Open-access Em torno das Sociologias Relacionais: emergência, contingência, sujeito sociológico, causalidade e voluntarismo

On Relational Sociologies: Emergence, Contingency, the Sociological Subject, Causality, and Voluntarism

Resumos

Resumo  Embora o “olhar relacional” não seja uma novidade, sua elaboração recente como uma perspectiva teórico-analítica particular tem proporcionado importantes avanços na construção de uma visão dinâmica e interdependente das práticas e estruturas sociais, oferecendo novas lentes para se analisar as interações e redes de relações que constituem a realidade social. Com base em uma revisão de diferentes Sociologias Relacionais (SRs), este artigo argumenta que essas abordagens compartilham o mesmo status ontoepistemológico: a relacionalidade do social. Sustentamos o argumento ao reconhecer que, apesar de suas especificidades, as SRs compreendem os fenômenos sociais como elementos inter-relacionados, assumindo a relacionalidade do social como parte de suas perspectivas ontológicas, epistemológicas e/ou metodológicas. A partir desse entendimento, selecionamos quatro elementos que consideramos centrais para a compreensão da relacionalidade do social, quais sejam: as noções de emergência e contingência, o sujeito sociológico da relacionalidade, a noção de causalidade e a crítica ao voluntarismo.

Palavras-chave:
relacionalidade; emergência; contingência; sujeito; causalidade e voluntarismo


Abstract  Although the “relational perspective” is not new, its recent development as a particular theoretical-analytical perspective has provided important advances in the construction of a dynamic and interdependent vision of social practices and structures, offering new lenses for analyzing the interactions and networks of relationships that constitute social reality. Drawing on a review of various relational sociologies (RS), this article argues that these approaches share the same onto-epistemological status: the relationality of the social. We support this argument by recognizing that, despite their specificities, RSs understand social phenomena as interrelated elements, assuming the relationality of the social as part of their ontological, epistemological and/or methodological perspectives. From this understanding, we selected four elements that we consider central to understanding the relationality of the social: the notions of emergence and contingency, the sociological subject of relationality, the concept of causality, and the critique of voluntarism.

Keywords:
relationality; emergence; contingency; subject; causality and voluntarism


1. Introdução1

“A análise relacional pode não levar necessariamente ou sempre a descobertas surpreendentes, mas pode ajudar a destacar algumas características-chave da nossa vida social com mais eficiência do que outras abordagens nas ciências sociais”

(Dépelteau e Powell, 2013, p. xvi).

O “olhar relacional”, na sociologia, não é exatamente uma novidade quando consideramos a gama de influências que vão desde Marx, Durkheim e Weber, passando por autores como Tarde, Parsons, Luhmann, Elias, Bourdieu e Poulantzas.2 Embora não seja uma novidade, trata-se de um campo em expansão (Dépelteau e Powell, 2013; Dépelteau, 2018c; Dépelteau e Vandenberghe, 2021). Vale também destacar, com Dépelteau, que desde os anos 1980, momento em que podemos datar o início da “virada relacional”, o pensamento relacional tem se espalhado por diferentes campos do conhecimento, como na Psicologia, Arqueologia, Serviço Social, na Economia e nas Relações Internacionais, se configurando, portanto, em um “um campo de pesquisa rico e diversificado, alimentado por várias abordagens e teorias preexistentes” (Dépelteau, 2018a, p. v).

Tamanha diversidade de autores e campos nos leva a concordar com Vandenberghe (2018), quando argumenta que não só existem diversas formas de se definir o conceito de “relação”, como existem múltiplas maneiras de se definir o que se entende por sociologia relacional. Essa constatação, ao contrário do que poderia transparecer, não é um problema para o campo das Sociologias Relacionais (SRs).3 Pelo contrário, a existência de diferentes abordagens em torno de um “interesse geral por relações e uma alta diversidade de influências é um terreno fértil para discussões fundamentais, ricas e promissoras, especialmente quando especialistas competentes estão dispostos a participar desse processo” (Dépelteau, 2018a, p. vi).

Como uma perspectiva teórico-analítica particular, a emergência das SRs pode ser datada do final do século passado (Dépelteau, 2018a). De forma mais ampla, a virada para o século XXI marcou um movimento de inflexão teórica nas Ciências Sociais, configurando o que Corcuff (2001) designou por “novas sociologias” para se referir a diferentes esforços teóricos, analíticos e metodológicos que buscavam — e contribuíram para — superar antinomias clássicas, como indivíduo/sociedade, agência/estrutura e ordem/conflito. Na esteira desse debate, a elaboração de uma perspectiva ontoepistemológica relacional, marcada por especificidades teóricas e preocupações analíticas distintas, surgiu revigorada como uma alternativa às análises que tendiam a enfatizar estruturas fixas e entidades isoladas (Dépelteau, 2018a; Dépelteau e Vandenberghe, 2021).

Desde então, diferentes abordagens sociológicas relacionais têm proposto uma visão dinâmica e interdependente da agência e estruturas sociais, mudando a lente para as interações e redes de relações que constituem a realidade social (Vandenberghe, 2021a; 2021b). Assim, além de problematizar os dilemas clássicos da sociologia, a importância das SRs consiste, em geral, em enfatizar a interdependência e a interação dinâmica e mutuamente constitutiva entre os indivíduos e as estruturas sociais (estudo das relações). A despeito dessa característica mais geral, Donati e García Ruiz (2021) argumentam criticamente que algumas abordagens se limitam a tratar a “relação” em termos de interações, intercâmbios ou interdependência. Os autores citam Emirbayer e Dépelteau como exemplos desse tipo de perspectiva, que poderíamos classificar, caso aceitemos suas críticas, como “relacionista”. Compreendemos, no entanto, que se tratam de abordagens de caráter mais processual e pragmático. Outras abordagens, por sua vez, compreendem a “relação” a partir de uma perspectiva ontológica, epistemológica e metodológica – como os próprios Donati e García Ruiz. Nosso objetivo, neste artigo, não consiste em uma análise detida sobre cada um dos autores aqui elencados. Ao contrário, buscamos uma incursão inicial no debate mais amplo das SRs e também esboçar alguns indicativos metodológicos. Propositalmente, estabelecemos diálogos com diferentes abordagens, sustentando que todas elas, de alguma maneira, compartilham a centralidade da “relacionalidade” na constituição do social.

Na busca por rediscutir os dilemas clássicos da sociologia, as SRs têm colocado em questão, ou sob outras lentes teórico-analíticas, as ideias de objetividade, individualismo, causalidade, entidade, agência, estrutura, sujeito, relação social, contingência etc. É nesse sentido que Dépelteau nos convida a refletir sobre diferentes questionamentos que inevitavelmente surgem quando nos aproximamos de um olhar relacional: “deveríamos pensar em termos de ‘substâncias’ sociais ou processos sociais? Deveríamos confiar em dualismos que separam objetivismo e subjetivismo, estruturas sociais e agência, ou sociedades e indivíduos?” (Dépelteau, 2018a, p. vi).

Cerca de uma década antes, Emirbayer já fazia esse tipo de questionamento. A partir de Cassirer, indagou: “o mundo social deve ser concebido primordialmente em termos de substâncias ou de processos? De ‘coisas’ estáticas ou de relações dinâmicas, processuais?” (Emirbayer, [1997] 2021, p. 65). Citando Ernest Cassirer, o autor informa a resposta: “as coisas não são pressupostas como existências independentes, presentes anteriormente a qualquer relação, mas [...] obtêm todo o seu ser [...] primeiramente na e com as relações nas quais se baseiam” (Cassirer apudEmirbayer [1997] 2021, p. 74). Como tais, prossegue o autor, “jamais podem ser ‘dadas’ em isolamento, mas apenas em uma comunidade ideal que foram umas com as outras” (p. 74). Pierpaolo Donati, um dos autores centrais no desenvolvimento do pensamento sociológico relacional desde os anos 1980, também nos ajuda ao argumentar que essa forma de compreender sociologicamente a realidade, “mediante a colocação da relacionalidade no nível de pressuposição básica da sociologia como ciência” (Donati, [1993] 2006, p. 158), necessariamente exige a compreensão da sociedade a partir das relações que a constitui, ao invés de focar em entidades ou estruturas isoladas, ou apenas pensar a relação entre elas.

Assumir a “relacionalidade” no nível de pressuposição básica da sociologia significa informar uma premissa fundante sobre o que é o social, isto é, sobre as estruturas fundamentais que tornam possível a sua existência na dimensão ontológica. Em um contexto em que os dualismos tradicionais ainda informam muitos dos nossos modelos de análise, destacar a dimensão ontológica se torna uma condição necessária para (re)pensar os fundamentos do conhecimento sob outras perspectivas. Nesses termos, a “relação”, como argumenta Donati ([1993] 2006, p. 117, acréscimo nosso), não é apenas um meio e sim “o ponto de vista a partir do qual quem analisa e age deve definir seus objetos, [admitindo que] (...) todo objeto social pode (ou melhor, deve) ser definido em termos relacionais”.

Procedendo dessa forma, somos levados a uma mudança de enfoque: “não é exato dizer que a sociologia estuda relações entre fatos sociais; antes, a sociologia estuda os fatos sociais como relações” (Donati [1993] 2006, p. 117). Essa mudança também requer pensarmos em termos metodológicos. No entanto, ainda que esse seja um desdobramento necessário, não cabe a este artigo desenvolver um método específico para a abordagem sociológica relacional, tanto por não ser nosso objetivo central, quanto pelas limitações impostas ao escopo da reflexão e da análise aqui almejadas. Tal discussão se encontra mais aprofundadamente tratada, por exemplo, em Donati e García Ruiz (2021). Apesar disso, como explorado adiante, conseguimos indicar uma orientação metodológica coerente com os pressupostos ontológicos e epistemológicos da relacionalidade. Nesse sentido, destacamos os mecanismos causais como instrumento analítico e metodológico, coerente com um enfoque relacional, na medida em que se orientam à reconstrução processual das conexões entre condições e efeitos, em contextos sociais marcados por emergência e contingência.

Em suma, mais processual e pragmática ou de caráter ontológica, o que se destaca das perspectivas relacionais é a ênfase nas “relações” como a unidade de análise. Emirbayer ([1997] 2021, p. 66), por exemplo, afirma que “a sociologia relacional nos convida a considerar as relações sociais como o principal foco de estudo, ao invés de entidades sociais preexistentes”. Para esse autor, a abordagem relacional deve considerar essas entidades como interdependentes (e.g., agência <> estrutura; indivíduo <> sociedade; Estado <> sociedade civil etc.). Buscando ir além das especificidades em cada autor ou tipo de abordagem relacional, a ideia central, como a compreendemos a partir das SRs, é que os fenômenos sociais não podem ser plenamente compreendidos sem considerar as relações que os constituem.

Considerando essas diferentes contribuições, o argumento central deste artigo é que as abordagens desenvolvidas no campo das SRs compartilham o mesmo status ontoepistemológico: a relacionalidade do social. Sustentamos o argumento ao observar que, apesar de suas especificidades, tais perspectivas concebem os fenômenos sociais como elementos interdependentes, assumindo, de alguma forma, uma compreensão relacional da vida social como dimensão constitutiva de suas orientações ontológicas, epistemológicas e/ou metodológicas. Como um esforço introdutório ao enfoque sociológico relacional, propomos a análise de quatro elementos centrais: a emergência e a contingência, o tipo de sujeito implicado, a concepção de causalidade e a crítica ao voluntarismo.

Para uma melhor organização da exposição, subdividimos o artigo em três seções. Na primeira, abordamos o caráter emergencial dos fenômenos sociais e a contingência como aparte da estrutura ontoepistemológica relacional. Na sequência, discutimos a noção de sujeito a partir da consideração “sujeito <> estrutura”, que consideramos inerente a uma proposta relacional. Na terceira seção esboçamos algumas considerações sobre a causalidade e a crítica ao voluntarismo na reflexão sociológica. Em fecho, as considerações, as quais enfatizam a importância de pensar a pesquisa sociológica sob uma perspectiva relacional, sustentando o argumento de que a relacionalidade do social exige uma análise dinâmica e interdependente das práticas e estruturas sociais.

2. O social como estrutura relacional: emergência e contingência, sujeito sociológico, causalidade e o voluntarismo

Os elementos de reflexão apresentados na introdução deste artigo deixam antever que, para a análise sociológica relacional, a abordagem dos fenômenos sociais se dá enquanto produtos de interações entre indivíduos, grupos e instituições, ao invés de focar em entidades fixas ou estruturas estáticas e, somente depois, derivar relações. É nesse sentido que Dépelteau argumenta que os sociólogos relacionais têm prestado “atenção às relações específicas das quais as sociedades, desigualdades sociais, desvio e assim por diante emergem, são transformadas ou desaparecem” (Dépelteau, 2018b, p. 4), em um claro questionamento acerca de qualquer pretensão de assunção de elementos imutáveis ou independentes. Essa postura analítica é exigida pelo fato de a sociedade ser um sistema dinâmico e em constante transformação, o que nos exige rejeitar os dualismos clássicos na busca por “conceitos e métodos [que] devem nos permitir ver essas interações processuais em formação” (p. 4, acréscimo nosso).

Considerando as contribuições dos autores elencados neste artigo, o esforço de se pensar relacionalmente indica a aceitação do social como um fenômeno radicalmente relacional e estratificado (dimensão ontológica), bem como a realidade social como uma estrutura relacional, atravessada e constituída pela contingência. Em termos da produção do conhecimento, esse argumento nos posiciona contra uma espécie de “ditadura do objeto”, operada por leituras positivistas lógico-planificadas (determinismos). Assim como nos conduz a considerar que: (i) o conhecimento não deriva da observação pura, pois depende de quadros conceituais historicamente disponíveis, elaborados pelos sujeitos e tradições, que atuam como espécie de codificadores do conhecimento;4 (ii) a observação sequenciada de eventos (causalidade como conjunção constante) não reflete adequadamente a realidade, uma vez que, por não ser planificada, nem todos os mecanismos causais são observáveis – ou observáveis em um determinado momento; e que (iii) a redução do conhecimento à experiência observacional do objeto, sem a devida atenção aos mecanismos e seus poderes causais potenciais, pode conduzir à reificação ou ao voluntarismo analítico, seja do sujeito, seja das estruturas.

O argumento da relacionalidade do social, portanto, nos exige desenvolver algumas considerações com mais atenção. Iniciamos a discussão refletindo sobre a emergência e a contingência na leitura relacional.

2.1. Emergência e contingência na leitura relacional

A partir desse pressuposto ontológico, compreendemos que o social, na qualidade de estrutura relacional, não é passível de determinação nem é meramente artefactual, uma vez que não é possível determinar os efeitos emergenciais inerentes a sua relacionalidade. Nesses termos, como também nos ajudam a pensar Kaspersen e Gabriel (2013, p. 54) a partir de Emirbayer, “os conceitos não são mais concebidos como entidades predefinidas. Eles devem ser redefinidos como conceitos relacionais”. Também a partir de Emirbayer, compreendemos que uma abordagem sociológica relacional exige a construção de alternativas às leituras clássicas de “modelos de ator racional e modelos baseados em normas, holismos e estruturalismos diversos, assim como analises estatísticas de ‘variáveis’” (Emirbayer, [1997] 2021, p. 65) que tendem a conceber a “ideia de que são as entidades que vêm primeiro e as relações entre elas apenas subsequentemente” (p. 65). Ou seja, não basta a atenção à relação entre as entidades, mas compreender as entidades como relações. Encontramos em Donati o mesmo argumento:

O pressuposto mais geral do pensamento sociológico [relacional] pode ser informado de maneira emblemática com a expressão: no começo está a relação. Este pressuposto deve ser entendido em sentido realista e não relativista. O processo social, com todas [as] suas características, procede por, com e mediante relações (Donati [1993] 2006, p. 127, acréscimo nosso).

Essa perspectiva propõe, inicialmente, uma inversão na lógica tradicional: ao revés de se começar projetando uma análise das partes para depois conectá-las, a sociologia relacional orienta que o processo social tenha gênese nas conexões como o substrato fundamental, a partir do qual as próprias agências e estruturas adquirem forma, significado e existência. Como destaca García Ruiz (2006, p. 23), esse argumento informa que a emergência do social deriva da interdependência de seus componentes: “os fatos sociais são relacionais. Não são meros fenômenos agregados. Não são um conjunto de indivíduos ou de propriedades. Não são a soma das pessoas e das relações entre as pessoas”. Como uma estrutura relacional, o social, prossegue o autor, “é mais do que uma soma precisamente porque é uma realidade emergente” (p. 23) que, como tal, não pode ser reduzida às entidades de cuja relação emerge. Um fenômeno emergente é um aspecto, propriedade ou comportamento observado em um sistema complexo, que surge como resultado das interações entre as partes componentes desse sistema, mas que não é diretamente previsível a partir das características individuais dessas partes. Ou seja, o social é sui generis (Donati [1993] 2006; García Ruiz, 2006).

O pressuposto da sociedade como uma realidade sui generis não é exatamente uma novidade, considerando, por exemplo, as contribuições Durkheim. Inclusive, como destaca Donati ([1993] 2006, p. 138), “a relacionalidade, em um sentido moderno, entrou nas ciências sociais sobretudo com Durkheim”. No entanto, a forma como essa noção é (re)trabalhada desloca o estatuto teórico durkheimiano. Em vez de conceber a sociedade como uma entidade que se impõe aos indivíduos de forma exterior e coercitiva, a abordagem relacional recente entende o social sui generis como um efeito emergente de relações interdependentes, contingentes e mutuamente constitutivas. O que é sui generis não é a sociedade como totalidade coesiva, mas as relações sociais como realidade própria e não redutível. Diferentemente de Durkheim, como destaca García Ruiz (2006, p. 20), “aquilo que possui uma realidade específica e própria, para Donati, são as relações sociais, que não se identificam automaticamente com a cultura, com estruturas sociais previamente supostas ou com uma pretensa consciência coletiva”.

Dizer que as relações sociais são fenômenos emergentes significa que elas “transcendem aos sujeitos nelas implicados: se situam em um nível distinto de realidade, com propriedades e características peculiares, específicas, que pertencem somente à relação e não aos sujeitos implicados” (García Ruiz, 2006, p. 20). Este argumento é central para, na sequência, discutirmos o sujeito sociológico da relacionalidade. O caráter emergente e, portanto, contingencial do social, informa que este:

contém sempre uma novidade imprevisível, pois seu conteúdo específico não está presente em seus componentes considerados separadamente, mas só aparece quando se estabelece, se atualiza ou se recupera a relação entre eles. Por isso, as relações sociais não podem ser entendidas se apenas seus componentes ou os sujeitos envolvidos forem observados. É preciso perceber como se conectam uns com os outros e que propriedades surgem dessa ação recíproca [...]. Esta é uma das manifestações concretas da contingência do social: o fato de que as relações podem sempre ser de outro modo e, inclusive, podem chegar a desaparecer (García Ruiz, 2006, p. 23, 25).

Esse também nos parece ser o argumento ontoepistemológico de Dépelteau e Powell na introdução da obra “Applying Relational Sociology: relations, networks, and Society”, quando sustentam que:

os pensadores voluntaristas veem os seres humanos como indivíduos autônomos, impulsionados principalmente por suas próprias propriedades e forças pessoais. Os deterministas percebem os indivíduos como estando cercados por entidades sociais externas, restritivas ou facilitadoras (“a sociedade”, “o Sistema”, estruturas sociais etc.), que determinam suas oportunidades ao longo da vida. Essas duas visões de mundo também têm sido os pressupostos ontológicos de fundo para muitas teorias importantes na sociologia (Dépelteau e Powell, 2013, p. xi).

Derivamos dessa perspectiva o argumento de que o social não apresenta um “fundamento último” para além de sua relacionalidade (intransitividade), a partir do qual a realidade social é (re)produzida por meio das relações sociais (transitividade). Mobilizamos a ideia de ausência de um fundamento último da crítica pós-fundacionalista.

Como temos discutido (Marques, 2023a), a crítica pós-fundacionalista fornece elementos que nos permitem considerar a relacionalidade, por um lado, a partir da desconstrução da noção de fundamentos últimos aplicados na análise da realidade social, e, por outro, da recusa na aceitação da ausência radical de fundamentos que, contingencialmente, cumpram a função de estabilização do social. Contra a tradição fundacionalista,5 cujas elaborações filosóficas e análises teóricas informam a presença de fundamentos como forma de justificação, definição e determinação em última instância do jogo estrutural, a crítica pós-fundacionalista sustenta a impossibilidade ontológica do estabelecimento de fundamento último que esgote o processo de estruturação/fechamento estrutural. Isso, contudo, não significa uma negação final da noção de fundamento. Uma recusa desse tipo indica a invalidação epistêmica de qualquer possibilidade de estabelecer fundamentos para a estrutura, mesmo que contingenciais, o que configuraria uma falácia epistemológica intrínseca ao registro antifundacionalista.

Marchart (2009), por meio de um “giro quase-transdendental” em relação à noção de fundamento, destaca que o pós-fundacionalismo, contrariamente ao antifundacionalismo, não nega a possibilidade de fundamentos, mas opera a partir do enfraquecimento do status ontológico da noção de fundamento. Com isso, aceita a noção de fundamentos contingentes.

O pós-fundacionalismo [...] não deve ser confundido com o antifundacionalismo ou com um vulgar pós-modernismo do “vale tudo”, hoje démodé, dado que um enfoque pós-fundacional não tem por objetivo excluir por completo essas figuras do fundamento, mas debilitar seu status ontológico. O debilitamento ontológico do fundamento não conduz ao suposto da ausência total de todos os fundamentos, mas sim em supor a impossibilidade de um fundamento último, o que é completamente diferente, pois implica a crescente consciência, por um lado, da contingência e, por outro lado, do político como o momento de uma fundação parcial e, em última instância, sempre falho (Marchart, 2009, p. 14-15).

Nesses termos, a consideração da admissão da relacionalidade não nos permite antecipar nenhuma necessidade de padrão relacional ou funcional preexistente para pensarmos os fenômenos socialmente construídos, ainda que possamos distingui-los a partir de suas autonomias relativas (e.g., Estado, família, sociedade civil etc.)6. Isso significa que não podemos dizer muito sobre como as relações e as relações de relações se estruturam espaço e temporalmente, a não ser identificando e analisando as relações e os mecanismos causais que contingencialmente estruturam as diferentes configurações sociais.

A compreensão da realidade social como radicalmente relacional, contingente e emergente nos conduz a implicações metodológicas relevantes. Como temos sustentado, em vez de buscar leis gerais, conjunções constantes ou correlação entre variáveis, o olhar relacional requer o rastreamento de processos que permitam identificar e explicar a constante coprodução dos entes. Para isso, consideramos relevante a identificação e a compreensão dos mecanismos causais, compreendidos como elos em cadeias relacionais que nos permitem analisar como determinadas configurações emergem, se estabilizam ou se transformam em contextos específicos. Mais do que explicar a transição entre causas e efeitos dados, os mecanismos possibilitam rastrear como os próprios fenômenos sociais são produzidos na, pela e através da relação.

Os mecanismos causais, portanto, não constituem um método técnico de coleta de dados. Sua mobilização é um procedimento metodológico que orienta a reconstrução analítica das conexões relacionais e contingentes. Sua adoção implica em uma concepção não linear da causalidade e uma atenção intensiva às relações que estruturam contextualmente as configurações sociais. Nesse sentido, os mecanismos não são acionados para explicar os eventos que conectam entes distintos ou a mera variação nas relações entre eles, mas como instrumentos analíticos voltados à reconstrução dos processos relacionais por meio dos quais os entes emergem, se estabilizam ou se transformam. O foco, portanto, está na explicação da coprodução dinâmica dos próprios entes sociais em contextos históricos específicos. A ênfase nos mecanismos, em suma, permite compreender a causalidade não como sucessão regular de eventos, nem como efeito sistêmico-funcional, mas como uma rede relacional que produz efeitos contingentes, mediados por múltiplos fatores (estruturais, simbólicos, institucionais) e atravessados por contextos espaço-temporalmente situados. Como procedimento metodológico, a investigação orientada por essa perspectiva deve se dedicar a identificar justamente os elos causais dessa rede e a forma como se configuram.

Essa reflexão sobre a emergência, a contingência e os mecanismos causais, aceitando a relacionalidade do social como referência analítica, exige, inevitavelmente, algumas considerações sobre o tipo de sujeito sociológico que se pretende mobilizar. Isso porque, em uma primeira aproximação, o leitor pode se perguntar qual o lugar reservado à ação dos sujeitos nessa perspectiva teórica. Esse será, portanto, o segundo ponto de nossa análise.

2.2. O sujeito sociológico da relacionalidade

Para iniciarmos as considerações sobre o sujeito sociológico no pensamento relacional, podemos antecipar, exclusivamente no plano da reflexão teórica, que “a mudança social consiste na ‘emergência’ de realidades sociais cujo motor são sujeitos (individuais ou coletivos) que estão em relação entre si dentro de um contexto determinado” (Donati, 1993, p. 34).7 Isso não significa, contudo, que o resultado seja uma clara e tão somente expressão das ações dos sujeitos.

Esse argumento também está presente em García Ruiz (2006, p. 14), ao sustentar que “o social é uma realidade peculiar (sui generis) que existe entre os indivíduos”. Como tal, o social não pode ser compreendido, por um lado, como um reflexo direto da ação dos sujeitos e/ou de grupos/classes específicos (e seus modos de ser), embora “o que realmente introduz novidade na vida social é a criatividade dos seres humanos, que atribuem um novo significado ao já existente ou ao que está por vir” (Donati e García Ruiz, 2021, p. 36-37). Por outro, o social não é uma entidade coletiva independente, acima dos sujeitos, cabendo a estes apenas o desempenho de determinados papeis no interior de um sistema de status-roles. Trata-se, portanto, de conceber os sujeitos não como centros autônomos de vontade (“super-sujeitos”), nem como meras “funções da estrutura”, o que implicaria reconhecer neles apenas motivações derivadas das normas e expectativas vinculadas às funções sociais que desempenham, seja pelo papel (role) que exercem, seja pela posição (status) que ocupam em um sistema social mais amplo (Donati e García Ruiz, 2021). Ao contrário, é preciso considerá-los como agentes situados, que participam da constituição do social em relações que são, simultaneamente, estruturantes e estruturadas: o sujeito é constituído na relação com a estrutura, enquanto a estrutura é atualizada nas práticas dos sujeitos. Isso significa, portanto, que o social não pode ser “demasiadamente humano” e que os fenômenos sociais não são “forças externas e restritivas ou facilitadoras que se impõem aos atores individuais e coletivos” (Dépelteau e Powell, 2013, p. xv).

A sociologia relacional tende a afirmar ou demonstrar que as chamadas estruturas sociais, sociedades ou instituições são relações entre atores sociais. Tal como o antigo primeiro-ministro da Grã-Bretanha, mas por razões muito diferentes, alguns sociólogos relacionais até afirmam que “não existe essa coisa de sociedade” (que existiria fora dos indivíduos) (Dépelteau e Powell, 2013, p. xv-xvi).

Essas considerações nos ajudam a perceber tanto a possibilidade quanto os limites do sujeito como fator central da atividade social. Nesse sentido, devemos considerar que o sujeito não pode nem ser reduzido a mero intermediário das estruturas, nem elevado à condição de “super-sujeitos” em relação às mesmas, como se as estruturas fossem meros produtos de sua atividade. Isso se deve ao fato de que a relacionalidade do social implica que as relações sociais têm uma realidade sui generis, ou seja, uma existência própria que não pode ser reduzida a atributos individuais ou coletivos (Emirbayer [1997] 2021; Donati, [1993] 2006; Dépelteau e Powell, 2013). Mas como pensar o sujeito nesses termos?

Donati nos auxilia a refletir que um esquema teórico-analítico de sujeitos-estruturas como relação tende a reivindicar um sujeito sociológico estratégico e relacionalmente reflexivo, “que volta a si mesmo ao colocar-se em relação com o contexto social” (Donati, 2019, p. 140), ciente de que o social, já constituído, não é um reflexo perfeito da ação dos sujeitos. Como destaca Bhaskar (apudHamlin, 2000), sendo um objeto real, esse “já constituído”, que antecede e sucede o sujeito, “qualquer práxis humana concreta ou, se se quiser, ato de objetivação, só pode modificá-la (...). A sociedade encontra-se em relação com os indivíduos, portanto, como algo que eles nunca fazem, mas que existe somente em virtude de sua atividade”.

O realismo crítico, que fundamenta essa assertiva e está presente em Donati (2019) e Jessop (2005), sustenta que os objetos reais possuem “poderes causais tendenciais”, cuja atualização depende da ação dos sujeitos. Isso porque, como destaca Sayer (2000, p. 9), “o realismo crítico distingue não apenas entre o mundo e a nossa experiência do mesmo, mas entre o real, o actual e o empírico”. O “real” se refere ao domínio dos objetos, às suas estruturas internas e aos seus poderes causais, o que indica a “capacidade de se comportarem de formas particulares e as tendências causais ou poderes passivos, isto é, [a] susceptibilidade a certas formas de mudança” (Sayer, 2000, p. 9, acréscimo nosso). O “atual/realizado” se refere “ao que acontece se e quando estes poderes [causais] são ativados, àquilo que estes poderes fazem e ao que ocorre quando eles o são [atualizados/realizados]” (Sayer, 2000, p. 10, acréscimo nosso). Já o “empírico” é o domínio da experiência dos atores em relação ao real ou ao actual/realizado. É importante destacar, como nos ajudam Fairclough, Jessop e Sayer (2016, p. 47), que “embora as mudanças no nível do realizado (e.g., debates políticos) possam mudar a natureza dos objetos (e.g., instituições políticas), o último não se reduz ao primeiro (...) e têm uma autonomia relativa como objetos reais, mesmo quando não são realizados”.

A “atualização” deve ser explicada considerando a concepção transformativa do social e o fato de que as relações entre sujeitos (interações sociais) não são inteiramente independentes, tampouco indiferentes ao contexto (estrutura) no qual se deparam e com o qual interagem e “atuam”. A realidade estrutural, ainda que nem sempre diretamente observável, se mostra mais claramente quando e se seus poderes causais são de fato “atualizados/realizados” (eficácia causal-gerativa). Percebemos isso, por exemplo, quando nos atentamos para os seus efeitos. Não se trata, portanto, de uma “auto-realização”. Como destaca Jessop (2005), a agência humana se faz presente nesse processo, ainda que este não seja redutível aos agentes (Curry, 2000).

Isso nos leva a refletir, por um lado, que o sujeito não se resume a um “ser-sociedade”, o qual simplesmente reproduz e é reproduzido pelas funcionalidades sistêmicas, como uma espécie de função ou produto da estrutura (funcionalismo sociológico). A aceitação do “ser-sociedade” nos exigiria abolir o sujeito, o que seria uma falácia epistemológica. Por outro lado, na condição de “ser-relacional”, reflexivo também em relação às estruturas sociais com as quais é relação, o sujeito não é o Sujeito dos fatores que fundamentam por si só a dinâmica social. Como destaca Donati (2019, p. 27), o “ser humano, que gera sociabilidade em sua relação de ser, continua a ser a ‘medida’ da sociedade não porque pode determinar a realidade social como deseja”, conferindo às instituições sociais uma dimensão demasiadamente humana, no sentido de serem compreendidas e explicadas a partir de elementos que possam ser atribuídos exclusivamente ao sujeito/humano, mas porque é parte constitutiva e constituinte dela.

Essas observações indicam uma dupla recusa: a do sujeito como o elemento referencial do social, uma espécie de “super-sujeito”; e a da abolição do sujeito diante da reprodução sistêmica, o que o tornaria um mero componente da estrutura.

A expressão “sociedade do humano” não é equivalente à expressão “sociedade humana”. A sociedade do humano se distingue da sociedade humana porque: a) entende que a sociedade não é feita de indivíduos, mas de relações sociais; b) por essa razão, as relações concretas que configuram a sociedade (que “fazem sociedade”) não são imediatamente humanas (ou seja, humanas sem mediação posterior); ao contrário, para serem humanas, devem estar mediadas por uma ação humana capaz de reflexividade (...). Para observar esta sociedade, é necessário saber observar-pensar relacionalmente (Donati, [1993] 2006, p. 162-163).

Com essas observações, podemos informar que o social, como relação, está para além de uma realidade construída pela estrita ação dos sujeitos (uma crítica ao individualismo metodológico e ao construtivismo).8 O sujeito, em um só tempo, é constituído no social e constitutivo do social de forma radicalmente relacional. Nesses termos, toda agência estará sempre já em relação, envolvendo um ponto de vista interno dos sujeitos (subjetivo-reflexivo) e um ponto de vista externo (estrutura), que incidirá sobre as orientações dos sujeitos. Como destaca Donati ([1993] 2006), se prescindirmos dos sujeitos e aceitarmos a relação como uma entidade abstrata, autorreferencial, corremos o risco de reduzir a análise a uma leitura meramente lógica. Por isso, conforme o autor, “convêm destacar: nem mera ação (puro individuo) nem mera ordem social (pura estrutura ou coerção). A realidade social é relacional” (Donati, [1993] 2006, p. 155). Essa reflexão também nos leva a outra igualmente importante, a causalidade e a recusa do voluntarismo na reflexão e na pesquisa sociológica. Estes serão os pontos da seção seguinte.

2.3. Causalidade e o voluntarismo na releitura relacional

Em um nível epistemológico, essas observações significam que a análise relacional, ao excluir o voluntarismo e a reificação estrutural, não deve se pautar em critérios observacionais fundamentados em causalidades diretas, e sim na relação e nos mecanismos causais espaço e temporalmente inscritos que tendem a operar de forma simultânea e sobredeterminada.9 Isso significa, como temos sustentado, a assunção da relacionalidade como referência ontológica do social, compreendendo que os seus desdobramentos ônticos evidenciam a contingência inerente à estruturalidade social. Essa admissão da contingência, como elemento inerente à realidade social, não significa uma admissão tout court da contingência mesma como fundamento último do social, como uma espécie de contingência absoluta que abole qualquer tipo de causalidade. Distanciamo-nos desse argumento pelo fato de que a contingência não significa não causado (Sayer, 2000).

Nesse mesmo sentido, Donati (2019, p. 16) destaca que a admissão da relacionalidade do social significa “assumir que a relação tem sua ‘raíz’ não-contingente, enquanto se desdobra na contingência”. O que o autor argumenta, e isso encontra estreita relação com o que pretendemos, é que não é a contingência que produz ou permite as relações, é a relacionalidade do social que nos permite perceber a contingência da realidade social. Dessa forma, a noção de causalidade, pensada nos termos da relacionalidade do social, aceita que “somente a relação em si mesma é necessária, enquanto seu desdobramento [ôntico] reflete a efetiva contingência do mundo social” (Donati, 2019, p. 17, grifo do autor, acréscimo nosso). É nesse sentido que as SRs advogam que a sociedade é uma rede de relações (Donati, [1993] 2006, 2019; Dépelteau e Powell, 2013).

Essa leitura é pertinente uma vez que permite pensar a relacionalidade e a contingência como pressupostos gerais da realidade social, sem implicar uma determinação da relacionalidade no plano ôntico. Ou seja, o social é relacional, mas nada podemos dizer aprioristicamente sobre como se estruturam as relações a não ser espaço e temporalmente consideradas. Isso porque, ao nos fornecer uma explicação não essencialista para o problema do fechamento da abertura estrutural, levando a um distanciamento tanto de um estruturalismo clássico (estrutura centrada), como de uma leitura pós-modernista (impossibilidade radical de fundamentos), a leitura relacional nos permite discutir a contingência sem cair na contingência absoluta ou em um relativismo ou voluntarismo ontológico e epistemológico excessivo.

Em termos metodológicos, compreender as estruturas como necessidades contingentes e radicalmente relacionais significa que ao invés de procurarmos pelas conjunções constantes, o que indicaria uma busca pela relação de sucessão entre causas e efeitos, cujos esforços de pesquisa indicariam que seria desejável e/ou suficiente analisar a sequência de eventos ao longo do tempo para comprovar a veracidade do conhecimento (e.g., Pesquisa Extensiva),10 é necessário, ao contrário, descobrir as condições necessariamente contingenciais na análise do fenômeno, o que indica a procura por mecanismos causais espaço e temporalmente estruturados (e.g., Pesquisa Intensiva)11.

A busca por uma explicação causal baseada na verificação de regularidades diretas ou na repetição de ocorrências se revela equivocada do ponto de vista relacional, sobretudo quando se considera a realidade dos objetos (dimensão do real), suas propriedades emergentes e as condições nas quais se tornam observáveis (contingencialidade). Ao contrário do que se verifica em sistemas fechados, nos quais o “objeto possuidor de poder causal em questão seja estável (...) [e] as condições externas nas quais o objeto esteja situado sejam constantes” (Sayer, 2000, p. 14, acréscimo nosso), no mundo social, marcado pela contingência, essas condições dificilmente se apresentam de forma espontânea e regular. As SRs, ao contrário, recorrem à análise de mecanismos como forma de compreender configurações, campos e redes específicas, partindo do pressuposto de que a realidade social é constituída por relações (Dépelteau e Powell, 2013).12

A partir do campo da sociologia política, por exemplo, a assunção da relacionalidade do social nos permite perceber que não é possível determinar estatutos políticos (fundamentos últimos) na análise sobre a sociedade civil e o Estado (Marques, 2023b; Gurza Lavalle, 2011; Gurza Lavalle e Szwako, 2015). Contra uma leitura relacionista, a abordagem propriamente relacional refuta o argumento segundo o qual a sociedade civil é uma esfera autônoma e exterior ao Estado. Essa leitura permite apenas identificar relações entre fenômenos (e.g., sociedade civil e subsistemas), mas não os próprios fenômenos como relação. A perspectiva relacional, ao contrário, concebe a sociedade civil como uma realidade social historicamente constituída nas relações com a esfera estatal, atravessada por disputas, negociações e interdependências institucionais — essa segunda leitura informa o pressuposto da mútua constituição na literatura sobre as “interações socioestatais”.13

Quando voltada à compreensão do Estado, o enfoque relacional rejeita a ideia do Estado como uma entidade unitária, estática ou radicalmente autônoma. Ao contrário, o compreende como um campo estratégico seletivamente estruturado e um agente com poderes causais tendenciais, cuja existência, ação e transformação não se explicam desconsiderando a mútua constituição entre as esferas estatal e societária. Em suma, essa leitura argumenta que: (i) a autonomia do Estado não se origina nem se esgota em si mesmo, uma vez que está correlacionada às ligações estruturais com diferentes esferas societárias, como a família, a economia e a religião (Bertramsen, 1991; Jessop, 1999); (ii) o Estado não é um Sujeito suprassocietal, ainda que detenha uma autonomia relativa (Poulantzas [1978] 2015; Jessop, 1982, 2009); (iii) o poder do Estado não constitui um “espaço vazio” a ser preenchido por uma particularidade voluntarista, pois é uma estrutura relacional, e, portanto, não funda a sociedade e, inversamente, que a sociedade não é o elemento último fundante do Estado, pois resultam de relações de mútua constituição (Marques, 2023c; Gurza Lavalle et al., 2019b).

Esses elementos também nos ajudam a pensar a exclusão do voluntarismo e da reificação em proveito da relacionalidade. Contudo, nos exige algumas considerações sobre a dimensão compreensiva/hermenêutica no pensamento relacional. O logos hermenêutico está presente ao definirmos o Estado como o resultado contingencial da condensação institucional e discursivamente mediada das relações e das mudanças de equilíbrio político entre agentes societários em uma dada sociedade, o que envolve disputas em relação à organização institucional do governo e aos significados sobre o Estado (polity), aos conteúdos da política (politics) e à ação política (policies) junto à sociedade. Essa definição, sintetizada a partir das contribuições de Poulantzas ([1978] 2015) e, sobretudo, de Jessop (2008, 2017), implica que o Estado, enquanto relação, está para além dos agentes societários que o constituem, embora não possa ser explicado fora dessas relações. Por outro lado, indica uma dimensão semiótica ao envolver a produção e disputa de significados – contextualmente inscrito – acerca de seu papel no tecido social. Assim, o logos hermenêutico não apenas informa aspectos relevantes na definição do Estado, mas também orienta sua análise, exigindo uma abordagem compreensiva atenta à historicidade e à disputa de sentidos – portanto, relações – que moldam as instituições: o sentido, enquanto construção social – portanto, relacional –, adquire caráter estruturante à medida que se institucionaliza discursivamente – por isso uma condensação institucional e discursivamente mediada das relações (Jessop, 2017).

Quando observada sob a ótica da abordagem relacional da institucionalização, a dimensão hermenêutica se revela estreitamente vinculada às capacidades cognitivas estatais, compreendidas como a habilidade do Estado de coletar, processar e utilizar informações sobre a sociedade para formular e implementar políticas públicas (Szwako e Gurza Lavalle, 2019). Tais capacidades, portanto, não se limitam à dimensão técnica da administração, pois também envolvem a institucionalização de ideias, classificações e representações dos agentes societários. É nesse sentido que Szwako e Gurza Lavalle (2019) argumentam que, além de resultarem de processos endógenos, essas capacidades também são produtos das interações entre Estado e sociedade civil, transformando tanto os modos de ação estatal, quanto os próprios agentes envolvidos. Isso significa que os referenciais classificatórios dotados de significado social que orientam as intervenções estatais não são propriedades estruturais fixas, mas construções relacionais e historicamente situadas. A institucionalização de sentidos constitui, portanto, uma dimensão fundamental da capacidade estatal de perceber, interpretar e intervir sobre a realidade social, e sua observação e compreensão requerem uma leitura relacional. É nesse exato sentido que compreendemos este argumento dos autores:

Destarte, quando – mediante diferentes mecanismos e processos históricos de interação entre agentes e instituições estatais, e MS [Movimentos Sociais] e atores civis – as categorias destes últimos passam a ser utilizadas por burocratas, partidos e políticos na concepção e na execução de políticas públicas, produzem efeitos no desenho e na implementação das políticas de interesse dos atores sociais [...]. Em outras palavras, por meio de interações com atores não estatais, essas categorias simbólicas se tornam parte central das formas pelas quais o mundo é cognitivamente apreendido por agentes políticos, podendo deslocar outras categorias (Szwako e Gurza Lavalle, 2019, p. 417-418, acréscimo nosso).

Corroborando Fairclough, Jessop e Sayer (2016), portanto, argumentamos que a explicação causal (erklären) e a compreensão interpretativa (verstehen) não devem estar dissociadas, tampouco são antitéticas. Ao contrário, devem ser mobilizadas e compreendidas como uma explicação de fenômenos em cadeias causais mais amplas, contextual e relacionalmente inscritas. Em um nível metodológico, isso exige atenção à complexa trama “agência <> estrutura” em um determinado contexto estratégico-relacional e significativo, o que também requer atenção com relação aos mecanismos causais que nos ajudam a compreender a produção de sentidos, seus enquadramentos e suas mudanças, isto é, “de como eles, [os mecanismos], operam, e da descoberta de se eles foram ativados e sob que condições” (Sayer, 2000, p. 13, acréscimo nosso).

Em suma, essa percepção da relacionalidade do social nos leva à recusa da compreensão dos fenômenos sociais como entidades ensimesmadas e/ou isoladas. Nesses termos, vale frisar, Estado e sociedade não são entes que simplesmente se relacionam, e sim entes mutuamente constitutivos (Gurza Lavalle et al., 2019a; Marques, 2023a). A diferença fundamental entre essas duas leituras é que a primeira (o estudo das relações entre os fenômenos), como abordamos, se esbarra em uma perspectiva parcialmente relacional do social (relacionismo). Essa abordagem tende a nos mover em direção a uma compreensão relacional limitada aos efeitos decorrentes das relações entre fenômenos, permitindo-nos apenas argumentar sobre a influência/incidência mútua — aqui se aplica o estudo por meio de variáveis independentes e dependentes. Enquanto a segunda perspectiva (o estudo dos fenômenos como relações), ao contrário, indica-nos uma ontoespistemologia radicalmente relacional (relacionalidade), permitindo-nos observar e pensar teoricamente em termos de mútua constituição — aqui devemos nos atentar aos mecanismos causais. A pesquisa sociológica relacional deve buscar, portanto, os mecanismos que ajudam a compreender os contextos estratégico-relacionais situados, uma vez que as relações sociais, objeto privilegiado da análise sociológica relacional,14 são “processos dinâmicos que moldam e são moldados pelos contextos específicos em que ocorrem” (Dépelteau, 2021, p. 43).

3. Considerações finais

Em seus aspectos gerais, o presente artigo visa contribuir com os esforços de se pensar o social de forma relacional. Para tanto, mobilizou diferentes abordagens sociológicas relacionais, partindo do argumento de que elas compartilham um mesmo status ontoepistemológico: a relacionalidade do social. Pensar a partir dessa perspectiva exige e, ao mesmo tempo, possibilita rejeitar visões estáticas e unidimensionais, pois percebe a realidade social como um tecido dinâmico, formado por redes de relações que emergem e se transformam por meio de processos mutuamente formadores. A perspectiva relacional, portanto, permite capturar melhor as nuances da construção social, proporcionando uma análise mais profunda sobre os fenômenos observados.

Como sustentamos, embora o olhar relacional não seja uma novidade, nem mesmo entre os autores clássicos, sua elaboração mais recente, como uma perspectiva teórico-analítica particular, tem proporcionado avanços significativos na construção de uma visão dinâmica e interdependente das práticas e estruturas sociais. É exatamente nesse ponto que identificamos a principal contribuição das SRs: além de lançar novas reflexões para se problematizar os dilemas clássicos da sociologia, o olhar relacional enfatiza a interdependência e a interação dinâmica e mutuamente constitutiva entre os indivíduos e as estruturas sociais, permitindo novas reflexões e novos esforços empíricos de pesquisa, pois mudam a nossa forma de compreender os fenômenos sociais.

A partir dessas considerações, argumentamos que a pesquisa sociológica, ao ser guiada pelo olhar relacional, deve repensar algumas categorias e noções mais ou menos sedimentadas no campo sociológico, como as noções de emergência e contingência, o sujeito sociológico, a causalidade e o voluntarismo. Esses elementos são essenciais para uma abordagem relacional, uma vez que são centrais para enfatizar que o social é uma realidade que se (re)faz em processo.

Assim, ao enfatizar a interdependência e a mútua constituição, o enfoque sociológico relacional oferece um arcabouço teórico e metodológico útil para compreender as dinâmicas sociais em áreas como políticas públicas (Gurza Lavalle et al., 2019a; Carlos, Dowbor e Albuquerque, 2021), o conceito de Estado (Jessop, 1982, 2009, 2017; Marques, 2023c; Díaz Londoño, 2024) e de sociedade civil (Gurza Lavalle e Szwako, 2015; Marques, 2023b), a emergência e experiência de organizações sociais (Marques e Marx, 2025) e as relações de poder (Poulantzas, [1978] 2015; Jessop, 1991). Além disso, ao questionar categorias tradicionais e permitir uma abordagem mais dinâmica e processual, o enfoque relacional abre caminho para novas práticas de pesquisa aplicada e intervenção social.15

Contudo, concordamos com Días Londoño (2024) quanto aos desafios existentes, especialmente no que diz respeito à necessidade de a sociologia relacional encontrar formas mais precisas de definir os limites das interações que analisa. Isso é fundamental para uma compreensão mais completa e precisa de como essas interações funcionam. O autor alerta também para a tendência de tratar todos os agentes sociais como iguais (horizontalidade excessiva), o que pode obscurecer as diferenças significativas em suas posições, capacidades, recursos e poder – relações de dominação. De acordo com Días Londoño, a compreensão precisa da dinâmica das interações sociais depende da definição clara dos limites dessas interações e dos espaços sociais. De fato, parece crucial entender como as ações e interações de diferentes atores sociais se influenciam mutuamente, bem como se dá o entrelace das estruturas sociais nessa interação, e como essas influências moldam o curso de um processo social.

Em suma, sem o objetivo de realizar uma grande revisão e uma problematização exaustiva dos autores e abordagens aqui elencadas, o artigo traçou paralelos, convidando ao afastamento das dicotomias que separam agentes e estruturas, ação e contexto, defendendo, dessa forma, a relacionalidade do social. Retomando a epígrafe que inicia o artigo, estamos convencidos de que “a análise relacional pode não levar necessariamente ou sempre a descobertas surpreendentes, mas pode ajudar a destacar algumas características-chave da nossa vida social com mais eficiência do que outras abordagens nas ciências sociais” (Dépelteau e Powell, 2013, p. xvi).

  • 1
    Agradecemos aos pareceristas anônimos da RBCS pelas críticas e sugestões. Eventuais lacunas ou imprecisões são de nossa inteira responsabilidade.
  • 2
    Identificamos influências de Durkheim, Weber, Parsons e Luhmann em Donati ([1993] 2006, 2018). Sell (2021), por sua vez, discute as contribuições de Weber. Já Kaspersen e Gabriel (2013) destacam a perspectiva configuracional de Elias, enquanto Vandenberghe (2021b) e Jessop (1991, 1999) mobilizam, respectivamente, a leitura relacional de Bourdieu e Poulantzas.
  • 3
    A despeito do foco nas “relações” e de pontos de convergência, os estudos sociológicos relacionais apresentam especificidades teóricas. Devido a isso, optamos pelo termo no plural.
  • 4
    A partir de Donati, estamos a considerar o conhecimento, “(isto é, a relação entre observador e observado), em si mesmo como relação social” (Donati, 1993, p. 34).
  • 5
    Como argumentam Graeff, Nascimento e Marques (2019), o fundacionalismo apresenta uma longa tradição filosófica e epistemológica, que surge da busca por uma explicação que sustente e fundamente a origem das coisas ou, em termos sociológicos, que permita compreender o centro que sustenta o social. A crítica pós-fundacionalista, ainda segundo os autores, “surge nos debates teórico-epistemológicos a partir de meados do século XX. Nesse contexto [...], buscava-se problematizar, a partir de diferentes abordagens teóricas, concepções já sedimentadas no campo científico, como o positivismo lógico, a metafísica e o estruturalismo clássico. De uma forma mais geral, diferentes autores relacionados a essa crítica buscam fazer aparecer a estruturalidade da estrutura, evidenciando seu caráter contingencial, e colocar o centro para jogar o jogo que ele abre (Graeff, Nascimento e Marques, 2019, p. 589).
  • 6
    Para uma leitura relacional sobre o Estado, conferir: Jessop (1982, 1999, 2009); Marques (2023a); e Díaz Londoño (2024). Sobre a família, ver: Donati (2008). Para uma discussão teórica sobre a sociedade civil a partir de uma leitura relacional, consultar: Marques (2023b).
  • 7
    Essa assertiva não desconsidera a ação não humana e eventos críticos, como catástrofes, epidemias etc.
  • 8
    Conferir o debate entre Bhaskar e Laclau (Curry, 2000).
  • 9
    Desenvolvido por Althusser, a partir da psicanálise freudiana, é resgatado pelo realismo crítico baskharniano para “capturar a determinação múltipla de eventos e fenômenos e sistemas abertos [o social]” (Curry, 2000, p. 102). O conceito de sobredeterminação diz respeito à impossibilidade de totalização do social, derivando a compreensão de que não há nem uma causa única que seja suficiente para explicar o social (Marques, 2020).
  • 10
    Pesquisas Extensivas procuraram analisar a extensão de certos fenômenos e seus padrões, preocupando-se, sobretudo, com as relações quantitativas entre variáveis. Seus métodos buscam regularidades, partindo da compreensão de que podem indicar relações significativas (Sayer, 2000).
  • 11
    Já as Pesquisas Intensivas, ao partirem da preocupação em entender “o que faz certas coisas ocorrerem em casos específicos ou, de maneira mais etnográfica, que tipo de universo de significado existe em uma situação particular” (Sayer, 2000, p. 24), voltam-se para a explicação causal, para os mecanismos operantes e como são/estão estruturados, buscando, dessa forma, “determinar relações substanciais de conexão e situar a sua prática em contextos mais amplos, iluminando, assim, relações parte-todo” (p. 25).
  • 12
    Para uma leitura sobre a mensuração das relações sociais por uma perspectiva relacional, conferir: Price (2013).
  • 13
    Desenvolvemos a crítica à perspectiva relacionista sobre a sociedade civil em outro trabalho, no qual abordamos especificamente a tradição habermasiana a respeito desse conceito (Marques, 2023b). Para uma discussão sobre a tese da mútua constituição, ver: Marques (2023a).
  • 14
    Isso implica que, para entender a dinâmica social, é essencial considerar como as ações e decisões de um ator afetam e são afetadas pelos outros, refletindo uma perspectiva de interconexão e reciprocidade (Dépelteau, 2021), ciente de que a “a sociologia relacional reconhece a fluidez das relações sociais e a necessidade de capturar o dinamismo das interações humanas” (Vandenberghe, 2021a, p. 28).
  • 15
    Para uma discussão sobre mudança social a partir de uma sociologia relacional, conferir: Donati ([1993] 2006). Para uma leitura sobre o consumo, a família e a política de bem-estar social por uma perspectiva relacional, ver: Donati e García Ruiz (2021).
  • DOI: 10.1590/40030/2025.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Não se aplica.

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Editado por

  • Editor Responsável:
    João Maia.
  • Editora Associada:
    Mariana Barreto.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    23 Fev 2025
  • Aceito
    07 Jul 2025
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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