O jogo inaugural da temporada 2015/2016 foi especial por todos os motivos e mais alguns. Primeiro, porque reuniu toda a equipa de uma assentada, algo que não acontecia há muitos anos – do british Sabino ao all-american Phillipe, ninguém falhou à convocatória para lembrar o número 8 André «Tricky» Ferreira. Segundo, porque marcou a estreia do novo equipamento, a farda vermelha e negra que marca a décima época coxeana. E, terceiro, porque acabou sem uma derrota coxeana – algo que, confirmam as estatísticas, também não é normal no primero jogo da época.
Antes de a bola rolar, neste jogo que opôs Os Coxos ao Nogueira Team (ficou 7-7, obrigado por perguntarem) houve espaço para alguns momentos especiais. Uma sessão de fotos prolongada, um grito com dedicatória especial («Tri-cky!», em vez do habitual «Co-xos»), a entrega de uma camisola do eterno número 8 à família e um minuto de silêncio. «Porra, então mudaram-me o número e não avisaram?», lamentou-se Luís Miguel, ao perceber que a retirada oficial do algarismo 8 da numeração disponível o tinha feito voltar novamente ao 7 com que começou a sua carreira coxeana.
Com nove jogadores disponíveis – os oito coxos mais o reforço de circunstância Luísa Rego -, o cinco inicial não foi fácil de decidir, mas a escolha acabou por recair na equipa inicial: Teixeira na baliza, Phillipe na defesa, Romano e Sabino no miolo e Luísa na frente. Ainda se pensou em meter o Rui a jogar de início, mas historicamente falando o banco sempre foi o seu lugar natural, e ninguém queria corromper a ordem natural das coisas. Lá em cima, numa nuvem abençoada, Tricky respirou de alívio ao ver Rui encostado ao banco.
Os Coxos apostaram num sistema 1x2x1 com alas a bascular em rapidez e com o miolo preenchido na fase de destruição. No ataque, privilegiaram a verticalização em detrimento do jogo directo, e pautaram todo o seu jogo pela troca de bola em profundidade. Subiam em bloco, e recuavam em formato de tridente. E foi por estas e por outras que ao minuto 7′ já estavam a ser humilhados com um 3-0 doloroso, imposto à força toda e sem apelo ou agravo. Teixeira, culpado em dois dos três golos, assobiava para o lado e pensava nos dados do Adolfo.
Mas a equipa não baixou os braços. Pires, sempre ele, conduziu o ataque pela direita e depois de brilhar pela qualidade fez-se notar pelo esforço: batalhou com o guarda-redes por uma bola perdida, recuperou o esférico, assistiu Romano e… golo dos encarnados. Romano inaugurou o marcador da época 2015/2016 com um potente remate de fora da área, a mostrar – 10 anos depois – que é um mito urbano a ideia de que tem uma meia distância fraca e mal colocada. Vai buscar, ó nogueirense…
O jogo continuou, com Os Coxos a levarem o perigo às redes adversárias. Pires, muito inspirado, e Luís Miguel, um valioso apoio, obrigaram o guarda-redes a aplicar-se várias vezes. A vantagem da Nogueira Team mantinha-se nos dois golos, e portanto era preciso mais. Sabino, porém, estava desinspirado – e Rui, esse, nem vê-lo. Quem não marca arrisca-se a sofrer e, num contra-ataque furtivo, o adversário acrescentou a injustiça ao marcador, num golo em que Teixeira voltou a não estar isento de culpas e que colocou o marcador em 4-1. Phillipe olhou para o chão e pensou no cabelo de Donald Trump. «Bela bosta», disse.
Chegava? Não, não chegava. Novo lance de ataque e… 5-1. O jogo estava a tornar-se humilhante. Luís já lamentava ter escolhido a equipa encarnada para começar a jogar.
Os Coxos podiam ter caído nesse momento, mas um homem trouxe-os do fundo do poço. Esse homem era Pires. O ponta-de-lança dos injustiçados, o avançado das noitadas, reduziu para 5-2 num lance individual que deixou os adeptos de olhos esbugalhados. Depois levou a bola pela esquerda e, ainda longe da área, chutou um bico que só parou com estrondo no fundo das balizas. O 5-3 permitia sonhar. «Caralho, Romano, foda-se, caralho», disse Pires – e pegou na bola e trouxe-a para o meio campo.
Pouco depois, novo revés. Lance de contra-ataque, 1×2 à frente de Teixeira, Phillipe falha o corte, Rui perde-se e estava feito o 6-3. Faltavam vinte minutos, e a diferença estava nos três golos. Os Coxos, desejosos de dedicar uma vitória, sabiam perfeitamente que o tempo era escasso, a força faltava e a esperança era pouca. Não fosse…
Bom, não fosse novamente Hugo Pires, que completou o hat-trick e colocou a diferença novamente em dois golos. Depois não sabemos bem o que aconteceu; porque fomos entregar uma t-shirt, tirar umas fotos e falar com a Luísa. Mas sabemos que, quando voltámos a espreitar lá para dentro, a equipa já tinha chegado ao 6-6! «Quem marcou o golo?», perguntou Romano, de caderno em punho. «Foram dois, carago, foram dois!» gritou Ivo Neto, assumindo o orgulho de ter sido o autor de um dos tentos.
Faltavam três minutos. Acaba-se o jogo agora? Mais três minutos, ainda há tempo de ganhar. «Está quase a acabar, pessoal, está quase a acabar», gritou Romano para dentro do campo. O incentivo, que devia ter servido para subir a guarda e dobrar as atenções, teve o efeito contrário. A equipa parou, olhou atónita, perguntou se era para acabar o jogo… e lá estava o 7-6. Faltavam três minutos e estava reposta a injustiça no marcador. A derrota parecia certa.
Mas Os Coxos não desistiram. Caíram em cima do adversário, provocando um sufoco que se sentia até nas transmontanas terras de Valpaços. Canto na direita – e Luís rematou ligeiramente por cima. Lance na linha – e Romano obrigou o guarda-redes a defender para fora. Tiro de Pires… e bola no ferro! Era demasiado injusto. Até que, mesmo no último minuto, Sabino e Pires combinaram e Luís, frente a frente com o guardião, não perdou.
O jogo acabou nesse momento, com um 7-7 que premiou o esforço das duas equipas. Foi um espectáculo bonito. Não sabemos se o Tricky estava a ver – mas se estava, deve ter gostado da homenagem.
Teixeira: 13 – Começou muito mal, com culpas em dois/três dos quatro golos iniciais. Mas foi subindo de rendimento ao longo do tempo, e acabou em grande, a negar um punhado de golos ao adversário. A forma como combate o regabofe socialista está claramente a ajudá-lo a limpar a pândega que reina naquela defesa. A nota só não é melhor pelas desatenções iniciais.
Phillipe Vieira: 11 – Phillipe já não jogava pelos Coxos há… há… bom, há muito tempo, certamente. Mas o regresso foi em grande, assumindo-se como peça absolutamente fulcral nesta partida. Não só encomendou, pagou e levantou os equipamentos como ainda tratou de toda a logística associada à efeméride dos 10 anos e das homenagens. Também deu uns toques em campo, e segurou bem a defesa. Capitão uma vez, capitão para sempre.
Pedro Romano: 13 – Marcou o golo inaugural e esteve sempre afoito na defesa e pressionante no ataque. Acabou por sair muitas vezes para dar lugar a outros, mas quando esteve em campo nunca comprometeu e deu sempre o máximo em prol da equipa. Fez todos rirem quando assumiu a responsabilidade de marcar um livre de meia distância (lol) e fez todos chorarem depois de enviar a bola para as couves.
Marcos Sabino: 12 – Sabino não esteve mal, mas a verdade é que dele os adeptos esperam sempre mais. Defendeu bem e atacou com velocidade, mas faltou sempre alguma precisão no remate, alguma velocidade no passe e algum músculo no choque. Acabou por marcar um golo de belo efeito, mas de um jogador que já ganhou por duas vezes a Bola de Ouro Coxeana, duas vezes o prémio de melhor marcador e três vezes o troféu de Rei das Assistências os adeptos esperam sempre mais.
Ana Luísa Rego: 8 – Que nota se dá a quem começa do início mas acaba por sair a meio para não mais voltar, nunca jogou com a equipa e fez o primeiro jogo num grupo de homens? Andámos a oscilar entre um justo 10 e um merecido 20… mas ficámos pelo 8. Porque provavelmente é o número favorito dela. Só o Rui não gostou da experiência («Se a Luísa fica na equipa é desta que nem sequer aqueço o banco»).
Rui Rocha: 10 – Discreto, discreto, discreto. Nunca conseguiu carregar a arma e disparar o seu poderoso pé canhão, nem assumir-se como a referência ofensiva (e gay) que na verdade é. Porém, também conseguiu controlar a quantidade de bosta que fez na defesa, o que é um ponto a seu favor. O «10» teve um «10», o que também não deixa de ser um valor bonito.
Ivo Neto: 14 – Pujante e sóbrio na defesa, Ivo – ou Netinho, como chegou a ser apelidado quando assumiu uma curta carreira musical em terras de Vera Cruz – entrou tarde mas em boa hora na partida. Foi uma rocha na defesa, um verdadeiro muro intransponível no qual os adversários batiam invariavelmente quando tentavam furar a rectaguarda coxeana. Revelou também uma grande cabeça dura quando, mais tarde, marcou jantar no D. Frango e se esqueceu, por lapso, de referir que a bebida e o jantar eram à discrição. Mas marcou um golo e jogou bem, por isso ninguém ficou chateado.
Luís Miguel: 14 – Esteve bem na construção e foi sempre um aliado precioso de Pires na altura de apertar a defesa adversária. Não está na forma que revelou há duas ou três épocas, mas acrescenta sempre alguma classe quando toca na bola. Ponto a favor, que acaba por justificar a nota: fez o golo do 7-7 final, num momento em que já ninguém achava que era possível.
MVP – Hugo Pires: 17 – Que jogo! Um hat-trick, duas assistências, fintas a torto e a direito e até insultos ao capitáo Phillipe Vieira – houve de tudo, neste jogo que fica para a memória (ou para os anais) da História Coxeana. Foi sem dúvida alguma o abono de família d’Os Coxos, acreditando – e marcando – quando já todos começavam a vacilar. O seu segundo golo – terceiro da equipa é um hino ao futebol, fazendo lembrar o Mantorras dos seus melhores tempos.
Para a memória fica a foto de conjunto. Olha tanta gente conhecida.







