Open-access “Nós por nós”: as ações de resiliência tecidas no Complexo da Maré (RJ) e nos quilombos do Vale do Ribeira (SP) durante a pandemia da Covid-19

“Us for us”: resilience actions in Maré's Complex (RJ) and Vale do Ribeira's Quilombos during the Covid-19 pandemic

Resumos

Resumo  O objetivo deste artigo é estabelecer uma análise comparativa entre as experiências de resiliência comunitária e estratégias de sobrevivência de duas comunidades periféricas brasileiras durante a pandemia de Covid-19. Com base nos conceitos de resiliência e epistemologias periféricas, analisamos os casos a partir de uma abordagem de pesquisa multidisciplinar e qualitativa. Observamos que, apesar de distantes geograficamente e com especificidades únicas, as comunidades do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e do Vale do Ribeira, em São Paulo, traçaram caminhos coletivos de enfrentamento, baseados nos vínculos existentes entre as pessoas e na solidariedade social.

Palavras-chave:
Complexo da Maré; Vale do Ribeira; resiliência comunitária; solidariedade; pandemia da Covid-19


Abstract  This paper aims at establishing a comparative analysis between the experiences of community resilience and survival strategies of two Brazilian peripheral communities during the Covid-19 pandemic. Based on the concepts of resilience and peripheral epistemologies, we analyzed both cases from a multidisciplinary and qualitative research approach. We observed that, despite being geographically distant and with unique specificities, the communities of Complexo da Maré (Rio de Janeiro) and Vale do Ribeira (São Paulo) traced collective paths of confrontation, based on the existing bonds between people and social solidarity.

Keywords:
Complexo da Maré; Vale do Ribeira; community resilience; Covid-19 pandemic


1. Introdução1

O objetivo deste artigo é comparar as experiências de resiliência comunitária, as estratégias de sobrevivência e a defesa da vida durante a pandemia de Covid-19 a partir de dois cenários brasileiros. O primeiro é o Complexo da Maré, região periférica da cidade do Rio de Janeiro (RJ); enquanto o segundo são os quilombos do Vale do Ribeira, região situada entre os estados de São Paulo e Paraná. Embora o primeiro acene para a realidade urbana e o segundo para o contexto rural e suas conexões, a formação de redes de entreajuda e os processos de autogestão foram decisivos para minimizar os impactos da crise sanitária em ambos os casos.

A comparação de realidades distintas nos permite explorar padrões de desenvolvimento de estratégias de resiliência. Nesse contexto, podemos observar o papel de organizações e identidades comunitárias no processo, sem uniformizar as experiências vividas e as especificidades das comunidades. Além disso, este tipo de estudo também nos permite colocar em prática as discussões teóricas sobre decolonialidade. Consideramos que esse tipo de observação é fundamental para o desenvolvimento de estratégias para respostas rápidas em tempos de crise e uma forma de valorização de conhecimentos locais utilizados no desenvolvimento de estratégias de resiliência.

Para desenvolvermos a discussão, recorremos aos conceitos de resiliência (Burin, 2023; Bouchard, 2013; Hall e Lamont, 2013). Outro conceito relevante é o de epistemologia periférica (D’Andrea, 2020). A resiliência explora a capacidade de um sistema ou grupo social de absorver e responder às adversidades, através da capacidade de auto-organização e adaptação. Já o conceito de epistemologia periférica ajuda a pensar sobre os saberes não hegemônicos colocados em prática para o enfrentamento da crise, o que nos remete às lições deixadas pela pandemia e à capacidade de ação, reflexão e mobilização das populações analisadas. Este artigo é resultado do projeto “ENDURE: Inequalities, Community Resilience and New Governance Modalities in a Post-Pandemic World” (no Brasil, denominado “SUPORTE: Desigualdades, Resiliência e novas modalidades de governança em um mundo pós pandemia”), que examina as consequências de curto e longo prazo da Covid-19, propondo uma visão holística para o estudo da crise e das novas formas de mobilização e desmobilização de sociedades e sistemas políticos.

O Complexo da Maré é um bairro periférico, formado por dezesseis favelas, situado na região Norte da cidade do Rio de Janeiro. A população é composta por cerca de 140 mil moradores e conta com uma forte presença da população negra e de imigrantes ou filhos de imigrantes nordestinos (Redes da Maré, 2019). Historicamente, a comunidade enfrenta problemas como a falta de infraestrutura básica e serviços públicos de qualidade, além de o território ser controlado por diferentes grupos criminosos. Assim, há a presença constante de ações policiais no local e a Maré, tal como diversos territórios periféricos urbanos do país, enfrenta o problema da violência (Silva, 2023).

Durante a pandemia de Covid-19, a comunidade, que já sofria com problemas sociais habituais das regiões periféricas, foi fortemente impactada. Para suprir as demandas e amenizar a situação de vulnerabilidade do período, a Redes da Maré, uma organização não-governamental local, que trabalha para a melhoria da qualidade de vida e garantia de direitos para a população, realizou projetos em parceria com o poder público e com organizações voltadas para a saúde e a alimentação. Dentre os diferentes projetos, foram viabilizadas a entrega de cestas básicas, a testagem da população e a vacinação prévia contra a Covid-19 (Silva e Arouca, 2021).

A ação solidária focada em São Paulo, por sua vez, consiste na rede formada pela Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), pelo Instituto Socioambiental (ISA) e diversos outros parceiros, que viabilizou a distribuição de 330 toneladas de alimentos da agricultura familiar para populações das periferias urbanas do estado, entre maio de 2020 e fevereiro de 2022. Diante do fechamento das escolas públicas durante a pandemia, que seriam as destinatárias da produção agrícola local através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), o grupo arrecadou fundos e viabilizou as doações, garantindo, simultaneamente, o escoamento dos produtos dos cooperados e um impulso para a segurança alimentar nas grandes cidades.

O tema da pandemia de Covid-19 é amplo e complexo, instigando discussões a respeito de inúmeras dinâmicas político-sociais, em diversas escalas, que impactaram de maneira desigual os grupos sociais. Trata-se de um fenômeno que permite diferentes abordagens, como as experiências de entrelaçamento entre o trabalho produtivo e reprodutivo (Franch et al., 2024), os problemas de governança e as consequentes mortes evitáveis no país (Werneck et al., 2021), o negacionismo e os circuitos de desinformação (Nascimento e Neves, 2024; Ares, Gitahy e Villen, 2021; Fonseca, Fleischer e Jacob, 2024), dentre muitas outras perspectivas.

Dentre os possíveis enfoques, Maluf et al. (2024) salientam a importância da compreensão das respostas locais à pandemia, sobretudo entre grupos e sujeitos em situação de precariedade social, risco e vulnerabilidade. Na presente discussão, um dos pontos de partida é a questão da desigualdade estrutural do Brasil (Fonseca, Fleischer e Jacob, 2024), que faz com que as epidemias – e pandemias – afetem as pessoas de maneira desproporcional. Como sinalizado por Matta et al. (2021), diversos marcadores sociais acentuaram os impactos da crise pandêmica, tais como raça, gênero, classe social, sexualidade, territórios e dinâmica social e econômica. Portanto, segundo os primeiros, não foi uma surpresa “que a pandemia de coronavírus, considerada o maior desastre de saúde global desde a gripe espanhola de 1918, não tenha se materializado em todos os lugares da mesma maneira” (Fonseca, Fleischer e Jacob, 2024, p. 359). Em vista disso, os autores apontam para a importância das formas locais de organização social para o enfrentamento da crise em contextos de precariedade econômica e institucional, baseadas em relações de cooperação e interdependência.

Com base nisso, as discussões aqui apresentadas partem de três hipóteses. A primeira é de que a ancoragem comunitária, a noção de pertencimento e o trabalho em rede são basilares para os processos de resiliência empreendidos pelas camadas periféricas (urbanas ou rurais) do Sul global. A segunda hipótese é a de que os dois casos apresentados ilustram processos de resiliência progressiva, nos termos de Bouchard (2013). A terceira propõe que os processos de defesa da vida, empreendidos pelas comunidades estudadas, assentam sobre epistemologias periféricas, que são decisivas para o enfrentamento de crises através da agência e do protagonismo dos atores.

Depois de breves descrições da metodologia e dos contextos aqui tratados, discutimos conceitos centrais para a presente análise, tais como a definição de resiliência, de epistemologias periféricas e de comunidades quilombolas. Depois disso, exploramos as ações solidárias colocadas em prática no Complexo da Maré e nos quilombos do Vale do Ribeira, durante a pandemia de Covid-19, refletindo sobre as convergências e as particularidades de cada caso.

2. Metodologia

À luz dos conceitos de resiliência e de epistemologias periféricas, analisamos os casos do Complexo da Maré e dos quilombos do Vale do Ribeira a partir de uma abordagem de pesquisa multidisciplinar e qualitativa. Para tal, entramos em contato com as comunidades inicialmente por meios oficiais, afinal, não é raro que estas tenham sites e redes sociais para divulgar os trabalhos por elas realizados, bem como permitir diversas formas de contato.

No caso do Complexo da Maré, os primeiros contatos com a comunidade se deram por meio de outros pesquisadores, professores e profissionais ligados ao Museu da Maré. Eles já tinham realizado pesquisa e atuado politicamente na região e, consequentemente, conheciam as lideranças da Redes da Maré, uma das instituições mais atuantes no enfrentamento local da pandemia. Depois das primeiras entrevistas com as lideranças, outros trabalhadores da instituição também foram entrevistados. A seleção dos demais entrevistados se deu através da técnica da bola de neve.

No Vale do Ribeira, além dos primeiros contatos e levantamentos por meio de redes sociais, sites, plataforma de vídeos e documentos prévios, um aspecto facilitador foi a existência, dentre os integrantes da equipe do projeto ENDURE, de uma pesquisadora quilombola da região – atuando, portanto, na fronteira entre a academia e o pertencimento local – e de duas mestrandas que já pesquisavam localmente. Isso nos proporcionou um acesso mais facilitado às comunidades.

Trata-se de um trabalho em andamento que inclui, em sua metodologia, entrevistas biográficas. Esta estratégia foi sistematizada por pensadores como Schütze (1976), partindo da ideia de que as entrevistas sejam iniciadas a partir dos relatos dos sujeitos sobre suas próprias vidas, sem interferência do entrevistador. Em seguida, este pede detalhes específicos sobre assuntos relevantes para a pesquisa e, por fim, realiza perguntas previamente estruturadas.

No Vale do Ribeira, a coleta de informações incluiu a participação em eventos promovidos pelas comunidades quilombolas, escuta de palestras públicas, participação em oficinas e análise de depoimentos disponíveis na internet. Os trabalhos de campo referentes à presente discussão foram realizados ao longo do segundo semestre de 2022 e no decorrer do ano de 2023.2

A seguir, trazemos uma breve discussão sobre os conceitos de resiliência, de periferia e de quilombo, bem como as suas conexões históricas. Contextualizamos mais adiante o complexo da Maré e os quilombos do Vale do Ribeira, com especial atenção às ações solidárias ligadas à defesa da vida no âmbito da pandemia de Covid-19. A partir do panorama contextual, desenvolvemos uma abordagem comparativa, sublinhando distinções e convergências entre os dois casos.

3. Resiliência, periferias, quilombos: conceitos e conexões

O conceito de resiliência pode ser entendido como a capacidade de um sistema de absorver uma perturbação e de se reorganizar enquanto atravessa um processo de mudança (Hall e Lamont, 2013). Ele carece de uma definição única, experimentando diversas abordagens de acordo com as disciplinas a que está atrelado. Sua utilização, recentemente generalizada nas Ciências Sociais e na Psicologia, refere-se à capacidade de um sistema, de uma população, de uma comunidade ou de um indivíduo de responder a um choque, adversidade ou risco, a partir de processos de renovação ou transformação do seu estado anterior.

Vincula-se, portanto, às estratégias potencialmente entrelaçadas que respondem à persistência de fatores estressores ao longo do tempo, indicando comportamentos que são incorporados de forma robusta e dinâmica em sujeitos e sistemas. Resiliência é um conceito central para a discussão sobre agência comunitária e envolvimento. Pode ser definida como a capacidade de uma sociedade de fazer face a um desafio ou choque, considerando que esta tende a desenvolver três formas de recuperação de suas capacidades de funcionamento, por meio de três tipos de estratégias diferentes. A estratégia conservadora, que consiste em resistir ao estresse e retornar ao equilíbrio anterior; a adaptativa, que atua através do uso de vários métodos de ajustamento, negociação entre os atores e implementação de estratégias de compromisso; e, por fim, a progressiva, que ocorre quando os atores atingidos pelo risco e pelo estresse respondem criativamente ao choque (Bouchard, 2013).

Os fatores de estresse que induzem à adversidade são diversos. Podem consistir em estresse substantivo e/ou contínuo, fadiga, choque, situações de elevada instabilidade e incerteza, violência, abuso, negligência e assim por diante. A quantidade, a diversidade, a escala, a intensidade e a frequência desses fatores são responsáveis pelo grau e pela direção das perturbações (Chaigneau et al., 2022). Os fatores de estresse também têm várias origens, tais como origem política, econômica, social, institucional, biológica, psicológica, relacionada à saúde pública, à saúde mental, ou uma combinação entre elas.

A partir de um ponto de vista mais amplo, as chamadas sociedades emergentes, ou seja, do Sul global, estão sujeitas a alguns ou à maioria dos fatores de estresse. Vale observar que, conforme alertam Silva e Makalela (2025), o “Sul global” possui múltiplas conotações, dentre elas as geográficas e geopolíticas. Convergindo com os autores, aqui nos referimos “a pessoas, lugares e ideias que foram deixados de fora da grande narrativa da modernidade” (Silva e Makalela, 2025, p. 1). Refere-se a histórias alargadas de exclusão de partes do mundo, submetidas ao colonialismo europeu a partir do século XV. Constituindo um constructo político-econômico – que, conforme descrevem os autores, aproxima-se de termos como “subdesenvolvimento” ou “terceiro mundo”, por exemplo –, o Sul Global busca designar as áreas “marginalizadas” do planeta, podendo referir-se aos pobres urbanos ou rurais dos dois hemisférios. Refere-se também àqueles que lutam contra o preconceito racial, de gênero, sexualidade e àqueles submetidos à precarização do trabalho em diferentes partes do globo. “Em outras palavras, o ‘Sul global’ é diverso e plural e esta pluralidade tem impacto na produção e circulação do conhecimento”, afirmam (Silva e Makalela, 2025, p. 1).

Portanto, desde a periferia do sistema capitalista, as desigualdades se aprofundam, assim como a necessidade de resiliência. A depender de aspectos geopolíticos e históricos, os fatores de estresse podem se tornar mais destrutivos, como em tempos de ditaduras, crises econômicas, convulsões sociais e, dentro do tema aqui analisado, de crise sanitária. Estes fatores podem ser combinados de variadas formas, desestabilizando todo o sistema ou agentes sociais específicos e setores sociais mais vulneráveis.

Outra abordagem privilegia as ideias de intelectuais feministas sobre resiliência, que colocam em evidência aspectos tais como o apoio mútuo, a cooperação, a solidariedade e o envolvimento coletivo para discutir o tema (Burin, 2023). Essa perspectiva nos interessa, especialmente, para o desenvolvimento da presente discussão, que tem como foco experiências vivenciadas no Sul global, protagonizadas por grupos sociais sujeitos à vulnerabilidade, como é o caso das populações quilombolas e periféricas.

Já o termo “periferia” deriva de debates ocorridos nas décadas de 1950-1960, que versavam sobre a relação entre os países periféricos ao capitalismo e as economias centrais (D’Andrea, 2020). Vale lembrar que outra discussão correlata, sobre a relação entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, havia emergido um pouco antes, a partir do discurso de posse do presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, em 1949, que caracterizou boa parte do planeta como subdesenvolvida e, portanto, dependente de ajuda dos países ricos (Escobar, 1995).

As discussões emergentes a partir dos anos 1950 analisavam os desdobramentos da ordem econômica nas cidades latino-americanas, que atravessavam um momento de explosão demográfica. Foi, porém, a partir da década de 1990 que o termo “periferia” ganhou visibilidade, através de um processo histórico engendrado pela própria população periférica e por seus intelectuais orgânicos, que visavam modificar, ampliar e construir novos significados para a palavra (D’Andrea, 2020). “O resultado incidia na própria definição de quem era ou o que era a população moradora desses territórios”, afirma D’Andrea (2020, p. 23). O autor acrescenta que esse processo gerou uma consciência periférica, expressa pelo entendimento da ocupação de certa posição urbana e por noções de pertencimento. Essa discussão simultaneamente continha e negava a violência e a pobreza: “continha porque, como denúncia, afirmava o conceito nesses dois fenômenos. Negava porque queria superar tais fenômenos” (p. 25).

Sobre o binômio pobreza/violência, uma mudança paradigmática que tornou os espaços comuns e privados das cidades alvos de um novo urbanismo militar é evidenciado por Graham (2016). A metáfora da guerra se torna dominante para descrever uma condição constante das sociedades urbanas – guerra contra o crime, o terror, as drogas e a insegurança, por exemplo. “Esse advento incorpora a militarização sub-reptícia de uma ampla gama de debates de política interna, paisagens urbanas e circuitos de infraestrutura urbana, além de universos inteiros de cultura popular e urbana”, analisa Graham (2016, p. 26). Segundo o autor, isso levou à difusão de debates militarizados sobre “segurança” em todos os aspectos da vida citadina. São as “novíssimas guerras, nos termos de Moura (2005, p. 77). Guerras que remetem a conflitos travados em microespaços urbanos de países que vivem oficialmente em paz.

Aliada à violência, a pobreza pode ser sintetizada como “o ponto de acumulação de todas as injustiças de nossa sociedade” (Schwarz, 1999, p. 167). Trata-se de uma desigualdade que não pode ser compreendida a partir de um discurso de suposta homogeneidade do Estado-nação, por retratar uma realidade marcada pelas diferenças étnicas, econômicas etc. (Santiago, 2004).

O outro lado da moeda refere-se à busca de superação da pobreza e da violência (D’Andrea, 2020). Ele assinala o início de um processo social de ampliação do significado do termo “periferia” através da busca de transformação dessa realidade, o que significou a visibilização, a partir dos anos 1990, de lutas que sempre estiveram presentes na história. “A versão crítica do conceito de periferia nascia com o germe da sua própria mutação”, explica D’Andrea (2020, p. 24). Ou seja, ele descreve um significado de periferia que passa a englobar também cultura e potência, alargando sua acepção.

Ao contrário de uma visão estereotipada, o autor propõe uma periferia caracterizada pela pluralidade (D’Andrea, 2020). A partir dessa heterogeneidade interna, os termos periferia, periférica e periférico passaram a adjetivar uma série de agentes sociais que denotam tanto uma posição política, quanto um estilo de vida. Dentro desse fenômeno, destaca-se também a emergência da apropriação e sistematização da própria história pelos atores locais, sem a necessidade de mediadores.

Essa descrição do protagonismo das periferias converge com a visão sobre o perfil do intelectual descrito por Said (2005). Segundo ele, a frequente conexão entre o intelectual e a elite é equivocada e se opõe à ideia de humanismo enquanto um processo democrático produtor de uma mente crítica e livre. Assim, erroneamente, “o humanismo é considerado algo muito restrito e difícil, como um clube um tanto austero com regras que excluem a maioria das pessoas (Said, 2005, p. 35).

No cenário de protagonismo das periferias e dos seus intelectuais, as transformações culturais são um ponto importante, como foi sublinhado por Ren (2021) e por D’Andrea (2020). O último observa que, nos últimos 30 anos, “houve uma explosão de atividades culturais na periferia. São saraus, slams, cineclubes, posses de hip-hop, comunidades do samba, grupos teatrais, grupos de dança, literatura marginal, entre outras manifestações” (D’Andrea, 2020, p. 33). Um exemplo dessa emergência foram os saraus da Cooperifa, nascidos na periferia de São Paulo e liderados pelo poeta Sérgio Vaz (2007), para quem, “quer queiram ou não, o lago dos cisnes está cheio de patinho feio aprendendo a nadar”.3 Essas correlações entre território, cultura e ação política são designadas como “epistemologias periféricas” (D’Andrea, 2020, p. 34), que, segundo ele, são produzidas “por moradoras e moradores das periferias, explicitando sua condição periférica” (p. 34), preta e trabalhadora.

Os saberes designados pelo autor como epistemologia periférica também nos ajudam a pensar sobre os quilombos. Por um lado, temos a ligação indelével entre território, cultura e ação política; por outro, temos a emergência de intelectuais procedentes desses espaços, que pensam sobre si mesmos e sobre o mundo a partir de bases epistêmicas próprias. Somam-se a esses aspectos as raízes históricas comuns, dadas pela colonização dos espaços e corpos, o papel estruturante do racismo e a transversalidade de processos de exclusão.

O termo “quilombo” foi ressignificado no decorrer do tempo, a partir da Constituição de 1988, passando de um espaço criminalizado para um espaço de direitos. Impulsionada pelas pressões dos movimentos sociais, a Carta Magna incluiu, no Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), a figura do “remanescente dos quilombos” como detentor do direito ao seu território. A partir dos anos 1990, houve ampla discussão em torno da delimitação desse conceito, conforme descrito por Arruti (2006). As conceituações desse período tendem a incluir elementos culturais e identitários.

[O quilombo é um] grupo social de negros compartilhando relações sociais tipificadas a partir do uso coletivo da terra, fundado nos princípios do igualitarismo e da reciprocidade, caracterizado por afiliação de cor, laços de parentesco, localidade e práticas culturais tomadas pelo grupo como expressão de identidade em oposição a outros economicamente diferenciados ou mesmo assemelhados, porém com territorialidade distinta (Bandeira e Sodré, 1993, p. 98).

As ligações históricas entre os quilombos e a formação das periferias das cidades brasileiras foram analisadas por Campos (2005). O autor estabelece essas ligações ao descrever a produção do “espaço criminalizado” no Rio de Janeiro e ao reconstruir a metamorfose das comunidades rebeldes quilombolas da cidade e de seus arredores em favelas. Esses espaços emergiram como locais racializados de exclusão em meio ao sonho de “embranquecimento do Brasil” de meados do século XIX – um período que também marcou a transição entre a mão-de-obra escravizada e o trabalho livre. Buscava-se, portanto, uma nação homogênea e eurocentrada, em que “o negro, a bem da verdade, não fazia parte desse projeto” (Campos, 2005, p. 45).

O autor descreve os mecanismos usados para impedir, ou pelo menos minimizar, a apropriação do espaço pelos ex-escravizados, a fim de perpetuar a ordem excludente. Dentre os instrumentos legais de controle da população negra, está o decreto de 1830, que proibiu os forros, sob pena de prisão, de circularem fora do seu domicílio sem passaporte (Campos, 2005). Outro exemplo basilar foi a Lei de Terras de 1850, promulgada quase simultaneamente à Lei Eusébio de Queiroz, e que, em última análise, foi fundamental para impedir o acesso dessa população, quando liberta, à posse de terras.

A partir dessa visão histórica sobre as conexões entre quilombos e periferias urbanas, o autor demonstra que muitos quilombos que se formaram nas proximidades das áreas urbanas se transmutaram em favelas, mantendo a mesma sombra de ilegalidade diante das forças dominantes (Campos, 2005). Ele também argumenta que a apropriação dos espaços pelos ex-escravizados, bem como pelas classes pobres, também geralmente associadas à cor, foi tratada como uma transgressão, o que exigiu desses povos uma resiliência secular.

O intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos (2015) conceituou esse enfrentamento do paradigma colonialista como contracolonização. Ao denunciar a cosmofobia – ou seja, o medo do cosmos –, a contracolonização defende um modo de vida que antecede a invasão europeia e propõe um pensamento fronteiriço e afro-pindorâmico, compreendendo o mundo de maneira diversal, ou seja, de uma forma não universalista. A capacidade de autopoiesis dos povos nos remete a processos fluidos de transformação identitária que se distanciam da acepção aparentemente estanque da palavra tradicional.

Ao caracterizar as identidades coletivas historicamente atacadas pela colonização, Antônio Bispo dos Santos observa que estas vêm sendo ressignificadas, como maneira de enfrentar o preconceito e o etnocídio contra os povos afro-pindorâmicos e seus descendentes, sob a forma de resistência cultural. Esse conceito incorpora o longo processo de resistência e resiliência dos povos subalternizados a partir da expansão europeia, desde os ataques dos colonizadores contra o quilombo dos Palmares, no século XVII, até as atuais ameaças praticadas pelo grande capital através dos megaprojetos (Santos, 2015).

Sua abordagem histórica e política denuncia a turbulenta relação entre esses povos e o Estado – antes colonial, depois nacional – e sublinha a importância dos modos de vida e do compartilhamento do conhecimento ancestral das comunidades quilombolas. Enfim, Bispo dos Santos entende o quilombo como um espaço-território de resistência. Guardadas as diferenças, converge com o quilombismo de Abdias Nascimento, ao denunciar o racismo e propor outros valores civilizatórios derivados de uma práxis afro-brasileira baseada na ancestralidade, em outras perspectivas de organização social e em outras formas de compreensão do mundo (Santos, 2020).

4. Teias da rede: as ações solidárias no Complexo da Maré e nos quilombos do Vale do Ribeira

4.1. Complexo da Maré

O Complexo da Maré, assim como boa parte das comunidades urbanas no Brasil, foi formado pela população migrante, obrigada a se deslocar do campo para as cidades. Nos períodos de expansão da área urbana no país, sobretudo na década de 1950, as condições de trabalho no campo foram se deteriorando, obrigando a população a migrar para as cidades em busca de emprego. Dentre elas, Rio de Janeiro e São Paulo receberam grande parte desses imigrantes. Nessas cidades, a situação de pobreza e vulnerabilidade em que essas pessoas se encontravam os compelia a ir morar nas regiões periféricas das cidades. E, assim como em muitas regiões periféricas do país, a Maré foi palco da chegada desses imigrantes. Não é à toa que a população mareense possui ainda hoje uma grande parcela de imigrantes e filhos de imigrantes nordestinos (Redes da Maré, 2019).

Desde sua origem, o Complexo mareense enfrenta problemas estruturais. As suas primeiras construções eram palafitas. Por margear a Baía de Guanabara, o local era uma área de mangue. Assim, à medida que os manguezais sofriam os efeitos das marés, problemas de inundação ocorriam nas moradias, de maneira que a comunidade foi aterrando o local com entulhos de obras doados em bairros vizinhos, como forma de solucionar o problema. A autoconstrução foi, portanto, uma saída encontrada por esses migrantes para lidar com o déficit habitacional e a ausência de políticas públicas de moradia. Uma alternativa criativa que se fez na adversidade, com a escassez de recursos, em condições ambientais desfavoráveis e em espaços indesejados por outros habitantes das cidades (Redes da Maré, s.d., b).

Em suas origens, a comunidade não dispunha de luz elétrica, água encanada ou rede de esgoto. O acesso relativo a esses serviços se deu por meio do seu engajamento, portanto, paralelamente às suas fragilidades. Diferentes organizações e movimentos de moradores atuaram para reduzir a falta de infraestrutura e de políticas públicas. Assim, desde o início, a Maré costumava enfrentar seus problemas estruturais por meio do engajamento de seus moradores e organizações.

Até hoje as adversidades enfrentadas pelos moradores continuam a ser combatidas com base no engajamento dos moradores. Assim, não é por acaso que diversas ONGs, associações de moradores, grupos culturais e diferentes organizações trabalham até hoje na região (Silva, 2023). São eles que costumam trabalhar contra as adversidades e em prol de melhorias na comunidade.

A Redes da Maré é uma das várias instituições que atuam na comunidade (Menezes, Magalhães e Silva, 2021). Os fundadores dessa organização não governamental (ONG) participam de ações coletivas no território desde a década de 1980, desenvolvendo projetos e ações sociais para atender as demandas estruturais dos moradores, no intuito de garantir direitos básicos e reduzir desigualdades.

Durante a pandemia, a Redes contribuiu para o movimento de resistência da população contra a Covid-19 e seus impactos. A ONG, com forte apoio dos moradores da comunidade e em associação com outras organizações, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), organizou trabalhos envolvendo ações e metodologias voltadas para promover a segurança alimentar, a prevenção da saúde, a produção de informação, a geração de renda, entre outros (Silva e Arouca, 2021).

Um dos primeiros efeitos da pandemia foi, como em todos os locais do mundo, o aumento da propagação da Covid-19 e das mortes no local. De março de 2020 até março de 2021, 1.606 moradores da região foram infectados e 169 morreram em decorrência das complicações causadas pelo vírus (Silva e Arouca, 2021). No primeiro ano da pandemia, a letalidade na comunidade chegou a ser duas vezes maior que a da cidade do Rio de Janeiro (Lisboa, 2022). Um dos aspectos que tornavam a pandemia mais grave no local era a falta de infraestrutura básica, como acesso à água e esgoto. Além disso, muitas casas, como ocorre em diversas periferias urbanas, possuíam adensamento populacional e/ou ventilação inadequada. Todos esses fatores tornavam a população mareense mais vulnerável diante da transmissão da Covid.

Outros problemas impostos pela pandemia na região foram o aumento da fome e da pobreza. Com o isolamento social, muitos moradores da comunidade perderam os seus empregos e as oportunidades de garantir a sua renda diária. Uma parte considerável da população é composta por trabalhadores informais, ou seja, que dependem da sua força de trabalho e de seus próprios negócios para se sustentarem. Com o fechamento das instituições e a diminuição da circulação das pessoas nas ruas, grande parte desses trabalhadores perdeu a sua fonte de renda.

Um dos primeiros projetos desenvolvidos pela Redes da Maré, no período pandêmico, foi o “Maré Diz Não ao Coronavírus”, que realizava a entrega de cestas básicas com alimentos e produtos de higiene para a comunidade. Embora a Redes não realizasse tradicionalmente esse tipo de trabalho assistencial, a situação emergencial fez com que os esforços da instituição se voltassem para a mitigação dos problemas (Silva e Arouca, 2021).

Para isso, a Redes da Maré contou com o apoio de 32 organizações e coletivos locais, como a Fiocruz, Observatório de Favelas, Luta pela Paz, Aid Brazil Foundation, além de doações privadas, que financiavam itens alimentares e os kits de higiene entregues para a população, assim como com o esforço de lideranças da organização e de moradores que, em sua maioria, trabalhavam de forma voluntária. Foi preciso montar uma grande estrutura organizativa e de captura de informações sobre as famílias e a realidade local para realizar a entrega das cestas (Silva e Arouca, 2021).

Houve também a entrega de refeições para moradores de rua da região ou pessoas dependentes de drogas, graças ao trabalho da Casa das Mulheres, uma instituição da Redes, dirigida e composta por mulheres que preparavam as refeições. Estas, assim como alguns dos entregadores das “quentinhas” e cestas básicas, recebiam remuneração. O projeto, portanto, não só colaborou para a diminuição da insegurança alimentar da população mareense, como para a geração de renda na comunidade durante a pandemia. Ao final do processo, cerca de 60 mil cestas básicas haviam sido entregues e 100 mil refeições foram distribuídas para moradores de rua, totalizando cerca de 20 mil famílias atendidas em termos de alimentação e higiene na comunidade (Redes da Maré, s.d., c).

A Redes criou um novo eixo de trabalho, o Conexão Saúde, para promover outros projetos, como a testagem gratuita da população, o Programa de Isolamento Social e a vacinação local contra a Covid-19. A testagem gratuita da população foi derivada do projeto piloto entre a Redes da Maré, a Fiocruz e a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. O projeto tinha como objetivo oferecer o acesso livre à testagem e seus resultados à população mareense, a fim de monitorar a propagação da doença, concedendo subsídios analíticos para a rápida tomada de decisão para a contenção da doença, bem como acompanhar o surgimento de possíveis variantes e monitorar os efeitos do vírus na saúde de pessoas infectadas.

Uma grande estrutura de testagem foi montada em prédios da Redes da Maré, que contava com o trabalho de agentes de saúde e de moradores voluntários, que atuavam na divulgação, no recrutamento da população para a testagem e no transporte do material coletado para a Fiocruz. Ao todo, cerca de 6.714 testes contra a Covid-19 foram aplicados até o dia 17 de dezembro de 2021.

Como desdobramento da testagem gratuita, a Redes implementou o Programa Isolamento Seguro. Esse programa oferecia um isolamento social domiciliar às pessoas que testassem positivo para a Covid-19, que continha auxílio alimentar e acompanhamento assistencial. Após receber os resultados da testagem gratuita por aplicativo, a pessoa, caso testasse positivo, poderia aderir ao programa de isolamento social. Nesse caso, ficava isolada em casa durante 14 dias e, para conseguir se manter em isolamento, recebia refeições, auxílio de médicos via telemedicina e o acompanhamento de assistentes sociais durante o período.

O projeto do Conexão Saúde chegou a aplicar mais de 40 mil testes de Covid-19 e a apoiar cerca de 1.400 pessoas. Ademais, vale destacar que, entre setembro de 2020 e abril de 2021, obteve um aumento de 124% no número de casos notificados em relação aos meses anteriores da pandemia, uma redução de 62% no número de óbitos e de 77% na taxa de letalidade na comunidade. O projeto foi responsável pela notificação de 97% dos casos de covid-19 na Maré (Lisboa, 2022).

Após os programas de testagem e de isolamento social seguro, a Redes, junto à Fiocruz e à Secretaria Municipal de Saúde, desenvolveram o projeto “Vacina Maré”, que tinha como objetivo a vacinação da população mareense contra a Covid-19. Esse empreendimento, que também era um projeto piloto, tinha o objetivo de vacinar os moradores e investigar e monitorar os efeitos da vacinação. Assim como os projetos anteriores, contou com forte apoio e trabalho voluntário dos habitantes locais, dos colaboradores da Redes e das instituições parceiras. Como resultado, em quatro dias de vacinação, mais de 36 mil pessoas haviam tomado a primeira dose da vacina contra a Covid-19 na Maré (Redes da Maré, s.d., a).

4.2. Vale do Ribeira

O Vale do Ribeira concentra a maior faixa contínua do bioma de Mata Atlântica do Brasil. Não por acaso, ali vivem quilombolas, indígenas, caiçaras, dentre outros povos e comunidades tradicionais, bem como agricultores familiares (Andrade e Tatto, 2013). Além de grande sociobiodiversidade, a região foi reconhecida, em 1999, como Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – Unesco (Instituto Socioambiental, 2017). Em 2018, o Sistema Agrícola Tradicional das comunidades quilombolas do Vale foi reconhecido como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Localizado entre o sul do estado de São Paulo e o norte do estado do Paraná, o Vale do Ribeira abrange 32 municípios, sendo 23 deles situados do lado paulista. Segundo o Inventário Cultural de Quilombos do Vale do Ribeira, feito pelo Instituto Socioambiental (ISA), somam-se mais de oitenta comunidades quilombolas na região (Andrade e Tatto, 2013). De acordo com dados do Censo demográfico de 2022, a população quilombola dos municípios que compõem o Vale foi estimada em 7.679 pessoas, enquanto a população indígena era de 2.129 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022).

As comunidades quilombolas do Vale do Ribeira foram construídas por descendentes de negros escravizados. Elas foram formadas em meados do século XVII, nos períodos de declínio da mineração da região. Essas comunidades enfrentam muitos problemas de regularização fundiária e sua história é marcada por lutas incessantes em defesa da permanência e proteção de seus territórios (Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, 2020). Eles se voltaram para a agricultura e se tornaram pequenos produtores de alimentos, não só para o mercado regional, mas também para outras regiões do país – a exemplo do arroz, que foi comercializado amplamente nos períodos do Brasil Império até meados do século XIX (Andrade e Tatto, 2013).

O território se constitui, para a população quilombola, como um espaço de resistência, liberdade e autonomia. Para se pensar sobre o quilombo a partir do vínculo com a terra, o território deve ser analisado como um fenômeno imaterial e simbólico: “ele é constituído pelas relações entre os agentes, agências, expectativas, memórias e natureza”, observa Arruti (2006, p. 323). Em outros termos, “o território usado é o chão mais a identidade. [...] O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida”, como sinalizado por Milton Santos (2009, p. 8). Nas palavras dos quilombolas da região:

Em nossos territórios, desenvolvemos nossa cultura, celebrações, formas de expressão, modos e formas de fazer, crenças, nos organizamos, nos curamos e produzimos artesanatos, tecnologias, alimentos, construímos e compartilhamos saberes e trajetórias (Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, 2020, p. 1).

O Sistema Agrícola Tradicional (SAT) quilombola do Vale do Ribeira abrange não só as técnicas e saberes necessários para o cultivo de plantas variadas, mas também incorpora os espaços onde essas atividades são realizadas, os arranjos produtivos locais, a organização do trabalho, os modos de processar os alimentos, os artefatos produzidos e utilizados, a cultura material associada às redes de comercialização, o contexto social envolvido no consumo e a transmissão de conhecimento (Instituto Socioambiental, 2017).

A ação solidária protagonizada pelos quilombolas do Vale do Ribeira e seus parceiros resultou na distribuição de alimentos saudáveis para cerca de 45 mil pessoas durante a pandemia. Foram 330 toneladas de produtos da agricultura familiar levadas para as periferias urbanas do estado de São Paulo, que desempenhou um duplo propósito: por um lado, cumpriu um papel relevante para o enfrentamento da crise para as populações urbanas socioeconomicamente vulneráveis; por outro, garantiu a continuidade da renda derivada da produção agrícola para os próprios agricultores quilombolas.

A Cooperquivale vendia a maior parte dos seus produtos para as escolas públicas, através do PNAE, do Ministério da Educação. Com o fechamento das escolas durante a pandemia de Covid-19, os agricultores se viram sem esse caminho para o escoamento da produção, o que levou a criação do “consórcio de doações”, que, no plano prático, levou os frutos dos cultivos nos territórios para as cidades. A ação estendeu os seus efeitos para outros planos, como o simbólico e sociocultural, na medida em que articulou o quilombo ao movimento negro urbano através da soberania alimentar.

Nesse sentido, pode-se dizer que “a partir dessa iniciativa, foram destacadas articulações entre quilombo e favela, que não apenas possibilitam abertura de mercados futuros, mas reforçam afetos e alianças comuns” (Marcucci e Machado, 2023, p. 38). Somado a isso, a alimentação se constitui como um sistema complexo, que remete a memórias, modos de vida, relações sociais, lógicas corporais e representações simbólicas (Marcucci e Machado, 2023).

O projeto inicial teve desdobramentos, em especial a feira “Quilombo Quebrada”, que leva mensalmente alimentos de qualidade a preços subvencionados para a periferia da capital paulista, desde meados de 2022. A iniciativa resulta de uma parceria entre a Cooperquivale, Mulheres de Orì e Kitanda das Minas (empreendimentos de cultura alimentar conduzidos por mulheres negras).

5. Convergências e dissensões entre o quilombo e a favela

Os dois casos relatados apresentam divergências e convergências. Quanto às primeiras, à princípio há a diferença entre os contextos urbano e rural, que traz implicações tais como a grande densidade populacional das favelas, com suas habitações pequenas e pouco ventiladas, em contraste com os quilombos, cujas habitações são mais dispersas. Entre campo e cidade, há também diferença na capacidade de promover a segurança alimentar. O meio urbano de caracteriza pela dependência monetária, ao passo que nos quilombos o acesso ao território e, portanto, à possibilidade de plantio, demonstrou ser um fator positivo não apenas para o abastecimento interno, mas também para as ações solidárias durante a pandemia. Dentre os pontos divergentes, sublinhamos também as características históricas que emolduram as populações. Apesar da sua heterogeneidade, os quilombos do Vale do Ribeira compartilham da fixação secular no território, mantendo laços de parentesco, rituais e outros fortes aspectos identitários duradouros em comum; enquanto em termos históricos, o Complexo da Maré traz uma origem mais recente, a partir das migrações dos anos 1940, apresentando um dinamismo populacional maior, típicos do mundo urbano, e uma construção identitária mais recente e fluida.

Dentre as convergências, um ponto bastante visível é a vulnerabilidade, que se traduz nas fragilidades socioeconômicas, nos impactos do racismo e na ausência do Estado – lacunas que se tornaram ainda mais agudas durante a pandemia. Outro aspecto é que ambos os espaços são historicamente ameaçados e, como já discutido em muitos casos, possuem origens comuns. Portanto, os dois territórios sinalizam caminhos históricos de resiliência perante as ameaças entranhadas nos cotidianos. A crise sanitária da Covid-19 foi um grave elemento adicional de uma realidade que, moto-contínuo, exige estratégias de sobrevivência por parte dessas populações. Com a pandemia, tais estratégias tornaram-se mais reforçadas e perceptíveis.

Isso nos leva a outros pontos de convergência, a exemplo da busca de soluções coletivas para a crise, o trabalho em rede e a ancoragem comunitária. A lacuna de políticas públicas locais levou essas comunidades a realizarem parcerias, como vimos com a ONG Redes da Maré, que contou com o apoio de dezenas de organizações e coletivos, e a Cooperquivale, que igualmente mobilizou inúmeros parceiros. À capacidade de tecer alianças, soma-se, nos dois casos, o envolvimento dos atores locais, para além das organizações que os representam e defendem, inclusive através de ações voluntárias. Aliam-se à gratuidade das ações voluntárias outros dois pontos complementares: a busca de caminhos para garantir a renda familiar – como foi o caso do trabalho remunerado das cozinheiras na Maré e do escoamento da produção estancada dos agricultores no Vale do Ribeira – e a centralidade do alimento para a resiliência em momentos de crise. Dentre os pontos de semelhança, vê-se também o protagonismo das mulheres. Portanto, há trajetórias convergentes percorridas nos dois casos, com foco na proteção da vida. Apesar das diferenças, ambos recorreram a estratégias em comum para enfrentarem a crise: um forte envolvimento local, trabalho em rede e grande preocupação com a segurança alimentar.

A capacidade de resiliência da Maré e dos quilombos do Vale do Ribeira também apontam para um panorama identitário e, em especial, epistêmico, sobre o qual se assentam as ações solidárias. Consideramos que são exemplos de epistemologias periféricas, a partir das quais os planos de ação são idealizados, geridos e conduzidos. A lógica da horizontalidade que caracteriza as ações em rede aponta para os saberes e vivências de autogestão que diferem dos circuitos verticais hegemônicos de funcionamento das organizações ligadas ao mercado. A rápida capacidade de resposta diante da pandemia e a dimensão dos resultados das ações dão pistas de um modus operandi que é anterior à Covid-19 e que é crucial para a resiliência histórica dessas populações, apesar de sua heterogeneidade, conflitos e distinções. Essa epistemologia também revela o protagonismo dos atores, que se colocam sem intermediários para discutir e alterar determinada realidade.

Vale notar ainda as conexões campo-cidade, em especial no caso dos quilombos e seus parceiros. Não raro, os meios urbano e rural são analisados de forma segmentada, mas as pontes entre esses universos podem ser exploradas. O duplo movimento feito pela Cooperquivale – garantir a renda das famílias agricultoras e distribuir alimentos para as quebradas de São Paulo – foi também movido por um sentimento de continuidade histórica entre os dois espaços, como foi mencionado pelos próprios atores ao identificar semelhanças entre o quilombo e a favela. A emergência dessas conexões e trânsitos identitários, que vêm gerando, inclusive, desdobramentos e continuidades locais, nos leva a argumentar que as comunidades periféricas estudadas desenvolveram uma estratégia progressiva de resiliência, nos termos de Bouchard (2013). Ou seja, uma vez atingidos pelo risco e pelo estresse, os atores responderam criativamente ao choque. Foram além da busca do ajustamento, criando novas relações, novos trânsitos e novas ações em rede diante da crise.

6. Considerações finais

Esta discussão teve como foco as ações solidárias e em rede empreendidas no Complexo da Maré e no Vale do Ribeira durante a pandemia de Covid-19, a partir de uma perspectiva comparada. Apesar das distinções entre os dois casos, a começar pelas diferenças entre espaços urbanos e rurais, encontramos fios em comum que nos remetem ao conceito de epistemologias periféricas, pautadas pelas profundas conexões entre o pertencimento ao território (apesar de suas heterogeneidades internas), a cultura desenvolvida no seio das comunidades e a ação política (D’Andrea, 2020). Entendemos que a crise sanitária, em meio a tantas tragédias, à desinformação e à inoperância do Estado, também mobilizou teias sociais, saberes locais e capacidade de ação e autogestão já existentes, lançando luz sobre resiliência progressiva (Bouchard, 2013). Para o autor, esse tipo de resiliência vai além dos ajustes para enfrentamento do fator estressor, avançando rumo a soluções inovadoras e criativas para a superação de momentos críticos através do protagonismo dos atores.

As ações mobilizadas pela comunidade da Maré e pelas comunidades quilombolas do Vale do Ribeira nos mostram que os caminhos para o enfrentamento das crises são construídos coletivamente. Os moradores da Maré, que sobrevivem diariamente às precárias condições de vida e à ausência de políticas públicas efetivas, reconheceram uma saída para a crise na sua própria força coletiva e solidária. Uma saída mais presente e urgente que a oferecida pelo Estado e até mais efetiva que ele. Os quilombolas do Vale do Ribeira resistiram historicamente à escravidão e continuam a resistir às desigualdades estruturais, ao racismo e às várias formas de opressão contra o povo negro. Sua resistência e luta são e sempre foram compartilhadas coletivamente por meio da ancestralidade.

Apesar de distantes geograficamente e com especificidades singulares, a solidariedade e os laços fraternos entre as pessoas são transversais aos dois cenários. Diante de uma crise sanitária global, cujos efeitos foram devastadores não apenas sobre as condições de saúde, mas sobre a geração de renda e o acesso a bens e serviços básicos, os quilombolas do Vale do Ribeira ofereceram uma resposta cooperativa e redistributiva, que contribuiu para mitigar a insegurança alimentar das comunidades urbanas por meio da abundante e diversa produção agrícola quilombola. Redistribuir recursos, sobretudo em períodos de crise, também significa promover saúde e dignidade.

Não obstante, por mais que as redes de solidariedade tenham se formado na pandemia, elas são reflexo de laços afetivos já existentes. As redes representam o fortalecimento desses laços, orientados a um objetivo comum, urgente e vital. Foi necessário o gerenciamento das ações e a canalização de esforços para enfrentar a pandemia, somando-se ainda ao combate das outras desigualdades estruturais de raça, classe e gênero, que afetam de maneira desproporcional essas regiões. No início do período crítico da pandemia, a ação conjunta precisou ser imediata dada a gravidade da doença e o alto risco de contágio. No entanto, esse não foi o ponto de partida das redes, mas sim um impulso a elas. As redes de solidariedade existem nas comunidades da Maré e do Vale do Ribeira há tempos. São redes fundadas nos laços entre pessoas que sempre estiveram lutando pela sobrevivência, seja pela ausência do estado e de políticas públicas satisfatórias, seja pelas condições precárias de vida e de trabalho, pela falta de renda e de acesso a bens e serviços, ou seja pelas disputas por terra, pela insegurança e pelas ameaças constantes de invasão ao território. A luta pela sobrevivência faz parte da história e da formação desses territórios, tanto no meio rural quanto no meio urbano, e ela reverbera no seu povo, que identifica no coletivo um artifício poderoso para resistir.

  • 1
    Gostaríamos de agradecer aos professores Leda Gitahy (Unicamp) e Adalberto Cardoso (UERJ) pela oportunidade de participar do projeto de pesquisa "ENDURE: Inequalities, Community Resilience and New Governance Modalities in a Post-Pandemic World", que nos possibilitou tecer as análises aqui empreendidas. Agradecemos também à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) pelo financiamento do projeto (processo n. 2021/07839-2).
  • 2
    A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa ligado ao projeto ENDURE. Processo n. 64779722.0.0000.8142.
  • 3
    Trecho extraído de postagem feita no blog “Colecionador de Pedras”, de Sérgio Vaz (2007).
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    O conjunto de dados que dá suporte à discussão apresentada foi publicado no próprio artigo.

Referências

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  • Editor Responsável:
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    Luis Felipe Kojima Hirano

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    27 Ago 2024
  • Aceito
    21 Jul 2025
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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