Estou sempre a falar de mim ou não. O meu trabalho é destruir aos poucos, tudo o que me lembra. Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal. Normalmente regresso a casa tarde, doente.
Desta maneira (e doutras – a carne é triste, hélas!, e eu já li tudo) ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido (vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?
Tudo o que acaba e começa. O que está entre as pernas, mudando de lugar. (Que fazer e para quê?)
manuel antónio pina ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde (1969) todas as palavras, poesia reunida assírio & alvim 2012
Nesta cidade não há rua mais batida. Está nevoeiro e é de noite: as sombras nos passeios Que o clarão dos farolins atravessa Como se a fosse diluir no nada, em grumos De nada, são as dos nossos semelhantes. Talvez já não exista o sol. Talvez seja escuro para sempre: no entanto Noutras noites sorriam as Plêiades. Talvez seja esta a eternidade que nos aguarda: Não o colo do pai, mas embraiagem, Travão, embraiagem, engatar a primeira. Talvez a eternidade sejam os semáforos. Talvez fosse melhor consumir a vida Numa única noite, como o fogo.
2 de Fevereiro, 1973
primo levi a uma hora incerta trad. rui miguel ribeiro edições do saguão 2024
Simples gota dum suor que parece apenas ansiedade, mas corre pelo teu rosto na febre das montanhas, na loucura dos rios, dos homens, das cidades, vim acusar os réus da superfície à justiça das tuas tempestades.
Se me ponho a cismar em outras eras Em que ri e cantei, em que era querida, Parece-me que foi noutras esferas, Parece-me que foi numa outra vida… E a minha triste boca dolorida, Que dantes tinha o rir das Primaveras, Esbate as linhas graves e severas E cai num abandono de esquecida! E fico, pensativa, olhando o vago… Toma a brandura plácida dum lago O meu rosto de monja de marfim… E as lágrimas que choro, branca e calma, Ninguém as vê brotar dentro da alma! Ninguém as vê cair dentro de mim!
Não sei se me interessei pelo rapaz por ele se interessar por estrelas se me interessei por estrelas por me interessar pelo rapaz hoje quando penso no rapaz penso em estrelas e quando penso em estrelas penso no rapaz como me parece que me vou ocupar com as estrelas até ao fim dos meus dias parece-me que não vou deixar de me interessar pelo rapaz até ao fim dos meus dias nunca saberei se me interesso por estrelas se me interesso por um rapaz que se interessa por estrelas já não me lembro se vi primeiro as estrelas se vi primeiro o rapaz se quando vi o rapaz vi as estrelas
Dentro dos livros marcas de quando os lemos. Bilhetes de cinema, autocarro, apontamentos com demasiadas abreviaturas, folhas que dizem «não esquecer» e foram esquecidas.
Nesta tarde li este verso. O romance na página 89. Agrupar os eventos por contiguidade, remissão, a data muito precisa destes acasos mais importantes que a biografia.
Olho para o livro que me emprestaste e que nunca devolvi. Também ele olha para mim. Tem as marcas da tua leitura, certos vincos no branco das páginas, manchas subtis e difusas como nuvens, restos das tuas mãos ou do teu olhar. Espero que não penses sobre mim o que penso sobre as pessoas que nunca me devolveram os livros que emprestei. O que pensarás tu sobre mim? Nunca li o livro que me emprestaste, preferi sempre imaginá-lo. Suponho que ainda se sinta estrangeiro entre os meus livros, mas agora é demasiado tarde para devolvê-lo, há tanto tempo que não falamos, não sei se ainda guardo o teu número de telefone. O que pensarias se agora, a despropósito, te quisesse devolver o livro? Havias de pensar que queria alguma coisa. Sabes, fico com o teu livro porque não quero nada. Provavelmente, nunca te devolverei este livro, fará parte do meu espólio, é a última ligação que temos.
Faz-se luz pelo processo de eliminação de sombras Ora as sombras existem as sombras têm exaustiva vida própria não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela intensamente amantes loucamente amadas e espalham pelo chão braços de luz cinzenta que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz não ilumina realmente os objectos os objectos vivem às escuras numa perpétua aurora surrealista com a qual não podemos contactar senão como amantes de olhos fechados e lâmpadas nos dedos e na boca
Eu sempre a Platão assisto. Pessoalmente, porém, e creia que não Tenho qualquer insuficiência nisto, Sou um romano da decadência total, Aquela do século IV depois de Cristo, Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.
Mesmo que não possas fazer a vida como a queres, isto ao menos tenta quanto puderes: não a desbarates nos muitos contactos do mundo, na agitação e nas conversas.
Não a desbarates arrastando‑a, e mudando‑a e expondo‑a ao quotidiano absurdo das relações e das companhias até se tornar um estranho importuno.
Sonho, mas não parece. Nem quero que pareça. É por dentro que eu gosto que aconteça A minha vida. Íntima, funda, como um sentimento De que se tem pudor. Vulcão de exterior Tão apagado, Que um pastor Possa sobre ele apascentar o gado.
Mas os versos, depois, Frutos do sonho e dessa mesma vida, É quase à queima-roupa que os atiro Contra a serenidade de quem passa. Então, já não sou eu que testemunho A graça Da poesia: É ela, prisioneira, Que, vendo a porta da prisão aberta, Como chispa que salta da fogueira Numa agressiva fúria se liberta.
Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio, no prédio que amanhã for demolido… Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos, e depressa, em qualquer sítio, porque esta noite chama-se Dezembro, porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos, duzentos mil, doze milhões de nada. Procuremos o rastro de uma casa, a cave, a gruta, o sulco de uma nave… Entremos, despojados, mas entremos. Das mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro, talvez universal a consoada.
Hoje é dia de ser bom. É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, de falar e de ouvir com mavioso tom, de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem, de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal. É só abrir o rádio e logo um coro de anjos, como se de anjos fosse, numa toada doce, de violas e banjos, Entoa gravemente um hino ao Criador. E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético. (Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas. Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante. Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates, com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica, cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates, as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito, ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores. É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito, como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento. Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar. E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena. Naquela véspera santa a sua comoção é tanta, tanta, tanta, que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho na noite incerta para ver se a aurora já está desperta. De manhãzinha, salta da cama, corre à cozinha mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza da matutina luz aguarda-o a surpresa do Menino Jesus.
Jesus o doce Jesus, o mesmo que nasceu na manjedoura, veio pôr no sapatinho do Pedrinho uma metralhadora.
Que alegria reinou naquela casa em todo o santo dia! O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas, fuzilava tudo com devastadoras rajadas e obrigava as criadas a caírem no chão como se fossem mortas: Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está! E fazia-as erguer para de novo matá-las. E até mesmo a mamã e o sisudo papá fingiam que caíam crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal, Dia de Amor, de Paz, de Felicidade, de Sonhos e Venturas. É dia de Natal. Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade. Glória a Deus nas Alturas.
Cada persona brilla con luz propia entre todas las demás. No hay dos fuegos iguales. Hay fuegos grandes y fuegos chicos y fuegos de todos los colores. Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento, y hay gente de fuego loco, que llena el aire de chispas. Algunos fuegos, fuegos bobos, no alumbran ni queman; pero arden la vida con tantas ganas que no se puede mirarlos sin parpadear, y quien se acerca, se enciende.
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu, eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia. No céu podia tecer uma nuvem toda negra. E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas, e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se, levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho. Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra, e a fímbria do mar, e o meio do mar, e vermelhas se volveram as asas da águia que desceu para beber, e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo. Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata. Correram os rapazes à procura da espada, e as raparigas correram à procura da mantilha, e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Porque há um sentido no lírio, incensar-se; e no choupo, erguer-se; e na urze arborescente, ampliar-se; e no cobre, primeira cura que dou à vinha, procriar-se.
E outro, pressago, sentido há na memória, explodir-se. E outro, imensurável, no amor, entregar-se. E outro, definitivo, na morte, render-se.
ANTÓNIO OSÓRIO Casa das Sementes – Poesia Escolhida, Assírio e Alvim (2006)
Nós somos os homens ocos Os homens empalhados Uns nos outros amparados O elmo cheio de nada. Ai de nós! Nossas vozes dessecadas, Quando juntos sussurramos, São quietas e inexpressas Como o vento na relva seca Ou pés de ratos sobre cacos Em nossa adega evaporada Fôrma sem forma, sombra sem cor Força paralisada, gesto sem vigor; Aqueles que atravessaram De olhos retos, para o outro reino da morte Nos recordam — se o fazem — não como violentas Almas danadas, mas apenas Como os homens ocos Os homens empalhados.
II
Os olhos que temo encontrar em sonhos No reino de sonho da morte Estes não aparecem: Lá, os olhos são como a lâmina Do sol nos ossos de uma coluna Lá, uma árvore brande os ramos E as vozes estão no frêmito Do vento que está cantando Mais distantes e solenes Que uma estrela agonizante. Que eu demais não me aproxime Do reino de sonho da morte Que eu possa trajar ainda Esses tácitos disfarces Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas E comportar-me num campo Como o vento se comporta Nem mais um passo — Não este encontro derradeiro No reino crepuscular
III
Esta é a terra morta Esta é a terra do cacto Aqui as imagens de pedra Estão eretas, aqui recebem elas A súplica da mão de um morto Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste O outro reino da morte: Despertando sozinhos À hora em que estamos Trêmulos de ternura Os lábios que beijariam Rezam as pedras quebradas.
IV
Os olhos não estão aqui Aqui os olhos não brilham Neste vale de estrelas tíbias Neste vale desvalido Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros Juntos tateamos Todos à fala esquivos Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser Que os olhos reapareçam Como a estrela perpétua Rosa multifoliada Do reino em sombras da morte A única esperança De homens vazios.
V
Aqui rondamos a figueira-brava Figueira-brava figueira-brava Aqui rondamos a figueira-brava Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia E a realidade Entre o movimento E a ação Tomba a Sombra Porque Teu é o Reino
Entre a concepção E a criação Entre a emoção E a reação Tomba a Sombra A vida é muito longa
Entre o desejo E o espasmo Entre a potência E a existência Entre a essência E a descendência Tomba a Sombra Porque Teu é o Reino
Porque Teu é A vida é Porque Teu é o
Assim expira o mundo Assim expira o mundo Assim expira o mundo Não com uma explosão, mas com um suspiro.
(tradução: Ivan Junqueira)
*
The Hollow Men .:. T.S. Eliot
Mistah Kurtz-he dead A penny for the Old Guy
I
We are the hollow men We are the stuffed men Leaning together Headpiece filled with straw. Alas! Our dried voices, when We whisper together Are quiet and meaningless As wind in dry grass Or rats’ feet over broken glass In our dry cellar
Shape without form, shade without colour, Paralysed force, gesture without motion;
Those who have crossed With direct eyes, to death’s other Kingdom Remember us-if at all-not as lost Violent souls, but only As the hollow men The stuffed men.
II
Eyes I dare not meet in dreams In death’s dream kingdom These do not appear: There, the eyes are Sunlight on a broken column There, is a tree swinging And voices are In the wind’s singing More distant and more solemn Than a fading star.
Let me be no nearer In death’s dream kingdom Let me also wear Such deliberate disguises Rat’s coat, crowskin, crossed staves In a field Behaving as the wind behaves No nearer-
Not that final meeting In the twilight kingdom
III
This is the dead land This is cactus land Here the stone images Are raised, here they receive The supplication of a dead man’s hand Under the twinkle of a fading star.
Is it like this In death’s other kingdom Waking alone At the hour when we are Trembling with tenderness Lips that would kiss Form prayers to broken stone.
IV
The eyes are not here There are no eyes here In this valley of dying stars In this hollow valley This broken jaw of our lost kingdoms
In this last of meeting places We grope together And avoid speech Gathered on this beach of the tumid river
Sightless, unless The eyes reappear As the perpetual star Multifoliate rose Of death’s twilight kingdom The hope only Of empty men.
V
Here we go round the prickly pear Prickly pear prickly pear Here we go round the prickly pear At five o’clock in the morning.
Between the idea And the reality Between the motion And the act Falls the Shadow …………. For Thine is the Kingdom
Between the conception And the creation Between the emotion And the response Falls the Shadow …………. Life is very long
Between the desire And the spasm Between the potency And the existence Between the essence And the descent Falls the Shadow …………. For Thine is the Kingdom
For Thine is Life is For Thine is the This is the way the world ends This is the way the world ends This is the way the world ends Not with a bang but a whimper.
Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
Recomeça… Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar E vendo Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças.
Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante o sono – a ausência não te apaga como a bruma sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos meus sonhos um território suspenso de toda a dor, um país de verão aonde não chegam as guinadas da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí
nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me
depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro escuro desse sonho. Não sabem
que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu nome – porque a memória é uma fogueira dentro das mãos e tu onde estás também não me respondes.
Os bravos generais caem do escadote citam teilhard frequentam o templo São eles e não as damas quem nos salões dá o mote Os filhos podiam invocá-los como exemplo seu peito fero é todo uma medalha e ganham sempre só perdem a batalha do escadote quando o inimigo grita: toma chegou a tua vez de receberes um hematoma Seja a subir seja a descer – desde que não seja escada – os generais avançam pois não temem nada Mas — sobressaltam-se eles — o que é que o meu olhar avista? Um simples escadote o grande terrorista
“Num bosque amarelo dois caminhos divergiam, E lamentando não poder seguir os dois E sendo apenas um viajante, segui Um deles o mais longe que pude com o olhar Até onde se perdia na mata;
Tomei o outro que me pareceu mais belo, Oferecendo talvez a vantagem, De uma relva que se podia pisar, Embora o estado de ambos fosse o mesmo E naquela manhã eles fossem iguais.
Ambos estavam sobre relvas Que nenhum passo enegrecera. Oh, guardei o primeiro para outro dia! Mas como sabia que caminhos se sucedem a caminhos, Duvidei que um dia voltasse.
Hei de contar isto suspirando, Daqui a muito tempo, nalgum lugar: Dois caminhos divergiam num bosque,
E eu segui o menos trilhado. E isso fez toda a diferença.”
Era quase a manhã a sangrar nos pulsos. Qualquer gesto seria inútil para entoar todos os silêncios que enchem a noite. Eu podia esperar à beira-mar o amanhecer ou os amigos a quem a errância dos mastros rodeia a garganta. Podia adormecer sob as águas onde se escondem as quilhas seduzidas pela voragem. Podia, eu sei, abraçar os navios ou ser a asa e o voo das aves solitárias.
Na periferia da manhã, levemente adiada, improviso uma ilha. Tão nua como páginas em branco. E concedo-me o direito de esperar Ulisses. A minha fronte marcada com palavras sem destino.
O mar é longe, mas somos nós o vento; e a lembrança que tira, até ser ele, é doutro e mesmo, é ar da tua boca onde o silêncio pasce e a noite aceita. Donde estás, que névoa me perturba mais que não ver os olhos da manhã com que tu mesma a vês e te convém? Cabelos, dedos, sal e a longa pele, onde se escondem a tua vida os dá; e é com mãos solenes, fugitivas, que te recolho viva e me concedo a hora em que as ondas se confundem e nada é necessário ao pé do mar.
Estar vivo é abrir uma gaveta na cozinha, tirar uma faca de cabo preto, descascar uma laranja. Viver é outra coisa: deixas a gaveta fechada e arrancas tudo com unhas e dentes, o sabor amargo da casca, de tão doce, não o esqueces.
Tudo na vida está em esquecer o dia que passa. Não importa que hoje seja qualquer coisa triste, um cedro, areias, raízes, ou asa de anjo caída num paul.
O navio que passou além da barra já não lembra a barra. Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos. Hoje corre-te um rio dos olhos e dos olhos arrancas limos e morcegos. Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim e que há certezas, firmes e belas, que nem os olhos vesgos podem negar. Hoje é o dia de amanhã.
Onde ficava o mundo? Só pinhais, matos, charnecas e milho para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda. E o mar? E a cidade? E os Rios? Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos, onde chiam carros de bois e há poças de chuva. Onde ficava o mundo? Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas. Em cada dia o povo abraçava outro povo. E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves: a estrada branca e menina é uma serpente ondulada e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.»
Um horizonte, — a saudade Do que não há de voltar; Outro horizonte, — a esperança Dos tempos que hão de chegar; No presente, — sempre escuro, — Vive a alma ambiciosa Na ilusão voluptuosa Do passado e do futuro.
Os doces brincos da infância Sob as asas maternais, O vôo das andorinhas, A onda viva e os rosais. O gozo do amor, sonhado Num olhar profundo e ardente, Tal é na hora presente O horizonte do passado.
Ou ambição de grandeza Que no espírito calou, Desejo de amor sincero Que o coração não gozou; Ou um viver calmo e puro À alma convalescente, Tal é na hora presente O horizonte do futuro.
No breve correr dos dias Sob o azul do céu, — tais são Limites no mar da vida: Saudade ou aspiração; Ao nosso espírito ardente, Na avidez do bem sonhado, Nunca o presente é passado, Nunca o futuro é presente.
Que cismas, homem? — Perdido No mar das recordações, Escuto um eco sentido Das passadas ilusões. Que buscas, homem? — Procuro, Através da imensidade, Ler a doce realidade Das ilusões do futuro.
vigiar os polícias ensinar os professores confessar os padres burlar os juristas abater os talhantes sangrar os médicos condenar os juízes difamar os críticos morder os cães comprar as batatas aos lavradores
Somos de barro. Iguais aos mais. Ó alegria de sabe-lo! (Correi, felizes lágrimas, por sobre o seu cabelo!)
Depois de mais aquela confissão, impuros nos achamos; nos descobrimos frutos do mesmo chão.
Pecado, Amor? Pecado fôra apenas não fazer do pecado a força que nos ligue e nos obrigue a lutar lado a lado.
O meu orgulho assim é que nos quer. Há de ser sempre nosso o pão, ser nossa a água. Mas vencidas os ganham, vencedores, nossa vergonha e nossa mágoa.
O nosso Amor, que história sem beleza, se não fôra ascensão e queda e teimosia, conquista… (E novamente queda e novamente luta, ascensão… ) Ó meu amor, tão fria,
se nascêramos puros, nossa história! Chora sobre o meu ombro. Confessamos. E mais certos de nós, mais um do outro, mais impuros, mais puros, nós ficamos.