13.2.26

Jesús Muñárriz (Calar)




CALLAR

 

Callar es más prudente,
más seguro, más cómodo, más práctico,
callar es más astuto,
más rentable,
más útil,
callar no da problemas,
callar evita líos,
callar trae más cuenta,
callar impide que se cuelen moscas
en la boca, callar propio es de sabios,
se está muy bien
callado.

Porque el que calla
otorga
licencia, impunidad,
perdón, facilidades
y patente de corso,
y por la boca muere el pez y siempre
se ha de sentir lo que se dice y nunca
decir lo que se siente
si se quiere triunfar
en sociedad
y recibir migajas
del gran pastel
del mundo.


Jesús Muñárriz

 

Calar é mais prudente,
mais seguro, mais cómodo,
calar é mais astuto,
mais rentável,
mais útil,
calar não dá problemas,
calar evita sarilhos,
calar faz mais conta,
calar impede que entrem moscas
para a boca, calar é próprio de sábios,
o melhor é o calado.

Porque quem cala
confere
licença, impunidade,
perdão, facilidades
e carta branca
e pela boca morre o peixe
e temos de sentir sempre o que dizemos,
nunca dizer o que sentimos,
se quisermos vencer
na sociedade
e receber umas migalhas
do grande pastel
do mundo.


(Trad. A.M.)

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12.2.26

Eloy Sánchez Rosillo (Deixo a porta aberta)




 DEJO LA PUERTA ABIERTA  

 

Para vosotros, que vendréis al mundo
cuando yo me haya ido,
escribo este poema.
No sé; tal vez un día,
gracias a los azares que entreteje
la vida a cada instante,
os traerán vuestros pasos hasta él.
Dejo su puerta abierta por si acaso
y empiezo a imaginar como certeza
lo que es tan sólo un sueño.  

En mi poema puede verse el cuarto
en el que escribo hoy. Entrad, entrad
con toda confianza,
a pesar de mi ausencia.
Y aproximaos al balcón. Transcurre
una tarde hermosísima
de finales de agosto. 

Después de tantos días implacables
de luz arrasadora,
el tiempo ha dado un giro inesperado.
Son una bendición para los ojos
estas horas distintas. Se diría
que anda de retirada ya el verano.
Da pena despedirlo
(todo lo que se va nos duele al irse),
pero el cambiar también es alegría.  

Por momentos están amontonándose
nubes negras y grises en el cielo
y el viento las trajina y las sojuzga
sin miramiento alguno.
La tarde se oscurece más y más.
Y al fin rompe a llover. Qué maravilla.
Llueve con fuerza, a ráfagas violentas,
y las fulguraciones enlazadas
de incesantes relámpagos
abren paso a los truenos,
que tropiezan y ruedan allá arriba
con estruendo imponente.  

Mirad y oled la lluvia,
disfrutad de esta tarde en la que no
podremos estar juntos.
Sabed que la escribí con regocijo.
Y que pensé en vosotros.

Eloy Sánchez Rosillo

 

É para vós, chegados a este mundo
quando eu já tiver partido,
que eu escrevo este poema.
Não sei, talvez um dia,
pelos acasos que a vida tece
a cada instante,
vossos passos vos trarão até aqui.
Deixo para tal caso a porta aberta
e ponho-me a imaginar como certeza
o que por ora é só um sonho.

Pode ver-se o quarto no meu poema,
este em que escrevo hoje. Entrai,
entrai à confiança,
apesar da minha ausência.
E chegai à varanda, está
uma tarde belíssima
de fins de Agosto.

Depois de tantos dias implacáveis
de luz arrasadora,
o tempo deu uma volta inesperada.
São uma bênção para a vista
estas horas diferentes, dir-se-ia
que o verão está já em retirada.
Dá pena impô-lo
(tudo o que se vai nos custa ao ir-se)
mas mudar também é alegria.

Por momentos amontoam-se
nuvens de negro e cinza no céu
e o vento arrasta-as e subjuga-as
sem a mínima consideração.
A tarde escurece mais e mais,
e por fim rompe a chover. Que maravilha,
chove com força, bátegas violentas,
e as fulgurações ligadas
com incessantes relâmpagos
abrem passo aos trovões,
que tropeçam e rodam lá em cima
com estrondo impoente.

Olhai para a chuva e cheirai,
desfrutai esta tarde em que não
poderemos estar juntos.
Sabei que a escrevi satisfeito
e que pensei em vós.


(Trad. A.M.)

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10.2.26

Lêdo Ivo (Contrabandista)





CONTRABANDISTA

 

Nenhum poeta é obscuro.
Tudo o que ele diz é claro
como um palavrão num muro.

Mais claro que a luz acesa
é o poema mais hermético.
Pão matinal numa mesa.

Na noite misteriosa
nenhum mistério prospera:
apenas freme uma rosa.

Qualquer menino decifra
o soneto indecifrável
e o verso mais sibilino.

O poeta sempre diz tudo
quando se cala em seu nada.
É um contrabandista mudo

na alfândega da vida.

Lêdo Ivo

>> Revista (30p) / Escritas (9p) / Academia / Wikipedia

  

8.2.26

Elías Moro (Chega a luz)




VIENE LA LUZ       
     


Viene la luz esta mañana
a contarme los colores
mira, me dice, este es el nuevo azul
del aire poblándose de pájaros,
ese de ahí el blanco de estreno
brazando al rosa casi muerto,
ocre viejo es aquel otro
de la tierra que pardea,
observa qué bellos los verdes
que se duermen en el estío
el amarillo redondo es el sol,
la sangre del día el rojo que estalla
y has de saber, me dice,
que ese gris que ignora dónde posarse
es la niebla insegura y dulce,
semejante en todo a tu mirada.
 

Elías Moro 

 

Chega a luz esta manhã
a contar-me as cores
olha, diz-me ela, este é o novo azul
do ar a povoar-se de pássaros,
esse aí é o branco a estrear
abraçando o rosa quase morto,
ocre velho é aquele outro
da terra pardacenta,
olha que belos verdes
que adormecem no estio,
o amarelo redondo é o sol,
o sangue do dia o vermelho que explode
e hás-de saber, diz-me ainda,
que esse cinza que não sabe onde há-de pousar
é a névoa insegura e doce,
semelhante em tudo ao teu olhar.
 

(Trad. A.M.)


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7.2.26

Antonio Orihuela (A poesia é um incêndio)





A poesia é um incêndio
por isso não dá para viver
dá para arder, 

não escrevas,
arde nela.

 

Antonio Orihuela
(Trad. C.Abreu)

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5.2.26

Fernando Pessoa (Ela canta, pobre ceifeira)




 

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa

[Arquivo Pessoa]

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3.2.26

Eduardo Moga (Os haykus do cego e do cão)




LOS HAIKÚS DEL CIEGO Y EL PERRO

 

El ciego mete
al lánguido mastín
bajo el asiento.
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El perro quiere
salir, pero el ciego
es inflexible.
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El ciego ve
otras oscuridades.
También el perro.
.

Se mueve el perro
y, minuciosamente,
se mueve el ciego.
.

¿Transcurre el tiempo
entre el paso del perro
y el del ciego?

(Y un corolario afín)
.

:El tuerto ¿ve
tan sólo la mitad
de lo que existe?


Eduardo Moga

 

O cego mete
o lânguido mastim
sob o assento.
.

O cão quer
sair, mas o cego
é inflexível.
.

O cego vê
outras escuridões.
O cão também.
.

O cão move-se
e. minuciosamente,
também o cego.
.

O tempo corre
entre o passo do cão
e o do cego?

(E um corolário afim)
.

O zarolho vê
apenas metade
do que existe?


(Trad. A.M.)

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