Resumos
Resumo Este artigo aborda a poesia da ativista, historiadora e poeta Beatriz Nascimento. Sua textualidade tematiza a presença negra na diáspora brasileira e desagua em um projeto étnico-literário. Trata-se da reflexão sobre as estetizações negras. São representações literárias positivas, desvinculadas dos estereótipos de violência e escravidão. Observa-se uma confluência com a antropologia e literatura de autoria negra, pois o imaginário simbólico da intelectual deriva de mimetizações de liberdades, presentes nas abordagens espaciais, identitárias e culturais. A análise apoia-se em duas categorias: encruzilhada e ancestralidade. A metodologia é a fenomenologia afro-diaspórica.
Palavras-chave:
Beatriz Nascimento; projeto étnico-literário; antropologia e literatura de autoria negra; travessia Atlântica; encruzilhada
Abstract This article discusses the poetry of the activist, historian and poet Beatriz Nascimento. Her textuality addresses the black presence in the Brazilian diaspora and culminates in an ethno-literary project. It is a reflection on black aestheticizations. These are positive literary representations, detached from stereotypes of violence and slavery. There is a confluence with anthropology and literature by black authors, as the intellectual's symbolic imaginary derives from mimicries of freedom, presented in spatial, identity and cultural approaches. The analysis is based on the categories of crossroads and ancestry. The methodology is Afro-diasporic phenomenology.
Keywords:
Beatriz Nascimento; literary ethnic project; anthropology and literature by black authors; Atlantic crossing; crossroads
1. Introdução ao projeto negro-literário Atlântico1
A vontade de pensar com Beatriz Nascimento (1942-1995), ativista, historiadora, professora de História, poeta, pesquisadora e Doutora Honoris Causa in memoriam, surgiu a partir das leituras de Abdias Nascimento (2019), realizadas entre os anos de 2019 e 2021, durante o estágio pós-doutoral, que a cita como fonte documental; da apreciação do artigo da historiadora Janira Sodré Miranda (2023), dedicado à compreensão do projeto historiográfico da autora em pauta; e das leituras e diálogos em um curso ministrado na pós-graduação stricto sensu, Antropologia e Literatura de Autoria Negra, em 2023.
Se há um projeto historiográfico em Beatriz Nascimento, como afirma Miranda (2023), vejo que há também um projeto literário, que possui interlocução com a antropologia e a literatura de tintas negras. Essa produção é guiada por uma fidelidade temática, determinada pelas relações raciais e orientada pelo ativismo no movimento social negro e pelos exames dos quilombos e das culturas negras, codificados em sua textualidade histórico-científica. Como lembra Ratts (2015), a autora, em suas produções científicas, transita pelos quilombos, terreiros, favelas, congadas e bailes blacks, sem se desfazer da identidade de ativista e de mulher negra.
É a partir da encruzilhada, enquanto categoria analítica, que emergem temas correlatos de sua poética, os quais a ela permanecem vinculadas. Para teorizá-la, recorro à Leda Maria Martins (2003), criadora desse conceito. A encruzilhada constitui uma semântica originária dos cruzamentos, das diluições de fronteiras do conhecimento, de filosofias e de cosmovisões. Tais diluições e cruzamentos ocorrem de forma amistosa e/ou conflituosa, construindo justaposições sígnicas.
No caso de Beatriz Nascimento, a encruzilhada estabelece a intermediação de dois sistemas semiótico-culturais distintos – África e Brasil –, que, embora diferentes, estão interligados na promoção de um devir autônomo e interdependente, como o Brasil, nascido da encruzilhada, na travessia do Atlântico. Assim como o quilombo, que também expressa essa síntese negra dos encontros. O quilombo configura-se como uma espacialidade eleita por ativistas, a exemplo de Beatriz, enquanto marco fundante da presença negra no Brasil, proveniente da encruzilhada Atlântica, do encontro, do conflito colonial, da reinvenção do fenômeno da vida e da diluição de fronteiras segregacionistas entre o Brasil e a África.
Falo de encruzilhada para falar de Legbá – Exu2 –, tão caro ao projeto étnico-literário versado por Nascimento. “Legbá” é também nome de um poema3 de Beatriz, escrito em 1988, publicado no livro “Todas (as) distâncias” (Nascimento, 2015). Este lembra, como será visto adiante, a encruzilhada. O projeto étnico-literário de Nascimento tem suas bases assentadas na encruzilhada, pelo quilombo, e em outras expressões culturais e territoriais de liberdade, fincadas na diáspora não branca, como terreiros e congadas.
A ancestralidade é convocada nessa missão estético-interpretativa. Ao invocá-la, acompanho o filósofo Eduardo de Oliveira (2012). Para ele, a ancestralidade é o resgate da tradição africana, de significantes culturais banto, jêje e nagô. Uma tradição germinada das terras de D’Além Mar, enraizada no corpo e nele florescida. Com o advento da travessia funesta, essa tradição, em contato – em meio às dificuldades, aos traumas e às alegrias no sim à vida, renovado pelo povo negro na diáspora –, se atualizou e ganhou novos significados a partir do significante africano.
Oliveira (2012) pontua que a ancestralidade é também um compromisso ético. Posto que tal compromisso nasce da relação entre Brasil e África, uma relação amolada na encruzilhada. A ancestralidade, por meio da ética da relação, instaura uma ligação entre mundos distintos, porém interligados. A interligação é iniciada por meio da inclusão. Quando estetizações da palavra, como as de Beatriz Nascimento, se voltam para o continente africano e promovem o diálogo entre ele e sua diáspora, é indício que a encruzilhada está em ebulição, cumprindo sua sina.
Por isso, a ancestralidade, e/ou a filosofia da ancestralidade, é o conceito motriz para leitura do texto poético de Nascimento, posto que prima, conclui o autor (Oliveira, 2012, p. 41), pela “excelência da forma cultural africana e, por isso mesmo, seu tecido é o da diversidade”. Em outras palavras, a ancestralidade é uma poética inventada para pensar a diversidade, construída na relação. E, no caso da etnia negra, sua base de apoio é a cultura africana e seus elos, encadeados na encruzilhada, rota de acesso ao quilombo.
De posse da analítica do projeto étnico-literário de Beatriz, desenvolvida na próxima seção a partir de alguns de seus poemas e orientada pelos conceitos de encruzilhada e ancestralidade, almeja-se plantá-la no terreiro da antropologia e de expressões negro-estetizadas. O que o projeto étnico-literário de corporeidade negra busca é firmar representações positivas da negritude brasileira por meio da interpretação etnográfica do texto poético de assinatura “melanodérmica”.4 Tais representações são concebidas pelo imaginário negro estetizado, em tempos de paz. A analítica antropológica dessa estética, fundamentada na etno-teoria, se chama de antropologia e literatura autoral negra.
Esse intento é cumprido por meio da metodologia fenomenológica afro-diaspórica. Trata-se de uma atenção dirigida ao direcionamento imagístico, enquanto polo produtor de semânticas de afirmação do segmento étnico socialmente invisibilizado. É um desafio interpretativo voltado para o jogo dialético de ocultação e desocultação do self negro, localizado nas imagens literárias e suprimido pela ideologia racial. Por essa razão, a metodologia recebe o nome de fenomenologia. Seu núcleo repousa na decifração do campo simbólico antitético. Nesse caso, presente nos escritos poéticos de Beatriz Nascimento, encarnados no projeto étnico-literário e no engajamento deste na antropologia e literatura de tintas negras.
A reflexão sobre o projeto literário em parte dos poemas de Beatriz Nascimento é inédita, assim como o é a proposta sobre um paradigma antropológico literário de tintas pretas. Esta pesquisa discute o projeto literário em Beatriz Nascimento e propõe o conceito de antropologia e literatura de autoria negra. Embora existam reflexões sobre os versos de Beatriz, como as de Nunes (2022),5Ratts (2015)6 e Santos (2020),7 ainda não há estudos nas Ciências Humanas e no campo das Letras sobre os temas abordados neste artigo.
Além desta introdução e das conclusões, o texto é dividido em duas seções. A primeira, “Da encruzilhada ancestral ao projeto étnico-literário”, se apoia na carga simbólica, rastreada na analítica do imaginário poético de alguns poemas, do ano de 2015, escritos na década de 1980. A sequência dos poemas e da prosa, sendo esta citada na última seção, não é cronológica. A segunda, “Beatriz Nascimento: por uma antropologia e literatura de invenção melanodérmica”, percorre alguns ensaios e prosas da autora para visualização da permanência dos temas aqui tratados, e o credenciamento deles à antropologia e literatura de autoria negra. Devido as limitações deste artigo, o enfoque analítico recai nos poemas. As prosas e ensaios não serão examinados, apenas mencionados, na terceira seção, para indicação da permanência da ancestralidade e da encruzilhada.
2. Da encruzilhada ancestral ao projeto étnico-literário
O poema que abre o documentário8 “Orí” (Gerber, 1989; Nascimento, 2018), transcrito em um livro publicado no ano de 2018 e organizado pela União dos Coletivos Pan-Africanistas, reúne parte dos escritos científicos e literários da poeta:
A Terra é circular, o Sol é um disco, onde está a dialética? No mar, Atlântico-mãe. Como eles puderam partir daqui para um mundo desconhecido? Aí eu chorei de amor pelos navegadores, meus pais. Chorei por tê-los odiado. Chorei por ainda ter mágoa desta história. Mas chorei fundamentalmente, diante da poesia do encontro do Tejo com o Atlântico, da poesia da partida para a conquista. Eles o fizeram por medo também e talvez tenham chorado, diante de todas as belezas além do mar Atlântico. Oh paz infinita, poder fazer elos de ligação numa história fragmentada. África e América e novamente Europa e África. Angola, Jagas e os povos de Benin de onde vem minha mãe. Eu sou Atlântica! (Nascimento, 2018, p. 326-327).
A imagem poética do verso derradeiro afirma: “eu sou Atlântica!”. Ela é alusiva ao Oceano Atlântico, mas à encruzilhada, marco fundante da etnicidade negro-diaspórica, e também dessa poética. Beatriz faz menção não só ao Atlântico, mas também à travessia negra das águas, chamada aqui de encruzilhada. Para o eu poético, é na “Atlântica”, igualmente chamada de “mãe” (referência à Iemanjá,9 orixá das águas salgadas, cultuada nas duas margens do Atlântico Sul), que a etnia negra nasce, como uma forma de mentação da encruzilhada. Mas é também na Atlântica que a embarcação poética se agita e inicia uma navegação controversa.
O excerto de Orí (Nascimento, 2018) é urdido de imagens moventes que narram a travessia do Atlântico. O eu poético usa imagens marítimas para anunciar as transformações impostas à etnicidade negra. Ora por meio de ondas que trazem admiração socioespacial do entorno, antes do embarque, antes da trágica movimentação que se sucedeu: “a terra é circular, o sol é um disco” (Nascimento, 2018, p. 326). Outrora pela rebelião das ondas, para expressão do sequestro de africanos: “chorei por ainda ter mágoa desta história” (p. 326) / “como eles puderam partir daqui para um mundo desconhecido?” (p. 326). E conclui com a síntese, pela instauração da filosofia do materialismo histórico-dialético, reclamada no primeiro verso, “onde está a dialética” (p. 326), com a vitória do eu poético sobre a colonização negro-moderna, pela reconexão identitário-espacial: “oh paz infinita, poder fazer elos de ligação numa história fragmentada / África e América e novamente Europa e África / Angola, Jagas e os povos de Benin de onde vem minha mãe / Eu sou Atlântica!” (p. 327). A imagem do penúltimo verso, “Angola, Jagas e os povos de Benin de onde vem minha mãe”, discorre sobre a ancestralidade materna do eu poético.
É contra o encobrimento étnico que as ondas sublevam e promovem a paz identitário-memorialística, de envergadura espacial, pela reterritorialização africana nas Américas. Com os versos inaugurais de Orí (Nascimento, 2018), citados integralmente no início desta seção, Beatriz funda um olhar sobre o papel histórico do Atlântico como formador da modernidade negro-brasileira.
Orí (Nascimento, 2018) hospeda o projeto étnico-literário de Beatriz Nascimento. Projeto cujo principal aspecto é a reescrita da história do Brasil, por meio de poema, a partir do significante “travessia do Atlântico”, decodificado aqui como encruzilhada. Esses são os modos negros de ressignificação do passado, feita em primeira pessoa, não encolhida à escravidão, atenta às invenções de liberdade no espaço e no tempo. A historiadora e poeta confirmou essa assertiva na entrevista ao também poeta Jônatas Conceição, de 17/09/1989, ao Jornal do MNU10, três dias antes do lançamento do filme em circuito nacional, na cidade de Salvador, Bahia. Em meio à explanação da categoria homônima à peça cinematográfica, ela disse: “Orí é o novo nome da história do Brasil” (Nascimento, 1989).
Em “Legbá”, escrito em 1988, o eu poético passa por transformações ambivalentes – de homem à mulher, de paz (fun-fun) à fúria (animal bestial), do contrário (antítese) às mutabilidades (cobra e arco-íris), da ação contínua (sinuosa dança e serpente coral) aos mistérios do universo (morte estranha) – articuladas por Èsú, Exu e/ou Legbá, um de seus nomes. Exu é diverso, em constante mutação, “origem e retorno”. Daí a representação como cobra. Na cosmovisão africana, as metamorfoses são encarnadas também pela deidade Oxumarê, manifesta pelo arco-íris. Beatriz justapõe os mesmos significados de significantes distintos. E, assim como a encruzilhada, funde caminhos opostos, promovendo a desordem na ordem cósmica, a exemplo de Legbá.
Origem e retorno / Fulgurante arco / De Olorum o poder / Fun-fun atuante / Homem, depois mulher / Híbrido de arco-íris / Envolvente, cromático / Símbolo de esperança / Movimento de beleza / Estático espectro / Solar / Grandeza maior / Faça o que dever ser feito / Por que quem o era / Já se foi! “Arroboboi”! / Encontra-se sua antítese / Destrua-a / Não como ela foi / De morte estranha e doída / Velha e carcomida / Como animal bestial / Tempo, tempo, tempo / Não temo meu ideal / Tudo em ti se transforma / E mais em ti “sursum corda” / Nada me resta, ancestral / A não ser tua sinuosa dança / De cobra, serpente coral! (Nascimento, 2015, p. 38).
“Legbá” pode ser lido também como homenagem ao corpo, altar no qual Exu reina. Segundo a cosmovisão afro-brasileira, há um Exu na corporeidade. É o Bará, Elegbara ou Legbá. O “Legbá” de Beatriz Nascimento (2015, p. 38) potencializa as mudanças e articulações do e no corpo: “Homem, depois mulher / (...) movimento de beleza / (...) nada me resta, ancestral / a não ser tua sinuosa dança / de cobra, serpente coral!”.
“Legbá” presenteia o leitor com versos que autorizam a identificação do ethos do projeto étnico-literário de Beatriz Nascimento. Vide a tematização da encruzilhada e da ancestralidade, por meio de Exu, representado nas mudanças performadas pelo corpo. Nota-se que o Exu evocado por Beatriz, o do corpo, é escrito no nome do poema como ‘Legbá’, e não como ‘Exu’, grafia brasileira da divindade ancestralizada na África. Com esse gesto, ela confirma a vinculação à tradição africana e sua coerência estético-política.
Exu continua saudado pelos seus domínios, com uma linguagem direta. Isso se dá, tal como em “Legbá”, no poema “Aeroporto”, de 1988.
Ruído inaudível. Mil decibéis / Turbinas em voleios / Corpos eretos / Rostos ansiosos, faces sisudas... / Da espera... / Da chegada... Do novo. / Do comum / Tarde no aeroporto. / Sons hipersônicos. / Podiam alienar, / Mas não afastam / A angústia interna / Da espera do que está / Do voo que se pretende / Para outro porto / Porque, planar é preciso / Viver não é. / Sinais, códigos, bandeiras / Controles e torres / Onde minha torre? / Para onde volto? / Qual o meu porto? / Te recordo grande Tejo / De Pessoa. / Te recordo grande Cuanza / De escravos. / Te recordo grande Tapajós / Jorro de separação amazônico / Te recordo tudo o rio que deságua / Simplesmente deságua / Corro minhas lágrimas / Como meu corpo nessa cama nua, / Com este calor de quarenta graus / Deságues minha vida / Como a percebi e a queria / Como a prometi a mim / Te recordo grande Atlântico / Que me beira / Que me rejeita / Esquecendo nossa aliança inicial: /De ti nasci / A ti quero voltar / Como peixe atento / Como tartaruga silente / Como baleia distraída / Aeroporto porto do ar / Aterrisse minha paz / Sem volteios circundantes / Sem choques no concreto / Sem não-sei-a-quê direção / Aterrisse simplesmente / Todo o ruído / Paralise todas as turbinas / Quebre minhas fronteiras / Atreladas no inferior / Sem refúgio orgânico / Como John in “just a jealous / Guy”, no cry... / Quebre-me as cadeias / Deste imenso amor (Nascimento, 2015, p. 46-47).
A ocorrência linguística da intertextualidade com Orí (Nascimento, 2018), acena para a permanência da encruzilhada e da ancestralidade negro-religiosa. A intertextualidade é observada nos movimentos existenciais do eu poético. No instante do embarque, ele reverbera tristezas da recordação do sequestro moderno de negros: “a angústia interna / da espera do que está / do voo que se pretende / para outro porto / (...) te recordo grande Cuanza / de escravos” (Nascimento, 2015, p. 46); e a superação delas pela elaboração da diáspora: “te recordo grande Atlântico / que me beira / que me rejeita / esquecendo nossa aliança inicial: /de ti nasci / a ti quero voltar / aeroporto porto do ar / aterrisse minha paz” (p. 47). Isso se dá na movimentação simbólica das estradas aéreas, no aeroporto. Em Orí (Nascimento, 2018), isso foi simbolizado11 na imagem da travessia do Oceano Atlântico, domínio das deusas Iemanjá e Oxum. Em “Aeroporto” (Nascimento, 2015), ocorre nos ares, ambiência de Oxalá,12 pelos giros dialéticos, pela religação com a África, mesclados com imagens aquáticas da diáspora étnica que direcionam para Orí: “te recordo grande Tapajós / te recordo tudo o rio que deságua / te recordo grande Atlântico” (Nascimento, 2015, p. 46). Tanto “Aeroporto” (1988) quanto Orí (Nascimento, 2018) lembram Ogum, divindade que responde pelas estradas.
“Aeroporto” recorda “Legbá”. Ali, Exu não estava só, mas com Oxumarê respondendo pela tematização da ancestralidade. Em “Aeroporto”, está com Ogum.13 As imagens do poema, ligadas à aviação, tecnologia e às estradas aéreas, carregam essa marca: “turbinas em voleios / (...) tarde no aeroporto / sons hipersônicos / (...) do voo que se pretende / (...) porque, planar é preciso” (Nascimento, 2015, p. 47). Assim como aquelas ligadas ao desejo de superação das tristezas disseminadas pela tragédia moderna da escravidão, “aeroporto porto do ar / aterrisse minha paz / (...) paralise todas as turbinas / quebre minhas fronteiras” (p. 47). Enquanto Ogum é vitória, Exu é alegria. Por isso, representam a superação.
No final do poema “Aeroporto”, o eu poético anseia pela pacificação na chave erótico-existencial, mas esta não vem pela miscigenação. Mas chega, sim, do modo que recorda Orí, pela reconexão identitária. Amor pelos da mesma etnia. “Aeroporto porto do ar / Aterrisse minha paz / (...) Quebre minhas fronteiras / Quebre-me as cadeias / Deste imenso amor” (Nascimento, 2015, p. 47). Nesse sentido, Ratts aciona um lema caro aos ativistas e intelectuais negros da geração de Nascimento: “Beatriz nos indica que no amor importa a cor” (Ratts, 2007, p. 76). Tão caro que a poeta o migrou para a vida pessoal. O primeiro matrimônio foi com o arquiteto cabo-verdiano José Gomes, pai da bailarina e professora de dança Bethânia Gomes, disse o antropólogo Alex Ratts (2015).
“Inusitado”, escrito em 1987, prossegue – ou antecede, se considerarmos a data em que foi escrito – com a abordagem amorosa e fiel ao projeto étnico-literário por meio das tematizações da encruzilhada e da ancestralidade.
Antes tudo acontecesse como antes aconteceu / Não vindo como algo novo / Seduzindo o que não estava atento / Antes tudo acontecesse como o aviso do sinal / Atenção! “Está prestes a se concretizar” / E não como serpente silenciosa / Em seu silvar / Antes tudo acontecesse quando te sentisses forte / Capaz de reagir, que pudesses sangrar / Antes tudo acontecesse como se fosse o previsto / Visto de trás ou de longe / Antes que te atingisses de frente / Antes tudo acontecesse como acontecem as histórias / De encontros e rompimentos, num mergulho sem demora / Antes tudo se passasse como passa o Arco-íris / Num momento luz, noutro bruma e crepúsculo (Nascimento, 2015, p. 39).
A poeta dedica os versos de “Inusitado” a Oxumarê. Se a encruzilhada é território do novo e de incertos porvires, tudo sob a regência de Èsú, assim também é o amor, tema do poema. Este, como o título sugere, é inusitado, pode ser monocromático, mas também policromático, como o arco-íris, pelo qual responde a deidade africana.
“Inusitado” vincula-se com “Legbá”, traz o Mensageiro, mas também Oxumarê. Em “Inusitado”, Exu é lembrado pelas sutis e súbitas antíteses em versos. Recobra-se de “Legbá”, há ali a presença de Oxumarê, “nada me resta, ancestral / a não ser tua sinuosa dança / de cobra, serpente coral” (Nascimento, 2015, p. 38), e há também sua saudação, “arroboboi”. Já em “Inusitado”, as ancestralidades divinizadas respondem, cada uma a seu modo, pela transformação. São expostas como paradoxos amorosos: arrependimento, “antes tudo acontecesse como antes aconteceu” (p. 39); sedução, “não vindo como algo novo / seduzindo o que não estava atento” (p. 39); alerta, “antes tudo acontecesse como o aviso do sinal / atenção! ‘está prestes a se concretizar’” (p. 39); dor, “antes tudo acontecesse quando te sentisses forte / capaz de reagir, que pudesses sangrar” (p. 39); ruptura, “antes tudo acontecesse como acontecem as histórias / de encontros e rompimentos, num mergulho sem demora” (p. 39); renovação, “antes tudo se passasse como passa o Arco-íris / num momento luz, noutro bruma e crepúsculo” (p. 39). Em “Inusitado”, esses atributos estão ligados a Oxumarê e a Exu.
Outro traço que aproxima “Legbá” de “Inusitado” é o retorno à tematização da corporeidade. No primeiro poema citado, as mutações ascendidas na encruzilhada, pela ancestralidade de Exu, se dão no corpo. E em “Inusitado”, é o corpo também que vive as controvérsias amorosas, simbolizadas em Oxumarê pelo aspecto cobra/arco-íris. O corpo é o lugar de manifestação do sagrado negro, de sentimentos e ressentimentos e da poética de Beatriz.
Em “Ancestres”, de 1987, o eu poético prossegue com a ancestralidade negro-brasileira pelo tensionamento: mentações negro humanizadas (liberdade, afeto e alegria) em oposição às representações desumanizadas dos antepassados negros. A poética de contrários, pelo direcionamento conflitivo-ideológico, acena para a encruzilhada.
Leguem-me um sorriso, / Um beijo, um abraço, o Amor / Não me venham com lembranças / De tristes dias contados / De escuras noites rasgadas / Em possessa solidão / Leguem-me um sorriso, / Um beijo, o abraço, o amor / Escondam de mim tuas faces / Em máscaras pétreas, sem caráter / Em muda comunicação / Não vivi teu tempo / Não sei se foi bom ou mau / Nem sei que destino me legaram / Tuas dúvidas, erros e penas / Libertem-me do teu “karma” / Pois, de outro tempo é o meu / Tempo de fiar lembranças / Que de mim vêm de infância / Da catarse de que sou só / Não das gamas da tua história / Das sombras onde moras / De teu profundo abissal / Leguem-me um sorriso / Um beijo, o abraço, o amor / Livre de todo arquétipo / De ânsias de solução / Daqui em diante eu tenho / O mundo pleno e reto / Passagem de rotas concretas / Arpejos em construção (Nascimento, 2015, p. 40).
Os poemas “Insegurança”, escrito em 1988, e “Ancestres” evocam a ancestralidade negro-feminina. Enquanto o segundo recupera, pela lembrança, a ancestralidade negra coletiva – “não sei se foi bom ou mau / nem sei que destino me legaram / tuas dúvidas, erros e penas / libertem-me do teu ‘karma’ / pois, de outro tempo é o meu / tempo de fiar lembranças” (Nascimento, 2015, p. 40) –; “Insegurança” se volta para a ancestralidade feminina, fonte de segurança existencial, em contraposição à insegurança do título. As imagens: “em ventre bom e gostoso de poderosa mulher / (...) nasci segura em mãos experientes / entre sábias mulheres com muita atenção / (...) nasci segura entre corações amorosos” (Nascimento, 2015, p. 23), confirmam essa leitura.
Existem outros textos poéticos dedicados à ancestralidade feminina de Beatriz, como o poema “Prima filha”, escrito em 1987: “Betha, alfa do meu existir / matéria acumulada do meu útero / que ainda agora se faz existir” (Nascimento, 2015, p. 24); e a prosa “A Zumbi de N’Gola Janga”,14 de 1980, concebidos e dedicados para a primogênita, Bethânia Gomes; e o verso de Orí (Nascimento, 2018, p. 327), “Angola, Jagas e os povos de Benin de onde vem minha mãe”, que lembra a ancestralidade materna de Beatriz. Há uma escritura em prosa, de 1983, “Primeira grande perda: a morte de vovó”, na qual a partida de todo ente querido reedita a da avó15 e atualiza a centralidade da ancestralidade feminina e da identidade negra. A indicação de Zumbi como herói confirma essa leitura. “Sonho que o que eu escrever um dia será a reconstituição daquela bela história de homens e palmeiras, talvez a história dos meus avós no saudoso Sergipe” (Nascimento, 2022, p. 200).
“Urgência (Zumbi)”, escrito em 1985, aborda o protagonismo negro, no espaço e no tempo, pela formação do Quilombo de Palmares, contesta a narrativa hegemônica ocidental de inação negra na história e tematiza Zumbi como personagem fundante da presença negra no Brasil. Este último aspecto é construído pela performance. O eu poético traz as multifaces de Zumbi. O herói afro-brasileiro, ali, é celebrado como agente histórico pela arte. Esse fito é atingido pela dança.
Sendas abertas à força pesada / Movimento oscilante do conhecido em veias rasgadas / Irresoluto e precipitante / Como fundo falso. / No espelho véus justapostos / Ocultam o olhar como teias metálicas / Tornando o ser difuso. / Separando definitivamente o exterior do interior / Entrechocam-se e percutem fantasias antigas / Que não se miram como a um só pertencente. / E eis que surge na arena / Dançarino flamejante de intenções / Descabido como algo que desceu em terreno ocupado / Misterioso como dádiva encantada / De longínquas paragens / Propiciador que ignorava capítulos de sua doutrina / Arrebatado qual luz da primeira hora. / Entre trevas e lusco-fusco / Ninguém saberia dizer sua “Eternia”. / De que matéria se constituía / A que missão se destinava. / Nas cores que esbanjava / A perplexidade das combinações / Sufocava os gritos de dor / Inibia os brados de alegria. / Chamejando como picantes chicotes / A volúpia luminosa impedia os sons. / Quem era aquele viajante de tantos confins? / Confinado em seus próprios gases? (Nascimento, 2015, p. 41).
“Urgência” também dá margem à leitura da vida pessoal da poeta. Traz à tona seu lado visionário, comum entre mulheres negras, abrigadas nos mistérios de Oxum. A performance artística da dança, acima apresentada em verso, lembra o ofício aderido mais tarde por Bethânia Gomes, filha da poeta. Bethânia é bailarina e professora de dança. A vida imitando a arte. E mais uma vez, o corpo negro, seja o de Zumbi, seja o de Beatriz, que deu vida ao rebento dançante, assume centralidade na poética da aracajuense.
No que tange ao gênero, “Urgência” tematiza as masculinidades negras. O imaginário simbólico mimetiza homens negros humanizados. Se o poema “Insegurança” projetou positivamente mulheres negras, o mesmo se dá com “Urgência”, pela dança de Zumbi: “dançarino flamejante de intenções / (...) misterioso como dádiva encantada / de longínquas paragens” (Nascimento, 2015, p. 41). Mas também como herói, como em “Primeira grande perda: a morte de vovó”. Como já analisado, a presença, no imaginário simbólico, da cosmovisão afro-brasileira pelo panteão masculino, Exu, Ogum, Oxalá, Oxumarê. Os desafios da paternidade de seu pai, Francisco Xavier do Nascimento, foram compilados no poema “Paciência”,16 escrito em 1986. O poema de amor, em “O inesperado aconteça”,17 é dedicado ao segundo ex-companheiro, Roberto Rosemberg. E a amizade com Eduardo Oliveira e Oliveira – intelectual, ativista, cientista social e dramaturgo – é agraciada no aforismo “Como começou”:18 “Tudo começou com Eduardo. É preciso saber de onde se vem, para saber aonde se vai. / E eu já estava. Já não ía, nem vinha” (Nascimento, 2015, p. 83).
E, por fim, a poética “Urgência II” (Quilombo dos Palmares), escrito em 1985, que, como os títulos e subtítulos sugerem, é uma extensão de “Urgência” (Zumbi). Ratts (2015) faz uma leitura precisa desse poema. “Urgência II” versa sobre “a ação antiescravista, na verdade reação, aciona a rememoração do quadro africano etnolinguístico banto e Ntu, termo que designa o ser” (Ratts, 2015, p. 125).
Arcos e seteiras / Manifesto de ruídos / Profusos animais alados Segredos / arcaicos / Irrompem em revoadas evocativas / Qual urgência de alianças / Perplexidade tombada / Semivivos rastreando a luz / De corpos brilhantes e brilhantes ... / Do reflexão de mourão / Saqueador navegante / “Razzias da Jaga-nação / Casa sagrada da propiciação / A tomada se faz na planície / Não no líquido primordial / Onde o plano original? / A essência da força vital?” / N’ tu sou, muntu o outro / Brilhante de asas arrebatadas / Malungo todos untados / Pela seiva da procriação / Faça-se o plano da reação / Retinir sacrílego do metal / Informe ao amálgama terral / Tão possível na sabedoria ancestral / Irreconhecível no elo mortal / Correção imediata do equilíbrio / Reinvenção do sonho pressentido / Imune ao deus escondido: / Mono-ara do sacrifício, / Mono-theo do sentido, incumbido / Da missão encapuzada do prazer / Negação do meu leito ao nascer / Mono-sumo do líquido etílico / Faça-se tu em forma visível / Repara a trajetória do ato /Incompatível com a origem do fato / De todos em um e em Si / Lição que dos meus aprendi / Verdade que cedo escolhi / Da argila Afra nasci / Quando eras fui eu quem o vi / Mediterrâneo deus monolítico / De ouro icônica soberba / Alvar de encontro ao Breu / Da sagrada Arca irrompeu / Para a Aliança planetária perdeu / O dom de se tornar verdadeiro / Sem crítica de répteis sofridos / Famintos de riqueza e poder / Que afinal, por equívoco / Escravizou-me aqui / Com o aval de rotos contatos / Sem significado de tempo ou pátria / Emerso do mistério do mar / Absurdo verde ferino / De força a pulverizar / Em reticente lassidão / Movido a culpa e perdão / Do eito absolvido à minha mãe / Insiste que ocorre laçar / De palmas e paz a harmonia / Malungos, banzos contatados / Em verdade confirmadas à prova / Do rico mel do imbondeiro / Totem de primeiras certezas / Árvore da genealogia / Firme-se como caça / Atraindo caçador / Espanta o hábito do terror / Aqui fincar a lança / Saga guerreira palmar / O filho da terra rastrear / Recorda epopeia Imbangala / De n’tus fálicos a castrar / Libera setas, flamas / Fogo, ferro, cana / Corda, corrente, luar / Palha, folha, água / No seio da Terra hibernar / Recorda Simba migrante / M’pumbus sadios cantantes / Sortilégio-presa-de elefante / Lago, gelo, brilhar / Rememora rum amargante / Recupera signo vibrante / Posiciona Terra no olhar ... (Nascimento, 2015, p. 42-43).
“Urgência II” é uma ode à resistência negra. Uma resistência encarnada na figura histórica de Zumbi, que lembra a ancestralidade divinizada de Ogum, guerreiro invencível. A conexão da diáspora afro-brasileira com a cultura africana – pelas imagísticas palmarinas e pelo emprego da filosofia africana, anotada nos léxicos banto e Ntu – alimenta a luta pela sobrevivência encampada pelo eu poético.
A consciência da poeta do passado negro, atestado nas imagísticas, é resultante, segundo Ratts (2007), de quase vinte anos, de 1976 a 1994, dedicados aos estudos dos quilombos. No projeto chamado “O conceito de quilombo e a resistência cultural negra”, publicado em 1985, em Afrodiáspora Nos, ela trata das imbricações do conceito de “quilombo” ao passado negro-brasileiro. “Urgência II” é herdeiro do esforço de reterritorialização da memória negra pela caligrafia do labor literário.
Esse é o compromisso político assumido por Beatriz, enquanto ativista, em sua textualidade histórico-científica, em prol do que chamou de “uma história do homem negro” (Nascimento, 2021, p. 37). Uma história grafada por pessoas negras. Uma polemização assumida pela historiadora, enquanto intelectual não branca, que contestou os referenciais e os propósitos da ciência que elegeu o negro como campo de investigação (Ratts, 2007). Por isso, o enfoque da autora é na defesa da plurivocidade autônoma da etnicidade em relevo, que abrange as lembranças gravadas no corpo, recuperadas pela linguagem poética.
Dito de outra forma, a disputa de narrativa assumida por Beatriz, enquanto intelectual, está presente também na linguagem artístico-literária trabalhada pela poeta. Tão presente a ponto de – no estudo dos poemas, feito nesta seção, conduzido pelas categorias encruzilhada e ancestralidade – ser confirmada a materialidade e a consistência do projeto étnico-literário. Um projeto lavrado por mãos negras, que não se furta de sua identidade étnico-política e que a agrega, no texto poético mesmo, de modo positivado.
Isso se deu no âmbito da autoria, mas também no âmbito da representatividade, alcançado pelo imaginário simbólico, comprometido com a projeção positiva de sujeitos negros, semantizada na cosmovisão africana, pelas deidades vindas nos corpos de além-mar, pela plêiade sócio-histórica humanizada das bandas de cá, como Zumbi dos Palmares. Ao tomá-los para si, Beatriz se propõe a recaligrafar a história por meio dos poemas, a partir do lugar de intelectual afro-diaspórica, de emissora de sínteses históricas.
3. Beatriz Nascimento: por uma antropologia e literatura de invenção melanodérmica
Antes de conceituar a antropologia e literatura de tintas negras, para identificação do credenciamento dos escritos de Beatriz Nascimento nesse campo científico, faz-se necessário regressar, de modo sumário, à literatura de autoria negra.
A escritora e poeta Conceição Evaristo (2010) designa a operação discursivo ficcional dos agentes negros da linguagem como exercício de transposição cultural de matriz africana em terras brasileiras. É uma reterritorialização, pelos signos literários, de si, da cultura e do espaço. É a colheita de estilhaços reminiscentes, a partir do desterro étnico-moderno, para redação cultural. A escrita ficcional afro-diaspórica é a invenção simbólica de um outro mundo, em contraste com a realidade social pigmentocrática19 e fragmentada. Esse exercício imaginativo, pela linguagem literária, é transgressão, escarificada no corpo, guardião da memória, em oposição à cadeia sígnica hegemônico-ocidental.
Ali a textualidade não é refém do primado da littera. Ocorre uma dilatação do que se entende por linguagem artístico-literária. Corpo, memória e oralidade são dinamizadores do experimento narrativo. Com o advento da escravidão africana, eles foram potencializados. No período colonial e no pós-abolição, embora existente, era limitada à cifra negra com fluência nos códigos linguísticos leucodérmicos. Com as técnicas de existência e resistência, vindas de África, aprimoraram-se as linguagens de sintetização e expressão culturais, salientes a partir dos quilombos, dos terreiros, da capoeira, das congadas, do samba, dos bailes blacks, do jongo. As raízes do baobá negro-literário se estendem por esses solos.20
Outra faceta da estética da negrura é o apreço não apenas pela autoria, como posto aqui, pela identidade étnico-corporal, mas também pela representatividade. Esta se volta não só para a denúncia das agruras sociais impostas pela privação de liberdade e seus efeitos, ainda ativos, em uma espacialidade genocida contra negros. Trata-se da construção, pela linguagem ficcional, de representações não negativas, humanizadas, diversificadas, da etnicidade subalternizada, distante dos estereótipos racializados, determinados pela etnicidade não negra.
Nesse sentido, Evaristo (2010) faz um registro que se conecta ao do poeta Cuti (2010). A identidade política, denominada de consciência negra, equivale a um posicionamento militante, que antecede o literário. Ou seja, as letras literárias, de autoria negra, são ulteriores à consciência negra. Esta embala memórias e vivências da coletividade, gravadas no corpo, manancial apropriado pelo operário da linguagem.
A celeuma com juízes do bom gosto, sobre a admissão da identidade ativista como componente intrínseco à produção literária negra, deixa nítida, segundo Eduardo de Assis Duarte (2010, p. 77), a negação do elo entre ser e agir. É a recusa da união entre identidade, pacto existencial e político. Ao que pese sobre a historiografia literária ocidental, toda escritura é política. Todavia, essa regra de ouro, elástica, interposta pelo cânone, não é esticada até os escritos e análises de um determinado grupo historicamente racializado.
Beatriz Nascimento aderiu à militância em suas obras científicas e ficcionais. O ativismo sempre as impulsionou. No ensaio intitulado “Apresentação de Orí”, de 1989, ela formula a categoria orí, guia de seus projetos historiográfico e literário. Trata-se do léxico de origem afro-iorubana para designação do sujeito partícipe dos cultos afros. Diz respeito a quem “faz o santo” e/ou “faz a cabeça” e discorre sobre quem é iniciado nas religiosidades afro-brasileiras. Beatriz Nascimento (2022) se vale desse vocábulo de terreiro para conceituação da tomada de consciência de sua negritude por parte do indivíduo. É o pertencimento identitário ao passado africano. É também uma referenciação ao conhecimento não branco. Isso é o que ela chama (Nascimento, 2022, p. 82) de “ethos negro”. Pelo referido ensaio, observa-se a presença da ancestralidade na prosa da escritora.
A antropologia e a literatura de autoria negra se ladeiam à literatura autoral negra. Detalhe para o que a singulariza: a primeira toma a arte literária como experiência etnográfica. Ela não ficciona, como a literatura de autoria negra faz. O etnógrafo, a partir do espanto no contato com a produção literária retinta, balizado de teoria e de crítica literárias nativas, se debruça nesses escritos para a compreensão da realidade social do outro melanodérmico. A fórmula clássica da antropologia – ir a campo – é deslocada pela centralidade da voz negra. A antropologia e expressões negro-estetizadas tomam como campo etnográfico as obras, teorias e críticas literárias de personas que se autoidentificam e são identificadas socialmente como africanas e afro-diaspóricas, para detecção dos paradigmas antropológicos. Paradigmas como etnicidade, cosmovisão, poder, cultura, identidade, corporeidade, memória, gênero, sexualidade e espacialidade estão no seu radar para entendimento das fricções na relação particular e universal, marcadas pela colonização moderna.
Esse feito é lembrado por José Jorge de Carvalho (2001, p. 138) como inscrição “das vozes ainda não inscritas no cânone [antropológico]”. A nomeação desse campo emergente de antropologia e literatura autoral negra, um campo já em curso pelos etnógrafos,21 mas com o nome de antropologia e literatura, nomeação genérica para um trabalho específico, é disputa de narrativa por paradigmas multiculturais, de bases afrorreferenciadas.
Tal antropologia se coloca na disputa narrativa pela particularidade investigativa das textualidades de tintas pretas. Inaugura um campo de produção do conhecimento atento à representação e à autoria. Eduardo de Assis Duarte (2010) alerta para a importância desse debate como questionamento do projeto de identidade nacional, em circulação nos âmbitos político e estético. A partir desse projeto, em voga pelo mito da democracia racial, literatos, mas também cientistas sociais, obliteraram a autoria e a representatividade negras. Sobre a autoria, recorda-se o embranquecimento do modernista Mário de Andrade. Sobre a representatividade, lembra-se do silêncio, até pouco tempo, do nome de Maria Firmina dos Reis, escritora do primeiro romance abolicionista.
Trata-se de uma área do saber, em processo de gestação, que convida para a aquilombação, pela construção de um porvir ético, político, estético, embasado na etnicidade, pela investigação artístico-antropológica melanodérmica. Nesse sentido, a partir da literatura e de sua recepção pela antropologia, esta seção é também um manifesto pelo reconhecimento da singularidade negro-científica. Ela se apresenta como reivindicação pela diversidade epistêmica. Em uma sociedade subsidiada pela ideologia racial, que desumaniza sujeitos negros pela supressão da singularidade em prol de um universalismo, tática do genocídio físico-simbólico, a afirmação da diversidade étnica, no campo das artes antropológicas, é um ativismo necessário e urgente.
A relevância social da antropologia e expressões negro-estetizadas remontam às contribuições de Leda Maria Martins (1997), com os estudos das poéticas de tradição oral, pelos Reinos Negros e Congadas mineiras, que deram vida aos conceitos de afrografia22 e oralitura23. Edimilson de Almeida Pereira (2023), dos estudos literários por formação, mas etnólogo por atuação, percorreu as culturas banto, pelo catolicismo negro das Minas Gerais, e as encruzilhadas, para o entendimento da criação poética salivada por Exu. Embora estabelecidos no campo da linguagem, cada um deles deixou, em mais de três décadas, um legado valioso que sedimenta esse campo nascente no bojo antropológico e atesta sua viabilidade socioacadêmica. Além de reiterar, por outras vias, sua tradição e ancestralidade.
Nos anos de 1970, Beatriz Nascimento, atenta aos signos negros em rotação, disparados pelos intelectuais de sua igualha, demonstrou pendor para o campo artístico-cultural. Sua incursão se deu pelos interesses da representatividade e da autoria negra, projetados no cinema e na literatura. Em resposta às representações euro-descendentes, recuou a outras expressões estéticas, de bases orais, para pautar contra-representações. Tal incursão planta seu legado político-estético na antropologia e literatura de corporeidade autoral negra. Orí (Nascimento, 2018) documenta esse recuo.
Nos fundamentos da encruzilhada e da ancestralidade, Beatriz apresenta seu olhar para as artes em três horizontes: o primeiro, a partir da crítica social às representatividades, pelas etno-imagísticas, portadoras de estereótipos disseminados pelo cinema e pela literatura; o segundo é guiado pelos saberes da encruzilhada. Ela inverteu o jogo imagístico negativo, pelos usos da palavra e do poético emoldurados pela comunidade negra; no terceiro, ela exibe representações negro-positivas autorais, em franco diálogo com a ancestralidade negra.
Na linguagem fílmica, os ensaios “A senzala vista da casa-grande” e “A senzala vista da casa-grande: merchandising e a contra-cultura no cinema nacional” (Nascimento, 2022), sendo este último uma versão ampliada e revista do primeiro, levantam-se contra a representatividade negativa de mulheres negras no cinema, caligrafadas por não negros. O filme “Xica da Silva”, dirigido por Cacá Diegues (1976), é analisado pela intelectual. Ela vê com preocupação a reverberação de estereótipos negro-femininos racializados e sexistas. Segundo Beatriz (2022), a personagem histórica Xica da Silva, altiva, dinâmica, atenta ao seu meio social, não teve espaço na película.
Na linguagem literária, os ensaios “O racismo na mídia” e “Literatura e identidade” (Nascimento, 2022), opõem-se à ausência de imagísticas humanizadas de afro-diaspóricos. O primeiro denuncia a carência de representações socioculturais positivas da comunidade negra na literatura e na TV. Os escritos de Monteiro Lobato simbolizam, nesses canais de comunicação, a etnicidade de origem africana como iletrada e despossuída de razão. Expressões de liberdade, em trânsito pela mobilidade social, são ignoradas. O segundo ensaio, além do apontamento à hiper representação desumanizada da etnia não hegemônica na literatura brasileira, nas penas de Aluísio de Azevedo e Josué Montello, indica caminhos de superação da estética racializada. Imbuído das epistemologias das encruzilhadas, move-se do erro, a estereotipia de negros de autoria leucodérmica, para o acerto, representatividade humanizada, assinada pela própria comunidade marginalizada. Beatriz Nascimento recorre (2022, p. 116) às poéticas da oralidade, semantizadas pela congada, folia de reis, boi bumbá e ao samba, como expoentes do que nomeou de “literatura musical”. Trata-se de etno-poéticas, performadas no corpo, embasadas em um ethos coletivo.
Com esse registro, nota-se a identidade discursivo-literária circulada pela negritude brasileira. O ensaio “Por um território (novo) existencial e físico” (Nascimento, 2022) se revolta contra a linguagem colonialista. Para devolver o viço da linguagem mesma, sugere o regresso às tradições africanas. Um aceno, portanto, à ancestralidade. O ensaio “Culturas em diálogo” (Nascimento, 2022), pela intertextualidade com Orí (Nascimento, 2018), retoma a imagem da travessia do Atlântico para a formulação de uma nova categoria nos passos do conceito orí. Trata-se de transatlanticidade. É o apelo às deidades da cosmovisão africana, Iemanjá e Oxum, como poéticas afro-diaspóricas de cura aos sobreviventes da travessia compulsória. Em “A palavra e o eu”,24 a ensaísta delata os usos e abusos da palavra em prol do genocídio étnico. Ela aposta na reterritorialização cultural, com o ativismo social negro, para reinserção das cosmovisões de matrizes africana e indígena, como estratégia de enfrentamento ao extermínio.
Nos exercícios de ficcionalização em prosa, Beatriz assume a autoria e, em sua textualidade, como griot, inspira o exercício criativo de representações humanizadas de afro-brasileiros na literatura e no cinema. Em “Portugal”, escrito em 1983, há também a ocorrência da intertextualidade com Orí (Nascimento, 2018), mesclada às memórias de viagem ao Continente Mãe, e um elogio à encruzilhada, ponto de conexão entre África e diáspora. Segundo Ratts (2022, p. 205), organizador da coletânea de Beatriz Nascimento, “Angola” é uma prosa que pode ser uma continuidade de “Portugal”. É exemplo de sociabilidade e comunitarismo nas relações de gênero e raça de raízes africanas, reeditadas de um modo próprio nos quilombos.
“Zumbi de N’Gola Janga”, de 1980, concebido na ocasião da visita a Maceió, ao “Parque Histórico Nacional de Zumbi”, o eu literário lamenta a carência da consciência negra na valorização ancestral de Palmares, ao mesmo tempo em que dá devida importância à espacialidade quilombola: “não ensinaram para nossos irmãos a importância que a Barriga-Serra era um sepulcro Santo. E da Barriga, esponja de sangue, do solo que foi a riqueza dos mortos” (Nascimento, 2022, p. 196).
Em “Zumbi de Palmares”, de 1983, e na prosa poética “Invocação a Zumbi dos Palmares”, escrito em 1990, o líder palmarino é convocado, pelo imaginário negro-simbólico, como herói mito-poético da história afro-brasileira. Na primeira prosa, a lembrança, armazenada na corporeidade, é encenada em sonho pela imagística tenaz, humana e protetora do quilombola. A segunda é uma prece de agradecimento, proferida no Monumento Zumbi dos Palmares. Este é concluído com excertos poéticos de Orí (Nascimento, 2018). Em ambas as textualidades, a ancestralidade negro-alagoana responde pela reedição da história, somadas às representações humanizadas da ancestralidade e da masculinidade negras, por meio da figura mito-histórica de Zumbi. O diálogo com a cultura e com a identidade africana, incorporadas na diáspora negro-brasileira a partir do marco Serra da Barriga, é latente nessas escrituras.
Por fim, é oportuno dizer que o audiovisual Orí (Nascimento, 2018) também vem à luz para suprimir a lacuna representativa no campo artístico-cultural, pelo resgate do elo entre África e Brasil retomado a partir dos quilombos. Outro material audiovisual de destaque é o documentário: “O negro: da senzala ao soul”, dirigido por Gabriel Priolli e Delfino Araújo (1977). A película recupera a trajetória do Movimento Negro Brasileiro, no final da ditadura civil-militar no Brasil, com depoimentos de parte da intelligentsia negro-brasileira da época: Beatriz Nascimento, Eduardo Oliveira e Oliveira e Hamilton Bernardes Cardoso. Traz a contribuição da sonoridade afro-norte-americana,25 com a soul music como mola propulsora da aquilombação negro-nacional. Evidenciando, assim, a proximidade entre política e estética.
Em face do exposto, observa-se que a tematização da encruzilhada e da ancestralidade, na fortuna em prosa da escritora, também é contínua. A preocupação com a autoria, com o repertório imagístico negro-humanizado, que alimenta a representatividade, estrutura a escritura de Beatriz Nascimento. Esses componentes não só reafirmam a filiação ao projeto étnico-literário, como também asseguram o vínculo da grafia, em verso e prosa, à antropologia e literatura de autoria negra. Os paradigmas antropológicos – identidade, cultura, etnicidade, gênero, corpo e espacialidade – são recorrentes em seus ensaios e prosas.
4. “Eu vou navegar” ou à guisa de uma conclusão
Se toda escrita literária atende a um planejamento textual específico, dirigida por visões de mundo, valores políticos, identitário-culturais, vínculos éticos e pactos estéticos, a de Beatriz Nascimento não foge da regra. O compromisso político-estético da autora é com a sua etnicidade e com as intersecções que circundam: corpo, gênero, espacialidade e cultura. Nesse sentido, é compreensível a singularidade do projeto étnico-literário pautado por Beatriz Nascimento. Trata-se da reescrita da história, pela retomada do elo entre África e Brasil, a partir do advento quilombola palmarino. Esse princípio, cravado em Orí (Nascimento, 2018), se expande para a poesia traçada pelo projeto étnico-literário.
Saltaram aos olhos, pelas análises literárias, o tecido ficcional cuidadosamente fiado pela artesã da linguagem, Beatriz Nascimento. Seu imaginário poético-literário ofertou novos horizontes de expectativas para a compreensão de si, pelo coletivo. Uma encruzilhada da palavra pela dialética: autoria e representação, incorporada na própria poeta. É desse terreno dinâmico da palavra que os paradigmas antropológicos literários de tintas pretas foram coletados.
Se existe uma produção literária autoral negra, atrelada a um cânone literário também negro, por que não uma antropologia e literatura de autoria negra para dar conta da primeira? No campo social, observa-se a existência da demanda. As discussões sobre arte e cultura negras, na antropologia, estão inscritas em dois eixos: um geral e um específico. No eixo geral, integram-se à antropologia das artes. Enquanto no bojo específico, seguem agrupadas na antropologia das populações afro-brasileiras. A reivindicação da especificidade desse campo é necessária, tendo em vista que, no espaço e no tempo, as singularidades negras, inclusive epistemológicas, são silenciadas.
O estreitamento dos laços entre a antropologia e a literatura de tintas negras com a literatura negra é vital, em benefício do equilíbrio, na arena dos estudos da linguagem, a ser perseguido também em tal antropologia, expresso no tripé: produção textual ficcional, crítica literária e teoria literária. Nas últimas décadas, há produções significativas em verso e prosa, de crítica também. Mas uma teoria literária afro-brasileira, parece que não segue a pleno vapor. Exceção feita aos griots Leda Maria Martins (1997) e Edimilson de Almeida Pereira (2022). Estes, a partir das singularidades poéticas nacionais, mas sem dar as costas para o que se produz fora, articulam, de fato, uma teoria da literatura de autoria negra dos cruzos. Teoria que, em muitos momentos, se assemelha ao labor do etnólogo. Lembro também de Allan da Rosa (2022), que, na vanguarda, nos rastros de Martins e Pereira, pauta sua escrita em favor do equilíbrio ventilado. Outras encruzilhadas teóricas são necessárias. No campo étnico-antropológico estético, também. Isso é importante para que não fiquemos reféns das investidas, denominadas por Fanon (2005), de “colonização mental”, traduzidas, em nosso tempo, de decolonização e/ou decolonialidade.
Sobre esse assunto, recordo o alerta de Kabengele Munanga, antropólogo e Docente Emérito da cadeira de Antropologia da Universidade de São Paulo. Munanga é um dos precursores no Brasil da antropologia negra,26 vertente à qual a antropologia e a literatura de autoria negra guarda relação. A conferência de encerramento do Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as (COPENE), de 2017, em Dourados, no Mato Grosso do Sul, trouxe a anterioridade decolonial, pouco problematizada: o legado pan-africanista. Se essa memória vem sendo obnubilada pelas Ciências Humanas – e conquistado a adesão emocionada de muitos pesquisadores, inclusive a minha, posto que, no passado, durante o mestrado em Ciências Sociais, alheio à politização racial, sem o devido questionamento das ausências negras, o tomei como diretiva teórico-metodológica –, há de se manter cuidado com os subtextos de paradigmas desarticulados com a etnicidade em tela.
Antes de encerrar, é importante dizer: um gesto eficaz para o enfrentamento da morte simbólica que a operação racial nos impõe, no caso de intelectuais negros, como Beatriz Nascimento, é a leitura. Além da leitura, escrita e fala, é indispensável o diálogo com os movimentos sociais negros. Todos esses elementos são modos de reencantação da ativista, historiadora, poeta e intelectual.
Nos campos da história, das ciências sociais e dos estudos literários, os poemas de Beatriz ainda são pouco lidos, estudados e citados. Faces ocultas do epistemicídio em ebulição. Ler seus poemas, trazê-los para a oralidade, é manifestação de sua atualidade.
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1
Agradeço à minha amiga Janira Sodré Miranda pela leitura e pelas sugestões. Agradeço à revisora textual da Revista Brasileira de Ciências Sociais, Lanna Ribeiro, e aos(às) pareceristas anônimos(as) pela apreciação sígnica e pelas recomendações. Ubuntu!
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2
Divindade do panteão afro-iorubano, guardião da comunicação, articulador dos elos entre os mundos físico e metafísico. Para saber mais sobre Exu, conferir a obra de Silva (2023).
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3
O poema é abordado na seção: “Da encruzilhada ancestral ao projeto étnico-literário”.
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4
Conceito de Moore (2007) para designação de grupos étnicos que apresentam melanina em sua composição morfológica e que, devido a essa constatação feita pelo segmento étnico hegemônico, são perseguidos historicamente.
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5
Dissertação de Mestrado defendida na área de Letras, que analisou, de modo comparado, os poemas de Alzira Rufino, Beatriz Nascimento e Esmeralda Ribeiro. Nunes (2022) confirmou a importância do texto poético na luta antirracista, interseccionada com gênero e classe.
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6
Posfácio assinado pelo antropólogo e poeta Ratts (2015), aos poemas de Beatriz (2015), voltado à exibição de temas recorrentes nos versos da historiadora: gênero, território, corporalidade e saúde mental.
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7
Trabalho de Conclusão de Curso, defendido na licenciatura em Letras, dedicado ao estudo do poder e da corporeidade nos versos de Beatriz Nascimento (2015).
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8
O documentário de Gerber (1989) tem roteiro, texto e narração feitos por Beatriz Nascimento (2018).
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9
Cultuada como “a mãe de todas as cabeças”. Nesse contexto, acionada como a mãe da prole afro-diaspórica. Todavia, é sabido que o rio desagua no mar. Para a cosmovisão africana, Oxum, deusa das águas doces, também se manifesta nas águas salgadas.
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10
A entrevista está disponível no livro “O negro visto por ele mesmo” (Nascimento, 2022, p. 147-149).
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11
Versa sobre a codificação simbólica, a projeção imaginativa por meio de símbolos. Para maiores informações, conferir Durand (1993).
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12
Divindade do panteão africano simbolizada pelo branco, pela sabedoria e pela paz.
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13
Orixá cujos domínios são a estrada, a tecnologia e o progresso, mas que é também o irmão mais velho de Exu.
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14
A pergunta feita por Bethânia, sobre o destino da cabeça decapitada de Zumbi, é o ponto de partida da prosa que reflete sobre a corporeidade negra na diáspora e o apagamento da memória pelo intento de transformação de Palmares em polo turístico.
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15
Não consegui apurar se foi para a avó materna, Sinhorinha, ou para a paterna, Madalena. De todo modo, permanece a reverência à ancestralidade feminina familiar.
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16
Poema dedicado ao pai. Transita das dificuldades da relação, “pensava em mim como / um lamento / ruminando todo o tormento / que à vida foi atribuído” (Nascimento, 2015, p. 26), à reconciliação, “amor que guardo em mim / em longa fila de espera”.
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17
Não se sabe o ano em que foi escrito.
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18
Não se sabe o ano em que foi escrito.
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19
Conceito do etnólogo Carlos Moore (2007) para designação do ordenamento social calcado na hierarquia racial.
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21
Como exemplo, no campo da antropologia, há a pesquisa de Maria de Nazaré Trindade (2022) sobre a trajetória feminina negra na literatura brasileira, a partir da Amazônia entre os séculos XIX e XX.
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22
Compreensão que a memória e a história das poéticas da população afro-brasileira repousa na corporeidade e ritualísticas performadas pelos corpos negros, por meio das congadas. Para maiores informações, conferir Martins (1997).
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23
Categoria destinada à expressão da centralidade da oralidade na produção, reserva e disseminação dos saberes negros. Tão importante quanto a escritura. Mais detalhes, veja Martins (2003).
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24
Não se sabe o ano em que foi escrito.
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25
Nos Estados Unidos, a circulação de escritos de autoria negra se dá no campo Black Studies e não na antropologia ou em outra ciência social, como ocorre no Brasil. Isso confirma, em nosso país, a ausência de um lugar específico nos quais os escritos negros possam circular.
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26
Antropólogos(as) negros(as) comprometidos(as) com a luta antirracista. Nomes como Du Bois, Zora Neale Hurston, Grada Kilomba, Lélia Gonzalez e Joseph-Anténor Firmin estão no fronte etnográfico pela afirmação da diversidade étnico-científica.
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DOI: 10.1590/40024/2025
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Declaração de disponibilidade de dados:
O autor afirma que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente.
Referências
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Editor Responsável:
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Datas de Publicação
-
Publicação nesta coleção
17 Out 2025 -
Data do Fascículo
2025
Histórico
-
Recebido
04 Out 2024 -
Aceito
24 Jun 2025
