Resumos
Resumo O artigo aborda como o caráter e definição do massacre em Srebrenica como genocídio desencadeia incômodos e controvérias no debate sobre a guerra na Bósnia e Herzegovina (1992-1995). A partir de trabalho de campo realizado entre 2018 e 2020 em Srebrenica e de pesquisas anteriores na Bósnia foi possível abordar a temática em questão tendo em vista alguns tópicos: a cidade de Srebrenica, a cerimônia em memória aos mortos no genocídio e o embate sobre a definição do evento como genocídio (o negacionismo).
Palavras-chave:
guerra na Bósnia e Herzegovina; genocídio em Srebrenica; Republika Srpska; conflito étnico-nacional; subjetividades
Abstract This article discusses how the definition of what happened in Srebrenica as genocide triggers discomfort and controversy on the debate about the war in Bosnia and Herzegovina (1992-1995). Based on fieldwork carried out between 2018 and 2020 in Srebrenica, in addition to previously gathering data, it was possible to address the issue accordingly to some topics: the city of Srebrenica, the commemoration of the genocide, and the clash over the definition of the event as genocide (denialism).
Keywords:
war in Bosnia and Herzegovina; Srebrenica genocide; Republika Srpska; ethnic-national conflict; subjectivities
1. Introdução1
O conflito ocorrido na Bósnia e Herzegovina entre os anos de 1992 e 1995 pode ser definido como uma guerra que objetivou o rearranjo populacional do território iugoslavo e opôs sérvios, muçulmanos/bosníacos e croatas.2 Com esse propósito, forças sérvias se estabeleceram, no início dos confrontos, no leste da Bósnia, de onde a maioria da população muçulmana fora expulsa. Srebrenica resistiu e se tornou um enclave muçulmano, sendo designada como zona de segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), em 1993.3
Entre os focos das ofensivas das forças sérvias, em julho de 1995, estava, novamente, este enclave, que fora finalmente tomado e sua população expulsa ou morta. Saberíamos logo depois que, neste momento, esse e outros movimentos de tropas e ocupação das forças armadas sérvias, assim como movimentos do exército bósnio e de forças croatas em outras partes do país, configurariam o mapa geográfico-populacional das entidades, tal como seria estabelecido pelo acordo de paz, em novembro de 1995, em Dayton, Estados Unidos.4
Vários indícios – considerados especulativos na Republika Srpska (RS) – demonstram que a matança em Srebrenica fora planejada. Um deles é a Diretiva 7, de Radovan Karadžić, de março de 1995, que instruía as forças sérvias a eliminarem a população muçulmana dos enclaves de Srebrenica e Žepa, o que teria sido levado a cabo pela operação que ficou conhecida como Kravica 95, comandada por Ratko Mladić.5 Ademais, valas comuns teriam sido cavadas com antecedência para receber os mais de oito mil homens que seriam mortos (Peres, 2010). Havia valas primárias e secundárias, e os corpos, algumas vezes, dividiam-se em várias partes por mais de uma vala, onde eram atirados, retirados e novamente atirados com o intuito de ocultar os crimes.
Apesar desses dados e do reconhecimento internacional de que ocorreu em Srebrenica o maior genocídio na Europa, desde a Segunda Guerra Mundial, pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex-Iugoslávia, responsável por grande parte das investigações sobre o massacre (Delpla, Bougarel e Fournel, 2012), o caráter e a definição do evento ainda são controversos. Segundo meus interlocutores na Federação, não há o que discutir. Porém, tem-se por parte do governo da RS (instigado pelo seu líder Milorad Dodik, seu partido SNSD – Savez nezavisnih socijaldemokrata – e outros partidos nacionalistas) uma negação pública do ocorrido, a exemplo do relatório da Comissão Internacional para Srebrenica, de 2020, formada pelo governo da RS, em fevereiro de 2019, com o objetivo de atestar a matança de sérvios nessa região e investigar o que de fato ocorreu em julho de 1995.6
As cerimônias em memória do genocídio e a discussão sobre o fato em si causam também extremo embaraço e mal-estar em muitos de meus interlocutores e interlocutoras. Marija, uma amiga de Brčko, que, por ser sérvia, com o fim da guerra e o acordo de paz, teve que deixar sua cidade natal na Federação, às vésperas do 11 de julho (em 2015), quando ocorrem as cerimônias e enterros coletivos em Srebrenica, em tom de lamento, diz que essa data a incomoda, pois ninguém deixa nada para trás, e reclama que os crimes cometidos contra os sérvios sejam silenciados: “as três partes fizeram coisas terríveis”, conclui.
“Mir, mir, niko nije kriv!” (Paz, paz, ninguém é culpado!),7 em rima, responderia a ela, a também incomodada Kada Hotić (2019), membro da Associação Movimento das Mães dos Enclaves de Srebrenica e Žepa (Udruženje Pokret majka enklave Srebrenice i Žepa), que perdeu inúmeros membros de sua família no massacre, incluindo o filho e o marido.8
Este artigo busca, assim, a partir de pesquisas de campo realizadas ao longo de quase duas décadas na Bósnia, demonstrar como a definição do massacre em Srebrenica como genocídio adentra a cotidianidade das pessoas, revelando modos diferentes de estar na história (Bloch, 1998 apudDuijzings, 2007) e de se pensar a história diferentemente.
Castillejo-Cuéllar (2013), ao pesquisar os processos desencadeados pela Lei da Justiça e Paz de 2005, na Colômbia, que visa a reintegração de ex-membros de grupos paramilitares em troca de seus testemunhos, fala de “itinerários de sentido”, em que processos históricos amplos cruzam com processos pessoais, definindo o mundo e dando sentido ao passado e ao futuro das pessoas. Veena Das (2007), ao tratar de eventos críticos e traumáticos que marcam a vida das mulheres que conheceu em suas pesquisas, pensa nos termos de uma descida para o ordinário desses grandes eventos. Para ela, não podemos separar “evento/história do evento” da história das vidas no dia a dia. Dessa conjunção do evento com o ordinário, surge a ideia da simultaneidade do passado e do presente (quando não há sentimento de passado) e de sua contínua presença na vida das pessoas, o que nos ajuda a pensar o fato do sofrimento, não necessariamente superado pelo trabalho do tempo ou fixado em uma história coerente e com sentido para o sujeito da experiência.
Do mesmo modo, no pós-guerra na Bósnia, o fato do TPI ter confirmado que o ocorrido em Srebrenica se encontra na definição de genocídio e de crime contra a humanidade colabora para a consolidação de uma memória coletiva e de uma história acerca do massacre, e imbrica-se, também, na cotidianidade. As falas das pessoas que trago aqui demonstram isso.
Na Bósnia, mesmo sem procurar, encontramos memórias e histórias em disputa, em que mesmo um genocídio, não obstante seu caráter de crime maior, é subsumido, como veremos, em uma disputa de narrativas e fatos e contranarrativas e contra fatos. O fato do genocídio, afirmado ou negado, vai de encontro aos embates da guerra, mas também aos sentimentos de injustiças que parecem a todos abraçar. Todos se sentem, para usar o termo utilizado por Mamdani (2020), “sobreviventes” de uma guerra de deslocamentos de pessoas, cidades, corpos, histórias e experiências.
1.1 Organização da pesquisa e do artigo
Nesta introdução, cabe ainda salientar que a pesquisa foi realizada com algumas idas a Srebrenica entre 2018 e 2019; e, em 2020, pouco antes da pandemia da Covid-19, quando fiquei uma semana por lá. No entanto, desde 2005 realizo pesquisas na Bósnia sobre temas diversos, em que Srebrenica, antes de ser um foco de minhas pesquisas, tornou-se um tema de interesse inevitável.
Inúmeras vezes, fui às cerimônias em memória do genocídio no Memorial-Cemitério em Potočari, vila a 7 Km da cidade, onde ficava a base da UNPROFOR (e, certamente, o último lugar em que as famílias se reuniram antes de serem separadas e colocadas em ônibus para destinos distintos). Aqui, trato apenas da cerimônia relativa aos vinte anos do massacre. Fui também visitar o Memorial algumas outras vezes, a primeira no ano de 2007. Outro grande evento referido às cerimônias é a Marcha da Paz, que reúne milhares de pessoas, todos os anos, que refazem o trajeto a pé feito por aqueles que fugiram quando da tomada da cidade pelas forças sérvias.9
Cito essas idas e vindas com o intuito de sublinhar que, em nenhuma delas, conhecer a cidade é parte do programa. Isso vale tanto para mim, como para os milhares que chegam ali todos os anos. Ou seja, para se lembrar o massacre não é necessário e é até dispensável ir a Srebrenica, visto que as cerimonias e o memorial estão localizados em Potočari.
Também meus interlocutores e interlocutoras neste artigo são especialmente de cidades como Banja Luka, Sarajevo e Brčko, onde realizei pesquisas e criei vínculos de amizade e confiança. Muitos jornalistas, intelectuais e políticos que eu já conhecia dessas outras cidades que me passaram contatos de pessoas de Srebrenica para eu conversar. Outras, eu fui buscar junto às associações de prisioneiros de guerra (logoraši),10 de mulheres vítimas da guerra e da própria associação das mães de Srebrenica e Žepa. Figuras importantes de Srebrenica, como Hasan Nuhanović, por exemplo, cujo testemunho serviu de base ao filme recente sobre o massacre,11 ou como Kada Hotić, citada anteriormente, eu encontrei em Sarajevo, pois moram em Sarajevo. Essas e outras figuras públicas de Srebrenica são pessoas com as quais realizei entrevistas formais, semiestruturadas; as demais, são interlocutores que encontrei ao acaso ou amigos.
Feita esta longa introdução, dou início a este artigo perpassando os acontecimentos de julho de 1995. Em seguida, discorro a respeito da ocupação da cidade pós-guerra. Trato então das cerimônias em memória aos vinte anos do genocídio, em 2015, e dos argumentos negacionistas. Por fim, concluo com algumas palavras finais acerca desse longo pós-guerra, parafraseando Tony Judt (2005).
2. O massacre
Os enclaves muçulmanos sob proteção da ONU, Bihać, Goražde, Srebrenica, Sarajevo, Tuzla e Žepa, foram criados devido à dinâmica do conflito bélico na Bósnia, caracterizado pelo estabelecimento de territórios contínuos de população homogênea. Esses enclaves ficaram, assim, sob cerco e constantes ataques ou ameaças de ataques durante quase todo o conflito, ao passo que atraíam pessoas de toda a respectiva região que fugiam em busca de alimentos e proteção militar.
No acordo de paz, Srebrenica e Žepa, tomadas em julho de 1995 pelas forças sérvias, passaram a ser territórios da Republika Srpska, e os demais enclaves ficaram para a Federação.
Os relatos sobre o genocídio em Srebrenica focam especialmente os momentos que antecederam ao massacre, quando forças sérvias invadiram a cidade pelas montanhas. As pessoas, coagidas, fugiram então para a base da UNPROFOR, sob responsabilidade dos holandeses, localizada em uma antiga fábrica de baterias em Potočari. Impedidas de entrar na base, relatos apontam que os soldados da ONU ajudaram, inclusive, na organização das filas de mulheres e crianças, que seriam colocadas em ônibus e transportadas para Tuzla e outras cidades sob domínio das forças bósnias.12 Homens em idade militar – jovens e adultos – seguiram em outros ônibus para diferentes destinos: alguns foram levados para campos de detenção na Sérvia (do outro lado do rio Drina, que marca a fronteira entre os dois países); e a grande maioria, soube-se depois, fora executada.
Muitos homens, ao invés de procurarem refúgio em Potočari, fugiram pelas florestas e montanhas em direção aos territórios livres, como eram chamados os territórios sob domínio bosníaco. Pelo relato de Vejiz Šabić (2019),13 ficamos sabendo que essa travessia não se deu sem combate armado, algo que não se frisa nos relatos sobre a queda da cidade, segundo os quais, homens desarmados teriam sido capturados e executados. Bougarel (2007, p. 179) aponta que reside nessa omissão a possibilidade de significá-los como vítimas, fato que “facilita a apresentação do massacre como parte de um projeto genocida comparável ao Holocausto”. Essa narrativa conforma a história da tomada de Srebrenica e do extermínio de sua população masculina, predominantemente.
No imediato pós-guerra não ouvimos falar muito sobre Srebrenica (Peres, 2005). Tanto Hotić (2019), como Nuhanović (2019) contam que eram vistos como inconvenientes, pois faziam protestos reivindicando esclarecimentos e justiça para seus familiares desaparecidos.
Foi o Caso Radilsav Krstić, ex-comandante das tropas sérvias do Drina, julgado pelo TPI, que estabeleceu, em 2001, que o que ocorreu naquele julho de 1995 encerrava-se na definição de crime de genocídio e contra a humanidade (United Nations: International Criminal Tribunal for the former Yugoslavia, s.d.; Delpla, Bougarel e Fournel, 2012).
Para Zijad Čusto (2015),14 entretanto, o genocídio em Srebrenica teria sido o décimo perpetrado contra a população muçulmana da Bósnia ao longo de sua história – e a negação do genocídio durante a guerra pode e deveria ser considerada também um genocídio. Segundo Duijzings (2007), esse tipo de relato vai de encontro a narrativas que despontaram particularmente nos anos que antecederam à guerra dos anos 1990, que se referiam a genocídios perpetrados ao longo de séculos contra a população muçulmana bósnia. De acordo com esse autor, a região da Bósnia oriental já era repleta de memórias de guerras anteriores, sendo a Segunda Guerra Mundial então mobilizadora de medos e ressentimentos e catalisadora da violência extrema observada em 1995.
Nesse sentido, a afirmação do genocídio pela comunidade internacional, apesar do peso e legitimidade que encerra, entra também no imaginário popular como mais um item em disputa, como veremos, em que atores se aliam e se opõem em torno de modos de definir e nomear eventos ao longo da história, e em uma história passível de ser revista e/ou negada.15
Nessa história, os atores principais do conflito estavam quase todos ali e seus papéis muito bem definidos: a população civil muçulmana na cidade, as forças militares sérvias ao redor e as forças de proteção da ONU (a defesa muçulmana teria sido destituída com o estabelecimento do enclave).16 A queda da cidade apontou então para a incompetência das forças internacionais e sua corresponsabilidade pelo massacre,17 para o caráter monstruoso de um massacre de população civil desarmada ou que já havia se rendido e para o modus operandi de uma limpeza étnica.
O que aconteceu ali, figura, assim, no campo das grandes atrocidades cometidas na guerra pelas forças sérvias, ou pelos chetniks, como são usualmente chamados os criminosos sérvios, em um esforço muitas vezes honesto de não igualar todo um povo a perpetradores de atrocidades.18 Posto isso, o 11 de julho é um dia que incomoda na RS, local onde o que aconteceu em Srebrenica é visto como uma confrontação legítima entre forças opostas em um campo de batalha; ou, quando admitido o massacre, o número de mortos é considerado exagerado e o estabelecimento de vítimas civis e algozes sanguinários é visto como uma afronta que favorece apenas um lado da história, pois ignora as vítimas sérvias da guerra.
Desse modo, o conflito em torno do que aconteceu em Srebrenica – quando mais de oito mil homens foram perseguidos e assassinados durante uma semana em 1995, como atesta a tese do genocídio; ou quando uma guerra civil teve lugar – marca esse pós-guerra, que já dura trinta anos.
3. A presença sérvia na cidade e o retorno dos refugiados
Antes da guerra, sérvios e muçulmanos conformavam a população de Srebrenica e das vilas no entorno, que são inúmeras nessa municipalidade. Nas vilas, geralmente, predominava um ou outro grupo nacional.
Com a ocupação pelas forças sérvias de quase toda a Bósnia oriental no início dos confrontos,19 a cidade se tornou centro de atração de inúmeras populações muçulmanas expulsas e deslocadas. Sob cerco, bombardeios, isolamento, Srebrenica reuniu pessoas dormindo nas ruas e enfrentou fome severa (Peres, 2005). Como descreveu Šabić (2019), os comboios de ajuda humanitária, muitas vezes, não conseguiam chegar à cidade e nem mesmo os suprimentos que costumavam vir das vilas, todas tomadas pela força armada oponente. A partir de julho de 1993, com a transformação da cidade em zona de segurança da ONU, as pessoas puderam respirar mais uma vez. Isso durou até a tomada da cidade em julho de 1995.
O fim da guerra, estabelecido pelo acordo de paz, e a divisão do território bósnio nas duas entidades levaram a mais movimentos populacionais. Muçulmanos, já então denominados bosníacos, deixaram territórios na RS para viverem na Federação; enquanto sérvios fizeram o movimento contrário. Srebrenica passou a pertencer à entidade sérvia e, esvaziada pela guerra, recebeu refugiados ou deslocados sérvios de inúmeros territórios que passaram para a outra entidade.
Esse foi o caso de Gordana, uma amiga de Banja Luka, que deixou Donji Vakuf na Federação. Ela e sua família foram deslocadas em 1996 por ônibus organizados por autoridades da entidade sérvia, então instituída, para morar em Srebrenica. O que é visto como expulsão por ela e por outra amiga de Banja Luka, capital da RS, que viveu algo similar em Sarajevo, é entendido como política sérvia por meus interlocutores da Federação, segundo os quais não foi o governo da Federação que os expulsou, mas sim seus próprios líderes, responsáveis pelos deslocamentos. Sublinho isso, pois o fato de que apenas os líderes sérvios teriam sido responsáveis pela limpeza étnica é mais um item controverso. Na Federação, acredita-se que os sérvios deixaram suas cidades porque quiseram, e não porque foram expulsos, ou porque provavelmente não se sentiam seguros depois da guerra no território que passou para o outro lado.
Assim, Gordana e seus familiares foram viver em Srebrenica. Viveram lá por cinco anos, toda a sua adolescência praticamente, antes de se mudarem para Banja Luka. Por isso, ela me disse várias vezes que me ajudaria a estabelecer contatos na cidade, chamando minha atenção para a importância de se ouvir também “o outro lado” [o dos sérvios].20 Ela queria encontrar alguém “normal” para eu conversar, que não fosse muito nacionalista, mas que fosse sérvio, assim eu poderia ter uma visão mais equilibrada dos fatos.
Foi com a construção, a partir de 2000, e, especialmente, com a inauguração do cemitério e Memorial para as vítimas do genocídio (Memorijalni centar Srebrenica-Potočari – Centro-Memorial de Srebrenica-Potočari), em 2003, que muitos bosníacos começaram a voltar para Srebrenica. Segundo Nuhanović (2019), o retorno dos refugiados não teria acontecido sem a instituição do Memorial e a proteção de soldados americanos, que acompanharam esse processo.
Hoje, Srebrenica é a única cidade em toda a Bósnia que possui número próximo de sérvios e bosníacos, algo que não acontece nem mesmo em Sarajevo, que atualmente conta com maioria significativa bosníaca. De todo modo, “a cidade cheia de vida antes da guerra”,21 como seus habitantes gostam de frisar, tem um terço da população que um dia tivera.22 Mesmo assim os deslocamentos continuam, com vilas circundantes inteiras esvaziadas, como conta Radomir Pavlović (2020), político local.
Estive em Srebrenica em 2020, como mencionado anteriormente, e o vazio da cidade era visível. Tudo fechava em torno das 15 horas. Apenas os poucos mercados – talvez haja uns três, que eu tenha visto – ficavam abertos até mais tarde. À noite, era um deserto.23
Eu estava hospedada em um pequeno hotel, em que só havia eu de hóspede e cujos proprietários estavam viajando quando cheguei. Eles haviam me dito que voltariam alguns dias depois e que eu poderia ficar à vontade. Não sabia de início que não teria nada para comer ou beber à noite, nem ali, nem na cidade, até descobrir, finalmente, um restaurante que ficava aberto até às 19 horas. Cheguei às 18 horas para comer, e o restaurante estava com apenas algumas luzes acesas e vazio. Relativamente grande, com decoração sofisticada, lareira, tapetes, móveis de madeira, itens de luxo gastos pelo tempo, o restaurante trazia um sentimento de abandono e pauperização.
Pouco antes dessa minha ida para Srebrenica, conversávamos eu, Gordana, mencionada há pouco, e seu irmão, em Banja Luka, sobre Srebrenica. A conversa logo virou uma discussão. Seu irmão dizia: “óbvio que aconteceu o genocídio”; e ela dizia que isso era mentira, pois os sérvios também sofreram. Era evidente que seu irmão tentava de alguma forma me agradar e contrariá-la, lançando mão da história aceita no Ocidente. Ele se ofereceu, inclusive, para ir comigo a Srebrenica, assim poderia visitar amigos e ajudar-me na pesquisa. Nada disso aconteceu. Depois de uma briga com a irmã, eu tive que ignorar suas ligações. De todo modo, segundo ela, ele não conhecia mais ninguém na cidade, queria apenas me impressionar. Não obstante, a discussão mostrava o que todos ali sabiam, que o genocídio em Srebrenica é um tema controverso, que mobiliza opiniões e desencadeia tensões. Eu, por exemplo, fui inserida na disputa entre os irmãos. Optei, naturalmente, por Gordana, minha amiga, e distanciei-me de seu irmão; porém, quanto a Srebrenica, não precisei tomar posição, pois o intuito de ambos era de me (in)formar.
O consenso sobre o genocídio de Srebrenica parece, assim, longe de ser alcançado, tanto ao nível das autoridades, como veremos, quanto ao nível das pessoas comuns que viveram a guerra e disputam incômodas e, por vezes, indizíveis memórias e versões, que atravessam intimidades e afetos.
De todo modo, a excitação inicial de Gordana e sua vontade em me ajudar foram sendo paulatinamente substituídas por um mal-estar. Gordana começava a reconsiderar cada pessoa que conhecia em Srebrenica. Primeiro, uma antiga vizinha, que ainda mantinha contato com sua mãe: “ai Andrea, não quero ligar para ela, não sei... não tenho vontade”, ou “Ai Andrea, tentei achar um lugar para você ficar em Srebrenica, mas não tem hotel na cidade”,24 ou “Ai Andrea, falei com um amigo pelo Facebook, ele não tem vontade de encontrar ninguém”, ou “Ai Andrea, a maioria não está mais lá”. Por fim, suspirou: “sabe o que é? tenho a sensação de que Srebrenica é assombrada”.25
Falar sobre a guerra em Srebrenica e/ou estar lá parecia se configurar, portanto, como um tema e situação incômodos para as pessoas, e o silêncio e a fuga pareciam ser uma estratégia de evitar as difíceis discussões acerca das insatisfatórias resoluções do pós-guerra, além do trauma em si, consequência das violências e deslocamentos.
Tive muita dificuldade em conversar sobre a guerra e sobre o genocídio em Srebrenica com qualquer pessoa na cidade, especialmente com bosníacos/muçulmanos que não fossem pessoas públicas e políticos. Procurei uma funcionária do Memorial, ela me disse, primeiramente, que não me encontraria em Srebrenica e que não falaria sobre Srebrenica, mas que poderia me encontrar no Memorial em Potočari; ali ela disse que repensou e que preferiria não conversar. Procurei uma mulher indicada por uma jornalista de Sarajevo, ela marcou comigo algumas vezes, desmarcando em seguida todas elas, dizendo que havia surgido outros compromissos. Conheci um italiano em Srebrenica, que trabalhava no escritório de uma organização internacional com sede na cidade. Tomamos um café na aškinica e de lá eu seguiria para o Memorial. Perguntei se ele ia muito lá, afinal, é um museu memorial gigantesco que requer várias visitas. Para a minha surpresa, ele, embora há seis meses na cidade, ainda não havia ido a Potočari. Explicou-me que não queria ser identificado com um dos lados da guerra e criticou o turismo do genocídio que há na Bósnia. Segundo ele, os ônibus com turistas não vêm até a cidade, param em Potočari e de lá voltam, geralmente, a Sarajevo.26 Е, de fato, pode-se chegar ao memorial-cemitério, nos atos cerimoniais, durante a Marcha, ou para conhecê-lo sem nunca pisar em Srebrenica.
Srebrenica, desde 2016, tem prefeito sérvio, antes disso teve prefeitos bosníacos/muçulmanos. Ćamil Duraković, um deles, que tive a oportunidade de entrevistar em 2019 na cidade, diz que devemos separar “Srebrenica cidade”, de “Srebrenica como um conceito planetário”, ou seja, “um programa que marca e rememora o genocídio e que está voltado para o mundo: essa prática não vai mudar, o que vai mudar é que chegará um momento em que não haverá mais enterro, apenas a cerimônia”. E tanto o “conceito” como as cerimônias se realizam fora de Srebrenica, na vila de Potočari, onde eu tive a oportunidade de conversar e conhecer alguns bosníacos, muçulmanos que testemunharam aqueles dias de julho de 1995.
4. Cerimônia em memória aos vinte anos do genocídio em Srebrenica
Em 11 de julho de 2015, houve a cerimônia em memória ao 20º aniversário do massacre em Srebrenica. Fui para a cerimônia desde Brčko, onde eu morava, com meu amigo Zijad e um grupo de pessoas da cidade. Fomos em um dentre as centenas de ônibus postos a serviço da população por parte do governo da Federação, saídos de todas as partes da Bósnia.
Para se chegar a Potočari é preciso atravessar, obrigatoriamente, a cidade de Bratunac (a 11 km de Srebrenica), também na RS. Em Bratunac, poucos dias antes, ocorrera a cerimônia de aniversário dos assassinatos perpetrados contra os sérvios da região de Srebrenica pelas forças bósnias durante a guerra.27 E, na conjunção do veto da Rússia acerca da denominação do massacre como genocídio no Conselho de Segurança da ONU, poucos dias antes, pareceu-nos que a cidade se preparou para a passagem dos visitantes: em cada poste, a imagem de Vladimir Putin.28 Essa imagem enviava claramente a mensagem de que, para eles, em Srebrenica, não havia ocorrido genocídio.
Para os enterros coletivos de 2015, 136 corpos foram preparados. Somavam-se a esses, os 6.241 já enterrados ali, além de 230 corpos que foram enterrados em outros cemitérios.29
A cerimônia começou no Memorial, separada da multidão, com as delegações nacionais e internacionais fazendo seus discursos,30 que eram transmitidos em um telão (em inglês ou na língua local) a todos que esperavam os enterros.31 Em seguida, as delegações, cercadas por seguranças, começaram a entrar no cemitério, passando pela multidão. Aleksandar Vučić, então Primeiro-Ministro da Sérvia, estava entre os delegados.
Afora o fato de a Sérvia não reconhecer o genocídio, o próprio Vučić é considerado por muitos como um criminoso de guerra, que teria participado da agressão à Bósnia. Sua presença na cerimônia foi, portanto, considerada uma afronta e seu aparecimento ali foi seguido, imediatamente, por gritos como “chetnik” e aclamações como “Allahu Ekber” (Allah, o maior). E o caos começou: uma multidão de pessoas literalmente saltou sobre ele e seus seguranças, começou um empurra-empurra, garrafas de plástico voaram e as pessoas gritavam cada vez mais alto. Foi um grande tumulto. Eu cheguei a cair no meio da confusão e a senhora ao meu lado começou a chorar. Finalmente, o reisu-l-ulema (ou Ra'ῑs-l-ulama),32 Husein ef. Kavazović, pegou o microfone e lembrou as pessoas que elas estavam em um enterro e que os falecidos mereciam respeito. A multidão se acalmou e a cerimônia continuou.
Após o ataque, Vučić foi retirado às pressas do cemitério por seus seguranças e voltou à Sérvia, onde fez uma declaração na televisão de que ele esteve lá por respeito aos mortos e de que estava em estado de choque com o que havia acontecido. O governo da Bósnia também fez declarações condenando a violência. Na RS, as garrafas de plástico que vimos foram noticiadas como pedras e a multidão enfurecida chegou a ser retratada como criminosos estrategicamente colocados ali para matar o primeiro-ministro.
O ataque a Vučić provocou, por fim, sentimentos diversos e, especialmente, trouxe à lembrança o conflito que persiste. Na longa espera da autorização para seguirmos para casa após a cerimônia,33 ouvíamos rumores de que a delegação turca havia sido atacada e, por isso, a coluna de ônibus não estava podendo prosseguir. Foi só um boato, mas com significado, diante de uma cidade vizinha com fotos de Putin, um primeiro-ministro sérvio atacado e a cerimônia em memória aos vinte anos do genocídio em plena RS.
Quando eu visitei o cemitério, em 2019, Šehida Abdurahmanović, também da Associação Movimento das Mães do Enclave de Srebrenica e Žepa, que vive em Potočari, comentou, mesmo sem eu ter perguntado, que o ataque a Vučić foi pura encenação.
5. A disputa: marcas de uma guerra sem fim
Inferno de Srebrenica
Mãe, mãe, ainda sonho com você
Irmã, irmão, ainda sonho com vocês todas as noites
Vocês não estão aqui (3x)
Procuro por vocês (3x)
Não importa aonde eu vá, vejo vocês
Mãe, pai, por que vocês não estão aqui?
Bósnia minha, você é minha mãe
Bósnia minha, te chamarei de mãe
Bósnia mãe, Srebrenica irmã
Não ficarei só.
Cantada em coral em praticamente todos os aniversários do massacre, “Inferno de Srebrenica” é o fundo musical das rememorações do genocídio,34 acompanhado pela flor da memória que, nas semanas que antecedem às cerimônias/enterros coletivos anuais, pode ser vista na forma de broches, adesivos e arte gráfica por toda a parte na Federação e Distrito de Brčko.
Esses símbolos objetificam em versos e imagem o martírio da população muçulmana da Bósnia e o modo como a agressão significa o estado política e subjetivamente. Com isso, segundo Velioglu (2011), o frouxo laço que unia os muçulmanos como uma comunidade nacional – e nacionalizada em torno da designação bosníaco – diferente das demais pôde se fortalecer.
Como explica Nuhanović (2019), “genocídio é uma palavra do TPI”, mas que comprova o massacre e o extermínio da população masculina da cidade em julho de 1995: “ser massacre e não genocídio não torna menor o que aconteceu em Srebrenica”. Mas, na prática, essa qualificação do evento possui enorme carga simbólica e performativa, ao caracterizar a população muçulmana foragida e depois morta como vítima exemplar de uma guerra de limpeza étnica, ao passo que os sérvios seriam os algozes de crime tão abominável contra a humanidade. Concordando com Veena Das, nomear a violência “não reflete apenas lutas semânticas – reflete o ponto em que o corpo da linguagem se torna indistinguível do corpo do mundo; o ato de nomear constitui um enunciado performativo” (Das, 2007, p. 206). Em Srebrenica, a violência foi nomeada; em torno de sua afirmação, negação ou evitação, giram os embates políticos pós-guerra e os sentimentos, afetos e experiências.
Passei uma manhã em Potočari, na casa de Šehida, mencionada anteriormente, que contou também com sua vizinha, Hana, em fevereiro de 2020. Aquela manhã consistiu em ela nos alimentar. Ofereceu-nos baklava (um doce de nozes) com café e uštipce (uns pãezinhos fritos), acompanhados por ovos fritos, ajvar (uma pasta de pimentão com berinjela) e pekmez (uma geleia de maçã) – iguarias que ela mesma fizera. Conto isso, pois o assunto em sua casa girou em torno desses temas, o que comer, o que plantar, como cuidar da terra, sobre a casa onde vivia, sobre o filho na França etc. O assunto “Srebrenica” só surgiu em nossa conversa quando eu falei que iria me encontrar com Grujičić, o prefeito, logo depois. Ela me disse, então, que ele nega o genocídio, mas que, embora o negacionismo a indigne, o importante é que não haja guerra (“važno je da nema rata”).
Como membro da Associação Movimento das Mães dos Enclaves de Srebrenica e Žepa, Šehida esteve juntamente com outras mulheres na cerimônia de entrega do prêmio Nobel de literatura em Estocolmo, na Suécia, em dezembro de 2019, para protestar. O ganhador do prêmio foi Peter Handke. “Ele é chetnik”, conta, “minimiza os crimes sérvios, foi pró-Milošević e nega o genocídio”.35
Porém, o que é negacionismo para muitos, para outros seria a verdade por trás da grande mentira que foi a proclamação do genocídio em Srebrenica. Nos livros sobre o assunto, os argumentos procuram legitimidade na ciência; entre os políticos, os argumentos funcionam como uma bandeira pró-sérvia; entre as pessoas, o assunto provoca revolta e mal-estar.
Vimos o mal-estar de Marija, no começo deste artigo, que, às vésperas das cerimônias, disse-me que Srebrenica a incomoda, pois ninguém deixa nada para trás ou reconhece os crimes cometidos contra os sérvios. Gordana também não acredita que foi genocídio e também sublinha que muitos sérvios foram mortos na guerra.
Na década de 2010, o historiador Stefan Karganović publicou uma série de livros (Karganović, 2012; 2013), parte de seu Projeto Histórico Srebrenica, com financiamento da RS, com o propósito de desconstruir os fatos que aconteceram naqueles dias de julho de 1995.36 Em 2019, uma comissão de especialistas internacionais – historiadores, juristas, militares, jornalistas –, presidida pelo historiador israelense Gideon Greif, foi criada também pelo governo da RS para verificar o que aconteceu realmente nos anos de guerra naquela região. Essas e outras iniciativas semelhantes vinham sempre acompanhadas de muita discussão na mídia sobre a proibição do debate ou a negação/relativização acerca do que teria ocorrido em Srebrenica.
Não é o meu objetivo aqui tratar detalhadamente dos livros de Karganović ou, especialmente, do relatório produzido pela equipe de Greif (Greif et al., 2020). Ambos, contudo, abordam pontos semelhantes com o intuito de desconstruir o fato do genocídio, restabelecendo as identidades das vítimas e o caráter bélico das confrontações. Parafraseando Bourdieu (1983), “escutar é crer”. A história é desse modo reconstruída por esses atores, legítimos e legitimados nesse contexto. Os demais atores são desacreditados e tudo vira uma questão de crença.
Em síntese, seus argumentos clamam que o que aconteceu em Srebrenica não seja reduzido aos poucos dias de julho de 1995. Elencam que o enclave protegido, supostamente desmilitarizado, era centro de difusão da armada bósnia/bosníaca, que fazia incursões em vilas próximas assassinando a população sérvia. Fala-se de mais de dois mil sérvios assassinados na região, geralmente civis e muitas mulheres e crianças – crimes esses que não encontram escuta/credibilidade nem na Federação, nem na comunidade internacional.37
Fala-se também que o número de oito mil indivíduos mortos é impossível. Teriam ocorrido assassinatos, mas parte foi por vingança, direcionada a homens em idade militar, e a maioria devido à derrota no combate armado – o que não constituiria nem crime de guerra, muito menos genocídio. Nas palavras de Manoschek (2020, p. 29): “provavelmente cinco mil pessoas perderam suas vidas em uma semana de emboscadas brutais e combates nas florestas, estradas e vales entre Srebrenica e o distrito de Tuzla”.
Essas publicações criticam também o tipo de análise que foi feito nos corpos encontrados nas valas comuns, visto que a análise de DNA identifica as vítimas, mas não estabelece a causa da morte, sendo impossível dizer se eram civis ou soldados armados em combate, nem mesmo a data da morte. Segundo Đurić e Byard (2020):
Muitas questões ainda existem sobre o número de indivíduos que foram sistematicamente executados, o número daqueles que morreram em combate e o número daqueles que morreram em outros contextos no verão de 1995. […] Conclusões baseadas em dados apresentados ao público até agora devem, portanto, ser cuidadosamente reavaliadas sob todos os aspectos da ciência forense antes que decisões sejam tomadas sobre os prováveis eventos que levaram a essas mortes infelizes (Đurić e Byard, 2020, p. 587).
O caráter planejado dos assassinatos em massa é também posto em questão. Nas palavras de Goldbach (2020):
O plano militar [Krivaja 95] demonstra que a liderança sérvia não tinha um plano inicial para tomar a cidade de Srebrenica, mas para tornar as condições de vida insuportáveis e, assim, forçar uma saída da população sob vigilância da ONU. Isso significa que nenhum plano para executar todos os homens fisicamente aptos poderia ter existido antes de 10 de julho de 1995 (Goldbach, 2020, p. 79).
No Relatório de Greif et al. (2020), critica-se igualmente a utilização de fontes enviesadas pelo TPI, tais como as interceptações de rádio realizadas pelo Exército da Bósnia e Herzegovina (armada bósnia/bosníaca), que teria levado a essas e outras conclusões.
O Relatório estabelece, por fim, que foram mortos na região de Srebrenica no máximo 3.700 bosníacos e 2.000 sérvios (Maksimović, 2021). O primeiro número diminui pela metade os conhecidos oito mil mortos no genocídio, enquanto o segundo vai de encontro a um número já mencionado em outros lugares de sérvios assassinados na região. Sua conclusão é que não há base para atestar que tenha ocorrido um genocídio naquele julho de 1995. Assim, o Relatório e todos os seus capítulos parecem refutar ponto a ponto os termos segundo os quais o crime de genocídio foi estabelecido pelo Tribunal Penal Internacional.
Perguntei à minha colega, Meldijana Arnaut-Haseljić, pesquisadora do Instituto de Pesquisa sobre Crimes contra a Humanidade e Direito Internacional da Universidade de Sarajevo, acerca desses dados quando a visitei em 2020. Ela explicou, primeiramente, que não possui informação sobre as vilas em que sérvios teriam sido assassinados em massa, mas que todo esse movimento que testemunhamos na última década de negação e descrédito é parte ainda do processo de genocídio e do plano e programa que visa a união de todos os sérvios em um mesmo território.
Segundo Škorić e Bešlin (2017, p. 637), o revisionismo político e ideológico na Sérvia, e eu poderia acrescentar na RS, é resultado de um sincretismo entre um revisionismo acadêmico e uma política de estado, que visa distorcer fontes históricas e transformar a memória coletiva. É o que esses autores chamam de pseudo-história, pois se trata de revisões históricas ilegítimas de fatos e teorias. Napolitano (2021) diria que esse movimento de “revisionismo ideológico”, como vimos, é alimentado também por “teorias da conspiração”, ou seja, pelos fantasmas e assombrações do presente e do passado, para fazer referência à fala de Gordana.
Não obstante, esses dados confirmam rumores e, concordando com esses autores, atuam no sentido de conformar uma memória coletiva sobre o que aconteceu em Srebrenica.
Em 2007, por exemplo, quando estive pela primeira vez na Bósnia, eu já ouvia dizer, por parte de alguns interlocutores sérvios que viviam na RS, que foram soldados que morreram em Srebrenica ou que os muçulmanos matavam a si mesmos para conseguir intervenção internacional (Peres, 2010; 2013). Igualmente, em conversas com políticos sérvios em Srebrenica, mas não só, os dados acima foram referenciados; a exemplo do então prefeito da cidade, Mladen Grujičić (2020), para quem o “genocídio” foi parte de um projeto anterior à guerra, montado para transformar os sérvios em algozes. O TPI seria cúmplice desse projeto, de acordo com ele, pois é antissérvio e só condenou sérvios: “se a guerra foi entre três grupos, por que só há sérvios condenados?”,38 retrucou, e citou outros grandes massacres montados para parecer que foram cometidos por sérvios. Acerca das vítimas, segundo ele, tem muita mentira envolvida, pois muitos morreram de outras formas e em outros lugares. E acrescentou, em tom de deboche, que haveria gente que tem seu nome como vítima do genocídio, mas que mudou de nome e hoje vive na Sérvia. Por fim, muitos sérvios teriam sido assassinados e “sobre isso, pouco eles falam”: “se não reconhecerem o que fizeram, se não reconhecerem os mais de três mil sérvios mortos na região de Srebrenica, é impossível a convivência”.
Algo semelhante se ouve cotidianamente entre os bosníacos: que só haverá paz se os crimes contra eles forem reconhecidos pela Sérvia e pela RS. Nas palavras de Šehida, “sem o reconhecimento do que aconteceu em Srebrenica, especialmente pela Sérvia e pela Republika Srpska, não é possível uma vida em comum”.
Visa-se, teoricamente, ao mesmo objetivo geral: um futuro de convivência. Porém, como construir a vida social se eles não conseguem concordar acerca do que aconteceu na guerra? Fiz essa pergunta a Grujičić (2020) e ele afirmou ser impossível: “nós tentamos fazer o que dá, mas sempre aparece algum problema”; e vaticinou: “quando a verdade for provada poderemos conversar sobre qualquer coisa. Nós falamos a verdade, os bosníacos não”.
Estive com o político de Srebrenica, sérvio, Radomir Pavlović (2020), que também mencionou esse projeto antissérvio. Mladen, dono do restaurante onde eu jantei, foi além e disse-me, sem eu ter perguntado, que o que aconteceu em Srebrenica foi decorrência de um acordo entre Alija Izetbegović, presidente da Bósnia durante a guerra, e os Estados Unidos (EUA): “os EUA disseram, matem cinco mil que a gente bombardeia. Os sérvios tinham então 75% do território! Quando os homens foram para as montanhas, muitos morreram em combates, mas também mataram a si mesmos”. Essa mesma versão eu já ouvi outras vezes (Conferir: Secret of the Pentagon leaked..., 2015) e consta no Relatório (Conferir: Goldbach, 2020, p. 87).
Em 1986, um documento conhecido como Memorando, elaborado pela Academia Sérvia de Ciências e Artes (SANU), teria precedido os movimentos nacionalistas e as guerras de secessão e independência na ex-Iugoslávia. Esse documento já apontava como os sérvios eram grandes vítimas da história, explorados e malvistos pelas demais repúblicas e nações da Iugoslávia e pelo regime de Tito.39
Arnaut-Haseljić me mostrou um Memorando 2, documento também produzido pela SANU, que teve alguns de seus trechos publicados na revista de Sarajevo Slobodna Bosna (Dedić, 2013). De acordo com ela e com a reportagem da revista, esse Memorando aborda como os sérvios são as grandes vítimas das guerras dos anos 1990 e traça um plano que visa a união de todos eles em um mesmo estado. Para tanto, o documento traz diretrizes terminológicas e discursivas para a abordagem estratégica de determinados temas, tais como a negação do genocídio, a minimização dos crimes perpetrados pelos sérvios, o uso de termos como “instituições comuns”, e não de “estado” (para se referenciar às instâncias centrais governamentais da Bósnia), o uso do termo “muçulmano”, ao invés de “bosníaco” etc. Em artigo, Arnaut-Haseljić (2019) menciona que a própria RS teria admitido o massacre em Srebrenica, em 2005, mas que voltara atrás, formando o novo comitê de investigação a partir de diretrizes que parecem ir de encontro a esse novo Memorando.
“Negação”, “minimização” e “relativização” são os termos utilizados pelo relatório que se seguiu ao da Comissão de Greif et al. (2020). Produzido pelo Centro-Memorial Srebrenica-Potočari e publicado em 2022, o “Relatório sobre a negação do genocídio” (Pećanin, 2022) pesquisa e analisa o relatório da Comissão e outros meios em que o genocídio foi posto em questão naquele último ano, não obstante a Resolução acerca da proibição da negação do genocídio e da heroicização de criminosos de guerra estipulada em 2021 pelo Alto Representante das Nações Unidas para a Bósnia, sob o risco de punição e prisão.40 Refutando seus argumentos, esse novo documento repõe e reforça a tese do genocídio.
O pós-guerra, nesse embate, perdura, colocando na pauta a possibilidade da guerra novamente. Se aconteceu ou não o massacre, se é um plano sérvio pela grande Sérvia ou um complô internacional contra os sérvios, o que observamos em campo é que muitos dos argumentos ressoam como rumores e afetam, confirmando as diferenciações fixadas pela guerra, que dizem respeito não só a categorias étnico-nacionais de adscrição identitária, mas a modos de estar no mundo e de dar sentido à própria experiência. Srebrenica, em meio aos embates, aparece em lugar de destaque. Em torno dessa cidade e do genocídio (e de sua contestação) que projetos hegemônicos de nação vão se firmar, se chocar e afetar os sujeitos. Nesse universo de discursos e contradiscursos, alguns se sentem ameaçados e outros injustiçados, porém todos parecem sentir algum tipo de incômodo em relação a algo que não chegou a um termo de resolução e reconhecimento, oficiais ou subjetivos.
6. Considerações finais
Na primeira vez que fui para a Republika Srpska, em 2007, ouvi que o cerco a Sarajevo não foi realmente um cerco e que em Srebenica foram soldados que morreram (Peres, 2010; 2013). Tudo isso soava como um discurso vazio, como se as pessoas, na defensiva, não quisessem ser identificadas como perpetradoras. Ao mesmo tempo, não parecia que elas acreditassem naquilo que estavam dizendo (há também a chance de eu não tê-las levado a sério), pois mais parecia uma desculpa a si mesmas para que continuassem seguindo suas vidas.
Atualmente, percebo que essa história está incorporada, foi se cristalizando como memória coletiva. As pessoas não só acreditam nesses fatos, como elas vivem em consonância a eles, inclusive em uma cidade como Srebrenica.
Justamente onde aconteceu o genocídio (como corroborado pela ONU, por testemunhas, livros diversos de pessoas que literalmente viram outras desaparecerem de um dia para o outro), foi possível construir uma história que nega isso. Tinha momentos em que mesmo eu, em campo, me perguntava acerca da validade de alguns pontos omitidos ou pouco mencionados na história do genocídio, pois, de fato, havia soldados que morreram em combate na fuga por aquelas montanhas, provavalmente vítimas mortas em outros contextos podem ter sido encontradas naquelas valas comuns e enterradas em Potočari, e havia muitos sérvios mortos também no conflito em uma história que não necessariamente deveria contradizer o fato do genocídio. Ou seja, tudo isso era plausível e a única constatação possível referia-se à enorme dificuldade em se construir uma narrativa unificada.
Em torno do reconhecimento ou não do genocídio em Srebrenica, encontram-se, portanto, os termos inconciliáveis e definidores da guerra, que não possuem igual escuta e mesmo se contradizem, corroborando para a perpetuação de uma violência simbólica e semântica sentida pela população, dividida em grupos nacionais distintos e oposta pelo conflito armado.
Encerro este artigo com uma nota final informativa. No dia 24 de março de 2025, o Supremo Tribunal da Bósnia e Herzegovina (Sud BiH) condenou em primeira instância o presidente da Republika Srpska, Milorad Dodik, a um ano de prisão e seis anos de afastamento da vida política por desobedecer à Constituição da Bósnia e Herzegovina e à autoridade da ONU para a Bósnia e Herzegovina, representada por Christian Schmidt. O caso refere-se, especificamente, à promulgação pelo Congresso Nacional da Republika Srpska, em 2023, de uma lei que isentaria a Republika Srpska do compromisso de respeitar e cumprir as leis promulgadas pelo Alto Representante da ONU. Além de Dodik, também foram condenados o primeiro-ministro da Republika Srpska, Radovan Višković, e Nenad Stevandić, presidente da Assembleia Nacional da Republika Srpska.
No momento da finalização da revisão deste artigo, em 22 de abril de 2025, continuam todos em liberdade e a Interpol negou o pedido de captura internacional para Milorad Dodik e Nenad Stevandić.
É um momento de tensão e incertezas. Algumas pessoas com quem conversei nos últimos dias olham o futuro com otimismo, visto que muito da violência descrita neste artigo advém do uso político de medos e anseios por parte de Milorad Dodik e aliados, desde a década de 2000. Por outro lado, assembleias municipais na Republika Srpska começam a se movimentar para elaborar uma nova constituição de teor independentista, para não dizer secessionista, e em repúdio à decisão do tribunal nacional.
Por fim, diante da recusa da Interpol e da definição do crime como de desordem constitucional, é possível que nada aconteça para além da continuidade dos embates, tais como os descritos aqui, ou de sua radicalização, com ou sem a prisão desses líderes e seus afastamentos da cena política. Por outro lado, é possível também que, caso sejam presos e afastados, possamos finalmente testemunhar o término de uma era marcada por ameaças, medos, desconfianças, rancores e negacionismo. Saberemos em breve.
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Um primeiro esboço deste artigo foi apresentado como paper no 47º Encontro Anual da Anpocs, em 2023, e publicado em seus Anais.
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A pesquisa foi realizada no escopo do projeto “Diferenças em contextos plurais” (auxílio à pesquisa Fapesp n. processo 2007/20360-2).
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2
A região abordada por este artigo possuía e ainda possui, em sua maioria, população sérvia e bosníaca (muçulmana).
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3
A Força de Proteção das Nações Unidas (The United Nations Protection Force), a UNPROFOR, eram de observadores militares. Elas podiam utilizar força militar em caso de ataque a elas (e não à população civil).
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4
Em conformidade ao Acordo de Dayton, a Bósnia e Herzegovina foi dividida político, étnico e administrativamente em duas entidades, a Republika Srpska, de maioria sérvia, e a Federação da Bósnia e Herzegovina, de maioria bosníaca (muçulmana) e croata. O Distrito de Brčko, que conforma 1% do território, foi estabelecido apenas em 1999, como distrito multinacional, pertencente às duas entidades.
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5
Esses e outros dados podem ser encontrados no site do Mecanismo Residual Internacional para os Tribunais Penais (United Nations: International Residual Mechanism for Criminal Tribunals., s.d.).
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6
O relatório da comissão acerca dos crimes cometidos em Srebrenica na guerra foi divulgado em junho de 2021 e está disponível on-line (Greif et al., 2020). Tratarei dele adiante.
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Todas as traduções do artigo são minhas.
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8
A entrevista com Hotić foi realizada na sede da Associação, em Sarajevo. Friso, contudo, que muitas das conversas aqui citadas, tal como a com Marija, foram casuais; não as referencio, portanto, como entrevistas. Sublinho também que Marija e alguns outros nomes que citarei adiante são nomes fictícios que dei a pessoas de meu convívio pessoal. As pessoas que entrevistei possuem seus nomes reais referenciados.
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9
A Marcha parte de Nezuk, vila de Sapna, e segue até Potočari. Nezuk era a última vila antes da chegada ao território livre. A região hoje fica na RS, na divisa entre as entidades.
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10
O termo logoraši refere-se a detentos de campos de concentração e detenção.
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Filme Quo vadis, Aida (2020), inspirado nos relatos de Nuhanović, que trabalhava como tradutor na base da UNPROFOR.
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12
Essas informações podem ser encontradas em extensa bibliografia acerca do massacre. Ver Delpla, Bougarel e Fournel (2012), Duijzings (2007), entre outros.
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13
Šabić fez parte das forças de defesa de Srebrenica e conduziu pelas montanhas uma coluna de centenas de homens em direção a Tuzla, em julho de 1995. Em entrevista, ele contou dos confrontos armados ao longo da travessia, de como fora ferido e de como muitos morreram e outros sobreviveram, especialmente de sua coluna, nesses confrontos.
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14
Zijad Čusto é um ativista pelos direitos dos ex-prisioneiros (logoraši) e inválidos de guerra, que, assim como ele, sofreram diversas formas de tortura durante o conflito. Ele é também um grande amigo e interlocutor de Brčko.
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15
Segundo Napolitano (2021), o revisionismo histórico faz parte do fazer história, sendo definido como o ato de rever informações com base em novos dados. O que temos na Bósnia se enquadraria na definição que ele dá para o revisionismo ideológico, que é uma revisão seletiva de dados com vista a confirmar posições político-ideológicas e negacionistas.
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16
Segundo relato de Šabić (2019), soldados bosníacos, embora em menor quantidade, continuaram atuando na cidade e combatendo sérvios nas redondezas, não obstante a proibição da ONU.
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Daí o mea culpa, segundo Duijzings (2007), da comunidade internacional concretizado na proclamação do genocídio e no apoio à construção do cemitério e memorial em Potočari.
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18
O termo četnik diz respeito, originalmente, a uma milícia monarquista sérvia que lutou na Segunda Guerra Mundial. Nas guerras dos anos 1990, ele aparece novamente, designando uma milícia sérvia, e passa a ser utilizado pelos não-sérvios para distinguir sérvios nacionalistas e que cometiam atrocidades da população sérvia de modo geral.
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19
Essas tropas chegaram a tomar Srebrenica no início da guerra, mas foram rapidamente expulsas da cidade. Sua população muçulmana fugiu de lá em um primeiro momento, mas retornou com a retomada da cidade em seguida.
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Como morei a maior parte do tempo em Sarajevo, eu costumava ser identificada com essa cidade e com os bosníacos.
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21
Com fábricas e firmas, Srebrenica também oferecia banhos medicinais, o que a tornava autossuficiente em termos econômicos e atrativa para turistas. Conferir: Hasan Nuhanović (2019), Kada Hotić (2019) e Ćamil Duraković (2019).
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Segundo o censo de 2013, Srebrenica possuía 36.666 habitantes em 1991. Em 2013, eram 13.409. No quesito pertencimento nacional, em 1991, muçulmanos perfaziam 75,2% da população total, enquanto em 2013 eram 54,1% (bosníacos). Os sérvios eram 22,7% do total em 1991 e, em 2013, 45%. A região de Potočari tinha maioria muçulmana/bosníaca em 1991 e em 2013 (Statistika, 2024).
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Segundo o dono da única ašknica da cidade (restaurante de comida bósnia), não valia a pena funcionar até mais tarde, especialmente no inverno, pois ninguém saía para as ruas depois disso.
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Encontrei o lugar onde fiquei hospedada pela internet e, de fato, vi ali apenas este e mais um hotel.
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A ideia de uma cidade assombrada, de fantasmas da memória, de traumas que assombram e de como isso afeta as pessoas que ali vivem e viveram vem se configurando como um interessante tema para uma reflexão futura. Sobre autores que trabalham esses tópicos em diferentes contextos, ver: Cho (2008), Carsten (2007) e Navaro-Yashin (2012).
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Participei de uma dessas excursões por ocasião de um workshop sobre violência, em 2007. O ônibus parou no memorial e cemitério, bem menores naquela ocasião, e depois em uma vala comum, recém-descoberta. Ali o guia nos mostrou os restos de corpos e objetos revelados pela escavação, fato descrito com repúdio por uma antropóloga de Banja Luka que participava do evento (Conferir: Simic, 2008). O passeio encerrou-se com um rico jantar, já à noite, feito especialmente para nós, na cidade de Srebrenica. Não caminhamos pela cidade, fomos direto ao restaurante.
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27
As cerimônias em memória aos sérvios mortos em Podrinje central e Birča ocorrem todo dia 6 de julho em Bratunac. Os sérvios reivindicam especialmente o reconhecimento dessas mortes.
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28
Aliados históricos dos sérvios, os russos são também um povo eslavo, de língua eslava e religião cristã ortodoxa.
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29
Números em retirados de JKP (2015). Em 2023, trinta pessoas foram enterradas; em 2024, quatorze. A tendência é que esse número siga diminuindo, visto que os restos mortais são cada vez mais diminutos.
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Entre os delegados estavam Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, que foi ovacionado pela multidão – presente também na inauguração do memorial-cemitério em 2003; Serge Brammertz, procurador-chefe do Tribunal em Haia; Theodor Meron, presidente do Tribunal em Haia; Valentin Inzko, Alto Representante da ONU para a Bósnia; Jan Eliasson, Vice-Secretário Geral da ONU; Rainha Noor da Jordânia; Ahmet Davutoğlu, Primeiro-Ministro da Turquia; Kolinda Grabar-Kitarović, Presidente da Croácia; Borut Pahor, Presidente da Eslovênia; Dragan Čović, membro da Presidência da Bósnia; entre outros (Halimović, 2015).
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Em entrevista, Duraković (2019) disse-nos que foi uma reivindicação das próprias vítimas separar o evento político dos enterros coletivos.
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32
O reisu-l-ulema é a maior autoridade da Comunidade Islâmica da Bósnia. O termo significa o líder dos conhecedores da religião.
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33
Havia uma organização da coluna de ônibus que saía da vila.
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34
Letra de Džemaludim Latić e música de Celal Yusic. Ver vídeo no YouTube: “Srebrenički inferno” (2013).
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35
Sobre isso, conferir Delalić (2019).
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36
Karganović foi acusado de corrupção e evasão fiscal em 2016 (Buka, 2019). Seu trabalho caiu, assim, no esquecimento.
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37
Dentre os massacres e limpezas étnicas ocorridas durante as guerras na ex-Iugoslávia, somente o massacre em Srebrenica foi considerado um genocídio pelos motivos elencados anteriormente.
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38
A grande maioria é de sérvios condenados. Há, entretanto, condenados dos demais grupos nacionais (United Nations: International Criminal Tribunal for the former Yugoslavia, s.d.).
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39
Sobre o Memorando da SANU de 1986, ver Bragaia (2013).
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40
Emenda ao Artigo 145a da Legislação Penal da Bósnia e Herzegovina (Pećanin, 2022, p. 44).
Referências
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» https://6yka.com/novosti/grof-stefan-lazni-dobijao-milione-da-bi-pravio-crne-liste-i-lagao-o-srebrenici-danas-na-potjernici-ko-je-karganovic? - CARSTEN, Janet. Ghosts of memory: essays on remembrance and relatedness. Oxford: Blackwell, 2007.
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Lista de entrevistas
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- DURAKOVIĆ, Ćamil. 28 fev. 2019. Srebrenica. Entrevista concedida a Andréa Carolina Schvartz Peres e Dženeta Hodžić.
- GRUJIČIĆ, Mladen. 27 fev. 2020. Srebrenica. Entrevista concedida a Andréa Carolina Schvartz Peres.
- HOTIĆ, Kada. 13 fev. 2019. Sarajevo. Entrevista concedida a Andréa Carolina Schvartz Peres.
- NUHANOVIĆ, Hasan. 18 fev. 2019. Sarajevo. Entrevista concedida a Andréa Carolina Schvartz Peres.
- PAVLOVIĆ, Radomir. 26 fev. 2020. Srebrenica. Entrevista concedida a Andréa Carolina Schvartz Peres.
- ŠABIĆ, Vejiz. 4 mar. 2019. Sarajevo. Entrevista concedida a Andréa Carolina Schvartz Peres.
Editado por
-
Editor Responsável:
João Maia
-
Editor Associado:
Luis Felipe Kojima Hirano
Datas de Publicação
-
Publicação nesta coleção
05 Set 2025 -
Data do Fascículo
2025
Histórico
-
Recebido
31 Ago 2024 -
Aceito
04 Maio 2025
