Restos de Colecção

7 de fevereiro de 2026

"A Ginjinha" no Largo de S. Domingos

"A Ginjinha", foi fundada pelo galego Francisco Espiñera Cosiño - ou Francisco Espinheira Cousinho - no Largo de S. Domingos, 8, em Lisboa em 1906. Este ano que indico será o mais provável e com grande grau de certeza já que o pedido de registo do nome na "Direcção Geral do Commercio e Industria - Repartição de Propriedade Industrial", foi solicitada em 12 de Dezembro de 1906, - e concedido a 21 de Setembro de 1907 - indicando já essa morada. Entretanto Francisco Espiñera Cosiño tinha obtido a sua naturalização de cidadão português em 19 de Setembro de 1890, passando a utilizar correntemente o nome Francisco Espinheira Cousinho.



Francisco Espiñera Cosiño

Este estabelecimento sempre foi conhecido por "A Ginjinha Espinheira" ou "A Ginjinha" do Rossio, para distinguir de outra a poucos metros de distância, a "Ginja Sem Rival", no início da Rua das Portas de Santo Antão, 7 e fundada em Outubro de 1894 por João Manuel Lourenço Cima, e cuja história pode consultar neste blog. Ficou famosa pelo seu licor e «bebida peitoral», o "Eduardino".


De referir que "A Ginjinha" teve origem numa taberna, pertença do pai de Francisco Espinheira Cousinho, localizada na, então, Rua de Santo Antão, 27. Creio que o pai de Francisco Espinheira Cousinho fosse Francisco Cousinho que apareceu como recorrente num auto de crime de Lisboa em 24 de Maio de 1941. Nada de estranho já que a sua taberna era conhecida por «um negócio rentável mas também um espaço de troca de ideias e de agitação social, e de amores e zaragatas», Segundo o site oficial de "A Ginjinha" esta taberna já existiria por volta de 1840 e, onde se «se susteve a nossa mais antiga fábrica e a partir daí se produziam, vendiam - e se celebravam - os vinhos e licores que hoje entendemos como antepassados da Ginjinha»



Porém tive conhecimento da existência,  já no ano de 1900, de uma «casa de pasto» localizada na Calçada do Carmo, 9, propriedade de outro galego de nome Francisco Espinheira Velho (marido de Joaquina Cousinho filha de André Cousinho falecido em 27 de Agosto de 1890), o qual era dono também de uma poadaria na Rua Silva e Albuquerque, 92, em Lisboa. Pela semelhança de actividade comercial e nome, e como em Espanha o último apelido é o da mãe, ao contrário de Portugal, penso que seriam familiares.

Contudo no "Diario do Govêrno" de 14 de Agosto de 1885 ...

«Predio a arrematar:
Um predio urbano situado na rua da Ribeira Velha, ao norte do Campo das Cebollas d'esta cidade de Lisboa n.° 1 a 9, tornejando para o Arco de Jesus n.os 1 a 5, freguezia da Sé, que consta de lojas, 1.° andar, pateo, terraço, sobreloja e dois poços a uso de balde, posto a primeira vez em praça em 23 de maio do corrente anno, no valor da sua avaliação 38:4445000 réis, e vae agora por metade da sua avaliação, isto é, na quantia de 19:222$000 réis, com os seguintes encargos de arrendamentos, a saber:
A loja n.° 3, com arrendamento a favor de Francisco Espinheira, a findar em 1891, pela renda annual de 180$000 réis, pagos aos semestres adiantademente com fiador. (...)»

Pelo que se este Francisco Espinheira for a mesma pessoa proprietária de "A Ginjinha", já teria um estabelecimento, anteriormente, na Rua da Ribeira Velha em 1885 ...


"A Ginjinha" no início do século XX. Primeira porta à direita, ao lado da casa de chás e cafés "A Nova Pekin" de José Pires de Mattos, da esquina




14 de Novembro de 1907



Cartazes de "A Ginjinha"

A comercialização de ginjinha inicia-se no século XIX e uma das pioneiras na sua produção foi a "Fábrica Âncora", fundada em 1882 pelo médico Dr. Carlos Felizx de Lima Mayer. No início do século XX vamos encontrar várias pequenas empresas a produzir ou a comercializar o licor de ginja. Temos como exemplos a firma "Simões & Barata" com o "Licor de Ginja", Fernando Madureira com a "Ginja Latina", a "Fábrica de Licores Pérez, Lda." com a "Ginja, Peitoral e Digestiva Extra", J. Manuel L. Cima com a "Ginja sem Rival", "Bernardo Moraes & C.ª Sucº" com o "Licor Superfino de Ginja", Manuel de Assis da Silva Daun e Lorena Guimarães Ribeiro com o "Licor de Ginja MSR". Por outro lado, Em 9 de Junho de 1906 era pedido o "Registo de Propriedade Literaria" para a obra "A ginjinha", «monologo alcoolico, por Celestino Gaspar da Silva. Lisboa, Imprensa Lucas, in-4º de 8 paginas». E em 12 de Agosto de 1910 era registado no "Conservatorio Real de Lisboa", o «Fado do bagaço e ginginha». Aqui ficam alguns rótulos ...



1933


Alberto Pimentel no seu livro "A Triste Canção do Sul", publicado em 1904, referia «De todos os botequins fadistas da actualidade o mais amplo é o do Veiga no largo Sitva e Albuquerque, onde aliás ha outro, o do Peres, afamado pela ginjinha; na rua d'aquelle mesmo nome o botequim do Ramalho tem uma roda abunilante de habitués da Mouraria.» 

Referência à "A Ginjinha" nesta triste notícia publicada no "Diario do Govêrno" de 8 de Julho de 1908: 

«Epifanio  Augusto  Lopes,  morador  na  Rua  de  S.  Lazaro n.°  31,  2.°,  Lisboa,  diz:
No  dia  5  de  abril  achava se  no  kiosque  de  refrescos situado  no  Largo  de  S.  Domingos,  onde  é  empregado,  e viu  que  muita  gente  que  saía  da  igreja  se  agglomerava no  largo.  Em  certa  altura,  appareceu  á porta  um  homem de  grandes  barbas  brancas,  cheio  de  sangue  na  cara,  e conduzido  por  outras  pessoas;  então,  uma  gaiatada  de  pé descalço  que  por  ali  andava,  começou  gritando  contra  os militares,  chamando-lhes  assassinos  e  malandros. 
Pouco  depois  viu  os  soldados  apontarem  as  armas  e fa­zerem  uma  descarga,  tendo  logo  caido  algumas  pessoas feridas,  sendo  esta  seguida  de  outras,  com  pequenos  intervallos.  Dentro  do  kiosque  estava  também  a  esposa  do seu  patrão  que  tencionava  ir  á  igreja,  á  festa  das  Dores, que  ali  devia  realizar-se,  tendo  ido  a  casa  jantar  o  seu patrão. Como  as  cortinas  estivessem  corridas,  foi  levantá-las, mas não  pôde  acabar  de  tirá las  em  virtude  de  continua­rem  os  tiros,  e  recear  ser  attingido  por  alguma  bala,  pois viu  cair  morto  um  indivíduo  em  frente  da  loja  de  vinhos chamada Ginjinha.  Deitou-se então no chão, encoberto com o  kiosque,  e  ali  esteve  durante  um  quarto  de hora,  proxi­mamente,  até  que  aproveitou um intervallo  em  que  se não dava  fogo  para  ir  para  sua casa (...).
De sua casa viu passar muitos feridos para o hospital, indo com elles até a porta d'esse estabelecimento, onde não o deixaram entrar.»


«kiosque  de  refrescos situado  no  Largo  de  S.  Domingos», a que se refere o texto anterior, ao lado de "A Nova Pekin" chás e cafés, por sua vez ao lado de "A Ginjinha"



Participação dos fabricantes de Xaropes e Licores na Exposição Portuguesa em Sevilha, em 1929


«A primitiva ginginha, situada no largo de S. Domingos, no gaveto do quarteirão do Rossio, tem duas meias portas, nas quais, com umas pinturas do actor Alexandre de Azevedo, antigo pintor de tabuletas, estão inscritos os seguintes versos, pelos quais o galego dono da casa me deu, em bons tempos de penúria e quando o dinheiro era dinheiro, a soma de 5.000 reis :

Dona Prudência da Costa,
Delambida e magrisela,
Fez de ser tola uma aposta,
Diz que ginginha nem vê-la
Porque, coitada, não gosta.

E a ama de um reverendo
Que é das bandas da Barquinha
Tem um aspecto tremendo,
Bebe aos litros da ginginha
E é isto que se está vendo.

A pintura representa duas tipas a escorropichar copinhos, vendo-se, na outra meia porta e na mesma atitude, dois tipos, num dos quais o artista me quiz representar, mas com grande infelicidade.

O Mateus é um chóchinha
Mais feio que um camafeu,
Magro, tísico, um fuinha,
Nunca na vida bebeu
Nem um copo de ginginha.



Muitas casas de venda da ginginha há na cidade, mas só uma imitou as primeiras nas tabuletas em verso, juntando o alcool à poesia.
E situada na actual rua de Barros Queiroz, não longe das outras, e tem à porta um painel com o seguinte :

Matei tigres e leões,
Leopardos mais panteras,
Eu já matei tantas feras
Que calculo em dez milhões,
Matei perdizes, faisões,
O veado, o javali ...
Minha sanha acaba aqui,
Mato agora por capricho
Todas as manhas o bicho
Com a ginginha Rubi.

As casas da ginginha foram as sucessoras dos velhos alambiques, que muitos havia por Lisboa, um que eu conheci no Largo do Rato, outro na Rua do Principe, antes da construção da estação do Rossio, e, ainda, outro no Loreto, esquina da rua da Emenda, o último a desaparecer. » in: revista "Olissipo"  - Petiscos de Lisboa , por Eduado Fernandes (esculápio)- 16 de Outubro de 1941.


Postal (frente e verso)

Em 31 de Dezembro de 1915 seria constituída a firma "Francisco Espinheira & C.ª", com sede no Largo de S. Domingos, 8 e com fábrica de «aguardentes, licores, genebras, cognacs, xaropes, etc, etc.» na Rua Damasceno Monteiro, 80-82., em Lisboa. Esta sociedade de responsabilidade limitada, em 1989 tinha como sócios Miguel Osvaldo Muiños Espiñeira e Maria Joaquina Lamas Muiños Espiñeira, ano em que em 21 de Setembro efectua um aumento de capital de 500.000$00 para 10.000.000$00. Até hoje mantém o mesmo capital social convertido em euros: 49.8979,79€.




Rótulos de bebidas produzidas por "A Ginjinha"

Em 1969, a grande fadista Hermínia Silva (1907-1993) gravou o fado "Às Ginjas Com Elas" com letra e música de Carlos Alberto França e editado pala etiqueta "Valentim de Carvalho".


1969

Andei por vielas às ginjas com elas
Só por bagatelas que me dão saudade
Senti-me na fossa e p’ra fazer mossa
Como casaca grossa, bebi à vontade

Bacalhau às lascas em todas as tascas
C’os gajos mais rascas andei misturado
Meti-me no tinto e depois do quinto
Talvez por instinto, cantei o meu fado

E ainda há quem diga 
Que isto é cantiga 
De gente ralé
Era antigamente
Porque eu cá sou gente 
Muito boa, até
Que importa o que dizem 
E os que maldizem 
Até com desdém
Se hoje já se vê 
A mata yé-yé 
Cantar o fado também

É quando sofremos a sós, que devemos
Expandir o que temos cá dentro de nós
E para o fazer, se fôr p’ra esquecer
Tanto faz beber, como usar a voz

Se não for defeito não ter preconceito
Estou no meu direito com todo o juízo
E quando quiser cantar ou beber
Assim vou fazer, quando for preciso




Fotos de 1969

Nota: as 3 fotos anteriores, e segundo os arquivos da Biblioteca de Arte da FCG, foram retiradas do livro "Lojas de um tempo ao outro" Vol II, de Jorge Ribeiro e publicado em 1994.

Miguel Osvaldo Muiños Espiñeira Miguel Osvaldo, além de ter procedidoà mecanização da antiga fábrica na Rua Damasceno Monteiro, em Lisboa, adquire 25 hectares de terreno na Arruda dos Vinhos, onde planta um pomar e cria a nova fábrica de licores na Estrada das Coirredouras, 7. Esta fábrica produz anualmente cerca de cento e cinquenta mil litros de licor anuais, escoando isto quase tudo para o mercado nacional, e apenas dez por cento para exportação, sobretudo para os Estados Unidos. Além do licor de ginja pela qual é conhecida, esta casa também serve "Capilé Espinheira", bagaço e outras bebidas.


Pomares e fábrica de "A Ginjinha", em Arruda dos Vinhos





Fotos actuais de "A Ginjinha" do Rossio

E em 1920 ...


Com certeza que se referia a bebidas não alcoólicas ...


4 de fevereiro de 2026

"Baeta" - Ourivesaria e Joalharia

A ourivesaria e joalharia "Baeta", propriedade de Alberto Seabra Baeta desde 1922 e localizada na Rua do Ouro, 65 e 67 em Lisboa, teve origem na "Joalharia Pontes" de Joaquim Luiz Pontes, que já em 1880 ali estava estabelecido.

Antes da "Joalharia Pontes", nesta loja (antigos números 65 e 66) já tinham por lá: em 1837 uma botica; em 1852 a "Confeitaria Franceza"; e antes da "Joalharia Pontes" como o texto seguinte refere uma ourivesaria de um tal Seixas.

10 de Junho de 1837


3 de Abril de 1854


Ourivesaria de Joaquim Luiz Pontes em 1880


Ourivesaria de Joaquim Luiz Pontes em 1886

Recorrendo, mais uma vez, ao livro "Praça de Lisboa" coligido por Carlos Bastos, em 1945 transcrevo perte do texto alusivo à história da "Ourivesaria e Joalharia Baeta":

«Ao contrário do que se pode depreender do título actual, o estabelecimento agora designado por Ourivesaria Baeta tem tradições seculares e, muito embora não existam documentos escritos comprovativos, sabe-se por informações fidedignas e insuspeitas que há mais de cem anos, no prédio do Banco de Portugal, teve a sua sede uma ourivesaria pertencente a um tal Pontes, que mais tarde transferiu o estabelecimento para o actual local, onde então funcionava uma casa similar de que era dono um indivíduo de nome Seixas.

A Joalharia Pontes foi uma das mais antigas e notáveis de Lisboa, havendo executado diversos trabalhos para a Casa Real. O irmão de um dos seus primeiros proprietários, Joaquim Luís Pontes, senhor de avultada fortuna, era não só possuidor do estabelecimento como de todo o prédio onde êle se encontrava instalado. Cêrca de 1886 entrou para o serviço da casa João Martins Ferreira Baeta que, como empregado, exerceu durante vinte e dois anos uma colaboração útil e valiosa. Após a sua morte, e para o substituir, em 1908, foi convidado seu filho Alberto Seabra Baeta que, apesar de apenas contar dezassete anos de ídade, já dispunha de excelente prática profissional de oficina.

Durante dez anos se manteve Alberto Seabra Baeta nesse lugar e tais qualidades revelou que, em 1918, lhe foi confiada a gerência, delicado cargo que ocupou com igual prestígio e de molde a contribuir largamente para o progresso e expansão da casa, cujos destinos lhe vieram a pertencer em 1922, ano em que dela tomou conta em nome individual.


1926

Nota: no anúncio anterior a "Alberto S. Baeta" ocupava, também, o nº 63, onde tinha funcionado a loja do editor de partituras musicais "Raul Venancio" desde 19 de Setembro de 1901. Em 1851, já ali funcionava a "Libraire Française de P. Plantier" (portas 62 e 63). 


1 de Outubro de 1901

Conhecendo profundamente os problemas da indústria e do ramo de comércio a que se dedicava, Alberto Seabra Baeta desde então pôde pôr em prática a grande capacidade directiva que possuía e colocar a Ourivesaria Baeta no elevado nível mercantil que hoje disfruta. Nessa árdua tarefa, seu filho Carlos Alberto Baeta tem-se colocado, ùltimamente, como precioso auxiliar.

Modesto por temperamento, Alberto Seabra Baeta, agraciado com a comenda de Mérito Industrial procura sistemàticamente não abandonar a esfera do seu trabalho e evitar tudo quanto possa pôr em destaque a sua prestimosa acção em prol da classe de cujo Grémio é director, exercendo também o cargo de Presidente da Associação de Socorros Mútuos dos Ourives de Prata.»


Outubro de 1941

Dezembro de 1942

Alberto Baeta viria a ceder, em 1927, o número 63 à casa "Cardoso, Lda" que se instalou nos números 61 e 63. Constituída em 29 de Dezembro de 1933, dedicava-se a nefgociar títulos, cupões, ouro, prata e moedas nacionais, e moedas e notas estrangeiras.


19 de Novembro de 1851

Em 14 de Dezembro de 1937 dá entrada na CML o projecto de alteração da fachada e interior da loja, vindo a ser aprovado em 25 de Abril de 1938. A renovada  joalharia "Baeta" viria a ser inaugurada em 18 de Janeiro de 1939. 

Quando tive acesso à foto da fachada da "Baeta", chamou-me à atenção a mesma ser revestida a pedra mármore, facto não muito comum na época. Vim a descobrir a possível razão. Alberto Seabra Baeta tinha uma indústria de mármores em Pêro Pinheiro, Sintra, tendo vindo a constituir com seu filho Carlos Alberto Borba Baeta, Augusto Garcia Rainho e Bonfilho Augusto Rainho Faria, em 11 de Dezembro de 1946 a firma "Sociedade de Mármores B. Faria, Lda". Augusto Garcia Rainho e Bonfilho Augusto Rainho Faria deixariam de fazer parte da sociedade por escritura pública de 25 de Agosto de 1956, ficando Alberto Baeta e Carlos Baeta como únicos sócios.

1 de Janeiro de 1951

"Baeta" entre os reclames aos Câmbios e aos relógios "Roamer", à esquerda na foto

Nota: a propósito da legenda da foto anterior ... nunca ouviu falar nos relójios "Roamer"? Pois aqui fica a publicidade de 1971. A "Roamer" existe desde 1888.


2 de Dezembro de 1971

                                                       1955                                                                       1956

Alberto Seabra Baeta, depois de ter procedido a obras de benefeciação, em Outubro de 1970, viria a encerrar em definito a ourivesaria e joalharia "Baeta", em Janeiro de 1979. 

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de LisboaEstação Chronographica