narguelê verde, sabe-se lá o que tinha dentro

Dessa etapa ele não ultrapassou, ou melhor, não o vimos ultrapassar, porque bateu a sirene do CIEP.  Isso, os CIEPs, têm umas sirenes ensurdecedoras.

Depois fui contar ao diretor o ocorrido, mas durante o caminho da sala até à direção pensava quais seriam as outras etapas e ficava mais angustiada de vivenciar esse século.

Daqui a pouco vão inventar um aplicativo que passa do virtual para a sensação que a droga causa, aí é final dos tempos. O traficante vai vender celular que vicia, haja estômago!

aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS XII

Levando para dentro da sala de aula o vídeo onde o Leonardo Leandro Karnal fala sobre a potencialização do eu nas redes sociais e depois de muito debater, via uma aluna…
Professora! Olha a que ponto chegamos. Minha irmã, no banheiro, fazendo suas necessidades fisiológicas, percebeu que não tinha mais papel higiênico, o que ela fez?
– Gritou pedindo um, respondi.
– Que nada professora. Ela mandou um zap.

aSSiM São oS PáTioS DaS eSCoLaS XI

Guardador de placa é profissão?

Escutei um – Ih! Ih! Ih! Ih! Coé! – vindo do fundo da sala…

– Ô Professora! Guardador de placa é profissão?

– Como é que é?

– Isso mesmo fessora… O Lelo tá dizendo que ele, mais o Vini, têm a profissão de guardador de placa.

– Guardador de placa, não. Nós é vigia de placa.

Aproximei-me dos meninos e curiosa quis saber:

– Me explica isso direito.

– Isso mesmo fessora, o Pedro está me esculachando, dizendo que vigia de placa não é profissão.

– O que vocês fazem exatamente? Como é esse trabalho?

– É assim fessora, nós tá em casa final de semana, passa a Kombi põe nós dentro e leva pra vigia placa lá na Barra e traz de volta no final da tarde.

– Como assim?

– Chega lá na Barra nós fica perto de uma placa de propaganda dos edifício, das casa, dos condomínio, que vão vender pros ricos, sabe?

– Sei. E vocês tomam conta das placas?

– Isso, se ela cai nós levanta, se alguém pergunta onde fica, nós informa.

– Vocês também vigiam para não roubá-las?

– Não, se rouba melhor, né? Nós termina o trabalho mais cedo.  Mas tem uma coisa sinistra.

– O quê?

– Se o supervisor passa e nós não tiver perto da placa e de pé, nós num ganha todo o dinheiro não.

– Não? Quanto vocês ganham?

– Depende, mas é entre 80 e 100 reais. Mas se não tivé perto da placa quando o supervisor passa, só ganha 35.

– E vocês acham que vale a pena esse trabalho?

– Trabalho não fessora, profissão…

Aproveitei para explicar que a profissão se aprende, precisa ter uma técnica, etc. Ele olha sério pra mim e diz:

Mas eu aprendi a levantar a placa, a fica perto dela, a indica o caminho certo para quem quer compra a casa, isso não é profissão, não?

Para não decepcioná-lo, expliquei, para ele e para a turma, a diferença entre profissão, trabalho e emprego.  No final ele disse:

– Melhor vigiar placa e ganhar 100, do que ficar em casa sem fazer nada.

Mais tarde… na mesma turma… o mesmo Lelo diz:

– Fessora! Hoje o bagulho tá estranho.

– Tá é? Por quê?

– Não viu não fessora?

– Vi o que Lelo?

– O Batman, os homi do Batman, tudo por aqui hoje. E passa os carrão branco pra lá e passa os carrão preto pra cá, na pista…

– Quem é Batman Lelo?

– As milícia fessora, as milícia, num sabe não, é?

– Eu não.

– O tempo vai fecha se eles encontrarem com o Coringa…

– Que Coringa?

– Os bandido, fessora, os bandido…Daí vai ter muito tiro…

Para o Lelo, meliciano não é bandido, vai ver ele acha que é uma profissão, mas isso eu não perguntei a ele, não.