Resumo:
O objetivo do artigo é propor uma nova agenda de pesquisa dentro do campo de estudos do trabalho, que poderia ser chamada provisoriamente de “sociologia dos ofícios”. Conforme o capitalismo contemporâneo, moldado pelos fenômenos da liberalização, flexibilização e financeirização, intensifica uma configuração predominantemente precária e hostil ao fator humano, ele dificulta cada vez mais a inserção dos indivíduos nos mercados de trabalho em ocupações que assegurem os mínimos sociais e trabalhistas; ao mesmo tempo, avança nos processos de automação produtiva. Diante disso, a redescoberta da artesania como disposição, como atividade dotada de sentido, como condição exclusivamente humana, apresenta-se como frente adicional de análise científica e resistência política, em contraponto à atmosfera desmotivante, monótona e vazia de significados própria do mundo do trabalho tipicamente capitalista. Propõe-se, em suma, um novo e adicional instrumental teórico-conceitual, que analisa as ocupações e ofícios como expressões de aspectos do ser social, impossíveis de serem capturados, colonizados e reproduzidos pelo sistema produtor de mercadorias.
Palavras-chave:
Sociologia; trabalho; profissão; ofício; artífice
Abstract:
The article aims to propose a new research agenda in the field of labor studies, which could provisionally be called the “sociology of crafts.” As contemporary capitalism, shaped by the phenomena of liberalization, flexibilization, and financialization, continues to take on a structurally precarious configuration that is hostile to the human factor, it makes it increasingly difficult for individuals to enter labor markets in occupations that ensure basic social and labor rights. At the same time, productive automation continues to advance. In this context, the rediscovery of craftsmanship as a disposition, as a meaningful activity, and as an exclusively human condition, emerges as an additional front for scientific analysis and political resistance; in contrast to the demotivating, monotonous, and meaninglessly empty atmosphere characteristic of the typically capitalist world of work. In short, the proposal is for a new and additional theoretical-conceptual framework that analyzes occupations and crafts as expressions of aspects of social being that cannot be captured, colonized, and reproduced by the commodity-producing system.
Keywords:
Sociology; labor; profession; craft; craftsman
1. Introdução1
Conforme o século XXI avança, o mundo do trabalho, tanto nas economias centrais quanto nas periféricas, segue sofrendo os efeitos dos novos ciclos de inovações científicas e tecnológicas. Fazendo-se presentes em um conjunto cada vez mais amplo de setores econômico-produtivo, as novas tecnologias de automação – como a robótica motora fina, a inteligência artificial (IA) e as tecnologias algorítmicas baseadas nas tecnologias de informação e comunicação – contribuem para o acirramento das oscilações e turbulências típicas de uma configuração do capitalismo mundial, que, em seus pilares fundamentais – liberalização e mundialização financeira –, vem se estruturando desde a década de 1980.
Disciplinas acadêmicas consolidadas – casos da economia industrial, da economia do trabalho, da sociologia do trabalho, entre outras – seguem acompanhando aqueles fenômenos, ao mesmo tempo em que buscam avançar no desenvolvimento de ferramentais conceituais e metodológicas de investigação, mensuração e análise, tanto do caráter das inovações tecnológicas, quanto de seus impactos no mundo do trabalho. Continuam sendo realizados estudos e análises sobre o ambiente de trabalho, as relações e condições de trabalho, tendências sobre a ocupação e a natureza da desocupação etc.
Com a precarização laboral (Standing, 2014), aprofundada pela existência de enormes contingentes humanos ociosos, subutilizados ou descartáveis ao redor do mundo (Antunes, 2005, 2018), em paralelo ao avanço das formas de emulação ou replicação de saberes e habilidades humanas por sistemas automatizados (Confederação Nacional da Indústria, 2022; World Economic Forum, 2023), surge a questão de saber que papeis restariam aos seres humanos no universo das atividades produtivas. Em um mundo do trabalho predominantemente composto, de um lado, por rotinização e precarização laborais e, de outro, por sistemas baseados em automação e inteligência artificial, o fator humano ainda seria relevante? Ou existiriam faculdades ou capacidades humanas inalcançáveis pela automação “inteligente” e pela racionalização das atividades laborais?
O objetivo deste artigo é iniciar o enfrentamento de tais questões através da proposição de uma abordagem conceitual e analítica distinta, cujo foco resida na natureza específica ou “concreta” das diversas atividades, ocupações e profissões. Tal subcampo de estudos – a sociologia dos ofícios – pretende descrever, apreender e analisar, no universo das atividades “laborais” ou “produtivas”, o fenômeno das “habilidades artesanais”.
Em princípio, a habilidade artesanal se define simplesmente como a capacidade de “fazer bem as coisas” (Sennett, 2009, p. 19). Longe, porém, de se resumirem a ofícios em sentido estrito – atividades típicas do artesanato, manuais, físicas etc. –, será visto como elas caracterizam uma relação de natureza peculiar entre um indivíduo e seu desempenho em determinada atividade, trabalho ou profissão. Trata-se de uma disposição e um impulso em se entregar ao exercício de uma atividade que não encontra paralelos em outras ordens de motivação para o trabalho ou em formas de concebê-lo. A sociologia dos ofícios pretende lançar luz sobre as técnicas produtivas, não em seu sentido maquinal e sim como construção sociocultural – as técnicas como saberes construídos socialmente. Será visto também como a lógica própria de artífices e seus respectivos ofícios possuem uma dinâmica, em geral, incompatível com a lógica do trabalho no capitalismo.
Para tanto, o artigo subdivide-se em seis partes. Além desta introdução e das considerações finais, o segundo item faz um breve sobrevoo sobre a presença de artífices e ofícios ao longo da história, além de trazer algumas definições preliminares referentes à artesania. O terceiro item dedica-se às principais contribuições, para o subcampo sociológico dos ofícios, feitas por Richard Sennett. A despeito da literatura ampla existente sobre tema, esse autor merece destaque especial pela densidade e amplitude de sua obra, que empreendeu o resgate de uma vasta quantidade de estudos sobre artesania, resultando na síntese teórica que será utilizada como um dos pilares centrais do novo subcampo. Não obstante a sua importância para os estudos dos ofícios, há um conjunto de autores que, dados os enfoques ou ênfases conferidas a distintos aspectos constitutivos da artesania como fenômeno, seriam igualmente necessários ao esforço de fundamentação conceitual do subcampo, o que será feito no quarto item deste artigo. Finalmente, a quinta parte do texto propõe uma agenda de pesquisa, sugerindo um primeiro grupo de linhas possíveis de estudos e análises a serem desenvolvidas, tendo a temática da artesania na contemporaneidade como referência.
2. Ofícios e artífices: breve histórico e definições preliminares
Como conceito, o termo “ofício” é geralmente associado a práticas laborais, saberes tradicionais e relações sociais em torno de atividades ou ocupações técnicas específicas. Podem ser definidos como atividades que requerem técnicas e habilidades peculiares, surgidas da criatividade ou inventividade humana em contato com seu meio natural e social. Refletem capacidades humanas por excelência, de criar e desenvolver formas originais e diversas de interação e transformação do meio ambiente, produzindo respostas que satisfaçam as mais diversas inquietações e aspirações, além de demandas e necessidades concretas e vitais, sociais etc. Nesse sentido, pode-se falar em uma disposição social humana para a “invenção de ofícios”, com a especialização em um determinado ofício, definindo seus praticantes como “artífices”.
Antes, contudo, de serem concebidos em termos essencialistas, como propriedades “naturais” ou inatos à espécie humana, os ofícios devem ser compreendidos como fenômenos sociais historicamente determinados. Nesse sentido, a história dos ofícios é possivelmente tão antiga quanto a própria história humana, estando presente em todas as suas formas civilizacionais conhecidas.
É verdadeiramente enorme a bibliografia existente sobre o universo da artesania e ofícios em diversos campos e perspectivas analíticas, em disciplinas como história, arqueologia, antropologia, história da arte, da técnica, da engenharia etc. Ofícios existiram em todas as civilizações historicamente conhecidas, para não falar na abundância de registros, relatos e estudos sobre inúmeros ofícios, conforme fossem surgindo ao longo da história (cerâmica, tecelagem, metalurgia etc.).
Não sendo possível percorrer tamanha quantidade de estudos, segue uma breve amostra de referências. Na África subsaariana, a sociedade Dogon (onde hoje fica o Mali) considerava os ferreiros como uma casta separada de status ambíguo – respeitados e temidos, pois seu domínio do fogo associava-se a poderes sobrenaturais (Herbert, 1993). Os variados e rebuscados padrões exibidos pela tecelagem Kente, nas sociedades Ashante e Ewe (atuais Gana e Togo), refletiam um ofício praticado por séculos e vital por expressar, nos tecidos, diversos aspectos da religiosidade, poder e cultura daqueles povos (Ross, 1998).
Além das dimensões culturais e simbólicas presentes no fazer artesanal, o desenvolvimento das técnicas de manejo de materiais também são destacados, como o elevado domínio técnico alcançado pela metalurgia inca ao produzir artefatos de ouro e prata (Zori, 2018). A extensa coletânea de estudos reunida por Prous e Lima (2008, 2010) sobre ceramistas entre os povos do tronco linguístico tupi-guarani, abrange o refinamento das técnicas de produção para fins utilitários diversos, tanto quanto suas significações artísticas e ritualísticas. A civilização chinesa, em seus mais de 4 mil anos de história documentada, é um universo à parte em termos da imensa variedade de tecnologias produzidas por sua artesania (Jing, 2023; Major e Cook, 2017).
As guildas medievais europeias são comumente associadas à temática dos ofícios. Definem-se como organizações locais e permanentes de indivíduos em torno de um ofício específico. Reconhecidas por poderes locais, regionais ou governos centrais, detinham o monopólio da prática do ofício e da comercialização de seus produtos (Munck, Lourens e Lucassen, 2006), destacando-se pela manutenção de padrões elevados de qualidade no que produziam (Epstein, 2008). Nesses termos, a existência de instituições análogas às guildas não se limitou à Europa medieval, tendo sido observadas em outras sociedades e épocas, como China, Japão, Índia e Império Otomano (Lucassen, Moor e Zanden, 2008). Na civilização islâmica, do Marrocos à ilha de Java, a topografia de muitas cidades era determinada em função das necessidades das guildas locais (Lewis, 1937).
No séc. XIX, a Revolução Industrial inglesa se movia a pleno vapor, varrendo da paisagem social os ofícios e seus artífices, sempre em favor da velocidade como sinônimo de eficiência na produção em massa de mercadorias. Mas já naquela época havia quem protestasse contra tal império da produtividade, caso do polímata das artes William Morris. Para Morris (1882), os ofícios pouco se diferenciavam de formas de arte, envolvendo gerações de praticantes em uma prazerosa jornada em direção ao domínio e à maestria de técnicas produtoras de objetos e habilidades benfeitas, sofisticadas e repletas de sentido, que satisfaziam as aspirações do corpo e da alma. Morris seria um dos inspiradores do movimento Arts and Crafts no Reino Unido dos anos 1860.2
A disposição humana em inventar ofícios também não passou despercebida por Thorstein Veblen no fim do séc. XIX, ao refletir sobre a relação entre indivíduos e suas atividades:
O homem, por necessidade seletiva, é um agente. Ele se vê a si próprio como o centro do desenrolar de uma atividade impulsiva, uma atividade “teleológica”. Ele é um agente que em cada ato procura a realização de algum fim concreto, objetivo, impessoal. Imbuído pela força de sua condição como agente, ele é possuído por uma preferência pelo trabalho efetivo, e uma aversão pelo esforço fútil. Ele possui um senso de mérito na operacionalidade ou eficiência, bem como um demérito na futilidade, desperdício ou incapacidade. Tal aptidão ou propensão pode ser chamada de instinto de artesania (Veblen, [1899] 1974, p. 286, [grifos nossos]).
Para Mills (2009, p. 59), o artesanato – “modelo plenamente idealizado de satisfação no trabalho” – teria seis características básicas: 1) “prazer no exercício” da técnica e preocupação unicamente com a qualidade do produto e a maestria em seu fabrico; 2) “compreensão profunda” da técnica, que é também uma experiência estética, e de tudo que compõe o processo artesanal, dos passos e detalhes da técnica até o produto acabado; 3) “liberdade criativa” plena, possível pelo controle e responsabilidade total do artífice sobre o seu ofício; 4) “identificação” plena entre artífice e seu ofício, de modo que o desenvolvimento da habilidade é desenvolver a si mesmo como ser integral; 5) “indistinção entre trabalho e diversão”, sendo o ofício uma ocupação divertida e prazerosa em si mesma; finalmente, 6) “identidade plena entre vida e ofício”, de modo que artífices não sentem necessidade de fugir de sua atividade para esferas de lazer separadas – “[o artesão] leva para suas horas de ócio os valores e qualidades desenvolvidos e empregados em suas horas de trabalho. Sua conversa em momentos de lazer gira em torno de seu ofício” (p. 62).
Assim, para artífices, o lazer é um momento de relaxamento, que atua como fonte inspiradora e revigorante de sua criatividade, uma característica que os coloca em contato com as artes, isso quando não se confunde com elas. A respeito dos mundos das artes e dos ofícios, Becker (1982) definirá o ofício como um conjunto de conhecimentos e habilidades, que produzem objetos e atividades, caracterizadas por três dimensões fundamentais: funcionalidade, habilidade virtuosa e beleza.
Funcionalidade é a dimensão do uso prático do objeto ou atividade, voltado para a satisfação de uma necessidade. O quão útil ou funcional um objeto é corresponde à avaliação do quão próximo ele está do padrão a ser respeitado. Habilidade ou perícia virtuosa, por sua vez, diz respeito à relação entre o indivíduo artífice e o nível de sua perícia no exercício do ofício. Naturalmente, o padrão a ser observado no produto também se aplica ao processo de produção; artífices se empenham em uma busca eterna pelo aprimoramento de sua perícia conforme padrões objetivos. Finalmente, beleza é o terceiro critério a ser observado pelo indivíduo-artífice – ofícios e seus produtos podem ser fruídos esteticamente (Becker, 1982).
Outros autores se dedicaram à abordagem dos trabalhos humanos como ofícios. Harper (1987) discute, na figura de um mecânico do interior do estado norte-americano de Nova Iorque, a relação entre artesania e “conhecimento corpóreo” – e entre o trabalho e o self –, a apreensão específica do tempo pelo artífice, a conexão entre artesania e comunidade. Gawande (2008) discorre sobre a atividade extremamente meticulosa e repleta de riscos exercida por médicos cirurgiões. Fine (1996) investiga os traços definidores da atividade de chefs gastronômicos e sua indiscutível natureza artesanal. O mesmo autor reflete sobre as fronteiras entre arte e artesania entre artistas autodidatas (Fine, 2003). Thorlindsson (1994) analisou o desenvolvimento da perícia na atividade da pesca por capitães de barcos pesqueiros islandeses, um conjunto de habilidades construídas por um mergulho profundo da consciência mental e corporal na observação atenta e permanente das técnicas utilizadas, implicando em um aperfeiçoamento contínuo delas.
3. Artífice em Sennett: os sentidos da atividade “em si” e a busca da excelência
Entre as contribuições para a temática contemporânea do trabalho artesanal, Richard Sennett merece destaque. Seja pelo resgate de uma ampla literatura direta ou indiretamente envolvida na reflexão sobre artesania, seja pela síntese teórica mais consistente acerca de conceitos fundamentais como “ofício” e “artífice”, os quais se estenderão para além da relação entre indivíduo e ofício, alcançando também a ordem de fatores ambientais – o entorno social em que os indivíduos se conformam e com o qual interagem. Sennett lançará os marcos fundamentais desta que, sugerimos aqui, se apresenta como uma abordagem conceitual e analítica nova sobre o universo das atividades laborais.
O primeiro aspecto destacado pelo autor é manter o foco na dimensão concreta que cada atividade laboral possui, na singularidade que caracteriza cada um dos ofícios criados pela humanidade em sua história. Não por acaso, o autor inicia o primeiro capítulo de “O Artífice” mencionando um carpinteiro em meio a seus aprendizes em uma oficina, uma cientista dissecando animais em um laboratório e um músico ensaiando com seus companheiros em uma orquestra. Apesar de representarem atividades muito diferentes entre si, o carpinteiro, a cientista e o músico têm em comum o fato de “se dedicarem à arte pela arte” (Sennett, 2009, p. 30).
“O Artífice” trata da arte ou habilidade artesanal, a capacidade de fazer bem as coisas. Desde logo o autor alerta para o erro de considerar que a habilidade artesanal seria uma característica somente de atividades manuais. Artesania, aqui, significa uma disposição específica relativa a uma atividade ou ocupação, qualquer que seja.
Habilidade artesanal designa um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho benfeito por si mesmo. Abrange um espectro muito mais amplo que o trabalho derivado de habilidades manuais; diz respeito ao programa de computador, ao médico e ao artista; os cuidados paternos podem melhorar quando são praticados como uma atividade bem capacitada, assim como a cidadania. Em todos esses terrenos, a habilidade artesanal está centrada em padrões objetivos, na coisa em si mesma (Sennett, 2009, p. 19 [grifos nossos]).
A habilidade artesanal focaliza uma relação íntima entre “a mão e a cabeça”, ou seja, entre práticas concretas e ideias, em uma dinâmica que se retroalimenta perpetuamente ao revezar a detecção de problemas (via experiência da atividade) e solução de problemas (via imaginação sobre a atividade).
“Artífice”, por sua vez, é todo aquele indivíduo que se dedica a uma atividade, principalmente, por se comprazer nela – dedica-se à atividade por ela mesma, antes de concebê-la como meio para obtenção de fins situados fora dela (como enriquecer, por exemplo). Envolvido por sua atividade, aprendendo e testando suas habilidades e observando o desenvolvimento progressivo da perícia em executá-las, artífices são movidos por uma recompensa antes de tudo emocional – o sentimento de orgulho e prazer por um trabalho perfeitamente executado. Em seu agir, artífices incrementam sua “consciência material”, a consciência oriunda da prática do ofício, que nasce do toque, do contato direto com o objeto, de sua manipulação. A curiosidade, frente ao material que serve de objeto do trabalho, impulsiona a busca pela excelência no que se faz, ampliando o grau de consciência material do artífice (Sennett, 2009).
A ideia de analisar o trabalho humano por essa ótica surgiu de uma reflexão crítica sobre Hannah Arendt, de quem Sennett fora aluno na juventude. Refletindo sobre o que definiria a condição humana, Arendt (2014) divide o universo das atividades humanas (vita activa) em três dimensões fundamentais: trabalho, obra e ação. “Trabalho” corresponde ao plano do animal laborans, a dimensão biológica e fisiológica, natural, governada pelo reino das necessidades vitais – trabalha-se para satisfazê-las. Nesse plano, não há diferença entre humanos e outros animais, já que todas as espécies são movidas primariamente para a sua própria reprodução. O animal laborans produz para consumir e consome para sobreviver.
Já a “obra” estaria no domínio do homo faber, o ser humano como construtor do mundo. Enquanto o trabalho anterior era basicamente reprodutivo (natural), aqui o ser humano opera para além da necessidade imediata, desenvolve conhecimentos e técnicas para modificar a natureza – que lhe serve de objeto fundamental – conforme outra ordem de motivações. Essa dimensão “não-natural” ou artificial, é a da humanidade que deixa feitos duradouros, objetos para serem usados (e não “consumidos”, como na dimensão anterior). É o plano da artesania humana, dos construtores de monumentos, da engenharia e arquitetura, das artes, das ciências puras e aplicadas, da inventividade e criatividade técnico-instrumental humana. Aqui reside a faculdade da reificação, pela qual o ser humano submete a natureza aos seus próprios desígnios, exercitando e alargando o domínio das técnicas com as quais altera o meio ambiente (Arendt, 2014).
Finalmente, como dimensão mais elevada e nobre – aquela que, juntamente com a dimensão do homo faber, caracteriza efetivamente a humanidade –, tem-se a “ação”. Por meio dela os indivíduos interagem entre si, sem mediações de natureza fisiológica ou técnico-utilitária (correspondentes ao trabalho e à obra, respectivamente), exercitando uma liberdade para além de qualquer necessidade e utilidade. Ao mesmo tempo iguais, pois todos possuem a capacidade de falar e agir, e distintos, pois cada indivíduo é único, a humanidade aqui reunida expressa sua pluralidade. É a dimensão política da vida, pela qual a humanidade pode se reinventar livremente (Arendt, 2014).
Mas Arendt era uma crítica aguda da maneira como, na modernidade, a dimensão política e plural da vita activa se viu, em um primeiro momento, subordinada à dimensão “técnico-instrumentalista” do homo faber. Os prodígios científicos e tecnológicos do mundo moderno teriam implantado a supremacia de sua dimensão sobre a vida. E, pior ainda, o próprio homo faber acabaria também por sucumbir, no caso, ao plano do animal laborens, ao ser reduzido a simples meio de consecução dos imperativos reprodutivos da espécie. Nesse ponto, para Arendt (2014), a modernidade reduziria a humanidade à sua dimensão fisiológico-animal, uma simples sociedade de consumidores.
Sennett considera injusta a crítica de Arendt ao homo faber – que, para ela, é uma dimensão que silencia a crítica moral e política do ser humano, em favor de seu mergulho no agradável desafio de decifrar enigmas técnicos e alargar os limites da artesania humana. Solitário e absorto em seu ofício, o artífice seria regido apenas pelo problema de “como” fazer, sem nunca pensar em “porque” deveria fazer, o que implicaria em sérios perigos para a própria humanidade (Arendt, 2014). A artesania humana precisaria ser colocada sob as rédeas da ação moral e política.
Para Sennett (2009), a artesania humana vai além da descrição de Arendt. A lida do artífice não é apenas um meio para alcançar um fim em termos utilitários. É uma dimensão em que a inventividade e a criatividade humanas se manifestam ativamente, ampliando indefinidamente seus próprios limites como fontes geradoras de saberes, conhecimento e técnicas que transformam a natureza, mas não somente isso. Diferentemente do que sugere Arendt, a artesania humana é uma disposição pessoal, uma postura do indivíduo diante da realidade que o cerca e das inúmeras formas criadas pela humanidade para interagir com ela, modificá-la ou simplesmente compreendê-la e expressá-la.
Tal disposição seria própria não apenas dos indivíduos que atuam em ocupações manuais tradicionais, mas em qualquer tipo de atividade humana. O que caracterizaria uma disposição típica de artífice não é o tipo de atividade desempenhada, mas sim a presença, no indivíduo, do que Sennett chama de “engajamento”, um tipo específico de disposição em relação a uma atividade ou ofício, ao qual corresponde uma “motivação” também singular. Sennett pretende “explicar como as pessoas se engajam de uma forma prática [em atividades diversas], mas não necessariamente instrumental (Sennett, 2009, p. 30)”.
O mundo moderno teria duas ordens de motivação para o trabalho. Uma “altruísta”, o imperativo moral de trabalhar pelo bem comum: a comunidade, o país, a pátria etc. Outro tipo de motivação, “egoísta”, seria o comumente praticado e celebrado no mundo do mercado. Os indivíduos são estimulados a competir entre si, em troca de recompensas pessoais, proporcionais ao seu esforço e resultados obtidos (Sennett, 2009).
O primeiro tipo de motivação seria mais recorrente em sociedades com economias planificadas – “sistema de comando”; enquanto o segundo tipo seria mais comum às economias de mercado – sistema de competição. Para Sennett, ambos teriam problemas, já que ambos implicam na desmoralização de quem trabalha. No caso da motivação “coletivista”, o comando externo e superior (burocrático) desestimula quem trabalha porque corrói o espírito de livre iniciativa pessoal – sempre malvisto por controles burocráticos e seu apego pelo poder decisório. O trabalhador não vê sentido em se engajar nas tarefas, pois é constantemente tolhido pelas direções superiores e centrais, e torna-se indiferente aos brados do imperativo moral (Senntt, 2009).
Já o sistema competitivo com recompensa individualizada tende a criar ambientes de trabalho impregnados de desconfiança (já que meu colega é um concorrente potencial). A recompensa individual gera o entesouramento de informações – o indivíduo não vê razão para se envolver mais profundamente nas tarefas, propondo suas melhores ideias etc., já que estas, bem como as recompensas associadas, podem ser apropriadas pelo colega. Por fim, a competição encarniçada acelera o ritmo de atividade dos competidores, que acabam valorizando mais a velocidade (necessária para bater o adversário) do que a qualidade, o valor e o propósito do que estão fazendo, “não pensando no tempo do artífice, o tempo lento que permite a reflexão” (Sennett, 2009, p. 280).
Nos tipos ideais de motivação supracitados, o problema fundamental não está necessariamente nos mecanismos da competição e da cooperação – que inclusive admitem formas variadas de combinação em prol da qualidade do trabalho (Sennett, 2012) –, mas sim no fato de que, em ambos os casos, as motivações para o trabalho residem “fora” do próprio trabalho, profissão etc. Se o foco para trabalhar reside no bem comum ou na recompensa individual, a atividade em si se torna acessória e menos importante – pois seria apenas um meio para a satisfação de demandas coletivas ou necessidades individuais –, implicando em um menor estímulo do indivíduo em se aprofundar no ofício, em se aperfeiçoar nele etc.
A disposição típica de artífices encontra sua motivação fundamental na atividade mesma (engajamento). Engajamento é um estado crônico de atração por dada atividade e satisfação ou comprazimento em exercê-la, estado este continuamente reforçado pela consciência de sua crescente maestria em praticá-la (Sennett, 2009). Examinando a tipologia de motivações sugerida pelo autor, pode-se dizer que indivíduos motivados por imperativos morais ou por recompensas individuais acabam em alguma medida distraídos do trabalho, enquanto artífices se distraem no trabalho.
A essa altura, poder-se-ia questionar se o engajamento do artífice não seria outra maneira de se referir ao conhecido workaholismo. De fato, não há ainda na literatura análises que se proponham a discutir tais conceitos em perspectiva comparada. O próprio fenômeno do workaholismo remete a controvérsias e é abordado de maneiras variadas (Gomes e Soares, 2011): considerado um vício, uma compulsão para trabalhar sem parar, pode ser caracterizado como algo negativo ou positivo, multifacetado e variável em suas manifestações. Examinando diversas referências no tema, para Gomes e Soares (2011) haveria uma concordância geral quanto ao fato de o workaholismo se associar a consequências adversas à saúde, como estresse, burnout, problemas outros de saúde física e emocional, conflitos na vida social e familiar etc.
Para Sennett (2009), existe uma energia obsessiva no comportamento típico do artífice, a qual pode até adquirir uma face destrutiva e degradante – e, nesse caso, indicaria que houve desvios em relação à atitude normal do artífice, pois a obsessão de quem encara sua atividade como ofício seria de natureza distinta daquela abordada como patologia pela psicologia. Enquanto o perfeccionismo – essa competição do indivíduo consigo mesmo – pressupõe um estado de conflito, de turbulência interna, com altos níveis de ansiedade, “as rotinas artesanais aliviam a pressão ao proporcionar um ritmo constante de trabalho” (Sennet, 2009, p. 283). Na verdade, o engajamento proporciona um envolvimento com a atividade similar a um transe ou a um estado meditativo, em que o foco integral no exercício do ofício serena a mente. Quando em exercício, artífices “se distraem” de si próprios, absortos em sua atividade.
O engajamento no ofício quase sempre levará a níveis muito elevados de domínio das técnicas próprias daquele. Nesse ponto, a habilidade técnica se transforma, indo além de um conjunto estático de procedimentos mecânicos.
Toda habilidade artesanal baseia-se numa aptidão desenvolvida em alto grau. Uma das medidas mais habitualmente utilizadas é a de que cerca de 10 mil horas de experiências são necessárias para produzir um mestre carpinteiro ou um músico. Vários estudos demonstram que, progredindo, a habilidade torna-se mais sintonizada com os problemas (...), ao passo que pessoas com níveis primitivos de habilitação esforçam-se mais exclusivamente no sentido de fazer as coisas [meramente] funcionarem. Em seus patamares mais elevados, a técnica deixa de ser uma atividade mecânica; as pessoas são capazes de sentir plenamente e pensar profundamente o que estão fazendo quando o fazem bem (Sennett, 2009, p. 30 [grifos nossos]).
Ao se dedicar a descrever o fenômeno da artesania no plano individual, Sennett não ignora, naturalmente, o papel igualmente importante desempenhado pelo ambiente social em que os indivíduos estão inseridos. Há ambientes organizacionais que favorecem e que também são hostis à figura de indivíduos artífices. O desenvolvimento de disposições típicas de artífice é um empreendimento cooperativo por excelência. Embora a cooperação possa estar inscrita nos genes da espécie humana, ela deve ser entendida como uma habilidade a ser aprendida e praticada, e que por isso também pode se atrofiar – a sociedade moderna, inclusive, pode representar sérios obstáculos ao desenvolvimento de nossas capacidades cooperativas (Sennett, 2012).
Isso ocorre porque a cooperação se dá de modos e graus variados. Expressa-se, em princípio, como a capacidade de trocar com outros indivíduos – uma conversa, por exemplo, seria uma forma de cooperação –, podendo assumir uma forma “dialética” – trocas que visam uma síntese ou entendimento comum acerca do que é discutido – ou “dialógica” – sem que haja necessidade de um ponto de vista único prevalecer, os indivíduos usam a troca para compreender melhor tanto as posições e características do outro, quanto as de si próprios, em um processo de desenvolvimento pessoal (Sennett, 2012).
A importância da habilidade técnico-artesanal teria sido subestimada na modernidade por conta da tendência contemporânea em tomar o trabalho técnico e manual como repetitivo e monótono, o qual deve ser deixado ao cargo de sistemas automatizados, enquanto a mente poderia ser liberada para se concentrar em tarefas mais desafiadoras. Sennett contesta tal caracterização, argumentando que essa separação entre “mão e cabeça” ameaça o desenvolvimento das capacitações humanas.
A educação moderna evita o aprendizado repetitivo, considerando que pode ser embotador. Temeroso de entediar as crianças, ávido por apresentar estímulos sempre diferentes, o professor esclarecido pode evitar a rotina, mas, desse modo, impede que as crianças tenham a experiência de estudar a própria prática e modulá-la de dentro para fora. O desenvolvimento das capacitações depende da maneira como é organizada a repetição. (...) À medida que uma pessoa desenvolve sua capacitação, muda o conteúdo daquilo que ela repete (Sennett, 2009, p. 49 [grifos nossos]).
Mas não se trata apenas de insistir na prática de modo mecânico, porque se ela continuar organizada como meio para obter um fim predeterminado em um conjunto fechado, o indivíduo em treinamento estancará na atividade assim que alcançar aquela meta fixa. Em vez disso, a aprendizagem prática deve ser instituída como uma relação aberta entre detecção e solução de problemas; o ofício assim constituído favorece as trocas de experiências e aprendizagens entre os indivíduos, expandindo continuamente suas capacitações (Sennett, 2009).
A abordagem sociológica dos ofícios não pretende rivalizar com outras disciplinas sociológicas referentes ao “mundo do trabalho” – como a sociologia do trabalho ou a sociologia das profissões –, e sim se somar a elas, oferecendo um instrumental analítico adicional nos estudos das atividades humanas. O interesse aqui está na compreensão de um tipo particular de conexão que se estabelece entre indivíduos e suas atividades, ocupações e profissões – aquele que permitirá caracterizar indivíduos como artífices e suas atividades como ofícios. Trata-se de um estudo das técnicas e respectivos saberes, mas não como simples procedimento maquinal, e sim como “questão cultural” (Sennett, 2009, p. 19), como saber socialmente elaborado e que reflete certos estilos de vida e conjuntos de valores.
Passemos agora a uma reflexão sobre quais seriam os traços conceituais e metodológicos fundamentais que uma abordagem sociológica sobre ofícios ou artesania humana poderia exibir.
4. Referenciais teóricos da sociologia dos ofícios
Richard Sennett merece destaque especial no estudo dos ofícios por conta de suas obras mais recentes (Sennett, 2009, 2012, 2018).3 As três primeiras constituem uma trilogia, em que o primeiro livro, “O Artífice”, desenvolve a reflexão em torno da relação entre indivíduos e ofícios, descrevendo as características da disposição para o trabalho típica de artífices. O segundo livro, “Juntos: rituais, prazeres e a política da cooperação”, estuda a relação entre artífice e seu entorno laboral, jogando luz sobre a importância de fatores como: o equilíbrio entre cooperação e competição; interações dialógicas; hierarquia e confiança; e rituais no ambiente de trabalho nas organizações. E o terceiro livro, “Construir e Habitar”, pretende desdobrar a reflexão anterior para pensar o espaço urbano nos termos de indivíduos artífices e organizações baseadas em rituais e práticas inclusivas, implicando em cidades menos organizadas por lógicas impessoais opressivas (do mercado ou de burocracias tecnicistas frias) e mais pautadas por uma ética de cidade aberta e permeável à diversidade, ao acolhimento etc.
Não obstante sua importância para os propósitos desta reflexão, Sennett tem a companhia de um conjunto considerável de autores, que poderiam igualmente colaborar no esforço de fundamentação teórica de uma abordagem sociológica dos ofícios. Comecemos com a reflexão de Heidegger sobre a existência humana: do fato de o ser humano (Da-sein) existir no mundo independentemente de sua vontade, decorreria sua “existencialidade”, a condição de se projetar nele, com ele, dele. Tal projeção expressaria um ímpeto ou aspiração à transcendência, de efetivação da capacidade do ser de atribuir um sentido a si mesmo. Tal capacidade se manifestaria nas dimensões da comunicação, do afeto e do trabalho (Heidegger, 2015).
O agir prático sobre o mundo, interagindo com outros indivíduos, usando ferramentas e resolvendo problemas, firma-se como um modo fundamental do ser heideggeriano, uma forma de conhecimento concreto, fluido, incorporado e que tem precedência sobre o conhecimento teórico. Em seu cotidiano, o ser está ocupado existindo e existe fazendo e manuseando coisas – a manualidade do mundo é um vetor fundamental da apreensão da realidade (Heidegger, 2015).
A influência de Heidegger está presente na reflexão de alguns teóricos da artesania, como Matthew Crawford e Tim Ingold. Esse último, dialogando com a noção heideggeriana do “ser-no-mundo”, valoriza a experiência prática e incorporada do ser humano no meio ambiente, relativizando a noção rígida de separação/oposição entre sujeito e objeto, ou de sujeição do objeto ao sujeito. Para ele, o “fazer” (making) não é uma mera imposição da forma mental sobre a matéria bruta. A artesania implica em um diálogo entre indivíduos e materiais, o espaço e as condições do meio ambiente (Ingold, 2013).
A relação entre artífices e os materiais que usam em seu ofício estabelece padrões objetivos correspondentes aos limites impostos pelos materiais. O saber daí decorrente reflete não uma imposição da mente sobre a matéria, ou um domínio do intelecto sobre a natureza, mas sim um processo de “negociação”, que significa aprender as propriedades concretas daquilo com que se trabalha, ajustando-se harmoniosamente a elas (Ingold, 2013).
O fazer próprio da artesania é, assim, um processo vivo e relacional, em que não cabe uma separação hierárquica entre design e execução, já que o corpo e a mente dos indivíduos são fatores igualmente relevantes na percepção e assimilação da realidade com a qual devem interagir. Tal crítica também está presente na reflexão pioneira de David Pye sobre artesania, escrita em fins da década de 1960 e que debatia desde aquela época a separação taylor-fordista entre responsáveis pela concepção e responsáveis pela execução (Pye, [1968] 1995).
Na verdade, a crítica de Pye à afirmação de superioridade do design/concepção se inscreve em uma reflexão mais sofisticada, que não se reduz a uma oposição dicotômica simples entre artesania e indústria. Para o autor, a artesania (workmanship) é observada não apenas nas formas manuais de atividade produtiva, mas também no universo da produção industrial. Para tanto, haveria dois conceitos de artesania. A “artesania do risco” (workmanship of risk), típica de arranjos produtivos “pré-industriais”, é aquela em que o resultado do produto concebido depende em muito maior medida do nível de habilidade do artífice no momento da execução. O resultado do trabalho não é pré-determinado, mas depende da avaliação processual minuciosa, de elevado nível de destreza técnica, atenção e cuidado. A qualidade do produto está continuamente em risco durante o processo de fabricação, o que exige um julgamento muito rigoroso do que se faz enquanto se faz (Pye, [1968] 1995).
Em contraste com a artesania do risco, tem-se a “artesania da certeza” (workmanship of certainty), própria de ambientes produtivos baseados na lógica produtiva de larga escala. Nessa forma de artesania, moldes, ferramentas ou máquinas impõem processos mais controlados e padronizados, e nela o resultado é certo, ou seja, pouco ou nada sujeito ao nível de destreza, atenção, cuidado, avaliação processual da qualidade etc. (Pye, [1968] 1995). Ocorre que, enquanto na artesania de risco as dimensões da concepção e execução estão próximas ou mesmo superpostas, subordinando a velocidade à qualidade, na artesania da certeza se dá o contrário, com a produção certeira e em maior escala sendo obtida à custa da criatividade, diversidade e qualidade. Ao mesmo, tempo, a produção certa e em larga escala concorre com um processo lento e corrosivo de alienação entre os planos da mão (fazer) e cabeça (pensar).
O desligamento relativo e progressivo entre indivíduos e as condições materiais do desenvolvimento de suas habilidades técnicas em realizar tarefas e trabalhos também preocupava Crawford (2009). Para ele, a lenta desaparição das ferramentas (e atividades que elas inspiram a desempenhar) da educação contemporânea seria “o primeiro passo em direção a uma ignorância mais vasta do mundo dos artefatos que habitamos” (Crawford, 2009, p. 7).
Sua crítica contundente se dirigia à separação entre trabalho manual e intelectual, com a desvalorização franca daquele em detrimento deste. Sob o álibi da praticidade, os indivíduos vão sendo desligados das práticas e atividades de natureza manual, as quais envolvem normalmente procedimentos de montagem, conserto ou reparo, requerendo o uso de ferramentas e, sobretudo, de conhecimentos de natureza técnica, empírica, decorrentes do contato direto com a realidade concreta dos materiais, artefatos etc. A perda progressiva do hábito de usar ferramentas e exercitar habilidades manuais gera indivíduos cada vez mais passivos e dependentes (Crawford, 2009).
Diante da tendência contemporânea ao “virtualismo” – em que somos condicionados a renunciar à materialidade do nosso meio ambiente em favor de conteúdos puramente informacionais –, o autor defende a importância da “competência manual”. O trabalho manual qualificado pode ser antídoto para a alienação típica do mundo moderno, pois reconectaria diretamente, sem mediações automatizadas, os indivíduos com a dimensão material de sua existência. Consequentemente, os recolocaria em contato com sua própria capacidade de transformar conscientemente seu meio, de conferir sentido às ocupações que desempenham (Crawford, 2009).
O século XX consagraria os processos de degradação e alienação do trabalho. A marcha da industrialização se espalhou pelo mundo capitalista, mas não somente, pois também o mundo do trabalho no bloco socialista sacrificaria as formas de trabalho “não alienadas” no altar do progresso industrial (Braverman, 1987). Os processos gerenciais e automatizados desqualificantes do trabalho não poupariam nem mesmo o trabalho de colarinho branco, com computadores e outras tecnologias de padronização exercendo seus efeitos de rotinização e empobrecimento de conteúdo em diversas atividades profissionais nesse meio (Crawford, 2009).
Para Sennett, a sensação que muitos trabalhadores têm de sua vida no trabalho remeteria tanto à alienação, quanto à indiferença; restringindo sua qualificação ao manejo de sistemas computadorizados usados em aplicações e setores produtivos diversos – de padarias a sapatarias e gráficas –, eles perdem o contato com os saberes artesanais originalmente por trás da feitura de produtos tão diversos quanto pães, calçados e papelaria. Colocando-se entre os indivíduos e os conteúdos peculiares do que é produzido, a automação torna monótono os ambientes de trabalho (Sennett, 2005).
Não seria possível condensar, no espaço de um artigo, toda a literatura disponível sobre a temática da artesania ou dos ofícios e seus artífices. Mas a breve síntese realizada até aqui, de algumas das principais referências no estudo da artesania, deve ser suficiente para esboçar os principais traços ou características do ofício ou da artesania como conceito.
“Motivação intrínseca e dedicação à tarefa”: artífices valorizam o trabalho pelo trabalho em si, com foco em padrões objetivos da tarefa e das técnicas próprias de uma atividade, ocupação ou profissão (Sennett, 2009). Harper (1987) mostra que o prazer em desempenhar atividades desafiadoras, que exigem concentração e inventividade no uso das habilidades técnicas (skill) do artífice, gerando paz de espírito, satisfação e júbilo quando da resolução do problema.
“Abordagem holística”: a alienação ou indiferença comuns a ambientes de trabalho tipicamente “capitalistas” contrasta com a maneira de artífices encararem o próprio ofício, que para eles implica um conhecimento multifacetado e uma compreensão integral de sua atividade – condições para que funcione a dinâmica de detecção e solução de problemas –, combinando design, produção e reparo em um único processo criativo (Crawford, 2009; Pye, [1968] 1995; Ingold, 2013; Harper, 1987). A especialização excessiva e, no limite, desqualificante, fragmenta o conhecimento e reduz drasticamente os graus de interesse e motivação na tarefa (Mills, 2009).
“Habilidade e maestria”: não há artífices em seus respectivos ofícios que não exijam de si mesmos o desenvolvimento de suas capacidades e habilidades até alcançarem nelas o nível de maestria (Crawford, 2009). Buscam, sobretudo, a qualidade, a excelência no que fazem, movidos por uma “energia obsessiva” que infunde neles uma disposição inesgotável (Sennett, 2009, p. 248).
“Técnica viva”: alcançado o nível da excelência no exercício da técnica, artífices, movidos pela curiosidade de saber o quão longe pode ir seu conhecimento (Crawford, 2009), conseguem aplicá-la de modo criativo. Não obstante constituir um conjunto de padrões objetivos (dos materiais, das habilidades), a lógica do ofício como detecção e resolução de problemas lhe confere a condição de saber vivo, pois que aberto e relacional (Pye, [1968] 1995), sempre sujeito à inventividade, criatividade e originalidade de artífices movidos por uma perpétua busca pela perfeição (Sennett, 2009; Becker, 1982).
Finalizamos este item reiterando que, imbuída dos traços acima descritos, a artesania pode ser concebida como uma postura, uma disposição específica para o desempenho de atividades, ocupações e profissões. Nesse sentido, independentemente de sua natureza específica, deve-se pressupor que toda atividade possuiria componentes “manual/material” e “intelectual” como faces de uma mesma moeda. “Mão e cabeça” estariam presentes, por exemplo, na docência como ofício, em que alunos e técnicas de ensino seriam os “materiais” de um docente artífice.
5. Sociologia dos ofícios: uma agenda de pesquisa
A fim de estabelecer a sociologia dos ofícios como subcampo de estudos, restaria sugerir uma agenda de pesquisa, na forma de tópicos ou linhas de investigação. Propõe-se aqui as seguintes.
“Fatores socioambientais condicionantes do surgimento de indivíduos-artífices”: partindo-se da hipótese de que disposições típicas de artífice se referem a processos sociais determinados – que sumariamente envolveriam o contato inicial com uma atividade ou profissão, o encantamento/envolvimento com a mesma e o tempo e condições sociais necessários para a formação/qualificação e o exercício profissional –, uma questão relevante seria a dos papeis e importância desempenhados naqueles processos pelo círculo de socialização primária, pelos ambientes escolar/educacional e universitário (se for o caso), pelo ambiente laboral/profissional ou por outros fatores ainda desconhecidos.
Essa linha conteria fatores diversos a serem investigados. No plano familiar: que aspectos da relação entre indivíduo e seu círculo familiar favoreceriam ou dificultariam a emergência daquele processo? Apoio material/afetivo incondicional às escolhas livres do indivíduo ou tentativas de condicioná-lo a determinadas atividades com as quais se identifique afinidade ou facilidade? Famílias com tradição em determinadas ocupações ou profissões proporcionariam somente vantagens a seus filhos em segui-las, ou tal fator pode comportar obstáculos às escolhas deles? Que papeis e importância estariam reservados à escola na trajetória dos indivíduos rumo à artesania?4 Já no plano da “oficina” em que se forjariam os profissionais (cursos universitários, por exemplo, bem como a atuação profissional), que elementos (colegas, mestres, valores institucionais, cultura organizacional etc.) seriam relevantes ou funcionais à busca dos jovens por se encontrarem profissionalmente?
“Correspondências entre perfis individuais (socioculturais, psicológicos) e a natureza específica dos ofícios”: existiriam correspondências entre as naturezas próprias de cada ofício e determinados perfis individuais? A título de ilustração, imagine-se que em profissões como a medicina (ou outras profissões próprias da área de cuidado e saúde), uma variável como “foco na saúde/bem-estar do paciente” em vez de simplesmente dizer respeito a uma disposição de tipo “altruísta”, não se desvencilharia do ofício da medicina clínica, o que talvez impusesse certos requisitos ou características pessoais a quem decidisse abraçar a profissão. Compare-se agora com ofícios de outra natureza – por exemplo, a engenharia de software –, que, por sua natureza própria, não trariam aquele pré-requisito, e que, portanto, atrairiam outros tipos de perfis individuais etc.
Um desdobramento dessa linha sugeriria pesquisas que esmiuçassem o próprio conceito de artífice, que, combinado com fatores decorrentes da própria natureza peculiar dos inúmeros ofícios, poderia levar à proposição de tipologias de artífices (por exemplo, artífices “puros”, “egocentrados”, “altruístas” etc.).
“Ambiente laboral e artesania”: estudos sobre ambientes de trabalho, analisando fatores favoráveis, desfavoráveis ou neutros à presença e desempenho de fatores próprios do trabalho como ofício. Por exemplo, locais de trabalho que estimulam em demasia a competição interna entre seus membros (individualmente ou em equipes) tendem a gerar efeitos como a desconfiança mútua e o entesouramento de informações, que seriam disfuncionais ao objetivo de um trabalho bem realizado. O mesmo pode ser dito de ambientes de relações hierárquicas com pouca abertura para a exposição de posições críticas, diversas etc., que acabam inibindo elementos como a curiosidade e a criatividade: “para suscitar a aspiração de qualidade e fazê-la valer, a própria organização precisaria ser artesanalmente trabalhada (Sennett, 2009, p. 270).
“Artesania em atividades intelectuais/abstratas”: não obstante a proposição referente à dimensão intelectual de atividades manuais e à dimensão “manual” de atividades intelectuais –, tal premissa também poderia ser objeto de investigação, no sentido de ampliar a compreensão das ocupações de natureza mais acentuada ou francamente “intelectual” ou abstrata. Ingold (2013) fala na relação entre materiais e artífices, em que a mão media o contato e serve como ponte entre mente e matéria, impondo limites objetivos em seu manuseio, infundindo na mente novas possibilidades de experimentação ou aplicação das técnicas etc. Ofícios como a docência, a pesquisa, administração etc. também contariam com “materiais” análogos em sua capacidade de excitar e formar a mente, negociando com o artífice e permitindo o estabelecimento de padrões objetivos e respectivas técnicas?
“Artesania e capitalismo”: aqui entrariam estudos sobre as modalidades de interação entre artesania e trabalho no capitalismo, incluindo movimentos de cooptação, descaracterização e/ou destruição da artesania pela lógica do capital; os conflitos entre o tempo do artífice e o tempo do capital etc. Faz parte da ideologia de autoglorificação do capital a tese da superioridade do capitalismo, em relação a outras formas de organização social, como motor gerador de avanços tecnológicos e materiais em prol do bem-estar social. Mas a velocidade extrema dos processos produtivos induzidos pela lógica do lucro não é necessariamente sinônimo de qualidade e tampouco de bem-estar. Por outro lado, também não é evidente que os avanços materiais e tecnológicos no mundo capitalista sejam causados pela motivação do lucro e não por artífices que, a despeito da lógica econômica para a qual trabalham, preservariam certos elementos da artesania como fundamentos do que fazem e de como fazem.
6. Considerações finais
A sociologia dos ofícios busca, portanto, se estabelecer como subárea de estudos, com objeto definido e uma agenda própria de análises. Seu objeto fundamental é a artesania e suas dimensões constitutivas, e particularmente a artesania como disposição especial para uma atividade, a disposição típica do artífice. Nesse sentido, dirige seus esforços de análise para a dimensão do trabalho como fonte de satisfação de necessidades vitais e sociais: como fator de humanização e de emancipação (Marx, 2010, 2012).
Seu escopo de investigação abrange tanto as profissões e ofícios existentes, quanto uma disposição singular de envolvimento individual – a disposição típica do artífice – com uma atividade ou ocupação. Compreende os saberes e técnicas como construções sociais e culturais, expressões de anseios, demandas e do pensamento livre, criativo e inventivo. Nesse sentido, a técnica não se resume a um saber mecânico ou estático; nas mãos e cabeça inquietas de indivíduos-artífices engajados na busca da excelência, ela se torna ativa, viva, fértil. Uma vez criada, a técnica pauta a si mesma por padrões objetivos, os quais, longe de limitar o exercício da atividade artesanal, tornam-se um desafio estimulante e permanente: dominar a técnica e seus saberes ao ponto da maestria, condição indispensável para novas experimentações e inovações.
Os saberes da artesania, por sua vez, são função do ambiente sociocultural, o que coloca uma agenda de investigações para os estudos dos ofícios, com a busca dos fatores sociológicos condicionantes do surgimento de tal disposição singular de envolvimento e engajamento com certas atividades, ocupações etc.
O fato de ser possível observar indivíduos com tal disposição em plena contemporaneidade é notável. Nesse tempo em que a lógica social e econômica capitalista parece francamente soberana, em seu mister de capturar todo o saber e toda a habilidade humanas para atender aos propósitos da mercantilização da vida, a resiliência humana na forma de artífices merece ser observada e estudada.
Assim, aos estudos sobre ofícios se coloca o desafio de investigar fatores sociológicos condicionantes do surgimento ou recorrência desse tipo de disposição por parte de indivíduos e grupos, a disposição em conceber certas atividades que desempenham como ofícios.
Para além de ser uma área de estudos, a abordagem sociológica dos ofícios também tem implicações práticas e políticas. Somando-se à frente crítica de sistemas racionalizadores, produtivistas e mercantilistas, ela sugere o resgate e fortalecimento da percepção, pelos indivíduos, daquilo que efetivamente os singulariza e que não pode ser emulado por dispositivos gerenciais ou automatizados: sua condição potencial como artífices, responsáveis pela satisfação de necessidades vitais, pela invenção de propósitos e sentidos na vida social e pela fruição estética do belo em todas as suas formas.
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1
Este artigo é produto de um projeto de pesquisa financiado pelo CNPq (título: "Trabalho como Ofício: artífices na profissão médica" - processo CNPq 405354/2021-5), a quem agradecemos.
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Declaração de disponibilidade de dados:
Não se aplica
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2
Esse movimento social e estético propugnava a crença na artesania e sua capacidade de revelar a beleza inerente dos materiais, a importância da natureza como inspiração e valores como simplicidade, uso e beleza dos produtos da atividade humana. Disponível em: https://exhibitions.lib.umd.edu/williammorris/morris-influence/arts-and-crafts-movement. Acesso em: 30 mai. 2024.
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3
Há uma obra ainda mais recente (Sennett, 2024), em que o autor analisa a “performance” como ideia e prática que permearia a vida social. Como tal, manifestaria elementos explorados na trilogia mencionada anteriormente. A performance – manifesta nos planos da arte, da vida coletiva cotidiana e da ação política – compartilharia elementos próprios da dinâmica da artesania, como atenção “obsessiva” a detalhes e a busca da excelência, e os rituais próprios dos ambientes em que transitam e interagem indivíduos “artífices”.
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4
A esse respeito, ver, por exemplo, Thorlindsson, Halldorsson e Sigfusdottir (2018), que investigaram se a presença de fatores próprios da artesania no ambiente escolar geraria efeitos como um maior nível de interesse do alunado nos conteúdos pedagógicos, refletindo-se em melhor rendimento escolar etc.
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Editado por
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Editor Responsável:
João Maia
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Editora Associada:
Mariana Barreto
Disponibilidade de dados
Não se aplica
Datas de Publicação
-
Publicação nesta coleção
03 Out 2025 -
Data do Fascículo
2025
Histórico
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Recebido
24 Jul 2024 -
Aceito
29 Maio 2025
