Resumos
Resumo Este artigo investiga a relação entre ideologia e protesto no Brasil, analisando as manifestações de 2015 e 2016 relacionadas ao processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Partimos da hipótese de que protestos de direita e de esquerda se diferenciaram principalmente por temas políticos, independentemente do marcador socioeconômico dos participantes. Para testar essa hipótese, utilizamos dados do Instituto DataFolha e aplicamos modelos de regressão logística para avaliar o efeito de variáveis sociodemográficas e políticas na participação nos protestos. Os resultados indicam que a mobilização foi predominantemente guiada por atitudes em relação ao governo. O apoio ao impeachment e a avaliação negativa de Dilma Rousseff foram os preditores da participação nos protestos da direita, enquanto variáveis sociodemográficas tiveram impacto limitado. Esses achados reforçam a importância de fatores conjunturais, como a polarização das preferências eleitorais na dinâmica de mobilização social e oferecem novos insights sobre o papel da ideologia na participação política.
Palavras-chave:
ideologia política; protestos de rua; polarização eleitoral; mobilização social; impeachment de Dilma Rousseff
Abstract This article investigates the relationship between ideology and protest in Brazil, analyzing the demonstrations of 2015 and 2016 related to the impeachment process of former President Dilma Rousseff. We start from the hypothesis that right-wing and left-wing protests differed mainly in terms of political themes, regardless of the socioeconomic status of the participants. To test this hypothesis, we used data from the DataFolha institute and applied logistic regression models to assess the effect of sociodemographic and political variables on participation in the protests. The results indicate that mobilization was predominantly guided by attitudes toward the government, with support for impeachment and negative evaluation of Dilma Rousseff as predictors of participation on the right, while sociodemographic variables had a limited impact. These findings reinforce the importance of contextual factors, such as the polarization of electoral preferences in the dynamics of social mobilization, and offer new insights into the role of ideology in political participation.
Keywords:
political ideology; street protests; electoral polarization; social mobilization; impeachment of the former president Dilma Rousseff
1. Introdução1
O processo de deterioração das instituições políticas e o aumento da cultura antipartidária no Brasil foram agravados com as massivas manifestações do ano de 2013 (Machado e Miskolci, 2019; Estrella e Borba, 2024). Um dos rótulos desse período, “cada pessoa, um cartaz” (Singer, 2013), é oportuno para qualificar o perfil das ruas, além das questões sobre o direito à cidade e da precarização das condições de vida (Harvey et al., 2013). Esse cenário de ativismo nas ruas ganhou novos contornos após a reeleição de Dilma Rousseff (PT) à presidência da república, com a polarização das preferências eleitorais e a reorganização de setores da direita (Fuks e Marques, 2020; Singer, 2022; Borges, 2024). Diante disso, o perfil heterogêneo dos protestos de 2013 se tornou gradativamente mais polarizado após as eleições presidenciais de 2014.
Uma inovação desse período foi a presença do que chamamos aqui de “movimentos sociais de direita” (Messenberg, 2017), como o “Vem Pra Rua”, “Revoltados OnLine” e “Movimento Brasil Livre (MBL)”, além de think tanks que contribuíram com financiamento e produção de informação política (Rocha, 2019). A presença desses atores coletivos implicou em uma renovação das pautas sociais, particularmente aquelas relacionadas ao acesso à políticas públicas de inclusão. A questão social, tradicionalmente politizada pelos movimentos sociais de esquerda no Brasil (Duriguetto, Souza e Silva, 2009), competiu com outra agenda de demandas: de um lado, o ódio ao Partido dos Trabalhadores (PT) associado ao tema da corrupção; de outro, a reivindicação de uma pauta dos costumes que desafiou os avanços em políticas públicas para grupos minoritários. Tatagiba (2018) argumentou que a direita soube ler o espírito de 2013 e incorporou o repertório do conflito dentro das suas estratégias, ao passo que pôs em evidência temas latentes representados nos bordões “Imposto é roubo! Menos Marx mais Mises”, “Não existe almoço grátis” e “Esquerda caviar” (Rocha, 2019).
O esgotamento das gestões petistas também provocou fissuras na esquerda, “diante da perda de apoio político na sociedade civil e no âmbito institucional” (Souza, 2016, p. 35; Bastos, 2017). A crise do “Estado gestor” (Machado; Scalco, 2018), combinada aos ajustes fiscais, especialmente o corte na concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários, transformou-se em uma propaganda negativa para o governo. Por isso, apesar dos protestos da esquerda contrários ao impeachment de Dilma Rousseff (PT), a chefe do executivo não ficou isenta das críticas desse segmento.
Nosso argumento é de que as manifestações favoráveis e contrárias ao impeachment de Dilma Rousseff (PT) representam um novo tipo de ativismo, no qual a identificação ideológica ganhou maior destaque. Em particular, problematizamos que a assimetria entre esquerda e direita em dinâmicas de protestos (Dalton, van Sickle e Weldon, 2010; Welzel e Dalton, 2014) não se aplica ao caso analisado. O que verificamos é a redução do protagonismo da esquerda e a ascensão de segmentos organizados de direita nas ruas brasileiras. Por algumas décadas, os estudos sobre protestos se concentraram na mobilização de recursos, no papel das organizações e do contexto de oportunidades, obscurecendo a dimensão atitudinal do protesto (Johnston e Noakes, 2005). A análise das manifestações de 2015 e 2016 é oportuna para retomar a discussão que relaciona ideologia e protesto, e pode contribuir com novos insights sobre o perfil dos ativistas de direita.
Neste artigo, trabalhamos com seis pesquisas de opinião pública realizadas pelo Instituto DataFolha, abrangendo três manifestações contra e três a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT). Todas as manifestações estudadas ocorreram na capital de São Paulo. Procedemos por meio de análises de regressão logística, com o objetivo de problematizar o perfil político dos ativistas de protestos investigados em nossas amostras.
Os resultados indicam que a mobilização política foi impulsionada predominantemente por disposições atitudinais em relação ao governo, independentemente dos marcadores socioeconômicos. Esses achados também contribuem para a literatura sobre ideologia e protesto ao demonstrar que fatores conjunturais, como a polarização das preferências eleitorais, desempenham um papel importante na dinâmica de mobilização social, conforme apontado por Fuks e Marques (2022) e Ribeiro, Borba e Fuks (2022).
Nosso artigo está dividido em cinco partes, além desta introdução e da seção de conclusão. A primeira busca situar o leitor sobre o contexto analisado, tanto a crise de governabilidade de Dilma Rousseff (PT), quanto o ativismo de protesto polarizado. A segunda seção busca enquadrar teoricamente nossa discussão. A terceira seção apresenta os materiais e métodos aplicados de análise. Finalmente, na quinta seção apresentamos e discutimos os nossos resultados.
2. As ruas de 2015 e 2016: os protestos da direita e da esquerda
Como argumenta Ângela Alonso (2017, p. 54), as manifestações de 2015 se caracterizaram por símbolos e narrativas que cristalizaram o “ciclo patriota”, entre março e abril desse ano, e o “ciclo do impeachment”, entre dezembro de 2015 e março de 2016. Essas manifestações consolidaram dois campos de ação estratégica, “um à esquerda, outro à direita do governo” (p. 54). A novidade foi a emergência do protesto da direita em um cenário que, historicamente, esteve majoritariamente ocupado pela esquerda. Como observa Tatagiba (2018, p. 114), a direita brasileira soube “ler o espírito de junho [de 2013] e renovou o seu repertório de ação, até então restrito à lógica eleitoral e ao lobby, para incluir o confronto político”.
A conjuntura pré-impeachment também foi marcada pelo sentimento antipetista (Ribeiro, Carreirão e Borba, 2016), associado, à época, aos escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato. Há uma literatura consolidada que discute a relevância da identificação partidária na estruturação das atitudes e do comportamento do eleitorado brasileiro (Speck, Braga e Costa, 2015; Baker et al., 2016). Nesse sentido, a rejeição ao Partido dos Trabalhadores (PT) configuraria uma das “duas faces” da nova direita brasileira (Borges, 2024), gestada em meio a uma sucessão de crises políticas e econômicas entre 2014 e 2018.
O desgaste com as gestões petistas, contudo, não se restringiu à direita, estendendo-se também a setores organizados da esquerda, que manifestaram insatisfação diante da degradação das condições de trabalho e da precarização dos serviços públicos (Estanque, 2014). O crescimento do desemprego e a queda da renda média atingiram ampla parcela da população, independentemente do espectro ideológico. Naturalmente, o cenário econômico adverso alimentou avaliações negativas sobre o governo (Paiva, Krause e Lameirão, 2017), e mesmo que alguns segmentos da esquerda tenham ido às ruas em defesa de Dilma Rousseff (PT), isso não os isentou de críticas às gestões petistas.
Contudo, mais do que a crise econômica, argumentamos que o cenário político polarizado ajudou a moldar as preferências políticas e as ações nas ruas em 2015 e 2016. O apoio ou o rechaço ao impeachment não pode ser explicado apenas por demandas materiais ou de classe, mas pela clivagem política entre defensores e opositores do governo. Do lado da direita, a convergência em torno da derrubada de Dilma funcionou como catalisador para diferentes grupos já mobilizados. Do lado da esquerda, tratava-se da defesa da continuidade do mandato de Dilma Rousseff, ainda que permeada por críticas à guinada fiscalista de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Nesse contexto, a polarização afetiva (Fuks e Marques, 2022), refletida nas manifestações de rua, revela que os protestos não se estruturaram prioritariamente em torno de demandas socioeconômicas, mas em torno da disputa ideológica acerca da legitimidade do governo e de seu projeto político.
3. Quais as provocações do ponto de vista analítico?
Alguns estudos apontam que a esquerda tende a se engajar mais em protestos de rua do que a direita (Van Meer, Van Deth e Schupero, 2009). Uma possível explicação para essa diferença está no legado histórico da esquerda, tradicionalmente associado a ações subversivas e críticas à ordem estabelecida (Mayer e Perrineau, 1992). Essa tese é especialmente relevante para compreender o caso brasileiro, em que a esquerda possui uma tradição de ações disruptivas apoiadas por movimentos sociais, sindicatos e partidos, sobretudo no contexto da ditadura militar (1964-1985).
Além do legado histórico, a relação entre esquerda e comportamento de protesto também possui uma dimensão normativa. Para Downey (1986), o rótulo “esquerda” evoca um conjunto específico de crenças, orientando tanto as pautas defendidas, quanto os repertórios de ação política adotados. Assim, há uma afinidade entre os objetivos da esquerda e a natureza disruptiva do protesto. Nesse sentido, identificar-se como parte da esquerda implica em defender pautas progressistas, como demandas igualitárias (Van Meer, Van Deth e Schupero, 2009) ou pós-materialistas (Inglehart e Welzel, 2009), além da preferência por formas de ação política não institucionalizadas, como manifestações e protestos.
Messenberg (2017) explora essa mesma perspectiva para analisar o campo da direita. Segundo a autora, três elementos caracterizam esse campo semântico: o antipetismo, o conservadorismo moral e os princípios liberais. Entre eles,
o antipetismo é o campo semântico a reunir o maior número de emissões discursivas dos formadores de opinião aqui analisados. (...) O Partido dos trabalhadores (PT) é, na visão desses atores sociais, o grande responsável por todas as mazelas que atingem o país. Ao PT é atribuída a responsabilidade tanto da crise econômica que nos assola mais diretamente nos últimos três anos, quanto ao que é reconhecido por eles como um dos principais, senão o principal problema do país: a corrupção (Messenberg, 2017, p. 634).
O que desejamos destacar é que esse antipetismo favoreceu a incorporação do repertório do confronto e o protagonismo da direita em protestos (Tatagiba, 2018), desafiando a tese clássica de que a esquerda tende a se engajar mais em manifestações de rua do que a direita.
Existem poucas pesquisas que exploram esse tema, como é o caso de Kostelka e Rovny (2019). Em um estudo comparativo entre países pós-comunistas e países que não passaram por regimes comunistas na Europa, os autores argumentam que a defesa do liberalismo tem sido um fator determinante na dinâmica dos protestos entre esquerda e direita. Nos países pós-comunistas, a abertura política se tornou uma bandeira da direita; enquanto em nações que não vivenciaram o comunismo, a esquerda se destacou pela mobilização política. Esse dado é relevante porque relativiza a assimetria entre esquerda e direita, além de introduzir fatores conjunturais na análise da relação entre ideologia e protesto.
Para o caso brasileiro, estamos alinhados à tese de que a reorganização (Fuks e Marques, 2020) ou a reativação da direita (Singer, 2022) esteve associada ao sentimento antipetista. Nessa direção, também argumentamos que o antipetismo ajudou a moldar uma identidade social pautada por preferências políticas que foram determinantes para a mobilização dos protestos entre 2015 e 2016. Jasper e Polletta (2018) destacam que o enquadramento narrativo e a identificação grupal constituem preditores culturais nos processos de ação coletiva, ao mesmo tempo em que ressaltam a dimensão afetiva dessa identificação, a qual tende a reforçar atitudes defensivas em relação ao grupo opositor. Nesse sentido, o antipetismo não se restringiu a um sentimento difuso de insatisfação, mas funcionou como eixo agregador de uma identidade coletiva de direita, estruturando fronteiras políticas que se tornaram centrais para a disputa em torno do impeachment.
Importa ressaltar que a direita que foi às ruas na década de 2010 não é necessariamente a mesma direita que esteve adormecida nas últimas décadas. Como descreve Borges (2024):
A nova direita brasileira é composta por duas grandes vertentes. A primeira é a nova direita evangélica, composta por representantes das diferentes denominações evangélicas nas arenas eleitoral e parlamentar, filiados a partidos de direita. Embora a organização da bancada evangélica remonte à Constituinte, nos últimos anos ocorreu um reposicionamento ideológico da bancada e a mobilização agressiva de pautas conservadoras dentro e fora do Congresso, refletindo uma clara reação às agendas progressistas dos governos de esquerda. A segunda vertente da nova direita está associada à onda antissistema e antipartido, impulsionada pela operação Lava Jato e pela crise econômica no segundo governo Dilma Rousseff. Essas novas forças possuem conexões com movimentos liberais e anticorrupção que ganharam força no bojo de protestos contra o governo Dilma e a favor do impeachment da então presidente, entre 2015 e 2016 (Borges, 2024, p. 2).
Cabe salientar que a deterioração das alianças políticas tradicionais (Oliveira, 2021) e a ineficiência da política de conciliação de classes do período lulista (Tatagiba e Galvão, 2019) também foram relevantes para a formação de uma atitude reativa ao governo Dilma. Bastos (2017) alerta que a falta de capital político para realizar reformas institucionais, bem como para manter os pactos que deram sustentação aos governos anteriores, somou-se à desaceleração econômica e ao acirramento dos conflitos sociais. De fato, como registrou Mundim (2023), Dilma (PT) perdeu mais de 30% de apoio popular, atingindo 62% de avaliação negativa nos primeiros meses de 2015. Esse dado reforça a dimensão política dos protestos que ocorreram entre 2015 e 2016, tangenciado pelo sentimento antipetista.
Além do contexto adverso ao governo Dilma (PT), entre os anos 2000 e 2010 houve também uma forte atuação de coletivos ultraliberais, apoiados por think tanks, que desempenharam um papel crucial na organização e liderança dos primeiros protestos pró-impeachment (Rocha, 2019). Esses movimentos de direita já estavam na base de apoio de diversas ações em 2013 (Perez, 2019), mas foram determinantes para o processo de polarização após a eleição de 2014. Como argumentam Fuks e Marques (2022), essa guinada da direita em relação à esquerda caracteriza um tipo de polarização assimétrica no caso brasileiro, mas que, em nosso argumento, contribuiu para reduzir a assimetria entre esquerda e direita nas dinâmicas de protesto.
À medida que crescia a mobilização da direita, ampliava-se também a deslegitimação do protesto da esquerda, classificado como hostil (Figueiredo, 2021). Esse cenário forneceu às manifestações um conteúdo mais afetivo do que programático, enfatizando o medo do outro, a questão da alteridade e a tensão social. Do ponto de vista das narrativas e performances, o repertório patriota, representado pela “bandeira [e camisa da seleção brasileira], cores e hino” (Alonso, 2017, p. 49), e o repertório socialista, simbolizado pela “bandeira vermelha, megafones, organização vertical” (p. 49), conferiram o invólucro desse conteúdo afetivo que mobilizou as ruas.
Dado o caráter fortemente político e afetivo das manifestações, trabalhamos com a hipótese de que: (H1) Os protestos de direita e de esquerda, ocorridos entre 2015 e 2016, se diferenciam por temas políticos, independentemente dos marcadores socioeconômicos dos indivíduos.
Com isso, o perfil político das manifestações de 2015 e 2016 marca uma diferença objetiva em comparação com as manifestações de junho de 2013. Temas como o direito à cidade (Harvey et al., 2013), que problematizavam a precarização das condições de vida e enfatizavam uma dimensão mais econômica da insatisfação, deram lugar a um debate afetivamente polarizado, cujo epicentro foi a sobrevivência política de Dilma Rousseff (PT). O perfil heterogêneo das ruas de 2013 (Singer, 2013) foi substituído por grupos mais homogêneos do ponto de vista ideológico, com destaque para o protagonismo da direita. Desse modo, conhecer o perfil político e sociodemográfico desses ativistas contribui para novas leituras sobre os protestos, especialmente quanto à dimensão atitudinal do comportamento político.
4. Materiais e método
Trabalhamos com seis amostras coletadas pelo instituto de pesquisa DataFolha, sendo três referentes às manifestações da direita favoráveis ao impeachment, realizadas em 14 de abril de 2015 (T1), 16 de agosto de 2015 (T2) e 17 de abril de 2016 (T3), e três referentes às manifestações da esquerda contrárias ao impeachment, ocorridas em 20 de agosto de 2015 (T1), 16 de dezembro de 2015 (T2) e 17 de abril de 2016 (T3). Todos os eventos analisados ocorreram na cidade de São Paulo.
Primeiramente, selecionamos quatro variáveis políticas: (a) avaliação do governo Dilma Rousseff (PT); (b) posição em relação ao impeachment de Dilma; (c) identificação partidária; e (d) pertencimento a movimentos organizados. As duas primeiras variáveis captam atitudes em relação à então presidenta, e foram organizadas em escala dicotômica (0/1), em que 1 corresponde, respectivamente, à avaliação negativa do governo e ao apoio ao impeachment. A identificação partidária foi aferida pela pergunta: “qual é o seu partido político de preferência?”. Categorizamos como direita a preferência pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), e como esquerda a preferência pelo Partido dos Trabalhadores (PT), considerando que esses dois partidos estruturaram a competição eleitoral até 2014 (Speck, Braga e Costa, 2015). Vale destacar que o PSDB foi o primeiro ator político a questionar os resultados das urnas em 2014 e a alimentar a narrativa do impeachment. Por fim, o pertencimento a movimentos foi medida pela pergunta: “Você participa de algum dos grupos que organizaram a manifestação?”. Essa variável contempla uma lista de movimentos, mas os questionários apresentaram aos entrevistados apenas aqueles vinculados aos protestos da esquerda ou da direita (Quadro 1), conforme o evento.
Para efeito de comparação entre as diferentes amostras, selecionamos apenas questões que se repetiam em todos os questionários, reconhecendo que as amostras originais continham um número limitado de perguntas. Com isso, garantimos consistência analítica, embora algumas variáveis potencialmente relevantes, como aquelas que medem o papel das mídias sociais na mobilização, não estivessem disponíveis.
Em seguida, incluímos um conjunto de variáveis sociodemográficas: sexo, idade, condição de trabalho, escolaridade, nível de renda e cor/raça. O perfil dos ativistas de protesto desse período foi descrito pela literatura como heterogêneo. Embora a maioria fosse composta por jovens, a participação não se restringiu a esse grupo etário. Em São Paulo, os manifestantes reuniam a classe média profissional, a nova classe média trabalhadora e um contingente ampliado de estudantes universitários, além de participantes de segmentos mais afluentes e de camadas populares das periferias urbanas (Alonso, 2017). Essa diversidade problematiza a tese de que a distribuição desigual de recursos individuais tende a produzir acesso desigual à participação (Shlozman, Brady e Verba, 2018). Nesse sentido, a pluralidade de perfis reforça nossa hipótese de que as distinções entre grupos ideológicos derivam mais de fatores políticos do que de características sociodemográficas.
Para avaliar de forma sistemática os determinantes da participação nos protestos, empregamos modelos de regressão logística. Essa técnica é apropriada para variáveis dependentes dicotômicas, pois permite estimar a probabilidade de um indivíduo estar associado a um dos grupos (esquerda ou direita) em função de suas características políticas e sociodemográficas. Assim, torna-se possível identificar quais variáveis exerceram maior peso na distinção entre os ativistas pró e contra o impeachment de Dilma Roussef.
5. Resultados
De um modo geral, os achados da Tabela 1 indicam que o perfil sociodemográfico explica apenas uma pequena parcela das diferenças entre os grupos ideológicos (R2 = 0,096). Variáveis como desemprego, escolaridade e cor da pele apresentam baixo poder explicativo, sugerindo que a composição social dos protestos de direita não difere substancialmente daquela observada nos protestos de esquerda.
Apesar das diferenças residuais, vale um breve comentário sobre as tendencias observadas. O coeficiente de sexo foi negativo e estatisticamente significativo (-0.028, p < 0,01), indicando que mulheres apresentaram menor probabilidade de integrar os protestos de direita, em comparação aos homens nos grupos de protestos analisados. A diferença percentual predita entre homens e mulheres é de 1%, sugerindo efeito limitado.
A idade apresentou efeito positivo e significativo (0.002, p < 0,001): indivíduos mais velhos tinham maior probabilidade de participar dos protestos de direita em comparação aos da esquerda. A diferença percentual predita entre faixas etárias foi de 4%, sugerindo que a idade exerceu influência consistente nessa direção. Esse resultado dialoga com a literatura, como destaca Silva (2017), ao apontar uma associação entre recortes etários mais velhos e maior identificação com pautas conservadoras. Nossos dados reforçam essa interpretação no contexto dos protestos do impeachment em São Paulo.
O coeficiente do desemprego também foi positivo e significativo (0.052, p < 0,05), embora a diferença percentual prevista tenha sido de 1,2%. Esse resultado indica que indivíduos desempregados estiveram levemente mais representados nos protestos de direita em comparação aos de esquerda, sugerindo um possível vínculo entre experiências de descontentamento socioeconômico e engajamento relativo nos protestos. O grau de escolaridade apresentou efeito positivo e significativo (0.135, p < 0,001): indivíduos com nível superior tiveram probabilidade 3,3% maior de se engajar nos protestos de direita em comparação à esquerda. Esse achado dialoga com interpretações que apontam o protagonismo da classe média instruída nos movimentos pró-impeachment (Alonso, 2017). Por fim, o critério de cor/raça foi um dos que mais explicou diferenças relativas (-0.213, p < 0,001): pessoas brancas tiveram cerca de 5,2% a mais de probabilidade de participar dos protestos de direita.
Em síntese, embora o perfil sociodemográfico explique apenas uma pequena parcela das diferenças entre os grupos ideológicos, os traços encontrados para a direita (homem, branco e mais escolarizado) indicam padrões relativos de composição. Passamos agora à análise do perfil político dos ativistas. Na Tabela 2, consideramos os indivíduos que avaliam negativamente o governo, ou seja, que apoiam o impeachment, como aqueles que são partidários e aqueles que pertencem aos movimentos citados na entrevista do DataFolha (ver Quadro 1).
O modelo que incluiu variáveis políticas mostra efeitos robustos sobre a probabilidade de participação nos protestos de direita em comparação aos da esquerda. O coeficiente do apoio ao impeachment (0,333, p < 0,001) indica que indivíduos favoráveis ao impeachment apresentaram maior probabilidade de engajamento na direita, refletindo a centralidade dessa pauta no alinhamento ideológico das mobilizações de 2015 e 2016 em São Paulo. De forma ainda mais expressiva, a avaliação negativa do governo Dilma (0,521, p < 0,001) foi o preditor mais forte do modelo, sugerindo que o descontentamento com a gestão do executivo nacional foi um motivador decisivo da mobilização pró-direita.
Esse achado reforça nosso argumento de que o antipetismo funcionou como motor da reorganização da direita, mobilizando indivíduos afetivamente alinhados contra o governo. Em consonância com estudos recentes (Tatagiba, 2018), nossos dados sugerem que esse público adotou o repertório do confronto, ocupando as ruas de forma expressiva e protagonizando a presença da direita no espaço público durante o período do impeachment.
A participação em movimentos sociais prévios apresentou efeito negativo (-0,198, p < 0,001), indicando que indivíduos mais engajados em movimentos sociais foram relativamente menos propensos a integrar os protestos de direita, possivelmente refletindo a natureza mais individualizada e antipartidária desse campo de mobilização. Nessa mesma direção, o partidarismo apresentou efeito negativo (-0,021, p = 0,0003), confirmando que a direita mobilizou principalmente um público com baixa filiação ou identificação partidária, reforçando a tese de que esses protestos se caracterizaram por engajamento afetivo e pouco programático, em consonância com Ortellado e Solano (2016).
O perfil político dos ativistas de direita reflete, em parte, o repertório “autonomista” (Alonso, 2017), caracterizado pela ação direta, horizontalidade, antipartidarismo, rejeição à hierarquia e pela autogestão. Em termos simbólicos, o repertório “patriota”, marcado pelo uso de símbolos nacionais, como as cores verde e amarelo, estruturou a narrativa desses ativistas. Além disso, a atuação política desses indivíduos reforçou predisposições autoritárias, formando uma base social radical em torno de Jair Bolsonaro (PSL) em 2018. Por esses motivos, é plausível considerar que a mobilização da direita nas ruas coincidiu com a ascensão de protestos explicitamente antidemocráticos, com demandas pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e por intervenção militar, culminando na eleição de um presidente que adotou uma postura de ataques recorrentes à democracia.
Em resumo, o contraste entre os coeficientes evidencia que, enquanto a avaliação negativa do governo e o apoio ao impeachment foram fatores centrais de engajamento, a participação em movimentos sociais prévios e a filiação partidária tiveram efeitos modestos, mas estatisticamente significativos, indicando que o ativismo da direita não derivou principalmente de atores institucionalizados ou tradicionalmente organizados, mas de indivíduos motivados por pautas políticas específicas e por alinhamentos ideológicos reativos.
Apresentamos agora, no Gráfico 1, a distribuição dos erros dos modelos de regressão. Essa análise auxilia na avaliação da qualidade das nossas estimativas, tanto para o perfil sociodemográfico, quanto para o perfil político dos ativistas. Quando os erros estão próximos de zero, o modelo realiza previsões precisas; caso contrário, o ajuste do modelo pode ser considerado insuficiente.
Distribuição da densidade dos erros dos modelos | Fonte: elaborado pelo autor (2025) a partir de dados do Instituto Data Folha (2015/2016).
Observa-se que o modelo voltado ao perfil sociodemográfico apresenta maior dispersão dos erros, com curvas assimétricas. A mediana de 0,30 indica que o modelo tende a superestimar os valores preditos em muitos casos. Portanto, além das diferenças sociodemográficas relativamente baixas identificadas na Tabela 1, a distribuição dos erros reforça a fragilidade desses marcadores na explicação dos protestos contrários e favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff. Em outras palavras, o efeito dos indicadores sociodemográficos para explicar os protestos de 2015 e 2016 não é conclusivo.
Por outro lado, o perfil político dos ativistas apresenta uma tendência equilibrada, sem viés sistemático. A mediana próxima de zero sugere que a maioria das previsões é precisa, e a baixa dispersão dos erros indica uma maior confiabilidade do modelo. Os coeficientes da Tabela 2 mostraram-se mais discriminantes, com exceção do partidarismo, evidenciando que a dimensão política do protesto é preponderante. Assim, argumentamos que as disposições políticas, especialmente as atitudes em relação ao governo Dilma, foram determinantes na polarização dos protestos entre 2015 e 2016, reforçando nossa hipótese de pesquisa.
6. Discussão
Os resultados obtidos corroboram a hipótese central deste estudo (H1), indicando que a distinção entre protestos de direita e de esquerda entre os anos 2015 e 2016 está fortemente vinculada a variáveis políticas, independentemente das características sociodemográficas dos indivíduos. A análise comparativa das regressões evidencia que, enquanto o perfil sociodemográfico apresenta baixo poder explicativo (R2 = 0,096), os fatores políticos, como avaliação negativa do governo e apoio ao impeachment, constituem preditores robustos e determinantes da mobilização da direita (R2 = 0,990). Essa constatação reforça a tese de que o engajamento nas ruas durante o período do impeachment foi motivado primariamente por alinhamentos ideológicos e atitudes afetivas, em vez de fatores estruturais como idade, sexo ou renda.
A predominância de indivíduos com postura antipetista nas manifestações pró-impeachment demonstra que o descontentamento com a gestão Dilma Rousseff funcionou como catalisador para a reorganização da direita. Esse resultado se conecta à literatura que identifica o antipetismo como um eixo central da nova direita brasileira (Messenberg, 2017; Tatagiba, 2018; Borges, 2024), destacando seu papel na formação de uma identidade coletiva orientada por sentimentos políticos, e não por interesses econômicos ou filiação partidária tradicional. O efeito negativo da participação em movimentos sociais prévios e da filiação partidária indica, por sua vez, que a direita mobilizou essencialmente indivíduos com engajamento mais afetivo e individualizado, em consonância com o repertório “autonomista” descrito por Alonso (2017), caracterizado pela ação direta, horizontalidade e antipartidarismo.
Outro ponto relevante é a complementaridade entre repertórios simbólicos e disposições políticas. O uso de símbolos patrióticos e a incorporação de temas conservadores funcionaram como mecanismos de coesão grupal, reforçando fronteiras políticas claras e delineando um campo de mobilização altamente polarizado. Assim, o estudo demonstra que, no contexto brasileiro de 2015-2016, a polarização política não se limitou à esfera eleitoral, mas se expandiu para o espaço público das ruas, tornando-se um fator central na configuração das manifestações.
Os resultados também desafiam interpretações clássicas sobre a assimetria entre esquerda e direita em termos de comportamento de protesto. Ao contrário do que indicam estudos internacionais (Van Meer, Van Deth e Schupero, 2009), a direita brasileira conseguiu ocupar de forma expressiva o espaço de mobilização que historicamente era dominado pela esquerda. Esse fenômeno ressalta a importância dos fatores conjunturais, como a polarização afetiva e o antipetismo, na explicação da dinâmica dos protestos. Além disso, a homogeneidade ideológica observada nos protestos de 2015 e 2016 contrasta com a heterogeneidade das manifestações de junho de 2013 (Singer, 2013), sugerindo que a politização afetiva contribuiu para a cristalização de grupos mais coesos e motivados por objetivos explícitos em torno do impeachment.
Por fim, os achados apresentam implicações para a compreensão da relação entre ideologia e ação coletiva. A centralidade das atitudes políticas na mobilização da direita demonstra que o engajamento em protestos não se restringe a recursos materiais ou à participação em movimentos estruturados, mas é amplamente influenciado por fatores simbólicos e emocionais. Esse insight contribui para a literatura sobre protesto e polarização política ao evidenciar que, em contextos de crise institucional, a dimensão atitudinal do comportamento político pode superar marcadores socioeconômicos, redefinindo a configuração das ruas e das identidades coletivas.
Em síntese, o estudo confirma que a polarização ideológica, impulsionada pelo antipetismo e pela insatisfação com a gestão federal, foi o motor central da mobilização de protestos de direita; enquanto os protestos de esquerda se mantiveram mais dispersos em termos de mobilização e foco programático. Esses resultados reforçam a relevância de analisar a ação coletiva no Brasil contemporâneo não apenas sob a perspectiva de recursos ou organizações, mas também considerando as disposições políticas e o papel das identidades coletivas na formação de campos de mobilização.
É importante reconhecer algumas limitações deste estudo. Primeiramente, as análises se restringem à cidade de São Paulo, o que pode comprometer a generalização dos resultados para outras regiões do Brasil, onde contextos socioeconômicos e dinâmicas políticas podem diferir significativamente. Além disso, o número limitado de variáveis disponíveis nos questionários do Instituto DataFolha restringiu a inclusão de fatores potencialmente relevantes, como o papel das mídias sociais na mobilização ou outras dimensões de engajamento político. Essas limitações sugerem cautela na interpretação dos achados e indicam a necessidade de estudos futuros que ampliem tanto a cobertura geográfica, quanto o escopo das variáveis analisadas para consolidar e aprofundar as conclusões apresentadas.
7. Conclusão
Este estudo buscou compreender a dinâmica dos protestos de 2015 e 2016, na cidade de São Paulo, com foco na distinção entre manifestações de direita e de esquerda e na importância relativa das variáveis políticas e sociodemográficas na mobilização dos indivíduos. Nossos resultados indicam de forma consistente que a dimensão política, especialmente a avaliação negativa do governo Dilma Rousseff e o apoio ao impeachment, foi determinante para o engajamento nos protestos de direita, enquanto os marcadores sociodemográficos exerceram influência limitada. Esse achado corrobora a hipótese central da pesquisa, segundo a qual os protestos se diferenciam principalmente por temas políticos, e não por características estruturais dos indivíduos, revelando que a polarização afetiva desempenhou papel central na configuração das ruas durante o período analisado. A concentração de indivíduos antipetistas, combinada com o protagonismo de repertórios simbólicos patrióticos e autonomistas, evidencia a emergência de uma nova direita altamente mobilizada e capaz de ocupar o espaço público tradicionalmente associado à esquerda, desafiando interpretações clássicas sobre o comportamento de protesto e a assimetria histórica entre os campos ideológicos.
A análise do perfil sociodemográfico mostrou que, apesar de diferenças estatisticamente significativas em alguns indicadores, como sexo, idade, cor/raça e escolaridade, essas variáveis explicam apenas uma pequena parcela da variabilidade entre os grupos ideológicos, reforçando que o engajamento não derivou primariamente de condições estruturais ou de pertencimento social. Em contrapartida, os efeitos robustos das variáveis políticas demonstram que a mobilização da direita foi centrada em indivíduos motivados por atitudes e alinhamentos ideológicos reativos, mais do que por filiação partidária ou engajamento prévio em movimentos sociais. Este padrão evidencia um tipo de protesto individualizado, afetivo e antipartidário, alinhado aos repertórios de ação direta e horizontalidade descritos na literatura sobre movimentos sociais contemporâneos de direita no Brasil.
Os achados também indicam que a polarização política no contexto do impeachment não se restringiu à esfera eleitoral, mas se expandiu para o espaço público, moldando a composição das manifestações de forma expressiva. A presença de símbolos nacionais, o uso de narrativas conservadoras e a centralidade do antipetismo funcionaram como mecanismos de coesão grupal e definição de fronteiras políticas, consolidando identidades coletivas claras que reforçaram a mobilização e a homogeneidade ideológica das ruas. Esse processo destaca a importância de analisar não apenas os recursos ou organizações disponíveis, mas também os fatores simbólicos, afetivos e identitários que estruturam a ação coletiva, contribuindo para a literatura sobre protesto e polarização no Brasil contemporâneo.
Apesar das contribuições, o estudo apresenta limitações relevantes. A restrição geográfica à cidade de São Paulo e o número limitado de variáveis disponíveis nos questionários do Instituto DataFolha restringem a generalização dos achados para outras regiões do país e para dimensões de mobilização não capturadas, como o papel das mídias sociais ou outras formas de engajamento político. Essas limitações indicam a necessidade de pesquisas futuras que ampliem o escopo geográfico e incluam uma maior variedade de indicadores, permitindo compreender com maior precisão os determinantes da participação em protestos e a evolução das identidades coletivas políticas.
Em síntese, a análise realizada evidencia que a mobilização da direita entre 2015 e 2016 foi fortemente impulsionada por fatores ideológicos, particularmente pelo antipetismo e pelo descontentamento em relação à gestão federal, e que essas disposições políticas foram mais relevantes do que os marcadores sociodemográficos ou o engajamento prévio em organizações formais. Esse padrão reflete uma configuração inédita da ação coletiva no Brasil, em que a polarização afetiva e identitária se sobrepõe às distinções estruturais e define o perfil dos protestos. Ao evidenciar a centralidade da dimensão política na mobilização da direita e ao demonstrar a limitação das variáveis sociodemográficas na explicação do comportamento de protesto, este estudo contribui para debates teóricos e empíricos sobre ação coletiva, polarização e protesto, oferecendo um quadro atualizado do ativismo de rua no contexto do impeachment de Dilma Rousseff. Por fim, os resultados sugerem que, em contextos de crise política e institucional, as disposições políticas e identitárias podem superar fatores estruturais na determinação da participação em protestos, apontando para a relevância de se considerar a dimensão atitudinal e afetiva da mobilização social em estudos futuros.
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Esta pesquisa contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Araucária de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Estado do Paraná (FA), por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Representação e Legitimidade Democrática (processo nº 406649/2022-7).
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Disponibilidade dos dados:
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Editado por
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Editor Responsável:
João Maia
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Editora Associada:
Rayza Sarmento
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Datas de Publicação
-
Publicação nesta coleção
28 Nov 2025 -
Data do Fascículo
2025
Histórico
-
Recebido
20 Fev 2025 -
Aceito
08 Out 2025


