É tão fácil ser do contra. Mandar uns tiros para o ar, dizer que a culpa é sempre dos outros, manipular números, arranjar umas teorias alarmistas para captar votos. Não há coisa mais fácil do que ser da oposição. Lembrei-me disto a propósito da polémica à volta da gestão da água e do artigo que o Manuel Pinho Ferreira, vereador do PS, publicou neste jornal há uma semana atrás. Percebe-se logo que foi ele o autor do famoso estudo que o PS local fez em que se diz que a água vai aumentar 130% nos próximos cinco anos com a adesão de Estarreja à nova empresa de Águas da Região de Aveiro (ARA).
Provavelmente quem governa deve ter um gosto especial em aumentar os preços da água. Devem ter sido os 10 Presidentes das Câmaras aderentes que se levantaram um dia de manhã e faltou-lhes a água para tomar banho e vai daí lembraram-se: hoje vamos aumentar a água a esta malta, só por vingança a ver se gastam menos.
É uma teoria interessante semelhante a outra que o vereador Manuel Pinho Ferreira defendeu neste jornal, ao dizer que a ARA foi criada para beneficiar “meia-dúzia” de pessoas que irão integrar os quadros directivos da nova empresa. Realmente é uma teoria fascinante, semelhante aquela que diz que o Pai Natal existe e que desce no Natal pela chaminé.
Mas vejamos alguns dados interessantes, que lança para a discussão e que vale a pena comentar. Bem, em primeiro lugar, lá explicou o truque dos 130% usando apenas os dois primeiros escalões. Mas isso já eu sabia. Vamos a outras coisas.
Diz ele que a taxa de cobertura da rede de água no concelho é actualmente de 98%, valor que se manterá inalterável até 2020, e a de saneamento é de 75%, prevendo-se que evolua para 98% em 2020. Muito bem, como facilmente se percebe, o investimento a fazer na próxima década é no saneamento, diz o vereador Pinho Ferreira. É pena que não diga quanto vai ser preciso, mas eu posso dar uma ajuda. Vão ser precisos 10 milhões de euros de investimento nas 7 freguesias para que isso aconteça. Mas não é o único investimento. Há outro igualmente essencial, que não podia, nem devia ignorar.
É também necessário renovar e substituir as redes antigas de distribuição de água e aí vão ser precisos mais 22.5 milhões de euros nos próximos 50 anos (a preços de 2009). Ora fazendo as contas isto dá qualquer coisa como 32.5 milhões de euros durante o período em que Estarreja fará parte da ARA. Estranhamente o vereador Pinho Ferreira não fala destes valores? Bem, são valores apurados num estudo da Deloitte, a tal consultora internacional sobre a qual o Manuel Pinho Ferreira parece insinuar que é gente de pouca confiança. Bem, por acaso, até se trata da consultora que levantou as primeiras suspeitas de irregularidades nas contas do BPN e que vai continuar a ser auditora do BPP, mas para o Manuel Pinho Ferreira esta gente das consultoras é gente em que não podemos confiar. Muito bem e vamos confiar em quem? No gabinete de estudos do PS local?
Mas qual era a solução mágica do PS. Bem, da outra vez era a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA) concorrer aos fundos comunitários e depois contratualizar qualquer coisa com as Águas de Portugal (Adp), um modelo que nem sequer estava previsto na lei, mas desta vez parece que o modelo era que Estarreja não recebesse nada e pagasse tudo com verbas próprias. Ele próprio diz: “está por comprovar que a Câmara Municipal não tivesse capacidade financeira para fazer esse investimento”. É estranha esta teoria, então e no tempo em que o PS foi poder também não tinha verbas próprias para fazer a rede de água? Também não tinha verbas próprias para fazer o saneamento? Então para quê que foi buscar financiamento comunitário a 70%? Então e agora também não temos direito a fundos comunitários?
Mas o mais incrível é a confusão que reina no PS sobre esta matéria, que mostra que realmente as pessoas não estudam os dossiers. Já estamos habituados às confusões e às trocas de modelos entre os vereadores do PS e os membros da Assembleia Municipal do mesmo partido, mas agora eu próprio fiquei confundido. Em que é que ficamos? Na teoria fabulosa do Manuel Pinho Ferreira que insinua que Estarreja não deveria aderir à ARA e pagar tudo com verbas próprias ou na teoria maravilhosa da deputada Marisa Macedo, que inventou um modelo mágico que nem sequer estava previsto na lei?
Mas pergunta ainda o Manuel Pinho Ferreira: “Para que serve o dinheiro dos impostos pagos pelos munícipes?”
Bem, eu sei para que serve o dinheiro dos impostos municipais pagos pelos munícipes. Servem para investir no concelho e por isso é que a despesa de capital nos últimos 8 anos ronda os 74 milhões de euros, enquanto que no tempo do PS foi de 38.8 milhões em igual período do tempo. Isso para mim é claro, para o Pinho Ferreira parece que não. Mas também gostava que o Manuel Pinho Ferreira dissesse às pessoas onde é que arranjava os 32.5 milhões de euros em verbas próprias e sem fundos comunitários?
Bem e já no fim da prosa diz ainda que “se a Coligação tinha tanta certeza na inevitabilidade da parceria, porque não falaram com os companheiros de Ovar e Oliveira do Bairro, que parecem não terem percebido a importância da nova empresa e certamente com a ajuda dos “especialistas” de Estarreja evitariam o erro histórico que cometeram”.
O problema meu caro Pinho Ferreira é que Oliveira do Bairro já aprovou e só lhe fica o PSD de Ovar, que agiu da mesma forma que o PS de Estarreja, ou seja, de forma politiqueira para captar uns votos de descontentamento nas próximas eleições. E aí é que está o problema. Não falou que Águeda e Sever do Vouga (que até são PS…) ou Albergaria, Aveiro, Ílhavo, Vagos, Murtosa e Oliveira do Bairro aprovaram! Mas já agora espero que o PS de Estarreja seja coerente e faça uma coisa que só lhe fica bem, que é de meter no seu programa eleitoral a promessa de que se ganhar as eleições para a Câmara pede a saída de Estarreja da ARA e que faz todo o investimento previsto em água e saneamento com verbas próprias. Porque depois de tudo o que foi dito e escrito essa é a única atitude coerente e programática que pode tomar.
(In Jornal de Estarreja)