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<rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" version="2.0"><channel><description>Quando dois (ou mais) universos colidem, ou apenas se cruzam. Uma série de breves viagens literárias promovidas por Atomic Tangerine.</description><title>Sobre Cafés e Cigarros</title><generator>Tumblr (3.0; @sobre-cafes-e-cigarros)</generator><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/</link><item><title>Champ x Mickey</title><description>&lt;figure class="tmblr-full" data-orig-height="652" data-orig-width="850"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/f5cd5f6a26fb52e6c5c80245f1f91dfb/tumblr_inline_p0uzrwlSm01sdj1j8_540.png" data-orig-height="652" data-orig-width="850"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;p&gt;A academia de boxe cheirava a sovaco, suor peludo, impregnado nas lonas ensebadas e maturadas pela umidade cozida em um teto de zinco. O ar pastoso era movido por preguiçosos ventiladores que faziam as vezes de uma colher de pau. Uma lufada de ar sortuda podia se arrastar lá dentro por anos até ganhar a liberdade através de um ou outro basculante emperrado aberto no alto das paredes do galpão.&lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;Esse era o ar que Billy respirava, trocou por gás carbônico devagar, e por um instante se sentiu em casa, no aconchego do lar. Esse pequeno fio de pensamento trouxe uma breve sensação de conforto, potencializada pelo gancho que tomou no queixo, as costas raladas contra as cordas do ringue e as gotas de suor azedas de uísque que vertiam para a sua boca. Escorregou como macarrão no escorredor e se acomodou na lona com as boas vindas da força da gravidade, de quem chega em casa e se joga no sofá depois de um dia de trabalho. Claro, se não tivesse de ressaca graças à noitada no Tropical Dancing Inn, a história desse treino seria outra; não seria ele no chão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Precisava de um tempo para se concentrar e, irritado, arrastou-se até o vestiário. Tirou o capacete, cuspiu o protetor bucal na pia, desamarrou as luvas com os dentes, abriu a torneira e usou as mãos em concha, empapando as bandagens, para jogar água na cara. Apoiou-se na cuba e olhou tão fundo no espelho que se viu envelhecido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mickey Donovan creditou a imagem rejuvenescida no espelho ao excesso de uísque e pó. Quem sabe miopia também? Não, não, os óculos estavam sobre o nariz, mas não no nariz refletido. Devia ser um golpe de memória, mas não era nada mau para um homem da sua idade se lembrar com tanta precisão do seu rosto há quarenta anos. Novamente jogou água na face e sorriu para o outro eu. Então, olhou ao redor para se assegurar que ainda estava no banheiro da academia de boxe de seu filho Terry. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Billy encarou a pele flácida, as bochechas caídas, o cabelo ralo e as entradas do seu futuro com fome de detalhes. Quem sabe nesse tempo já tivesse resolvido os seus problemas? Já fosse um campeão do mundo, rico e tivesse dado uma boa vida para o seu filho. “Campeão! Campeão!”, esganiçava o pequeno toda vez que queria sua atenção. E Billy acreditava que seria campeão só para agradar seu filho, para que o chamamento dele se tornasse realidade e pudesse então cuidar do garoto, dar a ele tudo do bom e do melhor. Fogos de artifício emocionais para tirar o foco do seu egocentrismo e se afastar da culpa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mickey lembrou-se de como era bom ser jovem e livre. Ter todo vigor do mundo sem precisar da azulzinha para cheirar pó e comer umas bucetas na mesma noite. Nunca ligou para os filhos. O boxe faria por eles o que ele não pôde fazer por trás das grades; e os transformaria em verdadeiros homens: capazes de suportar os golpes sujos da vida. Foram tantos os anos fora de circulação que agora, velho e liberto, Mickey só os via como um plano de aposentadoria que usava com amor durante os seus golpes.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Futuro e passado refletidos em faces opostas do mesmo espelho. Um buraco de minhoca virtual, um vislumbre de tempos e vidas diferentes em espaços similares. Billy respirou fundo, fez o sinal da cruz, esconjurou aquele velho e abandonou o espelho de volta ao treino. Já Mickey fez o sinal da cruz, teve uma ereção por se rever jovem e, enquanto apertava o pau, amaldiçoou aquela voz fina que insistia em chamá-lo de campeão − embora a afirmação tivesse ares de verdade.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;b&gt;&lt;a href="https://instagram.com/lobo_comics/"&gt;Lobo&lt;/a&gt; &lt;/b&gt;e ilustração de &lt;b&gt;&lt;a href="http://andreducci.art.br"&gt;André Ducci&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Billy&lt;/b&gt; foi interpretado por Jon Voight em &lt;i&gt;The Champ&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;O Campeão&lt;/i&gt;), filme escrito por Frances Marion, baseado em uma história de Walter Newman, e dirigido por Franco Zeffirelli em 1979. Jon Voight também interpretou &lt;b&gt;Mickey Donovan&lt;/b&gt; em &lt;i&gt;Ray Donovan&lt;/i&gt;, série de televisão criada por Ann Biderman em 2013.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br"&gt;Sobre Cafés e Cigarros&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;b&gt;&lt;a href="http://atomictangerine.com.br"&gt;Atomic Tangerine&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/168468540530</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/168468540530</guid><pubDate>Tue, 12 Dec 2017 11:58:33 -0400</pubDate><category>Billy</category><category>TheChamp</category><category>OCampeão</category><category>MickeyDonovan</category><category>RayDonovan</category><category>JonVoight</category><category>Lobo</category><category>AndréDucci</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item><item><title>Couro Branco</title><description>&lt;figure data-orig-width="850" data-orig-height="704" class="tmblr-full"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/76c022aacaa5ba0228e8b8cb76c6627d/tumblr_inline_oua8ozKumD1sdj1j8_540.jpg" alt="image" data-orig-width="850" data-orig-height="704"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;p&gt;O lugar era um gelo, mas a gente estava sempre lá. Na quitinete dela. Ombro a ombro, no sofá de couro branco. Apesar da amizade, não éramos íntimos. Nem chegávamos a dividir o mesmo cobertor. Timidez demais, perigos e entraves, você sabe como é. Havia o vinho, claro, e a maconha, uma paixão comum. Aquela pontinha babada de seda, indo de uma boca a outra. Ela curtia, mas sem exageros. Beber e fumar atrapalha a fruição dos clássicos, e às vezes dá margem a confusões indesejadas, uma pena.&lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;Naquela noite, não era pra ser diferente. A maconha tinha acabado antes de começar o primeiro filme. Normal. Do vinho, ainda sobravam duas garrafas. Já tínhamos secado outras duas, e ela avisou que ia parar. Eu fui em frente. Era um tinto doce, barato, comprado no postinho da esquina, e tudo bem. Nenhum de nós se importava com a excelência da bebida, a genealogia da uva. Não é isso o que vai determinar a qualidade das nossas fantasias, e nem da nossa memória. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aliás, me desculpe. Do título do filme, eu não me lembro. Era um documentário muito antigo, de um século atrás, sobre um esquimó (ela prefere inuíte) e sua família. Um grupo de pessoas primitivas caçando e pescando, sobrevivendo no Ártico. Tem seu valor, não vou negar. Só não era pra mim. Não aprovei a escolha dela, mas não disse nada, não estava a fim de discutir, só queria beber. No fundo, você sabe, sou um cinéfilo de araque, um diletante com segundas intenções. Não me interessam tanto os filmes, mas as interações que promovem. O que me atrai, numa narrativa, é o mundo real que ela invariavelmente deixa de retratar, são as lacunas que eu preencho, e acho que a maioria de nós é assim, só não é costume de ninguém confessar seus defeitos intelectuais. Os espirituais, por outro lado, são bem mais fáceis de admitir. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;O filme era bom, era ruim, e daí? Eu não estava prestando atenção. Ela equilibrava no colo uma bacia de pipocas, e aquilo me distraía, o vapor que se erguia da comida, um cheiro enjoado de química e manteiga. O filme era mudo, e a mastigação dela, um festival de rojões. Os grãos de milho entre seus molares, mal estourados, me lembravam ossinhos sendo moídos, ou então lenha estalando na lareira. Um fogo acolhedor, entre a língua e o palato. Estava frio, já disse, mas de repente passei a sentir calor, ou talvez eu só pressagiasse algum calor. Talvez. Se era o excesso de vinho ou o de expectativas, não sei. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sei que a moagem da pipoca e o avanço daquela família de esquimós sobre o gelo foram me embalando, já passava da meia-noite. Eu olhava pra telona da tevê, setenta polegadas, um despropósito pras dimensões daquela salinha, a televisão mais ampla que a janela, que a cidade, que a vida lá fora, e olhava também pros pés da minha amiga, descobertos, uma provocação, despontando de uma abertura na manta de lã com que enrolava as pernas, esticadas sobre o pufe. Ela estava de meias coloridas, listradas, sempre as usa assim, são meias divertidas, supostamente engraçadas, se acha tão divertida que até suas meias precisam reafirmar isso. Você não está com frio nos pés, eu perguntava, a cada cinco minutos, na fé de que ela me permitisse massagear seus dedos, explorar cada vão entre eles, mas ela dizia que não, frio nenhum, seus pés eram quentes, duas brasas, veja o filme, preste atenção, só cuide pra não derramar vinho no sofá de couro branco. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como se isso fosse viável, dormir e beber simultaneamente. Tomar cuidado? Saber me cuidar seria tão bom. Dormir e beber, beber e dormir, dormir, beber. Não, não dava, impossível. De vez em quando, uma agitação no filme me sacudia. Um escorregão num barranco, um trenó que derrapasse numa curva imaginária, e minha taça de plástico quase ia parar no tapete. Eu estava sensível demais, atento a coisas que não existiam. Sensível, atento ou, vá lá, vulnerável. Uma rajada de vento mais escandalosa, uma lança que voasse rente a minha orelha, o mar de uma praia glacial molhando minhas meias brancas. Eu me assustava ao toque de uma onda, dava um pulo, abria os olhos, um de cada vez, o sol contra os paredões de gelo. Tão intensa aquela luz que eu já não enxergava ou definia qualquer coisa ao redor, só sabia que o importante era evitar, a qualquer custo, o desperdício do vinho, a perda de uma gota sequer, pois tudo, até mesmo o mais ácido dos vinagres, haverá de ser vital a estas temperaturas e latitudes, a vida nunca foi tão difícil quanto aqui e agora.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas eu bocejava, tenho o hábito da inanição, não o orgulho, apenas o vício, e reconheço que é uma falha. Queria ficar numa boa, aproveitar a praia e o sol, sim, sou um homem solar, me aborrece o congelamento geral da paisagem e das perspectivas. Mas aquele esquimó, agora não lembro o nome dele, me desculpe, era um guerreiro obstinado e não me dava sossego. Se eu quisesse comer, me advertiu, teria que trabalhar. Disse isso e me passou uma lança muito bonita, talhada especialmente pra mim, li meu nome gravado nela e a tomei como um presente de boas-vindas. Emocionado, a empunhei, firme, embora sem jeito, com a mão esquerda, minha mão ruim (a direita, lembre-se, segurava a taça de plástico).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O esquimó pôs um indicador diante dos lábios, pediu discrição e me apontou as morsas, havia um bando delas perto de nós, os machos humanos. Agora é com a gente, cochichou, e nos agachamos junto às pedras da praia, pois lá não havia areia, só pedras redondas, do tamanho de corações, da mesma cor de nossos casacos de pele, ignoro o animal de que teriam sido roubados, e bem devagar fomos nos aproximando das marolas onde as morsas se espreguiçavam. Parecíamos, nós também, duas rochas, apreensivas, porém competentes, pedras especializadas em matar, nos movendo um centímetro a cada cem anos, eu somente um tanto fora de forma, jamais tive a chance de desenvolver um abdômen de predador, e me ressinto disso. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ao comando do esquimó, experiente, atacamos. Foi como abrir uma gaveta de brinquedos ancestrais, tudo tão excitante: a tocaia, o bote, os gritos, os animais se lançando ao mar, em pânico, bem mais ágeis do que nos faria supor tanta banha. A debandada das morsas era admirável em sua plástica, o medo é um excelente coreógrafo, e admiráveis eram os seus músculos, e a trama de fibras e nervos retesando-se debaixo de toda aquela gordura, a suculência de uma carne que queria continuar vivendo incondicionalmente. Sim, há dignidade nessas fugas, e a dignidade é sempre apetitosa. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A preguiça abandonou meu corpo, eu era outro homem, uma criatura dinâmica e integrada, e foi com alegria que o esquimó e eu lançamos nossos arpões contra uma das morsas, e apesar de a ferirmos de morte, minha lança perfurando seu pescoço, ainda tivemos de brigar, os três, por cerca de dez minutos, o esquimó e eu puxando a presa furiosa por uma corda grossa, talvez de cânhamo, num cabo de guerra exaustivo, mas otimistas, pois já não tínhamos mais nada a perder. A vitória era nossa, era só uma questão de paciência, de exaurir a vítima, sangrá-la até que ela consentisse com o próprio sangramento, até que concordasse conosco, sim, é preciso que eu morra sob vossos esforços, e foi isso que fizemos, nós a matamos, ou ela é que morreu por nós, deixou-se comer e transfigurar, entrando em comunhão com nosso futuro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu suava, eu fervia debaixo das peles. Era minha primeira morsa, e o esquimó me ensinou a abri-la da maneira correta, a destacar o couro de suas camadas de gordura, e o fez quase frugalmente, como se descascasse uma manga gigante e perfumosa. Aprendi a eviscerar a caça sem magoar a beleza de seus órgãos, apreciando a virgindade de cada tripa, aprendi a desmembrá-la sem ser rude, e a desencaixar sua ossatura, peça por peça, sem desperdiçar uma só gota do sangue que ia se empoçando no bojo daquela carcaça. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Comi bem. Eu tirava grandes nacos da carne crua daquele bicho, e os mastigava demoradamente, com dentes que até então desconhecia, como desconhecia, até aquele momento, o próprio significado da palavra intimidade. Eu lambia a faca que o esquimó me emprestara, sua lâmina larga e rústica, e aos poucos, convidado a um mergulho primal, a uma imersão naquele manancial de calor que fumegava diante de mim, fui me deixando submergir, me acomodando de costas entre o fígado, o estômago e os intestinos da morsa, e a vesti como quem veste a capa de um imperador, o rei do Alasca, e lá dentro era quente, úmido e familiar, tão confortável que adormeci de novo, seguro, o esquimó velando por nós, você sabe como é, a amizade masculina vive desses disfarces, dessa brutalidade camuflada, são duras vigílias.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dormir foi bom, ou deveria ter sido, tão bom quanto comer. Mas logo acordei mareado e aflito. Na verdade, alguém me acordou, e do pior jeito possível. Uma mulher muito branca, de feições selvagens, estava sentada sobre mim. Me mantinha preso sob a avalanche de seu corpo, manejando uma manta de fios brilhantes que, a pretexto de me aquecer, me amordaçava. Tudo à minha volta era neve, e nem sinal do esquimó. Teria me largado, me traído? Chamei por ele, meu relapso protetor, sussurrei seu nome, aquele nome de que já esqueci, ou achei que sussurrava, pois não tinha mais fôlego nem coragem pra falar ou fazer coisa nenhuma, o frio voltando a me incomodar, me travando a ação, a mandíbula. Eu nem pensava mais em me safar, só tentava ler e reconhecer o rosto da mulher que me atacava, ou decifrá-lo à luz poente daquelas geleiras, mas tudo, num segundo, virou escuridão. Eram os cabelos dela sobre mim, uma cabeleira negra e esvoaçante, uma noite sedosa, e ela lutando comigo, não com ódio ou mesmo técnica, mas com movimentos até burocráticos, eu diria, pois a luta parecia ser a própria natureza daquela mulher, e isso se não for, quem sabe, a natureza de todas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Achei que seria vencido, e quis chorar, não me envergonho de confessar isso a um amigo. Eu estava fraco, o embate contra a morsa já tinha sido bárbaro o bastante. Mas sou teimoso e, apesar daquela sensação tão real, tão absorvente, de estar sendo enterrado vivo, me bateu a lembrança redentora do vinho: meu Deus, a taça de vinho! Onde é que ela estava, eu não podia derramar o vinho, eu prometi que tomaria cuidado, o sofá de couro branco, o que foi que eu fiz? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Reuni o que me restava de energia e gritei o mais alto que pude, gritei o nome do esquimó, até espantar dali aquela mulher gelada, e ela de fato sumiu, estourou no ar como um demônio ou uma pipoca, desistiu de mim e se desintegrou, só deixando, na ventania da sala, a sua manta de fios brilhantes, revolta, libertada de sentidos e ameaças, embolando-se com a neve, no tapete — ou seria uma manta de lã, xadrez? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sim, a manta de lã. Eu a localizei no tapete da sala, debaixo da minha taça de plástico, emborcada, uma mancha vermelha se expandindo até o assoalho de tacos. Na tevê, um filme japonês já ia pela metade, quem estava assistindo? Chequei o sofá, ninguém comigo, e o ambiente polvilhado de pipocas. Minha amiga tinha vazado. Ela devia estar no banheiro, ou então na cama. Eu mesmo estava com vontade de mijar, as pernas enrijecidas, a calça e a cueca, só então percebi, emboladas com a manta, no chão, e também sujas de vinho. Levantei com dificuldade, a cabeça virada, e minha bunda, desgrudando do couro branco, fez um grande som de beijo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;No filme, um japonês se erguia da neve. Respirava fundo, como se quisesse se livrar da influência de um pesadelo. Esteve perto da morte, logo vi, e parecia aliviado. Olhou pro céu, pro vento no cume das montanhas que o cercavam, e puxou uma corda grossa a qual estavam presos vários amigos seus, desacordados, soterrados pela nevasca. Acordou a todos, chacoalhando um por um, e apontou, ao grupo que ressuscitava, o acampamento que precisavam alcançar, um sítio antes perdido, encoberto, um destino de sonho, e que ressurgia a poucos metros dali, tão perto deles, tão convidativo, embora fosse somente uma bandeira triangular, vermelha, tremulando sobre a fenda escura de uma pequena barraca.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Achei o controle remoto debaixo de uma almofada, abaixei o volume e pude escutar, vindo lá de dentro, o chiado do chuveiro. Me vesti, e achei melhor descer sem me despedir ou mijar. Apenas saí pra rua e já me senti arrependido. Não devia ter saído, foi um erro, a bexiga estourando. Lá fora o frio era ainda maior, mas disso você já sabia, está cansado de saber, você é meu amigo e acredita em mim, jamais acreditaria na versão dela, ela é louca.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;b&gt;&lt;a href="https://facebook.com/lhpellanda/"&gt;Luís Henrique Pellanda&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, revisão de &lt;a href="http://escoladeescrita.com.br"&gt;&lt;b&gt;Giovani Kurz | Esc. Escola de Escrita&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; e ilustração de &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.focacruz.com"&gt;Foca Cruz&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Nanook&lt;/b&gt; (Allakariallak) foi o personagem central de &lt;i&gt;Nanook do Norte&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Nanook of the North&lt;/i&gt;), documentário dirigido por Robert J. Flaherty em 1922. &lt;b&gt;Yuki-onna&lt;/b&gt; foi interpretada por Mieko Harada em &lt;i&gt;Sonhos&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Yume&lt;/i&gt;), filme escrito e dirigido por Akira Kurosawa em 1990.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br"&gt;Sobre Cafés e Cigarro&lt;/a&gt;s&lt;/b&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;b&gt;&lt;a href="http://atomictangerine.com.br"&gt;Atomic Tangerine&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/163880701080</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/163880701080</guid><pubDate>Sun, 06 Aug 2017 18:39:29 -0300</pubDate><category>Nanook</category><category>NanookDoNorte</category><category>NanookOfTheNorth</category><category>YukiOnna</category><category>SnowFairy</category><category>Sonhos</category><category>Dreams</category><category>Yume</category><category>LuisHenriquePellanda</category><category>FocaCruz</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item><item><title>Anotações sobre a passagem de Jep Gambardella pelo Rio de Janeiro</title><description>&lt;figure data-orig-width="850" data-orig-height="597" class="tmblr-full"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/98daeb1c76ab723e7c1c375b4e84a520/tumblr_inline_ogw1ytOL4U1sdj1j8_540.jpg" alt="image" data-orig-width="850" data-orig-height="597"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;1&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um dos filmes lançados nos últimos anos de que mais gostei foi A Grande Beleza. Gostaria de escrever uma resenha sobre ele, mas estou sem tempo e numa ressaca braba da festa maravilhosa de ontem, na Urca, na residência de amigos. O casal acaba de se mudar para o bairro. Linda vivenda. Ontem, os garçons não deixavam os copos chegar na metade, fossem de cerveja, uísque ou espumante. Foi prudente terem deixado os papeletes de Engov no banheiro. Tomei um antes, um no meio e um depois da festa. Posso afirmar, o Engov já não é mais o mesmo, ou eu é que não sou. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Bom, dei um &lt;i&gt;google&lt;/i&gt; e encontrei as informações básicas sobre o filme. A Grande Beleza é um drama/comédia, de 2013, dirigido por Paolo Sorrentino, com o roteiro dele e de Umberto Contarello. Vou copiar e colar aqui a sinopse: em Roma, durante o verão, o escritor Jep Gambardella reflete sobre sua vida. Ele tem 65 anos de idade. Desde o grande sucesso do romance &amp;ldquo;O Aparelho Humano&amp;rdquo;, escrito décadas atrás, ele não concluiu nenhum outro livro. A vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade e os luxos e privilégios de sua fama. Quando se lembra de um amor inocente da sua juventude, Jep cria forças para mudar sua vida e, talvez, voltar a escrever.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Também fiz questão de anotar algumas frases ditas por Jep de que gostei muito: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Para esta pergunta, quando éramos crianças, meus amigos todos sempre davam a mesma resposta: vagina. Eu respondia: o cheiro da casa dos velhos. A pergunta era: o que você mais ama na vida? Eu estava destinado à sensibilidade. Eu estava destinado a ser um escritor. Eu estava destinado a me tornar Jep Gambardella.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Os trens das nossas festas são os melhores de Roma. Eles são os melhores porque rodam rodam e não levam a lugar nenhum.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Foi lindo não fazer amor esta noite.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“É assim que sempre termina: com a morte. Mas primeiro há a vida, escondida sob o blá-blá-blá. Está tudo resolvido de acordo com a vibração e o barulho, o silêncio e o sentimento, a emoção e o medo. Os abatidos flashes inconstantes de beleza. E então a miserável e infeliz humanidade. Todos enterrados sob a capa do constrangimento de estar no mundo, blá-blá-blá.  Do outro lado, é o que está além. E eu não sei lidar com o que está além. Portanto, aqui  começo este romance. Afinal, é apenas um truque. Sim, é apenas um truque.” &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas por que eu estou trazendo essas informações do nada?&lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;br/&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;2&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Há alguns meses, recebi esta mensagem: oi, oi, tudo bem? Já nos falamos de forma rápida várias vezes na Livraria Arte &amp;amp; Letra, mas acho que nunca fomos apresentados formalmente. Tenho uma espécie de coletivo com mais dois amigos, e resolvi lançar esse ano uma série de 10 contos no nosso site/página. Cada conto deverá retratar o encontro de dois (ou mais) personagens do cinema fora do seu universo narrativo. E ganhará a ilustração de um artista visual. Estou convidando e tentando fechar o “elenco” de escritores para cada conto. Queria saber se você tem interesse de estar com a gente. Os personagens seriam de sua escolha. Não colocamos limite de páginas. Podemos marcar um café se quiser saber mais. É isso. Beijo. Vicky&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br/&gt;&lt;b&gt;3&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não foi preciso marcar café nem nada. Não que eu não acreditasse que uma boa conversa pudesse sair do encontro. Mas acabei sendo bem objetivo e respondi a mensagem dizendo que, sim, eu topava escrever um conto para o projeto. Vicky me disse qual era o prazo. E eu furei, não entreguei a tempo. Ela então insistiu e me deu mais um mês para a entrega do texto. Bom, amanhã é o dia final. E aqui estou eu, produzindo às pressas o conto que sequer cogitei ao longo dos últimos três meses, desde que fui convidado e topei o desafio. Não sabia sobre o que escrever até esse momento. Mas para minha sorte acabo de ler no jornal O Globo que Jep Gambardella está no Rio. Não, não o ator Toni Servillo, que interpreta Jep no filme, mas o verdadeiro Jep Gambardella, a pessoa em quem o personagem foi completamente inspirado, sim, é ele quem está no Rio. Poderíamos dizer até que o filme de Sorrentino, menos que uma ficção, é praticamente um documentário bastante fiel da vida de Jep Gambardella, o da vida real. A matéria diz que Gambardella veio para as Olimpíadas, gostou e foi ficando. Não chegou a assistir muitas competições. Também diz aqui no jornal que ele não quis se hospedar no Copacabana Palace. Onde então? Não revela. Até agora aproveitou um pouco das praias e muito da boemia carioca. É claro que o escritor e jornalista laureado foi bem recebido por aqui. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br/&gt;&lt;b&gt;4&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No feriado da semana passada, Gambardella esteve na festa de aniversário de um ator global. Ele diz não se recordar qual era o nome do anfitrião. Lembra apenas que esteve numa bela casa num bairro com o pitoresco nome de Itanhangá. Gambardella conta que bebeu demais naquela noite, mas não deu nenhum vexame. O ator e sua esposa não o deixaram pegar um táxi de volta para Zona Sul. Fizeram questão que ele dormisse por lá. Generosamente, o instalaram na suíte de hóspedes, com todo conforto do mundo. Na manhã seguinte, de banho tomado, vestindo o mesmo terno creme de fio da noite anterior, Gambardella desceu as escadas em direção à farta porém saudabilíssima mesa do café da manhã. Com a cabeça ainda latejando um pouco, sozinho, óculos escuros, olhando o verde jardim e a piscina, fez uma refeição frugal que o revigorou. Em seguida, pediu à secretária da casa que chamasse um táxi. Para o casal de anfitriões, que, segundo a secretaria havia saído cedo, deixou em agradecimento um bilhete escrito em italiano. E partiu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br/&gt;&lt;b&gt;5&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;	Pesquisando mais sobre a estada de Jep Gambardella no Rio, deparo-me com o seu site pessoal, onde encontro sinopses e resenhas de seus livros, além de entrevistas e outros textos apenas publicados ali. Um desses textos é a reprodução do monólogo do taxista que teria trazido Gambardella do Itanhangá para a Zona Sul naquela manhã. Entre o divertido e o atônito, na introdução, Gambardella narra que ao entrar no táxi o motorista assistia a um vídeo no celular com um corpo nu todo cheio de feridas abertas, verdadeiros rasgos parecidos com mordidas de tubarão. Fui legista na outra encarnação, por isso gosto de ver essas coisas, teria dito o motorista. Gambardella conta que logo de saída soube estar diante de um homem complexo. E que então, por força do ofício, como quem não quer nada, ligou o gravador do seu celular e o manteve na mão esquerda apoiada na perna, com a entrada do microfone apontada para frente. Tranquilamente, recostou a cabeça no banco e deixou que o taxista monologasse à vontade, respondendo apenas vez em quando de modo monossilábico ou com rápidas interjeições em um português italianado ou num italiano aportuguesado. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sua conhecida editora de Roma, conhecida não apenas por ser talvez a única editora anã de toda a Europa, mas também pela sua competência, ética e profissionalismo, encomendou a Gambardella um artigo com o tema machismo no Rio de Janeiro. Gambardella conta que, dados os compromissos sociais que a cidade tem demandado, não teve como se dedicar a uma pesquisa. No entanto, acreditava que o monólogo que ora publicava em seu site, poderia contribuir com o tema de algum modo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O que eu havia esquecido de mencionar, e esta informação o próprio Gambardella dá em sua entrevista para O Globo, é que durante o café da manhã na festa do ator, no Itanhangá, Gambardella teria contado para a secretária da casa que estava fazendo uma pesquisa sobre o machismo na cidade do Rio de Janeiro, perguntando se ela não teria alguma indicação, alguém que ele pudesse entrevistar. Machismo, é?, teria dito a secretária, o taxista que eu vou chamar pro senhor é meu ex-marido. O senhor vai conversar com ele até a Zona Sul, aí sim vai saber o que é machismo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br/&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;6&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;	No site há duas versões do monólogo, a original em italiano e outra traduzida para o português. Gambardella conta que fez questão de pedir a sua amiga Juliane Tiorezi que traduzisse as falas anotadas do taxista.  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ligo o gravador. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;O senhor vai pra onde? certo, Bairro Peixoto, é gringo, né? o senhor é gringo, Itália, sei, opa, desculpa, não era pro senhor ter visto o vídeo, eu gosto de ver, mas os passageiros não tem nada com isso, é o corpo do rapaz que caiu da pedra ontem, no tiroteio com a polícia, tinha que ver que espetáculo, o helicóptero triturando os vagabundos lá de cima.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;	Desligo o gravador. Ligo o gravador. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nunca pensei que eu ia dizer isso, mas infelizmente tô dizendo pra todo mundo, perdi dezoito anos da minha vida, tudo bem que ela foi companheira, foi legal no início da relação, nos primeiros dez anos, nos cinco primeiros a gente praticamente se encontrava todo dia, eu passava lá, subia, entendeu, acabei me incomodando porque os filhos dela foram crescendo, ela tem um casal de filhos, era, era recém separada na época, a menina tinha quinze anos, o carinha tinha dezessete, imagina, aí ficou todo mundo adulto, se eu ainda acho ela bonita? não, bonita, não, gosto dela porque tem aquela coisa, né, eu não sei se eu sou acomodado ou o que que é, mas as minhas mulheres se ficarem comigo sem me encher, eu fico com elas direto, vou ficando, a mãe do meu filho, por exemplo, a mãe do meu filho, mesmo ela brigando comigo feito o demônio, eu ainda ficava com ela, é que a minha família toda é assim, pegou a primeira mulher, já casou, entende, dos meus treze irmãos, eu tenho dois deles que só tiveram uma mulher a vida inteira, imagina, a maioria é evangélico na minha família, aí eu pensei, vou ficar com a minha namorada mesmo, até falei pra uma passageira, uma que cuida de uma idosa, eu carrego elas pra lá e pra cá, a baixinha, bonita, e eu pensei que se eu fosse fazer alguma coisa com a baixinha ia dar no mesmo, porque é todo aquele nhenhenhém, então nhenhenhém por nhenhenhém, eu fico com a minha namorada mesmo, já que é pra ficar na mesmice, fico assim, eu gosto de ter um relacionamento sério, mas não quero saber de ficar junto o tempo inteiro, o dia inteiro, tem um colega que, rapaz, o relacionamento dele dá até raiva, a mãe, quer dizer, a mulher dele, eu conheço eles tem trinta anos, e tem trinta anos que a mulher tá do lado e tá segurando a mão do cara, não solta pra nada, onde for tá lá segurando na mão, ela é francesa, metida que dá um treco na gente, o cara é português, vai passear, pega na mão, vai trabalhar, vai qualquer coisa, pega na mão, eu acho muito chato, com a minha namorada eu faço isso porque ela exige né, é, ela exige, mas é um dia, de sete em sete dias ou de quinze em quinze só, namorado tem que andar abraçado ou de mão dada, ela diz, isso é coisa que a gente vê direto com o pessoal aí na rua, a mulher tá aqui e o cara tá lá na frente, já viu? aí não, aqui no táxi mesmo, quantas vezes o cara senta aqui na frente e deixa a mulher sozinha atrás, são relacionamentos que vão acabar amanhã ou depois, não tenha dúvida, a mulher tem uma hora que ela fica irritada com isso, aí eu fiquei falando sobre tudo isso com essa menina, com a baixinha, e ela me falou um negócio que eu não gostei muito, que meio que me tirou da jogada, que é o seguinte, mulher tatuada e mulher com negócio de moto, pra mim é tudo mulher desvirtuada, eu disse isso e a baixinha ficou bolada, a minha irmã botou uma tatuagem, ela disse, aí eu disse então virou piranha a tua irmã, rapaz, ela ficou puta comigo, a baixinha, mas que que eu posso fazer? mulher que fala que adora moto, que faz vrum vrum vrum, ah então tá bom, vou te dar o zap zap de um colega meu que tem uma Harley, mas ela também fica toda cheia de charme pra cima de mim, a pequeninha, eu fico pensando o seguinte, é que eu já vejo a coisa lá na frente, se eu tivesse visto essa desgraça que a gente tá, passando por essa situação financeira terrível, a crise né, claro que sim, culpa deles, de quem mais? crise no país inteiro, se eu tivesse visto como vejo um relacionamento, eu olho lá na frente, ainda mais esse negócio da minha mãe, quer dizer, da mãe do meu filho comigo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desligo o gravador. Ligo o gravador.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Puta, que trânsito, é por causa da Praça dos Patins ali na Lagoa, a gente pode virar, é opcional, pra direita, aqui, ou lá na frente no clube do Flamengo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;	Desligo o gravador. Ligo o gravador.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tem um irmão meu que é obeso, meu deus do céu, meu deus do céu, suportar é difícil, qualquer cochilo que o cara dá parece uma orca perdida no meio do oceano gritando, deve ser pra tentar achar o grupo, os filhotes, sei lá, ele é obeso mesmo, tem um duzentos e trinta quilos, além disso, é aquele cara, sabe, insuportável como pessoa, e eu tenho um outro irmão meu, que também mora junto da minha mãe, ele é deficiente mental, lembra o Costinha, da televisão?, aquelas caretas que ele fazia, lembra?, meu irmão deficiente mental é assim o tempo inteiro, é a doença dele, não tem jeito, não adianta você querer melhorar isso, é a doença dele, coisa neurológica, então, esse meu irmão obeso fica implicando com o outro, que ele tem que mudar a cara, pra ele ficar bonito porque ele é muito feio, sabe aquela implicância que não leva a lugar nenhum, e já não são mais crianças os dois, o mais novo, este que é obeso tá com 38, o deficiente, o que é deficiente tá com 55, rapaz, gente boa demais o cara, aí você a alma pura dele, eu pintava quadro né, e ele era meu vendedor de rua, ficava lá no meu painel tomando conta o dia inteirinho, ali na estação Carioca do metrô, vendia, pegava dinheiro, pegava cheque, o endereço que a pessoa escrevia, eu pintava quadro, dá pra acreditar? vivi quinze anos da minha vida na rua, ah, por exemplo, eu pintava impressionista e pintava também cópias, depois passei a pintar abstrato, retrato, um monte de troço, pintava tudo, não saía aquela coisa de obra de arte, mas saía vendável, entende, até hoje se eu pintar um quadro, colocar um cavalete ali, pintar essa árvore e tal, você vai achar que é legal, era interessante porque era uma pintura rápida, com manchas e tal, não tinha aquela coisa exatamente como tá ali, ó, a natureza, é, bem impressionista, bem largado, vendia barato, pra sobreviver na rua, eu vivia assim, dormia em cubículo, a gente alugava o espaço, vários artistas de rua, cada um pegava um cubículo lá de dois metros quadrados e ia ficando, quinze anos nessa, na praça, no táxi já tô tem doze anos, direto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desliga o gravador. Liga o gravador.   &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um dia eu tava, a minha namorada, veja bem, ela me ajuda muito porque não atrapalha, não perturba querendo saber onde eu tô, onde eu não tô, então você vai vivendo a vida tranquilamente, no dia tal você liga, ou então ela liga, não tem aquele cobrança, é porque ela sabe que eu não traio, porque eu não tenho tempo nem dinheiro pra isso, você sabe que só existe um tipo de homem fiel, foi feita uma pesquisa na Inglaterra e chegaram à conclusão que existe um tipo de homem fiel, o homem que é pão duro e machista, eu já tive uma mulher que me bancou e não quero mais saber de mulher me pagando nada, por exemplo, o machista não quer que a mulher pague nada pra ele, o pão duro não quer gastar, é uma questão de lógica, como é que ele vai namorar uma mulher se ele não pode gastar nem ganhar nada? é pesquisa dos gringos, dos teus vizinhos lá, imagina, eu tenho essa pesquisa comigo, parceiro, quando eu vi isso, pensei, caramba, sou eu, eu não traio, essa menina, essa de cinquenta anos, a baixinha que eu falei, se ela quiser um relacionamento comigo, é porque ela quis, porque eu não tô demonstrando pra ela interesse nenhum, é tudo brincadeira e o caramba a quatro, se você quiser eu te arrebento e vai lá, falei, falei na brincadeira, arrebento de fazer, de pôr pra dentro, sabe, é que ela é nordestina, porque eu trato muito com nordestino, e a baixinha é de lá, então a pessoa, com ela eu trato tudo na brincadeira, falo assim as coisas mais objetivas, não tem enrolação na conversa, aí vou falando pra ela e tal, e ela ah mas vocês homens são todos assim, tem quatro cinco, eu falei tá vendo, é isso que é o meu problema, eu converso muito com as mulheres abertamente, aí elas acham que eu tenho muitas porque eu sou um cara extrovertido, só que não, é por causa disso que eu não tenho mulher nenhuma, sim, sim, mas a minha namorada não conta, se houver uma traição da minha parte, eu com a baixinha, a situação vai ser a mais natural do mundo, já até saí do Facebook, é que os colegas do Facebook, os colegas de quadro, vai ter uma exposição de um grande amigo meu que pinta pra caraca, meu irmão, o cara é gênio da pintura, Mano Mandrix, ele vai expor no Casa Shopping agora no final de outubro, divulgou no Face, então o que acontece? quando a gente vai num encontro, todo mundo tira foto e bota onde? Facebook, eu sei que eu não vou botar no meu, mas se o colega botar no dele e me marcar, ou nem precisa marcar, já vai aparecer lá, e a minha namorada de vez em quando dá uma olhada, então eu vou sair do Face pra poder ir na exposição sem ela saber, porque eu vou viajar com ela um dia depois da exposição, então não quero ela bolada com nada, e também esse meio de pintura, não quero ela no meio, porque é um, o papo é outro, a conversa é outra, são mulheres, são relacionamentos abertos, são “qual é meu irmão?” e beija na boca o colega e o caramba, quer dizer, não é lugar pra você ir com a namorada do lado e ela, ó, você olhou, ó, você fez isso fez aquilo, não existe isso no meio da pintura, pô, é coisa de artista, tá todo mundo ali no dane-se e o escambau, respeito mútuo, sabe, nosso papo é outro, é outro clima de galera, as pessoas não entendem, pensam que você tá num sei o quê de intimidade, então essas coisas não podem se misturar, já pensam que é putaria, aí a melhor coisa é o namorado não levar a namorada em evento cultural nenhum, porque tem isso também, se ela souber que você foi, ela fica bolada, dia desses ela chegou pra mim e quem é aquela mulher que tá no teu Face? eu falei pra ela meu amor eu nem olho Facebook, que que você tá falando? aí ela aquilo tudo lá e não sei mais o quê, aí eu ah já sei, é que teve uma filmagem e eu apareci na televisão, TV Futura, uma matéria de jornalistas iniciantes que me pegaram na rua e fizeram uma matéria sobre mim, sobre a minha pintura e o táxi, aí esse pessoal me adicionou no Face, a gente ficou tudo amigo, a minha namorada foi bisbilhotar e viu uma foto, isso lá no perfil de uma jornalista, que tava de biquíni na praia, aí veio querer saber quem era aquela de biquíni e o escambau, rapaz, ãh?, não, parei de pintar, tá difícil, esse meu grupo de pintura, quando eu saio com eles pra pintar é mais assim sem compromisso, mais na amizade, mais pelo encontro que pela pintura, mas eu tô sentindo necessidade forte de voltar, colocar o cavalete ali, ó, por exemplo, e ficar pintando aquele local, tem que ser normalmente em locais assim em que possa rolar uma venda, entende, pintar um monumento, um negócio desses.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desliga o gravador. Liga o gravador. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu tava falando da Tijuquinha, é, eu vou ter que sair de lá, o aluguel tá muito alto, tô pagando quase mil reais numa quitinetezinha, tudo bem pequeno, pra morar sozinho até que é ótimo, aí pensei muito em, eu falo isso pras minhas mulheres e elas ficam boladas, mas eu pensei muito em ter uma namorada pra dividir as despesas da casa, o que eu digo é que eu quero me relacionar com uma mulher, que eu namore essa mulher e viva com ela e divida tudo, mas tá difícil de arrumar essa parada, até acho que daria sim numa quitinete, duas pessoas lá seria tranquilo, as mulheres se viram muito fácil, ainda mais a mulher que entrar nesse esquema, não seria uma qualquer, não, seria uma mulher no mesmo nível que eu, já cansei de esperar aquela mulher maravilhosa, acho que o único tiro que eu dei que foi realmente, que eu mirei mirei mirei e saiu mal foi essa minha namorada de agora, é, não de agora, de dezoito anos já, eu tava sofrendo pra caramba com o meu relacionamento, que era com a mãe do meu filho, que me deu uma peruca, tava sofrendo, sim, é, ahã, me traiu, meu filho que me contou, com quatro anos de idade chegou pra mim papai papai quer conhecer o Fino, o amigo da mamãe? e eu já rodando de táxi né, sem tempo, nessa época ela tava parada na casa da mãe dela, eu chegava lá, ela botava meu filho pra dormir, já dormiu, aí a gente ia e dava uma no banheiro, em pé, aquela coisa toda, eu voltava pra dirigir o táxi, não parava, trabalhava dezoito vinte horas direto, mas não tinha condição de morar junto, ele parada na casa da mãe, era uma vida enrolada que era o diabo, aí ela encontrou esse motoqueiro, passou perto dela vrum vrum, ela gostou, ele caiu na frente dela, ela foi ajudar, aí é outra coisa também de pesquisa mundial, se você tiver uma batida de trânsito, qualquer evento rápido, evento de impacto, você esbarra na pessoa no shopping, cai um negócio no chão, pronto, você vai casar com aquela mulher e vai ser um relacionamento rápido, você vai namorar aquela pessoa e vai ser passageiro, é uma relação que assim como acontece a coisa repentina, ela também dura pouco, não tem força de ficar muito tempo, e foi o que aconteceu com o motoqueiro, eu falei pra ela, sim, casado, aquele negócio todo, meu filho com quatro anos, ela já tinha engravidado de mim duas vezes e abortado, quase que eu tive três filhos com ela, ainda bem que não, mas aí ela se engraçou com esse infeliz que caiu de moto, depois eu fiquei pensando, foram minha orações, eu pedi a deus, porque eu e ela era uma relação muito difícil, muito conturbada, de briga o tempo inteiro, ela era capaz de chegar no bar e fazer escândalo, derrubava a minha cerveja, vambora seu merda, essas coisas assim, era uma loucura, a relação era um lixo, aí eu pedi a deus pra botar um homem na vida dela e pra me tirar dali, e deus deu, só que bem no momento em que eu passei a acreditar que eu tava apaixonado por ela, não, não foi na hora errada não, deus dá a coisa desse jeito que é pra ver se você vai aguentar o tranco, espiritualmente o negócio é bem assim, eu conheço um pouco do assunto né, isso, sim, espiritualidade, a minha é muito forte, medo, medo eu tenho só da parte do filho, já vi isso várias vezes, que é o cara não querer saber de ter filho, que foi o meu caso, aí ele conseguir ter o filho e o cara amar o filho loucamente e aí o filho ser morto, também é coisa de deus, agora meu filho já tá com 21, tá bem, tá bem, faz jornalismo, eu pago mil reais por mês pra faculdade dele, mora, mora com a mãe, a mãe arrumou um homem agora, já é quarto homem já, ela?, tá com 51, o cara tem 30, e eu, burramente, pelo tesão, aquela coisa toda, tentei pegar ela um dia desses, e aí que não me deu, não me deu, não me deu, e aí eu fiquei na minha né, depois sem querer eu vi lá no Facebook escrito meus amores, meus amores?, e quem era?, ela com os dois filhos, o meu e o filho do cara, aí eu pensei caraca, eu conheço ela né, vai tirar as calças pra dar dinheiro pro cara, pro filho dele, eu larguei mão e nunca mais fui atrás, ela é assim, faz qualquer coisa pra ajudar alguém, ela tira dela, ela é capaz de, se só tiver dez reais pra colocar combustível, e o cara pedir, ela dá os dez reais e enguiça o carro na rua, ué, fez isso comigo, só que na época eu não era um cara que bebia, não era explorador, não era nada, era um cara natural, essa mãe do meu filho, veja bem, eu conheci ela quando eu vim pro Rio, eu fui criado em São Paulo, eu nasci, fui pra lá, quando eu voltei eu tinha dezesseis anos, aí quando eu fiz dezoito anos eu conheci ela, aí a gente começou a namorar e eu não gostava do beijo dela, achava o beijo mole, molenga, aquela coisa, mas também coitada, ela era novinha, não sabia nem beijar né, eu fui o primeiro namorado, aí aquele beijo horroroso, eu não gostava, larguei mão, me separei, e ela viveu a vida inteira, casou, não teve filhos, o marido dela, de tantas brigas, tanta loucura, foi assaltado no 415 no Aterro, o cara puxou a arma é um assalto, com a arma na cabeça dele, e ele vai tomar no cu seu filho da puta, aí o cara atirou, aí o que é que aconteceu? ela hoje tem a pensão desse cara, não é uma grande pensão, mas dá pra comer, só que ela é tão estúpida que o aluguel dela é maior do que a pensão, na Tijuca, ela mora na Tijuca, quer dizer, ela tem que trabalhar de qualquer jeito e o meu filho entra na roda, ela trabalha de empregada doméstica nesse condomínio onde eu peguei o senhor, mas eu não sei em qual casa, ela não quer me contar de jeito nenhum, não quer que eu me meta mais na vida dela de jeito nenhum, o meu filho, sacanagem, ele acaba tendo que ajudar a pagar as contas, eu já chamei o moleque pra vir morar comigo, mas não adianta, você sabe como é, filho quer viver com a mãe, ele dirige também o táxi, esse mesmo carro, olha a cara dele aqui, gente boa demais, tá na faculdade, então não tem tempo pra dirigir tanto quanto eu, entende.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desliga o gravador. Liga o gravador.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Olha ali, olha ali, olha essa mulher passando, tá com a roupa que eu gosto, meu deus do céu, qualquer mulher que coloque esse tipo de roupa, fico maluco, é um treco que eu tenho na minha vida, essa loucura por roupa, ó, é tecido mole e fino, ó lá, se brilhar então, meu amigo, uma vez eu acordei de manhã, eu tava num hotel com uma mulher horrorosa que eu tinha ficado na noite anterior só por causa da roupa, ela tava de viscose cáqui, com a calcinha branca enterrada, bonita de ver, depois que tirou tudo, decepção, a minha namorada faz isso, ele tem umas roupas maneiras, e se ela sabe que eu tô tem muito tempo bolado com ela, aí ela vai e veste aquela roupa, mas, voltando pro meu filho, graças a deus, ele tá ótimo, só que cismou agora de namorar uma prima legítima dele, quem é a filha dele?, aliás, quem é essa menina, a prima? filha do irmão da minha ex, a mãe do meu filho, o irmão dela que tentou me matar, é mole? aconteceu uma briga, uma dessas palhaçadas, natural, aí eu fiquei bolado, saí xingando, quer dizer, eu tenho certeza que eu não falei, mas eles dizem que eu falei, então pronto, não tem como eu escapar, dizem eles que eu mandei a velha tomar no cu, a mãe da minha ex-mulher, a avó do meu filho, olha que coisa, aí passou e naquela semana mesmo peguei o carro dela e levei ela, a minha ex, pra Maricá, na casa que ela tinha lá, uma casinha simples, num lugarzinho gostoso, quando chegou por volta de meia-noite, foi só vidro quebrando e revólver na minha cara, amigo, foi o maior susto da minha vida, a irmã dela parecia uma gato desesperado, meu unhou, arranhou aqui a minha cara toda, violência gratuita mesmo, foi uma loucura, e a minha ex, ela ficou na minha frente me protegendo, aí eu peguei uma marreta, aí já viu, eu falei pode atirar, atira, e a minha ex gritando, esse que tava com o revólver na minha cara, coitado, ele tem um filho gay, olha o castigo, e aí tem o outro, que eles são em quatro né, na família da minha ex, ela, a irmã dela, o do filho gay e esse outro que também tava lá na tentativa de homicídio contra mim, ele tem duas filhas gêmeas incrivelmente iguais, pois bem, uma das gêmeas cismou com o meu filho, eu já perguntei pra ele como é que ele sabe qual é qual, periga do moleque comer as duas primas, agora, olha só a cagada, apaixonado pela prima legítima, eu falei pra ele, porque a gente tem que fazer o papel de pai né, eu disse filho, esse amor que você tem por ela, é amor familiar, aí ele falou que não tava namorando ela mais não, só que o telefone tocou e quem é que era?, acha que me engana, moleque da porra. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desliga o gravador. Liga o gravador.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vou ter que voltar a morar com a minha mãe, como eu tava te dizendo, vou ter que fazer isso, lá na rua do Senado, no centro, com aqueles meus dois irmãos, vai ser dureza, a velhinha já tá com oitenta e sete anos, doente, dá até dó, com os outros dois lá, eu falo pra ela que sofrimento de vida a senhora tem, e ela fala pra mim só tô esperando Jesus me levar, já meu pai, que tá com noventa e dois anos, veio reclamar pra mim não tá vendo aí a diabete, que coisa, injeção na barriga, aí eu falei pra ele, pai, a frase é do senhor, o senhor sempre disse quem de novinho não vai, de velho não escapa, setenta anos de casados os dois, lá em casa eu sou o único da família que fala as coisas assim abertamente, não suporto hipocrisia, também não convivo com ninguém deles lá não, só o necessário, não tô a fim de conversa, eu falo só com os meus pais né, eu digo caramba, vocês são evangélicos, isso na boa, abraçado com eles e tal e coisa, levando na brincadeira, vou fazer o quê? são evangélicos, rigorosos, o tempo inteiro lá na adoração, aquele negócio, programa de televisão, dízimo e tudo mais, querem ir pro céu mas não querem morrer, como é que vai pro céu sem morrer? tudo bem, ninguém quer morrer, eu também não quero morrer, não é que não quero, é que pra mim morrer ou tá vivo, pra mim é a mesma coisa, não significa nada pra mim, eu sei que eu vou morrer, agora se chegar um cara pra mim com uma arma dizendo tu vai morrer filho da puta, aí é claro, aí sim, é complicado, porque você vai ter aquela sensação ruim, porque aí não é uma coisa normal, sei lá, que acontece de repente, tipo, sei lá, bater com o carro e já era, ou então levar um tiro se você tá num fogo cruzado, numa guerra.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desliga o gravador. Liga o gravador.  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Olha só, aqui já não tem mais trânsito, complicado é aquela parte ali do Humaitá, que o pessoal parece que anda por ali a meio por hora, eu tava falando da filha da minha namorada, dessa, da atual, dessa que eu disse que faz dezoito anos que estamos juntos, essa filha se formou e disse agora vou arrumar um marido, aí foi tomar um chope aqui, um chope ali, os caras chegavam pra paquerar e ela saía fora, um dia ela tava bebendo em Ipanema, aí chegou esse cara, opa, tudo bem? falando grosso, bancando o gostoso, colocando mais ainda a voz só pra conversar né, resultado, os dois casaram, tiveram um filho que nasceu agora tem uns três meses, caramba, uma vida espetacular, deixaram um apartamento no Humaitá vazio, e foram pra São Paulo, aí eu sacaneei ela, ela não, que ela é meio grossinha, mas eu falei pra minha namorada, que é a mãe dela, eu te expliquei, essa tua filha ganhou na loteria, amigo, essa corrida salvou a minha vida, eu tava lá hoje, duas horas sem sair da fila, eu gostei do senhor porque o senhor é uma pessoa tranquila, e, o que é o melhor, não é estressado, e eu nem perguntei o que é que o senhor faz da vida, escritor é?, que bacana, não, Taxi Driver, nunca vi, é mesmo?, minha cara, é?, o cabelo moicano também?, não acredito, isso foi só uma graça que fiz, uma aposta lá com o pessoal da pintura, que demais, sério?, Travis Bickle, hum, será que não é um irmão gêmeo meu que eu nunca conheci?, já imaginou?, vai que veio um gringo aqui e comeu a minha mãe e ninguém ficou sabendo, essa é boa, boa boa, gostei desse cara aí que você tá falando, agora vou falar pra todo mundo só me chamar de Travis Bickle, a partir de agora eu sou Travis Bickle, quando se dirigirem a mim todos saberão que estão se dirigindo a Travis Bickle.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desliga o gravador.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;b&gt;&lt;a href="https://ornitorrinco.net.br/@luizfelipeleprevost"&gt;Luiz Felipe Leprevost&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;, revisão de &lt;a href="http://www.escoladeescrita.com.br"&gt;&lt;b&gt;Julie Fank | Esc. Escola de Escrita&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; e ilustração de &lt;b&gt;&lt;a href="http://sednanref.tumblr.com"&gt;Abraão Sednanref&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Jep Gambardella&lt;/b&gt; foi interpretado por Toni Servillo em &lt;i&gt;A Grande Beleza&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;La Grande Bellezza&lt;/i&gt;), filme escrito por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello e dirigido por Paolo Sorrentino em 2013. &lt;b&gt;Travis Bickle&lt;/b&gt; foi interpretado por Robert De Niro em &lt;i&gt;Taxi Driver&lt;/i&gt;, filme escrito por Paul Schrader e dirigido por Martin Scorsese em 1976.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/"&gt;Sobre Cafés e Cigarro&lt;/a&gt;s&lt;/b&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;b&gt;&lt;a href="http://atomictangerine.com.br/"&gt;Atomic Tangerine&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/153339005260</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/153339005260</guid><pubDate>Fri, 18 Nov 2016 06:39:08 -0400</pubDate><category>JepGambardella</category><category>LaGrandeBellezza</category><category>AGrandeBeleza</category><category>TheGreatBeauty</category><category>TravisBickle</category><category>TaxiDriver</category><category>LuizFelipeLeprevost</category><category>AbraaoSednanref</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item><item><title>Fumaça Branca</title><description>&lt;p&gt;&lt;figure data-orig-width="540" data-orig-height="445" class="tmblr-full" data-orig-src="https://64.media.tumblr.com/72b912f451597a67f715c48a1dd733aa/tumblr_inline_odthsfVxAP1sdj1j8_540.jpg"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/9390a1200e014301074c398e712dcbf3/tumblr_inline_odtpqgdLvZ1sdj1j8_540.jpg" alt="image" data-orig-width="540" data-orig-height="445" data-orig-src="https://64.media.tumblr.com/72b912f451597a67f715c48a1dd733aa/tumblr_inline_odthsfVxAP1sdj1j8_540.jpg"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Charlotte estranhou quando o motorista chegou para buscá-la no aeroporto. Geralmente aquele serviço de táxi tinha carros ao menos razoáveis, diferente do veículo velho, com a porta batida, que agora se abria para ela entrar. Também estranhou que o motorista não a tenha ajudado com a bagagem, que ela mesma colocou no porta-malas, para só então sentar-se no banco de trás. Mesmo depois de ter entrado, o motorista ainda demorou alguns segundos para virar-se para ela, distraído que estava estalando os dedos no ritmo da música.&lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;Adoro esse som, ele finalmente disse. E, depois de cantar um trecho, continuou: curte Creedence Clearwater?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Charlotte balançou afirmativamente a cabeça. Estava tão indiferente a tudo que balançaria a cabeça da mesma forma para qualquer outra pergunta.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Venice?, o motorista confirmou em seguida, e ela balançou a cabeça de novo, completando: pelo caminho mais longo. Quero demorar pra chegar em casa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O motorista arrancou. Olhou a passageira pelo retrovisor. Cara de garota, cabelos pintados, roupa amassada, simpática ao Creedence, achou que não se importaria como o seu pedido. Posso?, ele disse em seguida, mostrando um baseado entre os dedos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É a primeira vez que um taxista me pede isso, Charlotte disse rindo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Também é a primeira vez que uma passageira me pede pra fazer o caminho mais longo, ele disse rindo também. E não sentindo nenhuma objeção, acendeu o baseado. Deu uma bola, duas. Depois esticou-o na direção de Charlotte, que segurou o bagulho entre os dedos como se fosse um cigarro. Ela não era muito de se chapar, preferia a onda acéfala e sem risco da nicotina, mas achou que quem sabe a maconha pudesse ajudar, porque estava se sentindo uma idiota, uma mulher de trinta anos comportando-se como uma adolescente, largando o marido numa suíte de hotel em Tóquio sem deixar um bilhete, pensando sem parar num outro cara que ela nunca mais iria encontrar, voltando para uma cidade onde não tinha um trabalho e nem sequer noção do que gostaria de fazer. O motorista observou-a pelo retrovisor, os olhos não só vermelhos, mas também cheios de água.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tudo bem aí?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tudo, ela disse, e limpou o canto de um olho com a mão. Depois passou o baseado para o motorista. Ele fumou e, enquanto prensava, disse com uma voz engraçada: conhece aquele ensinamento budista pra encarar os problemas?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não, não conheço.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É assim, ele falou, e soltou a fumaça. Pergunte pra você mesma: você tem um problema? Se a resposta for não, então não se preocupe. Agora, se a resposta for sim, pergunte-se: você pode resolver esse problema? Se a resposta for sim, então não se preocupe.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Bacana. Mas e se a resposta for não, eu não posso ou não consigo resolver?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Então também não se preocupe, porque não tem nada que você possa fazer a respeito.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esses filhos-da-puta desses budistas…, Charlotte disse. E depois: você consegue fazer o que eles pregam?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro que não, o motorista falou, e os dois deram risada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em seguida, Charlotte pegou um cigarro, acendeu no isqueiro em forma de pino de boliche do motorista. Depois abriu a janela. Lá estava a sua cidade, a mesma de sempre, mas agora cortada por um novo caminho, o caminho mais longo, que substituía a letargia da paisagem conhecida pelo inesperado de outras portas, janelas, fachadas. Não tinha nada nem ninguém, nem sequer uma planta para aguar quando chegasse em casa, e de repente isso lhe pareceu uma sorte. Sabia que esse sentimento ia se desfazer como a fumaça branca a sua frente, resolveu aproveitá-lo por alguns segundos. Olhou o nome do motorista no celular e disse: aumenta o som, Lebowski. Essa também é boa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro, ele disse. E passou de novo o baseado para ela.&lt;/p&gt;&lt;figure data-orig-width="540" data-orig-height="445" class="tmblr-full" data-orig-src="https://64.media.tumblr.com/5ef501d6e68127cb9df5695afb8d4171/tumblr_inline_odthszMrK81sdj1j8_540.jpg"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/bba1dbee150d5dbdd95633f6081e83a8/tumblr_inline_odtpqgZcAa1sdj1j8_540.jpg" alt="image" data-orig-width="540" data-orig-height="445" data-orig-src="https://64.media.tumblr.com/5ef501d6e68127cb9df5695afb8d4171/tumblr_inline_odthszMrK81sdj1j8_540.jpg"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;b&gt;Giovana Madalosso&lt;/b&gt; e ilustração de &lt;a href="https://facebook.com/eduardomilek"&gt;&lt;b&gt;Eduardo Milek&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Charlotte&lt;/b&gt; foi interpretada por Scarlett Johansson em &lt;i&gt;Encontros e Desencontros&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Lost in Translation&lt;/i&gt;), filme escrito e dirigido por Sofia Coppola em 2003. &lt;b&gt;Jeffrey “The Dude” Lebowski&lt;/b&gt; foi interpretado por Jeff Bridges em &lt;i&gt;O Grande Lebowski&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;The Big Lebowski&lt;/i&gt;), filme escrito e dirigido por Ethan Coen e Joel Coen em 1998.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/"&gt;Sobre Cafés e Cigarro&lt;/a&gt;s&lt;/b&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;b&gt;&lt;a href="http://atomictangerine.com.br/"&gt;Atomic Tangerine&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/150686995485</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/150686995485</guid><pubDate>Tue, 20 Sep 2016 14:00:14 -0300</pubDate><category>charlotte</category><category>encontrosedesencontros</category><category>lostintranslation</category><category>jeffreylebowski</category><category>thedude</category><category>ograndelebowski</category><category>thebiglebowski</category><category>giovanamadalosso</category><category>eduardomilek</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item><item><title>Em busca dos perdidos embalos de sábado à noite</title><description>&lt;figure data-orig-width="850" data-orig-height="592" class="tmblr-full"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/f1533b15d57e276ccb9f5ad27dc251c9/tumblr_inline_ocd3wdJ8WI1sdj1j8_540.jpg" alt="image" data-orig-width="850" data-orig-height="592"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;p&gt;Com um golpe de martelo na mandíbula, Leonard iria sentir aquilo por semanas, mas não conseguiria lembrar de onde vinha aquela dor. Enquanto estava consciente de tudo o que estava acontecendo naqueles poucos instantes antes de vir a amnésia de memórias recentes, teve foco para segurar o braço de Oh Dae-su antes de levar mais uma martelada. Desta vez, direto no olho. Torceu o braço do sujeito que gritou com um som estranho. Não era um grito qualquer. Parecia que estava faltando alguma coisa para o som parecer realmente humano. Um gordo com tetas enormes arranca o martelo da mão daquele oriental maluco e grita “Isso não pode!”. Oh Dae-su não interrompe seu urro descomunal para dar uma joelhada no abdômen de Leonard. Ele se curva sentindo o impacto em algum lugar entre o baço e o pâncreas. Com o rosto voltado para o chão, Leonard vê uma meia dúzia de fotos polaroid. No meio de uma luta, não havia como entender mais o que elas significavam. Ele sabia que tinha algo a ver com vingança. Sua mulher foi morta. Ele precisava se vingar. Era natural. É o que homens fazem. Mas ele não lembrava. Alguém ali no porão do bar do Moe chamava ele de Dory e dizia para revidar. Dory? Por que diabos aquele gordo com tetas de puta chamava Leonard de Dory?&lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;Enquanto tentava entender as polaroids, Oh Dae-su juntava as duas mãos e golpeava Leonard pelas costas. Ele cai no chão. Rosto bem ao lado das fotos. Sangue do canto da boca começava a escorrer. Leonard sente mais pancadas em suas costas. Ritmo de socos de gorila que amassa um leopardo que chegou perto dos filhos. Leonard ouve uma de suas costelas quebrar, mas não grita. Se aquele sujeito estava fazendo aquilo, era porque Leonard finalmente tinha encontrado o assassino de sua mulher. Agora estava impotente, e sua vingança não se completaria. Aquele pensamento encheu Leonard de ódio, e ele arrancou forças sabe-se lá de onde para rolar para longe. Oh Dae-su estava em um estado de transe tão grande que nem percebeu que Leonard não estava mais ali. Socou o chão com tamanha força que fez um buraco no piso. O chão se vingou enfiando uma lasca de cimento dentro da carne de sua mão.
Leonard levanta e olha para Oh Dae-Su. Levanta o pé e chuta o coreano no meio da boca. Mais um daqueles sons desumanos ecoam pelo ambiente. Oh Dae-su fita Leonard dentro dos olhos e fala algo, Leonard não entende. Não era nada na lingua materna daquele oriental. Era outro barulho. Do meio do som, uma gargalhada. É aí que Leonard percebe que dentro da boca de Oh Dae-su há apenas um resto de língua. Da ponta até a metade, cortada. Sem nenhuma precisão cirúrgica. Oh Dae-su aceita com gargalhadas cada novo soco que Leonard lança contra o queixo. Os homens em volta primeiro vibravam, mas agora começavam a silenciar. Como se nunca tivessem visto uma luta daquelas antes. E eles tinham visto muitas de suas lutas. No meio da plateia de homens, Tyler sussurra algo como “Isso é muito bom”. Leonard ouve e lembra que aquela era a voz de Tyler Durden. Mas quem era Tyler Durden? E Oh Dae-Su? Quem era Oh Dae-su? Não. Ele não tinha nada a ver com a morte da mulher de Leonard. O que eles estavam fazendo ali então? Era um clube onde homens lutam tentando entender o porquê de estarem ali. Fazia um pouco mais de sentido. Só um pouco.
Com o rosto empapado de sangue, Oh Dae-su se atira contra a perna de Leonard e morde a canela. Ele poderia não ter língua, mas os dentes ainda funcionavam bem. Leonard cai mais uma vez e começa a sentir a sola do pé descalço de Oh Dae-su pisando em seu rosto. Uma, duas, três, quatro vezes. A plateia de homens cheios de cicatrizes em volta estava mais quieta que um funeral.
Eles não pediam para parar. A regra é: quando alguém pede para parar, a luta acabou. Nenhum deles pedia para parar. A dor parecia ser um prêmio. Oh Dae-su olha a sua volta e, antes de pisotear Leonard pela quinta vez, para. Se atira no chão e deita ao lado de Leonard. Os dois olham para o teto enquanto Tyler e o resto da plateia se aproxima.
Era impossível para Leonard ler as tatuagens em seu corpo. O sangue manchava tudo e cobria a maior parte das letras. Sua rotina já era um estado permanente de confusão, mas agora era diferente. Absolutamente nada fazia sentido. Exceto uma coisa. Leonard cospe sangue e consegue murmurar: Eu só queria lembrar. Oh Dae-su faz um gesto de escrita e alguém alcança um bloquinho e um lápis. Escreve algo e mancha a folha branca com caneta e sangue. Estica para Leonard ler:
“Eu só queria esquecer”.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;a href="https://facebook.com/vigormortiss"&gt;&lt;b&gt;Paulo Biscaia Filho&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; e ilustração de &lt;a href="https://facebook.com/dw.ribatski"&gt;&lt;b&gt;DW Ribatski&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Leonard Shelby&lt;/b&gt; foi interpretado por Guy Pearce em &lt;i&gt;Amnésia&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Memento&lt;/i&gt;), filme baseado em &lt;i&gt;Memento Mori&lt;/i&gt; de Jonathan Nolan, escrito e dirigido por Christopher Nolan em 2000. &lt;b&gt;Oh Dae-su&lt;/b&gt; foi interpretado por Choi Min-sik em &lt;i&gt;Oldboy&lt;/i&gt;, filme baseado no mangá homônimo de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi, escrito por Park Chan-wook, Lim Chun-heyong e Hwang Jo-yun, e dirigido por Park Chan-wook em 2003. &lt;b&gt;Tyler Durden&lt;/b&gt; foi interpretado por Brad Pitt em &lt;i&gt;Clube da Luta&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Fight Club&lt;/i&gt;), filme baseado no romance homônimo de Chuck Palahniuk, escrito por Jim Uhls e dirigido por David Fincher em 1999.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/"&gt;&lt;b&gt;Sobre Cafés e Cigarros&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;a href="http://t.umblr.com/redirect?z=https%3A%2F%2Fblue-sea-697d.quartiers047.workers.dev%3A443%2Fhttp%2Fatomictangerine.com.br%2F&amp;amp;t=YzJiNDA4YmU4MGMzNTdjNWY2OTg5M2JmYWU0YmM3NGE4NGM2ODNmZSxnbng2OWdlcw%3D%3D"&gt;&lt;b&gt;Atomic Tangerine&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;.&lt;br/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/149366156250</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/149366156250</guid><pubDate>Tue, 23 Aug 2016 09:34:17 -0300</pubDate><category>LeonardShelby</category><category>Amnésia</category><category>Memento</category><category>OhDae-su</category><category>Oldboy</category><category>TylerDurden</category><category>ClubeDaLuta</category><category>FightClub</category><category>PauloBiscaiaFilho</category><category>DWRibatski</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item><item><title>A Raposa e os Ovos</title><description>&lt;figure class="tmblr-full" data-orig-height="618" data-orig-width="850"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/b3fceabd3b8beb41db377255cfefb358/tumblr_inline_odthraim591sdj1j8_540.jpg" data-orig-height="618" data-orig-width="850"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;p&gt;As galinhas despertaram com a empolgação de quem não tem planos ou esperanças futuras. Assim que o galo deu seus primeiros berros anunciando o fim da escuridão, o galinheiro se encheu com o som de cacarejos e fofocas, todas querendo saber quantos ovos cada uma havia botado e quais delas seriam motivo de chacota por não ter cumprido com sua missão divina.&lt;b&gt;&lt;br/&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;Babs, a galinha de crista meio azulada, havia botado dois ovos e algo similar a uma chave. Tinha muito orgulho da própria cloaca e seu potencial para ovos grandes. Assim que ouviu os passos do granjeiro se aproximando, Babs sabia que havia chegado o melhor momento do dia: a primeira refeição. O segundo melhor momento do dia de Babs era sempre a segunda refeição. Quando havia a terceira refeição, esse era o terceiro melhor momento do dia. Quando não, Babs saía à caça de minhocas pelo terreiro e esse era um bom momento, mas não um ótimo momento, devido ao esforço e sujeira empregados na missão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como de costume, a refeição estava ótima e Babs comeu até se peidar e sentir seu pequeno coração bater com dificuldade, anunciando a efemeridade de sua existência – coisa que a galinha de crista meio azulava ignorava com prazer. Se ela se importasse em emitir alguma opinião a respeito, Babs provavelmente diria “Não ligo para isso”, mas ela não se importava e preferia comer mais. Tudo era o momento, depois passava.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Após uma breve sesta e alguns minutos de conversa com suas amigas sobre os últimos acontecimentos do galinheiro – Tracy, a galinha robusta, foi promovida a ensopado e Margot, a parideira, teve quatro pintinhos, mas havia sentado em um deles, que não sobreviveu –, Babs saiu para caminhar, ciscando às vezes para poder dizer que havia feito seus exercícios matinais, caso perguntassem. Chegando próximo à lagoa, uma pequena porção de água parada numa área acidentada do terreno que dividia a área de convivência do galinheiro do restante do universo, a galinha fixou seu olhar num brilho vindo direto de uma moita, um ponto de luz que se movia, ora desaparecendo, ora refletindo os raios de sol direto em seus olhos. A luz parecia ter percebido a presença de Babs, pois se tornou mais intensa e a moita, mais agitada do que antes. Algo dizia a ela para se afastar dali e se juntar ao restante das galinhas, contudo ela foi ensinada a não se dar ouvidos, então seguiu em direção à luz, se aproximando a passos pequenos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A moita se tremia toda de excitação à medida que a distância entre ela e a galinha de crista meio azulada diminuía. Babs parou à beira da lagoa, encarando a moita que balançava. A galinha nunca havia visto uma moita dançar, por isso observou aquilo com curiosidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Ei, colega, chegue mais perto.”, disse a moita.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Babs já tinha conversado com muitas árvores, pedras, vassouras, montes de esterco e até outras moitas, mas elas não tinham o costume de responder. Essa foi a primeira a se comunicar. Por isso, a princípio, ela não soube muito bem como responder, até que disse:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Eu não gosto quando chove.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“O quê?! Eu não enten&amp;hellip; O que isso tem a ver?”, disse a moita, com a intenção clara de coçar a cabeça por incredulidade, mas sem de fato o fazer. “Escute, eu tenho algo aqui para você.”, continuou a moita ao mesmo tempo em que o brilho de luz voltava a aparecer.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por um instante, Babs lembrou de como ela gostava do cheiro do gramado quando chovia, então pensou em reformular a frase sobre não gostar de dias chuvosos, mas não o fez e deu mais alguns passos em direção à luz brilhante. À beira da lagoa, bateu suas pequenas asas, enquanto tropeçava nas próprias patas, algo semelhante a um voo torto por sobre a lagoa, pousando do outro lado com a mesma elegância de um pelicano bêbado que nasceu com encurtamento em uma das pernas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O Sr. Raposo soltou o pedaço de espelho quebrado que segurava e avançou sobre a galinha assim que ela pisou na outra margem, esticando o braço e fechando seus punhos em volta do colar de pérolas rosas que Babs trazia em seu pescoço – presente do galo em seu primeiro coito.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Ei, colega, nós não queremos que alguém se machuque aqui. Então fique calma e sem berros.”, preveniu o Sr. Raposo, finalizando a frase com um assovio e uma piscadela. “Agora eu preciso saber onde estão escondidos todos os ovos.”.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Babs estava tão tensa que nem um ovo de codorna ela conseguiria botar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Você vai me dizer onde estão os ovos ou eu terei de comer uma de suas asas?”, vociferou o Raposo, já sem paciência.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A galinha permaneceu calada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“E então?”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Estou decidindo.”, respondeu a galinha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O sangue do Sr. Raposo ferveu e ele precisou se segurar para não arrancar o topo azulado da cabeça da galinha. Contudo, os anos de prática de ioga o tornaram um ser mais comedido e ponderado, então ele se acalmou e tentou novamente:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Se eu entrar por aquela cisterna, ao lado direito do celeiro, cairei direto na estufa de morangos. Depois, eu passo por baixo da cerca de nogueira velha, pulo a janela lateral e entro na estufa de pintinhos. Se eu sair pela fenda no teto, consigo passar para dentro da casa do granjeiro, por baixo do telhado, e pegar mantimentos da despensa. Entendeu?”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Legal.”, disse a galinha, seguido por um sorriso nervoso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Legal?! Ora, não diga só legal. É um ótimo plano!”, disse o Raposo, com o pelo, antes alaranjado, já avermelhado de nervosismo. Mais uma vez ele respirou, ajeitou o nó da gravata e encarou a galinha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Eu só preciso saber onde estão os ovos, pra decidir se eu vou pra lá antes de entrar na estufa de pintinhos ou se depois da despensa de mantimentos.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma raposa sem educação já teria quebrado o pescoço da galinha e invadido o terreiro em busca das demais. Já o Sr. Raposo tinha um nome a zelar e não gostava nem de pensar no que os vizinhos diriam se o vissem correndo aleatoriamente pelo terreno irregular, tentando abocanhar galinhas desesperadas. Era uma questão de estilo. Não à toa, duas matérias já foram publicadas no periódico da província sobre o asseio e polidez nos modos do Sr. e da Sra. Raposo, dando especial destaque às festas promovidas pelo casal e às ideias de decoração que a Sra. Raposo teve ao trocar a mobília da sala de jantar – projeto que uniu elementos minimalistas e orientais mas sem perder as características rústicas de uma toca num freixo. No entanto, para um animal selvagem, a paciência termina no exato momento em que a fome aparece.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“E então, galinha?”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Os ovos somem dos nossos ninhos todos os dias de manhã, é só isso que eu sei.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Uma pena, colega. Nesse caso, eu terei de quebrar o seu pescoço e correr para casa com a sua carcaça afim de preparar um assado de sua tenra carne, servido com algumas batatas ao murro e molho de ervas!”, exclamou o Sr. Raposo entredentes.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Parece gostoso.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“ARRRGHHARSSHHHGRRRRRGRRRWOOFWOOF!”, regougou o Sr. Raposo, bufando e espumando de raiva, sem se importar em respigar saliva por todo seu blazer de alfaiataria.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para uma galinha, Babs tinha o coeficiente de inteligência de um pombo, o que era suficiente para compreender a gravidade da situação na qual ela estava, mas não o bastante para planejar uma boa estratégia de fuga. Mas numa sinapse rápida, os minúsculos neurônios da galinha se uniram para enviar uma mensagem uníssona ao cérebro: minta. Mas qual dentre a inúmeras possibilidades de mentiras dizer à raposa? Que os ovos se reuniam todas à tardes sob a amoreira para lanchar ou que talvez eles estivessem em viagem e retornassem somente na próxima semana?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;As presas do Sr. Raposo já se fechavam em torno do pescoço curto e gordo de Babs e ela podia sentir o hálito fresco, recém escovado com creme dental de hortelã, tomando conta do ar ao redor.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Eu gostei muito do seu último trabalho.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“O q-q-quê?!”, gaguejou o Sr. Raposo, desviando a atenção do pescoço da galinha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Eu gostei muito do seu último trabalho.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Meu trabalho? É muito gratificante ouvir isso. Ora, que situação constrangedora. Eu aqui, quase comendo uma admiradora do meu trabalho. Não que já não tenha feito isso antes.”, riu a raposa. Mas Babs não entendeu, pois estava concentrada em mentir:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Eu gostei muito do seu último trabalho.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Claro. Você gosta. Eu fico lisonjeado. Perdoe-me o modo como nos conhecemos. Eu adoro ter esse contato com fã, ouvir os elogios, as críticas. Faz o trabalho crescer, sabe?”, justificou um Sr. Raposo cada vez mais ruborizado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“Eu gostei muito do seu último trabalho.”&lt;/p&gt;&lt;p&gt;“É muito bom ter esse feedback. Eu com certeza vou levar isso para o meu próximo trabalho. O mercado livreiro está tão mal das pernas e eu aqui quase comendo tão nobres admiradoras dos meus romances. Perdoe-me mais uma vez, senhora.”, despediu-se a raposa, assoviando e dando uma piscadela em seguida, para, então, se embrenhar por entre as moitas, até sumir de vista.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;b&gt;&lt;a href="https://www.facebook.com/BifeSeco/"&gt;Dimis Jean Sores&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; e ilustração de &lt;b&gt;&lt;a href="https://www.instagram.com/rengaf_/"&gt;Fagner Soares&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;br/&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Babs&lt;/b&gt; foi dublada por Jane Horrocks em &lt;i&gt;A Fuga das Galinhas &lt;/i&gt;(&lt;i&gt;Chicken Run&lt;/i&gt;), filme escrito por Karey Kirkpatrick, Mark Burton e John O'Farrell, baseado em uma história original de Peter Lord e Nick Park, que dirigiram o filme em 2000. &lt;b&gt;Sr. Raposo&lt;/b&gt; foi dublado por George Clooney em &lt;i&gt;O Fantástico Sr. Raposo &lt;/i&gt;(&lt;i&gt;Fantastic Mr. Fox&lt;/i&gt;), filme escrito por Wes Anderson e Noah Baumbach, inspirados pelo livro homônimo de Roald Dahl, e dirigido por Wes Anderson em 2009.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/"&gt;&lt;b&gt;Sobre Cafés e Cigarros&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;a href="http://t.umblr.com/redirect?z=https%3A%2F%2Fblue-sea-697d.quartiers047.workers.dev%3A443%2Fhttp%2Fatomictangerine.com.br%2F&amp;amp;t=YzJiNDA4YmU4MGMzNTdjNWY2OTg5M2JmYWU0YmM3NGE4NGM2ODNmZSxnbng2OWdlcw%3D%3D"&gt;&lt;b&gt;Atomic Tangerine&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/147600653210</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/147600653210</guid><pubDate>Mon, 18 Jul 2016 14:14:05 -0300</pubDate><category>Babs</category><category>AFugaDasGalinhas</category><category>ChickenRun</category><category>SrRaposo</category><category>MrFox</category><category>OFantasticoSrRaposo</category><category>FantasticMrFox</category><category>DimisJeanSores</category><category>FagnerSoares</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item><item><title>O amor não é um passeio de mobilete tampouco um tubarão</title><description>&lt;figure data-orig-width="850" data-orig-height="613" class="tmblr-full"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/40b5ec4939eae15cb05bb9b1cb4da629/tumblr_inline_o8oghoaD6K1sdj1j8_540.jpg" alt="image" data-orig-width="850" data-orig-height="613"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;p&gt;Coisas mais estranhas já haviam acontecido com Val Waxman do que ver uma garçonete francesa derretendo diante de seus olhos.&lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;Voltando um pouco no tempo. Val havia se mudado para Paris depois de seu grande fracasso/sucesso. Um filme que ele havia dirigido durante uma grave crise de cegueira psicossomática. Público e crítica detestaram o filme nos EUA, chamando a película de desperdício de celuloide. Mas graças a Deus pelos franceses. O filme foi um sucesso estrondoso na Europa, começando por Paris. O que rendeu a Waxman um contrato para realizar três filmes na França. O último deles havia sido finalizado há pouco mais de um mês e faria sua estreia mundial na abertura do Festival de Cannes. Sim, graças a Deus pelos franceses, de fato! Agora, caso o leitor queira uma visão mais aprofundada sobre a carreira ou a estética de Waxman, o meu conselho é que utilize uma ferramenta bastante útil do mundo contemporâneo, o google. Porque o nosso histórico acaba aqui.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Amélie ouvia vozes. Melhor dizendo, Amélie ouvia uma única voz. A voz de um narrador onipresente que sabia não apenas o que se passava em sua vida como também sabia o que se passava na vida das outras pessoas. O narrador falava com voz grave e Amélie ouvia, entendendo a voz como algo de providencial para que o mundo pudesse ser um lugar melhor. Alguns poderiam até dizer que isso era uma espécie de delírio de grandeza da garçonete. Mas certamente não era o caso. Ou era? Assim, Amélie tinha certezas claras do que as pessoas precisavam ou mereciam do mundo. E, por uma coincidência irreparável no dia da morte da Princesa Diana, resolveu agir. Sim. E as coisas deram certo. Mais ou menos. Digamos apenas que Amélie descobriu que o amor não é um passeio de mobilete ou fotos rasgadas e reagrupadas num livro bonito (?). &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strike&gt;****&lt;/strike&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Val perambulava sozinho pelas ruas de Montmartre, depois de visitar um amigo nas redondezas. Paris fazia bem ao velho cineasta. O que não queria dizer de forma alguma que ele não sentisse saudade de Nova Iorque. De Hollywood&amp;hellip; Nem tanto, pensou, encolhendo os ombros. Um pouco perdido nos pensamentos, ele percebeu que já não era mais tão jovem e o cansaço se abatia sobre ele. Foi quando passou em frente a um pequeno café, meio brega, meio sépia. E por que não parar e sentar e quem sabe observar as pessoas. Depois de anos ele ainda estava só começando a entender os hábitos e as cores parisienses. No início ele tinha Ellie com ele, mas isso também desmoronou. O casamento durou dois filmes – a medida de tempo utilizada por Waxman são sempre filmes, nunca anos, dias ou meses. Depois Ellie percebeu novamente que a hipocondria e as neuroses de Val eram demais, mesmo na cidade luz. Até seu antigo agente, companheiro de toda a estrada, ele perdeu. Nesse caso havia perdido o amigo para um fulminante ataque cardíaco, então não era sua culpa. Ou talvez fosse um pouco. Estresse e essas coisas. A única coisa que nunca acabava era a relação com o cinema, os filmes. Mesmo o filho recuperado há pouco raramente o visitava. Muito ocupado ainda comendo ratos vivos nos palcos em que fazia um tipo de música que Val jamais entenderia. Suspirou. Nunca se entenderiam por completo. Sim, a vida não é um filme com final feliz hollywoodiano.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De dentro do café meio brega meio sépia, uma garçonete com um figurino ligeiramente esdrúxulo espiava pela porta de vidro enquanto o homem dava meias voltas do lado de fora. E pensava que aquilo talvez fosse um sonho. A voz em sua cabeça lhe dizendo, insistindo até, que, se ele entrasse, ela deveria falar com ele. Porque Val Waxman amava os filmes e as histórias de amor e odiava produtores de cinema e gente falsa, o que no fundo era a mesma coisa, mas isso a voz não disse. Quem disse foi o narrador onipresente desta pequena história, que verdadeiramente não possui voz grave e nem tem muita certeza daquilo que está narrando. Talvez tenha sido um sonho, mas isso seria um outro filme, então por favor, esqueçam o que eu disse.  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando entrou no café, Waxman reparou na garçonete que o fitava com dois olhões que mais pareciam jabuticabas. E também teve a nítida impressão de tê-la visto derreter, virar água. Estranho. Depois de uma piscada mais longa, notou que ela continuava lá. Encarando. Com um certo ar de perplexidade. Isso o deixava inquieto. O estar atrás das câmeras dava uma certa tranquilidade e certeza de quase nunca ser reconhecido. Mas teve aquele tempo em que ele atuava nos próprios filmes. Então sempre havia a possibilidade de falarem com ele. Isso o deixava muito ansioso. Exatamente por isso tinha optado por encerrar a breve carreira de ator e escalar para seus filmes atores que conseguissem emular seu jeito de falar e se mover. Uma escolha bastante egocêntrica, alguns diriam. Alguns. Não eu. Eu jamais diria isso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando ela se aproximou para atendê-lo, ele foi obrigado a usar todas as palavras que sabia em francês pra pedir um café. Esses americanos! Depois de anos morando na França, Waxman ainda se recusava a aprender a língua. Amélie respondeu apenas com um aceno enfático de cabeça. Nenhuma palavra. Peculiar, ele pensou. Se fosse um filme, se houvesse uma câmera, ele agora estaria olhando diretamente para ela com uma expressão confusa. Nem bem tinha batido os olhos na garçonete e já sentia um desprezo nascendo na boca do estômago. Não sabia o porquê disso. O narrador desta história sabia, mas não falava com Waxman como o narrador de Amélie. Então a história seguiu. Pouco mais de um minuto depois &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt; voltou com o café. Ele agradeceu e &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt; de novo assentiu enfaticamente, mas sem nenhuma palavra e foi pra trás dele escrever algo em uma espécie de mural de vidro. Especiais do dia, &lt;b&gt;ele&lt;/b&gt; pensou. Quando a xícara se esvaziou, &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt; voltou e parou ao lado da mesa. Olhões. Encarando. Waxman sentiu seu coração acelerar. Estava quase tendo um ataque de ansiedade. Odiava que alguém pudesse ficar olhando pra &lt;b&gt;ele&lt;/b&gt; por tanto tempo sem dizer uma palavra. Não aguentou e rompeu o silêncio &lt;b&gt;ele&lt;/b&gt; próprio. Falar com &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt; seria melhor do que ser encarado por &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt;, pensou. Mal sabia &lt;b&gt;ele&lt;/b&gt;. Mas me adianto nas conclusões.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Desculpe, eu não falo francês&amp;hellip;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Tudo bem, eu também não falo inglês.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sorte a deles que num mundo de ficção como este que aqui se apresenta, ambos se dariam bem falando português. Algo que jamais aconteceria no mundo real. Não. No mundo real, era mais provável que garçonetes derretessem. Ou que cineastas fizessem filmes estando completamente cegos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Sorte a nossa que neste momento de ficção nós dois falamos português.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;(Uma piscadinha para a câmera)&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Senhor Waxman, eu sou muito fã do seu trabalho.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ah&amp;hellip; sim&amp;hellip; eu imaginei&amp;hellip; você&amp;hellip; você tem uns olhos esquisitos&amp;hellip; já, já te disseram isso? Quer dizer, você é&amp;hellip; não. Isso não é necessariamente uma coisa ruim. É só que&amp;hellip; é só que parece intangível. E bem. Não é de se surpreender que você goste dos meus filmes&amp;hellip; vocês aqui fazem tudo&amp;hellip; tudo de um jeito&amp;hellip; verde e vermelho&amp;hellip; e contraste. Tudo parece igual. E estilizado. Atualmente, eu digo. É claro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Senhor Waxman. As pessoas às vezes dizem o mesmo do senhor. Que o senhor está fazendo o mesmo filme há quase meio século.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Eu não concordaria com esse ponto de vista. Não exatamente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De repente, num acesso, ela se sentou à frente dele. Apenas uma pequena mesa entre os dois. Os níveis de ansiedade de Val continuavam a subir. Ela continuou olhando profusamente para o homenzinho de paletó cinza de tweed. Uma escolha esquisita para um dia de calor deste final de abril. Até que finalmente:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Senhor Waxman, o senhor faz filmes sobre amor. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Bem. Sim, talvez de alguma maneira isso possa ser dito. Mas não. Não particularmente. Eu diria que são mais sobre relações humanas em geral. Ou sobre a inadequação do homem frente às exigências do mundo moderno. Ou dilemas filosóficos. Sim. Não. Eu sei. Eu não sou o Bergman&amp;hellip; mas&amp;hellip;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Não, o senhor faz filmes sobre amor.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ok então. Se você diz&amp;hellip;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Por que o amor acaba, senhor Waxman?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Bem. Você é&amp;hellip; você é bem&amp;hellip; direta&amp;hellip; ahn&amp;hellip; como é o seu nome?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Amélie.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Pode me chamar de Val. Amélie. Se eu soubesse a resposta pra essa sua pergunta, eu ainda estaria casado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Hum&amp;hellip;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Quando eu era jovem, mais ou menos da sua idade, eu achava que relacionamentos deveriam ser como tubarões, sempre se movendo, sempre progredindo, sempre indo pra frente. Os tubarões, sabe, eles, se eles ficam parados, eles morrem. Então, eu achava isso. Que era isso. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ela o fitava em silêncio com aqueles olhos gigantes esquisitos. Como ela não respondeu, ele achou melhor continuar. Silêncios deixavam Val Waxman extremamente ansioso. Essa situação o deixava extremamente ansioso. Talvez ele devesse ter tomado um calmante ao invés de um café. Talvez ele devesse ter voltado pra casa ao invés de entrar. Talvez talvez talvez. Bem, tarde demais. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Depois os anos passaram. Eles passaram e. E eu comecei. Bem, eu comecei a achar que na verdade um relacionamento depois de um tempo ele para de seguir em frente. De evoluir. Ou coisa do tipo. Ele fica lá parado. E. E é isso. E isso é bom. Mas nenhuma das duas opções funcionou. Nem ir. Nem ficar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Senhor Waxman, Val. E o que acontece se ele não pode ficar parado ou se mover?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Bem, o que eu acho. O que eu&amp;hellip; eu acho que ele simplesmente tem que acabar, Amélie. Você&amp;hellip; você já se apaixonou?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;(Movimentos afirmativos enérgicos com a cabeça. Definitivamente, uma garota de poucas palavras).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Então, você sabe que o que começa acaba, não? E como era o nome do rapaz&amp;hellip; é&amp;hellip; da pessoa&amp;hellip; por quem você se apaixonou?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Nino.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Isso parece nome de italiano, não de francês.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Nino Quincampoix.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Ah. Uau. Ah, bom. Agora, sim. Isso parece francês, eu não consigo repetir. E. E o que aconteceu entre você e o Nino - tem um compositor ótimo com esse nome, sabe?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- O relacionamento parou de evoluir.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- E você teve algum outro relacionamento além desse?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Eu amei um peixe uma vez. Mas tive que deixá-lo ir embora.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Parece fazer parte da temática da contemporaneidade. Digo&amp;hellip; com o rapaz&amp;hellip; ou com o peixe&amp;hellip; digo que é sempre isso. Se algo não pode ir adiante ou ficar parado, bem, então esse algo não pode existir. É bastante filosófico isso, até certo ponto. Ou um sofisma barato. Mas. Eu tenho um filho. Ele deve ter mais ou menos a sua idade. Talvez você pudessem. Sabe. Pudessem se conhecer. O nome dele é Tony. Talvez vocês. Não. O nome dela era Tony. Ele raramente vem me visitar. Não daria certo. Esqueça que eu mencionei isso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Senhor Waxman.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Val.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Val. Quando a Lady Di morreu, eu achei que podia mudar a vida das pessoas, pra melhor. Que eu podia ajudar. Que elas podiam ser felizes. E eu também.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Isso só é ligeiramente ridículo&amp;hellip; você fez o quê? Você interferiu na vida das pessoas? Se fosse comigo. Bem, se você mexesse. Se você interferisse nas minhas coisas. Acho que mandaria um mafioso chamado Nino te matar. Sim. Isso é o tipo. O tipo de coisa que não funciona. Interferir. Mas bem, enfim, como você se saiu?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Bem. No começo. Acho que ajudei as pessoas por um tempo. Mas depois tudo volta ao normal. Como um relacionamento talvez, em que você se apaixona e no começo tudo é novo e diferente, e depois é só normal.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Sim. Com isso eu posso me relacionar. As pessoas só. Elas. Criam distâncias. Se desligam. Só&amp;hellip; só. É assim que acontece.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Silêncio. Eles se entreolham. Amélie parece confortável e ligeiramente triste. Waxman sente que está à beira de um ataque de ansiedade. Uma pausa longa demais, uma pausa desajeitada. E por que essa pessoa que ele nunca viu na vida fica olhando pra ele quase sem piscar? Com um quase sorriso nos lábios, apesar da tristeza nos olhos. Que coisa esquisita. Extremamente perturbador. O desprezo borbulha. Tenta virar ódio. Mas a ansiedade é maior. A ansiedade sempre é maior. Ele pensa desesperadamente em algo para dizer. Nada. Os olhos delas têm um opaco parado, fixos. Os dele se movimentam freneticamente, fazendo com que a cabeça se movimente junto levemente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Bem. Eu preciso ir. Eu não tenho nada melhor pra fazer, mas essa situação já está ficando meio insustentável.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando &lt;b&gt;ele&lt;/b&gt; começa a levantar,&lt;b&gt; ela&lt;/b&gt; segura na mão d&lt;b&gt;ele&lt;/b&gt;. &lt;b&gt;Ele&lt;/b&gt; senta novamente. &lt;b&gt;Ele&lt;/b&gt; olha pra &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt; com um ar de confusão, esperando que &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt; diga algo imediatamente, mas &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt; continua em pausa. Depois de alguns segundos, que para &lt;b&gt;ele&lt;/b&gt; mais parecem horas, &lt;b&gt;ela&lt;/b&gt; fala.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Gosto mais quando você usa jazz do que ópera.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Tem uma legião de fãs que concorda com você. Bem, talvez não uma legião. Isso seria uma exagero. Um pequeno grupo talvez seja uma expressão mais precisa. Sim, um pequeno grupo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- O seu último filme, esse que vai estrear em Cannes. Sobre o que é?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Amor.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;b&gt;&lt;a href="http://projetoz.art.br"&gt;Nina Rosa Sá&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; e ilustração de &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.lucysalgado.com"&gt;Lucy Salgado&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;br/&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Val Waxman&lt;/b&gt; foi interpretado por Woody Allen em &lt;i&gt;Dirigindo no Escuro &lt;/i&gt;(&lt;i&gt;Hollywood Ending&lt;/i&gt;), filme escrito e dirigido pelo próprio Woody Allen, em 2001. &lt;b&gt;Amélie Poulain&lt;/b&gt; foi interpretada por Audrey Tautou em &lt;i&gt;O Fabuloso Destino de Amélie Poulain &lt;/i&gt;(&lt;i&gt;Le fabuleux destin d'Amélie Poulain&lt;/i&gt;), filme escrito por Guillaume Laurant e Jean-Pierre Jeunet e dirigido por Jean-Pierre Jeunet, também em 2001.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/"&gt;&lt;b&gt;Sobre Cafés e Cigarros&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;a href="http://t.umblr.com/redirect?z=https%3A%2F%2Fblue-sea-697d.quartiers047.workers.dev%3A443%2Fhttp%2Fatomictangerine.com.br%2F&amp;amp;t=YzJiNDA4YmU4MGMzNTdjNWY2OTg5M2JmYWU0YmM3NGE4NGM2ODNmZSxnbng2OWdlcw%3D%3D"&gt;&lt;b&gt;Atomic Tangerine&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;.&lt;br/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/145823112730</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/145823112730</guid><pubDate>Sun, 12 Jun 2016 18:31:45 -0300</pubDate><category>ValWaxman</category><category>DirigindoNoEscuro</category><category>HollywoodEnding</category><category>AmeliePoulain</category><category>OFabulosoDestinoDeAmeliePoulain</category><category>LeFabuleuxDestindAmeliePoulain</category><category>NinaRosaSa</category><category>LucySalgado</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item><item><title>uma estrela</title><description>&lt;figure data-orig-width="850" data-orig-height="1202" class="tmblr-full"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/fd5105769595b02ea13595b5810a1ed6/tumblr_inline_o6i4pyweKj1sdj1j8_540.jpg" alt="image" data-orig-width="850" data-orig-height="1202"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;p&gt;olá. meu nome é rick deckard e se você está ouvindo essa mensagem é porque estou morto. &lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;rick olha o céu sem esperança. cores laranjas e tempestades elétricas rasgam as nuvens cinza chumbo de canto a canto do firmamento. rick larga o aparelho de comunicação ainda ligado ao lado do corpo. deitado sobre a areia da praia ele contempla o que restou do mundo. agora só escombros. prédios em ruínas. areia. devassidão. as pedras estão pretas e chamuscadas dos seguidos incêndios que consumiram toda a vida daquele lugar. ele olha o mar logo à frente e se pergunta se ele não vinha até mais perto. tenho a impressão de que esse mar um dia veio até aqui mais perto das casas e que catávamos pequenos siris com as mãos. eles se escondiam nos buracos e a água os encobria e assim que o mar recuava eles tinham de deixar suas casas e a gente corria corria feito loucos porque era muito difícil de capturá-los e. rick!? silêncio. ele para de pensar por um instante e tenta se concentrar nessa voz que vem de algum lugar muito profundo. as alucinações já começaram? ele pensa. rick!? uma voz feminina sai do aparelho só que rick está exausto demais pra virar e pegar novamente o aparelho e apertar o botão pra responder. ele já desistiu. toda a energia pra sobreviver foi gasta nos últimos dias caminhando por essa terra inóspita sem encontrar sequer um cadáver. ele não tem mais vontade de responder a um chamado. estou morto. estas palavras foram as últimas. não insista. foi um último desabafo. um aviso. uma espécie de recado aos sobreviventes. se alguém ouvir saberá que não deve perder seu tempo e vir até aqui. não há nada pra se ver nesse lugar. a terra é estéril. não há mais água. quantos dias eu caminhei! rick! eu sei que você está aí. porque você sempre demora pra me responder? a voz saída do aparelho não é a de uma mulher que já viveu as agruras da vida. é uma adolescente que virou mulher há pouco tempo e sabe mais coisas sobre a vida do que de fato um adulto poderia saber. você já reparou no céu hoje rick? está tão lindo como quando te conheci. e as estrelas rick? ainda há estrelas? você ainda as conta antes de dormir? ela é assim. faz todas as perguntas e dá todas as respostas com a habilidade de uma domadora de borboletas. e rick ali deitado vendo as nuvens se regurgitando em meio à tempestade. ele está ouvindo? imagine que você está de pé e olha o céu. agora você inclina o pescoço pra trás e aponta o nariz pra cima como se ele quisesse beijar uma nuvem. aí você estica o braço esquerdo com o dedo indicador em riste pra cima na mesma direção do nariz e fixa um ponto. a partir desse ponto você mede dois palmos pra esquerda. sabe quando você junta o mindinho com o dedão e depois estica? faz assim duas vezes. se o céu estiver limpo você provavelmente vai encontrar a estrela de que eles estão falando. ela se chama dorothy. é a que mais brilha. não. não as conto mais. elas não aparecem mais com frequência. você tem olhado o céu como olhávamos rick? acho que você está um pouco relapso. você já foi melhor. ele pisca por mais de dois segundos e dorothy sabe que um piscar assim de mais de dois segundos ou é morte ou é sono. rick! ele acorda novamente. aonde você estava indo? fique aqui comigo mais um pouco. quero te contar da minha última aventura. eu ainda não te falei sobre a. você lembra do primeiro beijo? ele a interrompe sem querer. os pensamentos estão indo e vindo caóticos dentro da cabeça de rick. talvez as coisas estejam começando a fazer mais sentido pra ele nesse momento. talvez as respostas que ele quis ouvir a vida inteira estejam aparecendo de um jeito muito especial. seus olhos brilham. ela não responde. mesmo assim ele fala. foi a última vez que vi o sol daquele jeito fazendo contra luz em você. teus cabelos pegando fogo e dentro das sombras que recortavam seu rosto vi seus olhos sonharem o mesmo sonho que eu sonhava desde criança e não conseguia contar a ninguém por causa da minha voz que sempre ia falhando e emudecia quando chegava na parte do trampolim. mas aí você disse pra mim com os olhos que tudo bem. que tudo ficaria bem. que esse ia ser o nosso jeito de se entender e. rick vê alguma coisa no céu que o faz ficar em silêncio. como viemos parar aqui? não sei. você sempre pergunta isso. você nunca lembra das coisas. ela responde. o que você tem aí na mão rick? ele segura com força alguma coisa na mão esquerda. é aquela foto? rick olha pra mão. abre os dedos devagar. uma foto velha de uma casa. é a nossa casa rick? na foto uma casa de madeira pintada de verde com as janelas marrons e as cortinas esvoaçando pra fora. duas pessoas sentadas na escada à frente da porta de entrada tomam café em copos de vidro. na janela uma criança dá tchau pra câmera. deve ter uns quatro cinco anos. que tal levantar daí e vir aqui comigo rick? acho que já se passou muito tempo. agora você não precisa mais. bate um vento na mão dele e a foto voa em direção ao mar. a foto pousa na areia e logo uma onda vem e a leva embora. o aparelho faz uns barulhos estranhos e uns chiados e começa a falhar até que desliga. ainda assim é possível ouvir a voz de dorothy ao fundo como se ela estivesse falando detrás do grande quadro que é o céu. imagine que você está dentro de uma caixa de sapato e que a tampa é o céu e de repente alguém vem e fala com você lá de fora e essa voz é opaca e você não a entende direito e aí ela vem e retira a tampa e uma mãozona gigante pega seu corpo e o levanta e te coloca de pé e você acostumado à escuridão se vê em meio a uma luz ofuscante e seus músculos acostumados a ficarem parados têm agora de sustentar o seu corpo e não conseguem porque ficaram muito tempo parados então eles fraquejam e começam a tremer e você acha que vai cair até que seus olhos se acostumam com a luz e você começa a ver pessoas árvores animais e mais um monte de coisas que você achava que tinha perdido e que na verdade estão todas ali te esperando e algumas pessoas até olham pra você e acenam no que você prontamente responde com outro aceno e ao invés de ficar se perguntando como foi parar ali e porque as pernas tremem você simplesmente sai andando e vai dar uma volta por esse lugar maravilhoso até que uma mulher de vestido azul e branco vem falar com você e o sol amarelão ao fundo provoca uma contra luz no corpo dela que faz seus cabelos pegarem fogo e de dentro das sombras de seu rosto bem do fundo de seus olhos negros você escuta o fim daquele sonho de criança e descobre o que de fato aconteceu depois que aqueles quatro caras saltaram daquele trampolim com aquela voz opaca repetindo o seu nome sem parar e a sensação de missão cumprida preenche a sua alma e um arrepio monstruoso toma conta de seu corpo porque sim estamos vivos é o que você pensa e esse pensamento se repete mais uma vez mas não é pensamento é sua voz dizendo sim! estamos vivos! sim! estamos vivos! então ela chega um pouco mais perto. agora já dá pra ver o rosto dela. você é muito bonita. você também. como é seu nome? rick. e o seu? dorothy. eles se beijam.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.otaviolinhares.wordpress.com"&gt;Otavio Linhares&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; e ilustração de &lt;b&gt;&lt;a href="https://www.behance.net/fredetizzot"&gt;Frede Tizzot&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Rick Deckard&lt;/b&gt; foi interpretado por Harrison Ford em &lt;i&gt;Blade Runner, O Caçador de Andróides&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Blade Runner&lt;/i&gt;), filme escrito por Hampton Fancher e David Peoples – baseado em &lt;i&gt;Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Android Dream of Electric Sheep?)&lt;/i&gt;, de Philip K. Dick –, dirigido por Ridley Scott em 1982. &lt;b&gt;Dorothy Gale&lt;/b&gt; foi interpretada por Judy Garland em &lt;i&gt;O Mágico de Oz&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;The Wizard of Oz&lt;/i&gt;), filme escrito por Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf – baseado em &lt;i&gt;O Maravilhoso Feiticeiro de Oz&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;The Wonderful Wizard of Oz&lt;/i&gt;), de L. Frank Baum –, dirigido por Victor Fleming em 1939.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/"&gt;&lt;b&gt;Sobre Cafés e Cigarros&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;a href="http://atomictangerine.com.br/"&gt;&lt;b&gt;Atomic Tangerine&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/143682841050</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/143682841050</guid><pubDate>Sun, 01 May 2016 10:58:57 -0300</pubDate><category>RickDeckard</category><category>BladeRunner</category><category>Dorothy</category><category>TheWizardOfOz</category><category>OMagicoDeOz</category><category>OtavioLinhares</category><category>FredeTizzot</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item><item><title>Clementine &amp; Theodore</title><description>&lt;figure data-orig-width="850" data-orig-height="592" class="tmblr-full"&gt;&lt;img src="https://64.media.tumblr.com/0bfda5ac7c5d2f6ed070eccd5ef6d87b/tumblr_inline_o46nt0EV3V1sdj1j8_540.jpg" alt="image" data-orig-width="850" data-orig-height="592"/&gt;&lt;/figure&gt;&lt;p&gt;É um dia frio e cinza, daqueles capazes de deixar a cidade que já é grande ainda maior. Uma garota de cabelos laranja caminha entre a multidão de pessoas encasacadas que não se olham a não ser naqueles breves momentos nos quais um código de olhar rápido se faz necessário para que elas não trombem umas nas outras. O laranja do cabelo dela quebra o silêncio do mundo, acha o seu espaço entre a sinfonia de buzinas, motores e conversas altas em celulares. O silêncio do mundo é cheio de sons, cheio de excessos. É tudo, menos vazio. Diz tudo, mas não comunica. Ela, a garota do cabelo laranja, vestindo um casaco de frio azul, agora fuma um cigarro em frente a um restaurante enquanto observa o caminhar do mundo que não para, desejando por um segundo que a Terra não mais girasse, mas permanecesse em suspensão por um minuto, calma, como dois amantes que após o gozo dormem abraçados segurando o sol para que o dia não amanheça e separe seus corpos novamente.&lt;br/&gt;&lt;/p&gt;&lt;!-- more --&gt;&lt;p&gt;Dentro do restaurante vietnamita, na vitrine logo na entrada, está sentado Theodore que mexe em seu smartphone sem se preocupar com as pessoas ao redor, sem se preocupar com o arrastar das cadeiras, o tilintar dos talheres ou ainda com o som das conversas que soam como um enxame de abelhas. Uma velha rabugenta pragueja alguma coisa sobre a comida que poderia estar mais quente, um menino com um avião de brinquedo vermelho nas mãos passa correndo por entre as mesas querendo voar, uma garota de cabelos laranja entra no restaurante esfregando uma mão na outra tentando esquentá-las enquanto cumprimenta com um sorriso o caixa do restaurante que, por sua vez, faz algum comentário sobre o frio fora de época. Theodore permanece parado; não fosse pelo movimento dos dedos no celular poderia ser confundido com um morto. “Talvez eu esteja morto mesmo, apenas não sei ainda”, pensa com frequência, pensa exatamente isso agora ao sentir seu coração doer enquanto bate. “Quem me dera fosse um infarto, mas é só solidão…”, não consegue completar esse pensamento. É interrompido por uma voz feminina que diz: &lt;/p&gt;&lt;p&gt;– Posso me sentar aqui? É que não tem outro lugar vago – e senta. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Theodore levanta a cabeça e a encara sem conseguir esconder a surpresa com a cor do cabelo da garota.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;– Agente Laranja – ela diz.&lt;br/&gt;– O quê? – responde Theodore confuso.&lt;br/&gt;– A cor do meu cabelo, é Agente Laranja – sorri. – Então, posso me sentar aqui?&lt;br/&gt;– Você já está sentada… – fala Theodore com um sorriso que é um reflexo de timidez e nervosismo.&lt;br/&gt;– Entendi, você quer ficar sozinho. É um daqueles caras que não gosta de contato humano – ela se levanta.&lt;br/&gt;– Não, me desculpe… – após uma breve pausa. – É que eu não sou muito bom nisso. Pode ficar – e volta a mexer no smartphone.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ela começa a comer em silêncio enquanto observa Theodore ser absorvido por seu smartphone. Algumas pessoas passam por ela e a cumprimentam de longe. Ela retribui. Theodore permanece parado, apenas as mãos se movem do celular para o copo de suco de laranja e algumas vezes para arrumar os óculos de grau que pendem para a ponta do nariz. A garota começa a fazer barulho ao comer o lámen da tigela. Exagera no barulho de propósito até que Theodore olhe para ela.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;– Me desculpe – diz ela sorrindo e levando o guardanapo até a boca. – Herança do tempo que passei no Japão. Fazer barulho ao comer é uma demonstração de que a comida está saborosa por lá.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Theodore sorri e menciona voltar para o smartphone quando a garota o interrompe:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;– Clementine – ela estende a mão.&lt;br/&gt;– Theodore – fala hesitando em pegar na mão dela.&lt;br/&gt;– Eu lavei a mão antes de comer – ri.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Theodore sorri constrangido e aperta a mão dela. Ele pensa em falar alguma coisa, mas um carro para no sinaleiro em frente ao restaurante com o som no último. Country Honk do Rolling Stones toca abafado. Os dois ficam observando o carro através da vitrine do restaurante. O sinal abre e a música vai ficando cada vez mais longe. Clementine fecha os olhos e continua cantando a música por alguns segundos. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;– Adoro essa música, esse álbum – abre os olhos enquanto fala.&lt;br/&gt;– Rolling Stones? – ele pergunta.&lt;br/&gt;– Let it bleed.&lt;br/&gt;– Hum, não conheço…&lt;br/&gt;– É claro que não … você tem cara de quem gosta dos Beatles, não?&lt;br/&gt;– Gosto – ele olha para ela intrigado. – Mas você diz isso com base em quê?&lt;br/&gt;– Sei lá, intuição eu acho… e garanto que o Álbum Branco deve ser seu preferido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Theodore move a cabeça em afirmativo. Clementine se distrai com o menino que ainda brinca com seu avião vermelho por entre as mesas. O menino para e elogia a cor do cabelo dela. Ela agradece e elogia o avião. Theodore apenas observa os dois, gostaria de ser bom nessa coisa de interagir com os outros. Admira a desenvoltura de Clementine com o espaço por um momento. Olha para o relógio, está atrasado para voltar para o trabalho, mas decide ficar mais alguns minutos. Clementine começa a cantarolar:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;– Sexy Sadie what have you done. You made a fool of everyone. You made a fool of everyone… Vontade de ouvir essa música agora.&lt;br/&gt;– Vou ter que baixar essa quando chegar em casa.&lt;br/&gt;– Você – ela dá uma pausa maior que normal – baixar essa música?&lt;br/&gt;– O quê?&lt;br/&gt;– Achei que essa fosse daquelas que você teria no HD do seu computador fácil.&lt;br/&gt;– Eu não gravo mais coisas no HD – pausa, se olham. – O HD do meu computador está praticamente vazio pra dizer a verdade.&lt;br/&gt;– E por que isso?&lt;br/&gt;– Ah, depois de uma certa idade a gente tem que viver de acordo com alguma filosofia de vida, eu acho.&lt;br/&gt;– Tipo?&lt;br/&gt;– Faça ou não faça, mas não deixe pra depois.&lt;br/&gt;– Faz sentido – ela respira fundo pensando no que vai dizer por um instante. – Eu adoro números ímpares.&lt;br/&gt;– Isso não é uma filosofia – Theodore ri.&lt;br/&gt;– Eu sei, mas eu acho que diz tanto a meu respeito.&lt;br/&gt;– Cantar Sexy Sadie diz mais…&lt;br/&gt;– Diz mais o quê?&lt;br/&gt;– De todas as músicas do álbum branco você cantarolou Sexy Sadie.&lt;br/&gt;– Don’t treat me like a Goddess, I’m only a girl singing a song in front of a guy she barely knows.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Clementine olha para Theodore. Os dois se encaram por um instante, cada um no seu silêncio, mas se reconhecem. Se pudessem se amariam ali, naquele momento, mas seria um erro e sabiam disso. Não naquele momento, não movidos pela solidão ampliada de um dia cinza que apaga a primavera que já deveria ter chegado. E quando esse pensamento termina de percorrer seus corações eles enfim sorriem, um sorriso de cumplicidade. Aquele tipo de cumplicidade que vem quando a gente se deixa desnudar por um segundo para que a verdade do momento venha à tona sem medo, sem palavras, apenas através do olhar e de um certo relaxar da musculatura do corpo que sente que não precisa se defender de nada por um instante. Theodore se levanta, está atrasado para o trabalho. Clementine aproveita para sair junto com ele. Na frente do restaurante os dois se despedem com a promessa de se encontrarem por aí. Enquanto Theodore se afasta Clementine acende um cigarro. O vento corta a pele. O céu que era cinza agora está chumbo. Algumas luzes de postes começam a acender anunciando a chuva que chega. Começa uma correria de carros e pessoas tentando chegar sabe-se lá onde antes dos primeiros pingos. A garota de cabelo laranja permanece parada e entre uma tragada e outra um primeiro pingo de chuva toca seu rosto. “Just a smile would lighten everything”, e se perde no meio dos guarda-chuvas, dos casacos, dos olhares em código, para enfim se dissolver em cinza.&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;p&gt;Texto de &lt;a href="http://verginiagrando.wordpress.com/"&gt;&lt;b&gt;Verginia Grando&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; e ilustração de &lt;a href="http://www.candyland.com.br/"&gt;&lt;b&gt;Guilherme Caldas&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;b&gt;Clementine Kruczynski&lt;/b&gt; foi interpretada por Kate Winslet em &lt;i&gt;Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Eternal Sunshine Of The Spotless Mind&lt;/i&gt;), filme escrito por Charlie Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth, dirigido por Michel Gondry em 2004. &lt;b&gt;Theodore&lt;/b&gt; foi interpretado por Joaquin Phoenix em &lt;i&gt;Ela&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Her&lt;/i&gt;), filme escrito e dirigido por Spike Jonze em 2013.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br"&gt;&lt;b&gt;Sobre Cafés e Cigarros&lt;/b&gt;&lt;/a&gt; é uma série de breves viagens literárias promovidas por &lt;a href="http://atomictangerine.com.br/"&gt;&lt;b&gt;Atomic Tangerine&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;.&lt;br/&gt;&lt;/p&gt;&lt;/blockquote&gt;</description><link>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/141198070225</link><guid>https://sobrecafesecigarros.atomictangerine.com.br/post/141198070225</guid><pubDate>Thu, 17 Mar 2016 09:29:37 -0300</pubDate><category>Clementine</category><category>BrilhoEternoDeUmaMenteSemLembranças</category><category>EternalSunshineOfTheSpotlessMind</category><category>Theodore</category><category>Ela</category><category>Her</category><category>VerginiaGrando</category><category>GuilhermeCaldas</category><dc:creator>4tangerines</dc:creator></item></channel></rss>
