2018_09_30 Frente a frente

Neutral Face Portraits é um projeto da fotógrafa canadiana Brie Vos. Quando em Agosto durante as férias de Verão procurava fotografias de grandes planos para treinar o desenho do rosto humano não a conhecia. Queria dar uso a um caderno novo que ganhara de prenda no Symposium dos Urban Sketchers no Porto e decidira desenhar "caras" para ocupar o tempo livre. Optara pelo preto e branco porque dramatiza e acentua as principais características do rosto. Peguei num marcador preto e em mais dois ou três tons de cinzento para trabalhar volumes e mergulhei na web. Quando descobri o sitio da Detour Photography percebi que não precisava de ir mais longe e que encontrara material suficiente para me manter ocupado um bom par de dias.



Fotografar pessoas com o mesmo enquadramento, a mesma iluminação e com a mesma expressão neutra cria uma base comum que acentua as diferenças de idade, género ou raça. "Todos diferentes e todos iguais" foi a frase de propaganda política que me veio à cabeça. Os voluntários deste projeto desnudaram-se perante a câmara fotográfica. O olhar fixo arrepia pelo que revela. Por detrás do olhar neutro há sofrimento disfarçado e coragem destemida até mesmo no olhar perdido duma criança a tentar processar os poucos meses de idade. Dentro desta pele que vestimos ao nascer temos todos os mesmos medos, as mesmas esperanças, as mesmas hesitações com que lidamos da melhor forma que sabemos. À procura do nosso lugar seguro.

2018_08_18 Os tempos mudam-se


Com a repetição continuada, o cansaço instala-se. Depois de 101 desenhos, os erros acumulam-se e o interesse dispersa-se. É tempo de trocar as voltas ao mundo que ainda o dia é uma criança.

2018_08_15 A quebrar vinhetas


As figuras estão a ficar aprisionadas nas vinhetas. Mudança de caneta de 0.6 para 0.4. Os desenhos crescem e libertam-se. Surgem os primeiros sorrisos esboçados. Os dentes são uma dor de cabeça. Têm que ser sugeridos mais que desenhados. Linhas finas cinzentas e a tracejado parecem resolver a questão. 

As caras começam a 
ganhar personalidade mantendo sempre a expressão neutra. A  atenção centra-se no olhar. Descentrar o brilho do olho da cor da pupila? Colocar o branco em cima da pupila anula a pupila. Pintar o olho de cinzento, a pupila a preto e deixar o branco do brilho é muita informação num espaço tão reduzido. Se o modelo tem óculos os óculos devem sobrepor-se às sobrancelhas.  O lábio inferior ganha brilho e fica só delineado, sem cor. A sombra por baixo do lábio inferior dá-lhe a dimensão e o volume. Bebés são outro desafio. Usar o mínimo de linhas. Usar o mínimo de sombras. Conseguir acertar nas proporções.
Cabeça grande. Olhos arredondados, nariz sem volume, só a abertura das narinas por cima de lábios pequenos e carnudos, a boca entreaberta onde se adivinha a baba que escorre e queixo curto. Não há sombras por onde pegar.   

2018_08_14 Escalas alteradas


A primeira imagem que surge na sequência da galeria é a primeira a ser desenhada. Não há bons ou maus retratos para desenhar. Todos têm que ser desenhados independentemente de preferências pessoais. A primeira criança que surge na fileira de retratos resulta mal. A testa fica demasiado curta. O nariz fica constipado. Os desenhos seguintes resultam mal. Desconcentrados. Repetem-se caras para corrigir erros. A escala da vinheta começa a ser limitativa. Os desenhos querem crescer e soltar-se da moldura. Ganhar expressão e ganhar vida. Com o aumento da escala o desenho ganha pormenores. O jogo com a cor de fundo aumenta o contraste. É tempo de aumentar a escala do desenho. Numa página fazer um só retrato.