O ano lectivo terminou há uma semana e muitos dos alunos do 1º ciclo (antiga escola primária) que estão agora de férias levaram consigo para casa um pequeno computador azul conhecido como Magalhães. Muitos não teriam acesso a um computador se não fosse o Magalhães e a introdução de computadores na escola é obviamente uma medida positiva. Agora nunca devia ter sido feito da forma como foi, pois andou-se um ano a brincar aos computadores. É claro que depois da euforia inicial, muitos dos Magalhães já ficaram pelo caminho. Apesar de resistente, muitos já precisam de arranjo e a má utilização dos alunos leva a avarias de diversa ordem. E como o arranjo fica por conta dos pais, muitos já o encostaram a um canto. Outros aproveitaram obviamente a oferta do governo e foram vendê-los à feira ou então deram o computador como garantia nas casas de penhores para arranjar dinheiro para outras coisas.
Era inevitável e uma forma de evitar este problema teria sido inicialmente atribuir o computador às escolas e não aos alunos. Ou seja, o Magalhães devia ter ficado na escola e seria usado sempre no contexto escolar. Se tivesse sido assim, muitas das avarias por má utilização teriam sido evitadas e muitos desvios do computador para outros fins não teriam acontecido. É óbvio que as crianças em casa usam o computador para jogar, não propriamente para estudar, daí que o uso em contexto escolar é mais relevante. Cada escola ficaria assim com um portátil para cada aluno, que poderia passar de ano para ano, sendo substituídos quando se tornassem obsoletos. Neste momento, os alunos do 4º ano levam o computador embora, o que significa que vão ser precisos mais computadores para os alunos que entrarem na escola no próximo ano lectivo e assim sucessivamente. Ora, como não temos nenhuma garantia de sustentabilidade deste programa ao longo do tempo é bem provável que dentro de poucos anos, o Magalhães acabe e os alunos deixem de ter um computador a baixo preço ou mesmo dado.
Depois, os iluminados que tiveram a ideia do Magalhães, não pensaram em criar um guião que fosse distribuído pelas escolas para que os professores pudessem usar de forma mais eficiente o computador na sala de aula. Assim cada professor usa o Magalhães como quer e lhe apetece e tem que inventar estratégias para poder tirar algum proveito do portátil. Ora, não teria sido mais fácil criar um guião com estratégias gerais para as diversas matérias, que depois cada professor aproveitava e usava na sala de aula? Penso que sim, mas parece que ninguém se lembrou disso. Deram-se computadores às crianças como quem dá rebuçados ou chocolates, mas ninguém se preocupou em saber como é que o computador ia ser usado na sala de aula.
Depois também não se percebe muito bem para que é que uma criança de 6 anos de idade (os alunos do 1º ano) que ainda não sabe ler, nem escrever, precisa de um computador? Não seria mais razoável a criança primeiro aprender a ler e a escrever e só depois ter o computador?
Outro aspecto caricato foi a distribuição do computador. O portátil foi chegando a conta-gotas e sem critério nenhum e só praticamente no fim do ano lectivo é que teve uma distribuição generalizada pelas diversas turmas.
Este tipo de problemas mostra claramente impreparação e programas concebidos em cima do joelho. Depois à custa do Magalhães, o governo montou uma operação de propaganda política em larga escala para dar ideia que o computador era a solução mágica para os problemas da educação e que o Magalhães era uma grande invenção nacional. Ora o computador é apenas uma ferramenta. Obviamente que conseguimos fazer coisas fantásticas com ele, mas para isso temos que perceber como funciona e em que contextos podemos usá-lo. Esperemos que para o ano as coisas corram melhor. E já agora parece que também vai haver um Magalhães para a 3ª idade. Portanto, a malta sénior também vai ter direito a computador para ver a reforma…
(In Jornal de Estarreja)
