Resumos
Resumo Em 1838, Harriet Martineau publicou o livro How to Observe: Morals and Manners. Este artigo examina ensaios, cartas e uma autobiografia para traçar as influências que moldaram essa obra. O objetivo é entender como uma mulher excluída da educação superior escreveu um tratado pioneiro de sociologia várias décadas antes desse campo se tornar cátedra nas universidades europeias. Argumentamos que Martineau figura no rol de figuras históricas inovadoras, pois ela propôs uma “ciência da moral” baseada no equilíbrio entre razão e sentimento, tentando injetar novidades em um meio social que ainda não lhes conferia um lugar legítimo. O artigo traz contribuições para a história e fundamentos da Sociologia, transpondo para a escala individual o problema maior das oportunidades e coerções envolvidas no processo de desenvolvimento de uma ciência do social.
Palavras-chave:
História da Sociologia; História das Mulheres; Sociologia figuracional; Era Vitoriana; Harriet Martineau
Abstract In 1838, Harriet Martineau published the book “How to Observe: Morals and Manners”. This article examines essays, letters, and an autobiography to trace the influences that shaped her work. The objective is to understand how a woman excluded from higher education wrote a pioneering treatise on Sociology several decades before this field became a subject in European universities. We argue that Martineau belongs to the ranks of innovative historical figures, because she proposed a “science of morals” based on the balance between reason and sentiment, attempting to inject new ideas into a social milieu that still did not grant them a legitimate place. The article contributes to the history and foundations of Sociology, transposing the larger problem of opportunities and coercions involved in the process of developing a social science to the individual scale.
Keywords:
History of Sociology; Women’s History; Figuracional Sociology; Victorian Age; Harriet Martineau
1. Introdução1
A bordo de um navio em 1834, a caminho de um estudo intensivo de dois anos sobre a sociedade americana, ela escreveu o primeiro rascunho do que mais tarde se tornou um volume de instruções para viajantes que buscavam estudar culturas estrangeiras, How to Observe Morals and Manners. Este volume é, talvez, o primeiro livro sobre a metodologia da pesquisa social das então ainda não nascidas disciplinas da Sociologia e da Antropologia. Martineau percebeu que o estudo dos sistemas sociais era uma disciplina científica separada e chamou-a de “ciência da moral e dos costumes”. Como escreveu seu mais recente biógrafo, “durante anos ela pregou sociologia antes que ela tivesse esse nome”. (Lipset, 1962, p. 7, tradução nossa).2
A escritora britânica Harriet Martineau (1802-1876) foi um dos grandes sucessos editoriais do século XIX, ao lado de autoras famosas como Jane Austen, George Eliot e as irmãs Brontë (Lepenies, 1996). Como elas, Martineau publicou livros de ficção, a exemplo de Deerbork, The Crofton Boys e The Hour and the Man. Porém, diferente de suas contemporâneas, ela ficou mais conhecida por escrever sobre economia política, métodos de investigação social, relatos de viagem, livros de história, políticas públicas e assim por diante, tornando-se uma voz respeitada no debate público do seu país (Lengermann e Niebrugge-Brantley, 1998).
Martineau teve uma carreira incomum. Na primeira metade do século XIX, a ciência era um campo de difícil acesso para as mulheres, que eram proibidas de assistir aulas nas universidades.3 A maioria das autoras de sucesso eram autodidatas e não possuíam conhecimento de textos clássicos ou poesia. Como consequência, o caminho de consagração mais comum era a escrita de romances (Šalinović, 2014). Com Martineau foi diferente: embora não tenha se aventurado pelas ciências naturais, ela forjou seu caminho nas ainda imaturas “ciências do homem”.4
Em 1962, no prefácio à reedição do livro Society in America de Martineau (1837) nos Estados Unidos, o sociólogo Seymour Martin Lipset descreveu seu outro livro, How to Observe: Morals and Manners (Martineau, 1838), como o primeiro livro sobre a metodologia da pesquisa social de que se tem registro, publicado antes mesmo de a palavra “sociologia” ter sido cunhada (Lipset, 1962). Essa obra antecedeu em quase seis décadas Les Règles de la méthode sociologique, de Émile Durkheim, publicado somente em 1895.
O livro de Durkheim costuma ser descrito como a pedra angular de uma nova disciplina comprometida com o estudo do social. Nessa obra, ele definiu a sociedade como objeto de uma ciência própria e propôs um método empírico específico para estudá-la. How to Observe: Morals and Manners reúne esses mesmos predicados. Porém, diferente do que aconteceu com o texto de Durkheim, o livro de Martineau não entrou para a história da Sociologia como texto fundamental ou clássico.
Desde os anos 1960, esforços individuais e coletivos tentam mudar esse estado de coisas. Como já exposto, houve o empenho de Lipset (1962), que reeditou Society in America e reconheceu Martineau como precursora da sociologia compreensiva. Nos anos 1980, acadêmicas de departamentos de women’s studies incluíram-na em coletâneas sobre intelectuais proto-feministas. Finalmente, desde os anos 1990, um grupo de cientistas sociais fortemente comprometido, como Susan Hoecker-Drysdale, Mary Jo Deegan, Lynn McDonald, Patricia Madoo Lengermann, Jill Niebrugge-Brantley e Michael Hill, passou a chamar Martineau inequivocamente de socióloga e a se empenhar pelo seu reconhecimento como “clássica” (Daflon, 2023).
Este trabalho se soma a esses esforços, caracterizando o ambiente institucional, as relações de interdependência e as referências intelectuais envolvidas na escrita de How to Observe: Morals and Manners (Martineau, 1838). Por praticidade, a partir daqui nos referimos à obra pela sigla “HOMM” ao longo do texto. Embora apresente um panorama dos anos de formação da autora, este artigo foca especificamente o período iniciado em 1829, quando Martineau publicou seus primeiros ensaios sobre a “ciência da moral”, e encerrado em 1838, com a publicação de HOMM.
O artigo está organizado em seis partes. Na introdução, apresentamos os objetivos e o enfoque teórico e metodológico do nosso texto. Na segunda parte, fornecemos dados biográficos sobre a autora e caracterizamos os processos que colaboraram para pôr Martineau na rota de produção do seu tratado de sociologia. Na terceira parte, exploramos a base epistemológica e metodológica para uma ciência da moral desenvolvida por Martineau nos primeiros escritos: Essays on the Art of Thinking, de 1829 e Theology Politics and Literature, 1832, ambos publicados posteriormente na coletânea de textos Miscellanies (Martineau, 2016). Na quarta parte, fornecemos dados sobre o contexto de produção de How to Observe: Morals and Manners. Na quinta parte, examinamos seu processo de desenvolvimento de uma “ciência da moral” e mostramos como ela produziu arranjos originais a partir de diferentes autores e correntes filosóficas. Por fim, na sexta parte, reunimos informações sobre a recepção e o esquecimento das inovações de Harriet Martineau, sustentando que ela enfrentou barreiras ao seu reconhecimento e à continuidade do seu programa de pesquisa. As principais fontes utilizadas na pesquisa são ensaios publicados na imprensa, correspondências da autora e os dois volumes da autobiografia de Martineau (Martineau, 1877, 1990a, 2010, 2016; Logan e Sanders, 2021a, 2021b).
O texto amplia e desenvolve observações de artigos que se debruçaram sobre a recepção das obras de Martineau (Scholl, 2009; Campos e Daflon, 2023; Woodmansee e Osteen, 1999). No entanto, diferente deles, não se debruça sobre a recepção e a circulação da sua produção escrita, mas sobre as características internas desses textos e as influências que moldaram sua obra. Uma pesquisa bibliográfica abrangente, conduzida no Web of Science, Google Books e no Portal de Periódicos CAPES, com as palavras-chave “Harriet Martineau”, entre dezembro de 2023 e março de 2024, retornou 232 resultados, sendo eles: 100 artigos em periódicos, 73 capítulos de livros, 45 livros e 14 verbetes em enciclopédias.
Depois da leitura dos resumos e classificação dos materiais, constatou-se que somente 11 textos se debruçavam sobre o nosso período de interesse e lidavam com as influências intelectuais da autora. Alguns textos discutem a influência da religião unitarista e da doutrina do necessarianismo no pensamento de Martineau (Boucher-Rivalain, 2012; Calhoun, 2017; Stone, 2023). Outros abordam sua relação com as ideias e teorias de autores como Thomas Malthus (Dzelzainis, 2006), Adam Smith (Vetter, 2008; Oražem, 1999), Friedrich Schiller (Crawford, 2020), James Mill e John Stuart Mill (Vint, 2023). Os demais reconstituem as redes de relações da autora e seu lugar no mercado editorial das primeiras décadas do século XIX (Peterson, 2006; Sanders e Weiner, 2016; Peterson, 2021). Nenhum deles trabalha especificamente com How to Observe: Morals and Manners. Por esse motivo, acreditamos que o nosso texto supre uma lacuna na literatura, oferecendo uma contribuição a um conjunto de trabalhos em expansão.
2. Dados biográficos: da igreja unitarista à vida pública
Para compreender a produção de How to Observe: Morals and Manners, precisamos antes caracterizar a estrutura social, o ambiente institucional e os regramentos sociais específicos que permitiram o fenômeno Harriet Martineau. Ao fazer isso, não negamos a singularidade da autora ou sugerimos que sua trajetória pode ser reduzida a determinações sociais; ao contrário, encaramos esse exercício como um estudo de caso que permite transpor para a escala individual o problema maior das oportunidades e coerções envolvidas no processo de desenvolvimento de uma ciência do social (Elias, 1994; 1995).
Martineau nasceu em 1802, em Norwich, na Inglaterra. Ela foi a sexta filha do casal Thomas e Elizabeth Martineau, uma família descendente de migrantes que fugiram da perseguição religiosa na França. Vinculados à Igreja Unitarista, os Martineau eram cristãos dissidentes, que possuíam discordâncias doutrinárias em relação à Igreja Britânica, admiravam a ciência e apoiavam a educação de mulheres e trabalhadores (Timmons, 1996). Os pais transmitiram aos filhos a herança cultural francesa, incluindo o idioma e os valores do Iluminismo continental (Hoecker-Drysdale, 2003).
Nessa época, a maior parte da população do país era analfabeta, embora o acesso à leitura estivesse aumentando rapidamente. As meninas mais afortunadas estudavam em casa e, em alguns casos, dividiam o tutor com os irmãos ou tinham acesso à biblioteca da família (Šalinović, 2014). Diferente delas, Martineau recebeu alguns anos de educação formal proporcionados pela rede Unitarista, além de crescer cercada em uma atmosfera intelectualmente estimulante e de atitudes um pouco mais progressistas em relação às mulheres do que a sociedade em geral.
Ao longo da infância e adolescência, Martineau foi acometida de uma série de doenças, perdeu o olfato e o paladar ainda criança, e aos 12 anos sofreu com a perda parcial da audição. Em sua autobiografia, ela associa a infância à falta de afeto maternal, à incompreensão familiar e aos longos períodos de reclusão em casa. O isolamento e a baixa autoestima levaram-na a buscar conforto na religião, no estudo da Bíblia e na leitura ávida de todo tipo de texto, dos clássicos gregos à matemática e literatura. Segundo ela, o medo de falar e a vontade de se expressar levaram-na a desenvolver o gosto pela escrita (Martineau, 1877).
Em uma carta endereçada a Anna Brownell Jameson, em julho de 1841, Martineau descreveu seus hábitos de leitura durante a infância e a adolescência. O contato precoce com “Paraíso Perdido”, de John Milton, e o estudo metódico da Bíblia marcaram seus primeiros anos. A isso se seguiu a leitura de Shakespeare, Madame de Genlis, Voltaire e outros. Porém, o autor que mais a cativou foi David Hartley, cuja obra ela acessou aos 17 anos (Martineau, 1990b). O filósofo britânico do século XVIII, autor de Observations on Man, His Frame, His Duty, and His Expectations (1749) seria uma influência perene sobre a autora – além de servir de estímulo para a leitura de outros filósofos, como John Locke e Dugal Stewart (Martineau, 1877; Hoecker-Drysdale, 2003).
Não lembro quando comecei a ler Shakespeare; mas certamente eu tinha menos de quinze anos (...). De todos os personagens, acho que Jacques, Hamlet, Lear (em suas cenas especulativas) e Henrique V eram meus favoritos. Das mulheres, Imogen. O Duque em "Medida por Medida", também, eu aprendi de cor. É estranho que durante todo esse tempo eu lia diariamente "Veillees du Chateau". (...) Outro favorito era o "Teatro" de Mme Genlis. Também, "Carlos XII" de Voltaire. Além de uma história sobre a Revolução Francesa em "Mrs. Hurry’s Artless Tales" (...). Minha memória estava repleta de poesias que aprendi de cor enquanto fazia camisas, com o livro no meu joelho; e eu revisitava tudo à noite. Assim, aprendi "The Deserted Village" entre um domingo e outro. Eu não me importava com Cowper (o que é estranho) nem com Byron, que parecia um resmungão covarde. Não conseguia entender por que o mundo o admirava tanto. Milton, Gray, Goldsmith, Thomson, Moore, Rogers, Pope (nunca Dryden) – esses e vários trechos de autores mais antigos eram a minha dieta naquela época. Eu lia bastante latim com grande prazer, mas isso não era um luxo particular. O grande livro de todos foi o de Hartley. Quando eu tinha 17 anos (Martineau, 1990b, p. 61-62, tradução nossa).5
Nos anos 1820, sua família enfrentou uma sucessão de problemas pessoais e financeiros. O noivo e o pai de Martineau faleceram e o negócio familiar foi à falência. Suas irmãs, então, foram trabalhar como governantas, enquanto Martineau optou por ficar na casa dos pais, ganhando a vida com a escrita e a costura (Martineau, 1877). Nos anos seguintes, ela se lançaria na carreira de escritora e jornalista. Aos 19 anos, ela começou a publicar contos, poemas, ensaios e resenhas no jornal unitarista Monthly Repository. Martineau construiu uma reputação de intelectual nesse circuito, conquistando o cargo de editora na revista e vencendo concursos de ensaios teológicos (Calhoun, 2017).
Martineau permaneceria solteira a vida toda. Esse fato permitiu que ela tivesse um nível de autonomia pessoal e independência financeira raro, visto que no Reino Unido, até o final do século XIX, mulheres casadas não tinham o direito legal a seus próprios ganhos (Johnston e Fraser, 2001). Apesar de trabalhar no interior de uma comunidade religiosa, os interesses de Martineau se deslocaram rapidamente da teologia para a filosofia, literatura, ciência e, finalmente, para a economia política. Em sua autobiografia, ela afirma que desejava ardentemente alargar sua rede de interlocutores para além do círculo unitarista (Martineau, 1877).
A autora conquistaria o espaço que ambicionava no circuito intelectual britânico com um projeto editorial original: um conjunto de livros de divulgação científica, voltado para as pessoas comuns. Naquelas décadas iniciais do século XIX, o ambiente escolar e científico da Inglaterra era fragmentado, frágil, e diferentes grupos, como conservadores, radicais, liberais ou religiosos, procuravam influenciar as massas através da educação e da difusão de conhecimento (Timmons, 1996). Enquanto a Royal Society se mantinha encastelada, cultivando uma ciência para as elites, diversas organizações e periódicos se voltavam para o público mais amplo, disputando corações e mentes, o que impulsionou um verdadeiro mercado para divulgadores da ciência (Winter, 1998).
Depois de bater à porta de vários editores, Martineau conseguiu vender seu projeto: uma série de livros contendo lições científicas e teorias econômicas na forma de contos e parábolas. Os volumes contribuiriam para a difusão do conjunto de leis econômicas desenvolvidas por autores da economia política, como Adam Smith, Thomas Malthus, David Ricardo, James Mill e outros. Utilizando o recurso narrativo e reunindo, através de histórias envolventes, personagens, cenários e diálogos, a autora conectou teorias sobre forças econômicas gerais ao cotidiano e às vidas das pessoas comuns. Aqui, Martineau já insere uma forma de análise basilar em sua obra: a relação entre o macro e o microssocial, o público e o doméstico (Joaquín, 2024).
As histórias transcorrem em um território específico, são situadas, e isso é de grande interesse, pois, além do sentido pedagógico, nos transmitem o funcionamento de uma sociedade real, longe de abstrações e referências irrefutáveis (Joaquín, 2024, tradução nossa, p. 8).6
Nasceram, assim, os 25 volumes de Illustrations of Political Economy, publicados entre 1832 e 1834. As obras se tornaram um sucesso de vendas, alcançando dez mil cópias mensais. Os livros garantiriam não só a sua independência financeira, mas também seu ingresso em círculos políticos e intelectuais, além de novos convites editoriais (Lengermann e Niebrugge-Brantley, 1998), viabilizando seus trabalhos seguintes. A segurança material permitiu, ademais, que ela planejasse uma viagem aos Estados Unidos da América, onde permaneceria por dois anos, observando a jovem democracia daquele país.
3. Das ciências físicas à “ciência da moral”
A inventividade, é preciso admitir humildemente, não consiste em criar do vazio, e sim do caos; a matéria-prima deve, primeiro, estar à disposição: a inventividade pode dar forma a substâncias disformes e obscuras, mas não é capaz de criar substância em si (Shelley, 2015, p. 69).
Seja na literatura, arte ou ciência, o trabalho criativo consiste em fazer arranjos originais a partir de referências preexistentes. A sociologia se opõe à ideia de autonomia da obra porque entende que ela tem natureza intersubjetiva e referida a significados socialmente partilhados. Como consequência, as criações humanas não possuem um conteúdo que escape ao contexto social dos seus autores (Heinich, 2010; Collins, 2009). Ao reconstituir a trajetória pessoal e intelectual de Harriet Martineau, conseguimos entender os arranjos originais que ela produziu no seu trabalho – um sistema completo de proposições teóricas, epistemológicas e metodológicas que ela formalizou em How to Observe: Morals and Manners e aplicou em suas pesquisas nos Estados Unidos (Hoecker-Drysdale, 2011) e Oriente Médio (Winter, 1998). Essas ideias se desenvolveram gradualmente. Uma série de ensaios publicados em jornais entre 1829 e 1832 e compilados em livro em 1836 permitem acompanhar essa evolução.
Na série de textos Essays on the Art of Thinking, publicados em 1829, Martineau ensina aos leitores como cultivar a disciplina intelectual. Ela critica falácias lógicas, argumentos apelativos, sugere cuidado com o raciocínio por analogias, ensina como ler de forma ativa, exercitando a comparação e o julgamento, e como meditar sobre as ideias de uma forma produtiva. Martineau fornece estratégias e exercícios para escrever melhor, com lógica e clareza, e faz uma defesa intransigente da precisão da linguagem e da honestidade intelectual.
Pessoas que raciocinam de forma descuidada e que usam termos ambíguos, mesmo que não tenham intenções desonestas, são incapazes de chegar à verdade e acabam obstruindo o progresso das outras (Martineau, 2016, p. 85, tradução nossa).7
As reflexões desse texto têm uma matriz filosófica principal: as teorias da mente de David Hartley e Joseph Priestley, para quem os indivíduos não possuem ideias inatas, mas as formam através de sensações, impressões e associações. Para eles, longe de ser uma receptora passiva, a mente produz associações e é capaz de formular leis e princípios (Lengermann e Niebrugge-Brantley, 1998). Porém, Martineau enfatiza que a mente humana precisa ser treinada, pois é propensa a estabelecer analogias espúrias, identificar padrões onde eles não existem e confirmar crenças prévias (Martineau, 2016).
O treinamento na “arte de pensar”, para a autora, começa por uma seleção criteriosa dos objetos do conhecimento, que precisam ser passíveis de ser acessados e compreendidos. A distinção entre o que é e o que não é cognoscível é fundamental – e Martineau afirma que essa constatação foi indispensável para que desenvolvesse uma atitude científica e não ortodoxa com relação ao mundo (Martineau, 1877). Alguns princípios gerais devem organizar a observação, pois, do contrário, a mente não sabe o que processar. Martineau defende o método dedutivo de Francis Bacon, isto é, a geração de princípios a partir da observação de fatos, a aplicação desses princípios à elucidação de novos fatos e assim sucessivamente (Martineau, 2016).
O mundo filosófico era dividido entre facções conflitantes, até que Bacon publicou o método correto de descobrir a verdade, que fez a filosofia avançar a passos largos, e uma nova luz surgir no mundo da ciência. Este princípio é tão simples que é extraordinário que não tenha sido adotado mais cedo; e, ainda assim, tão vasto em sua operação, que tentativas de estimar seus efeitos são vãs. Este método consiste em reunir uma acumulação de fatos antes da formação de uma teoria; e, tendo observado cuidadosamente sua relação com um ponto particular, deduzir deles um princípio que pode ser aplicado à explicação de novos fatos (Martineau, 2016, p. 72, tradução nossa).8
Em seu texto, a epistemologia baconiana encontra a antropologia filosófica de Hartley e Priestley. Para ela, se o método dedutivo permite gerar teorias é porque as ideias colecionadas pela observação passam, em todas as mentes, por processos de comparação e seleção. Novas ideias, por sua vez, devem ser comparadas com aquelas já estocadas anteriormente. Dessa maneira, diz a autora, um objeto familiar é encarado sob um novo prisma e assuntos que pareciam desconectados passam a ser vistos em suas relações (Martineau, 2016).
Para esse propósito, os processos de comparação e julgamento não devem ser realizados apenas quando o esforço não pode ser evitado, mas devem ser vigorosamente incentivados e observados com cuidado incessante. Todas as ideias que a faculdade de observação apresenta devem ser comparadas com aquelas que já armazenamos sobre o mesmo assunto; e assim, nova luz pode ser lançada sobre um objeto familiar, e novas relações percebidas entre assuntos que antes pareciam totalmente desconectados (Martineau, 2016, p. 95, tradução nossa).9
A base epistemológica de Martineau é o empirismo, perspectiva dominante na Grã-Bretanha naquele momento. Enquanto o racionalismo cartesiano, mais popular na Europa Continental, apregoava noções de ideias inatas e métodos baseados na lógica e na dedução, para o empirismo o conhecimento derivava sobretudo das experiências sensoriais (Porter, 2003). Como consequência, Martineau (2016) defendeu uma ciência baseada na observação de fatos, possibilitando o desenvolvimento de teorias por meio de inferências.10
Nesses ensaios, as observações de Martineau ainda se concentram nas ciências naturais. Mesmo assim, Martineau faz uma primeira menção aos viajantes, seus preconceitos e generalizações indevidas sobre outros povos – sugerindo que os mesmos princípios de rigor e disciplina das ciências naturais poderiam ser aplicados à observação do social. Outro ponto em que essa relação se insinua é em sua insistência em advertir que aqueles objetos que nos parecem mais familiares, como o cotidiano, podem ser precisamente aqueles que menos conhecemos – e a respeito dos quais mais resistimos em admitir que estamos errados.
Em 1832, Martineau publicou Theology, Politics and Literature. Diferente dos seus ensaios anteriores, nesse texto ela abordou explicitamente a ideia de uma “ciência da moral” e lamentou que esse campo de conhecimento estivesse tão atrasado em relação às ciências físicas. Na Europa, termos como “ciência do homem” ou “ciência da moral” já circulavam desde o final do século XVIII. A ideia de estudar a “sociedade” como um objeto de estudo distinto, separado, por exemplo, do Estado, vinha amadurecendo ao longo desse período (Porter, 2003). Nesse sentido, não foram Auguste Comte, Émile Durkheim ou a própria Martineau que conceberam individualmente a ideia de uma ciência social. Porém, cada um daria sua contribuição para melhor delimitar suas fronteiras, temas e abordagens. Nesse mesmo ensaio, Martineau também criticou os jornais da época, afirmando que eles apresentavam uma acumulação desorganizada de fatos.
Nossa imprensa periódica trabalha tanto com política quanto com literatura; mas de que maneira? — tropeçando em meio a uma acumulação sombria de fatos, ou encontrando um caminho incerto e perigoso à luz dos eventos que passam. A ciência política, como ensinada por nossa imprensa periódica, está em um estado tão bruto quanto a ciência física há dois séculos e meio; e embora a existência de um regenerador entre nós nos dê esperança de um avanço rápido e certo, o Novum Organon com o qual ele nos forneceu não estará em pleno uso até que seus cabelos grisalhos tenham descido ao túmulo (Martineau, 2016, p. 193, tradução nossa).11
Martineau defendeu que as ideias religiosas também deveriam ser submetidas à razão e à pesquisa e que o ser humano não deveria ser estudado através de uma perspectiva teológica, referindo-se a uma causa primeira, mas sim de maneira científica (Martineau, 2016). Apesar disso, seria apenas em How to Observe: Morals and Manners que a autora formalizaria sua proposta de “ciência da moral”. É esta obra que nos voltamos agora.
4. Enfim, How to Observe: Morals and Manners
São raras as referências a How to Observe: Morals and Manners na autobiografia e na correspondência de Martineau. Society in America, seu grande êxito editorial, ocupa um espaço consideravelmente maior. Porém, sabemos das circunstâncias da produção do livro graças a algumas linhas traçadas na sua autobiografia e a dados contidos em publicações da sua editora. Em 1836, o editor da Society for the Diffusion of Useful Knowledge (Sociedade para a Difusão do Conhecimento Útil), Charles Knight, pediu a ela que escrevesse um capítulo para um futuro livro intitulado How to observe. O volume teria contribuições de vários autores, transmitindo a estudantes e viajantes os conhecimentos científicos necessários para produzirem observações de valor sobre tópicos como geologia, história natural, agricultura, artes, estatísticas etc. (Hill, 2015). Martineau (1877) ficou encarregada do capítulo sobre a observação da “moral e dos costumes”.
A década de 1830 era povoada de praticantes amadores da ciência. Acreditava-se que a lógica da descoberta era aberta a todos – e não era um domínio exclusivo dos especialistas. Por isso, muitos buscavam tornar a prática científica acessível às pessoas comuns (Topham, 2000; Winter, 1998). Seria apenas na segunda metade do século XIX que aconteceria a ascensão dos especialistas e o fechamento das fronteiras da ciência ao público. As disputas políticas e ideológicas na Inglaterra, por sua vez, deram origem a diversas sociedades científicas, como era o caso da Society for the Diffusion of Useful Knowledge, com a qual Martineau colaborou.
Como estava com viagem marcada para os Estados Unidos, Martineau precisou escrever o capítulo a bordo do navio. Mesmo confinada e, segundo sua autobiografia, com a “mente embotada”, ela terminou o texto (Martineau, 1877). Em 1838, ela retomou o trabalho no manuscrito. Charles Knight desistiu da ideia de um volume único e pediu que ela escrevesse um livro, a ser publicado como parte de uma coleção. Em uma carta datada de julho daquele mesmo ano, ela fala despretensiosamente do livro e manifesta a esperança de que inspire futuros viajantes:
Tenho escrito muito nesta primavera – embora eu não tenha intenção de comparar meus feitos com os seus. Estou escrevendo [ilegível] o segundo volume de uma série produzida por um grupo – “Como observar”. Delabeche começou com a geologia; eu sigo com a moral e costumes; Eastlake segue com as Belas Artes; e assim por diante. O título revelará o plano. Sr. Bellenden Ker é o editor. Eu achei esse o trabalho mais difícil que eu já tive que fazer. Será lançado esta semana, antes que o bando de viajantes de verão alce voo (Logan e Sanders, 2021b, p. 24, tradução nossa).12
HOMM foi escrito em três etapas: durante a travessia pelo Atlântico, Martineau produziu o rascunho, que formalizava princípios e regras para uma pesquisa sociológica; em solo americano, ela colocou essas regras em prática; de volta à Inglaterra, retomou e finalizou o manuscrito. Estudiosas da obra de Martineau mapearam o conjunto de referências que a inspiraram: Montesquieu, Condorcet, Saint Simon, Dugal Stewart (Hoecker-Drysdale, 2003), John Locke, David Hartley, Joseph Priestley e Thomas Malthus (Lengermann e Niebrugge-Brantley, 1998). Porém, a influência mais marcante em HOMM é a de Adam Smith (Vetter, 2008; Crawford, 2020).
Em “Ensaios sobre a arte de pensar”, Martineau (2016) discutiu as consequências epistemológicas das teorias da natureza humana de John Locke, David Hartley e Joseph Priestley, para quem a mente era uma tela em branco, moldada pelas experiências e sensações. Em seus Moral Essays, ela desenvolveria as consequências morais das ideias desses autores, isto é, a noção de que os indivíduos não possuíam qualidades inatas, não eram “bons” ou “maus”, mas formados por influências e educação (Porter, 2003). Já em HOMM, vemos como a autora reúne as ideias defendidas nesses ensaios em um conjunto completo de proposições. A fim de desenvolver um método próprio para a ciência da moral, capaz de conciliar os postulados empiristas de Bacon com o associacionismo de Hartley, a autora recorreria sobretudo às ideias de Adam Smith, contidas em The Theory of Moral Sentiments, de 1759.
5. Do viajante amador ao “viajante filosófico”
Na Europa da primeira metade do século XIX, a literatura de viagem era um gênero muito popular e lucrativo. Desde o século XVIII, no entanto, autores como Jean-Jacques Rousseau vinham criticando a maneira como esses textos retratavam povos distantes e seus costumes de forma preconceituosa, parcial e descuidada. Além disso, incomodava-o a displicência dos viajantes, que não entendiam a diferença entre viajar para ver países e para ver povos (Zen, 2022).
Para se instruir, não basta percorrer os países; é preciso saber viajar. Para observar, é preciso ter olhos e voltá-los para o objeto que se quer conhecer. (…) De todos os povos do mundo, o francês é o que mais viaja; mas, orgulhoso de seus costumes, confunde tudo o que se afasta deles (Rousseau, 1995, p. 637).
Ao escrever seu “guia de viagem”, Martineau encontrou em Adam Smith um estoque de ideias para resolver o tipo de problema que Rousseau apontara muitas décadas antes. O encaixe entre as ideias de Smith e os princípios do associacionismo facilitou a sua empreitada: como Hartley, Smith também entendia que os princípios morais não eram universais e imutáveis, mas formados com a experiência. Smith salientava como tendemos a julgar as ações a partir da sua utilidade, seus resultados práticos, e nos apoiando nos usos e costumes. Dessa maneira, a moral surgia da relação entre os seres humanos e suas circunstâncias (Smith, 2015).
O insight mais importante de Smith para HOMM, no entanto, foi a sua noção de “empatia”. Segundo Smith, para entender o outro era necessário imaginar-se na sua situação e compartilhar dos seus sentimentos (Vetter, 2008). Diferente da pena ou da compaixão, só o exercício empático era capaz de facultar o acesso às emoções e sentimentos dos outros (Smith, 2015). Em HOMM, conseguimos observar como Martineau combina essa ideia de “sentir junto” com uma reflexão sobre a epistemologia de uma nova ciência da moral: o estudo científico da moral e dos costumes de outro povo exigia, para ela, uma interação complexa entre empatia, diálogo, observação e análise objetiva dos fatos – uma empatia “geral e irrestrita” (Martineau, 1838). Além disso, demandava que o observador se autoexaminasse continuamente, considerando seus próprios sentimentos e controlando seu viés (Martineau, 1838).
Caso o viajante não interprete com empatia aquilo que vê, não conseguirá entender a maior parte do que ele observa. Ele não terá liberdade de entrar nos recantos da vida doméstica; o comentário elucidativo sobre todos os fatos da vida – o discurso – será breve e superficial. As pessoas compartilharão com ele as coisas que menos lhes importam, em vez de buscar sua empatia pelos temas mais arraigados em seus corações. Ele será entretido com espetáculos públicos e informado de fatos históricos e cronológicos, mas ele não será convidado para casamentos e batizados; ele não ouvirá histórias de amor; as aflições domésticas serão mantidas em segredo para ele; os mais velhos não lhes contarão suas histórias, nem as crianças lhes incomodarão com sua tagarelice. Esse viajante estará tão apto a descrever a moral e os costumes do que ele estaria para descrever as minas de prata na Sibéria ao caminhar pela superfície e ver o portão de entrada e a mercadoria (Martineau, 2024, p. 72).
O olhar empático e a suspensão do julgamento em relação ao outro não eram completamente novos; eles tinham antecedentes em figuras como Bartolomé de las Casas, Montesquieu, Diderot, Voltaire, Rousseau, Montaigne, Adam Smith e outros. Há também indícios de críticas ao que hoje conhecemos como etnocentrismo originadas de fontes não europeias (Graeber e Wengrow, 2022). No entanto, até onde os registros históricos permitem dizer, esses princípios ainda não haviam sido formalmente transformados em um método científico de investigação social. Martineau enfatizou que a reflexão teórica sobre a relação entre pesquisador e pesquisado era fundamental para o estudo das sociedades, destacando a necessidade de “uma noção filosófica e precisa, ao invés de uma noção popular e vaga, sobre a origem dos sentimentos humanos em relação ao que é certo e errado” (Martineau, 2024, p. 69).
Para ela, a busca pela felicidade era inerente a todos os seres humanos, mas essa busca poderia se manifestar de maneiras diversas. Ela argumentou que as práticas de uma sociedade deveriam ser avaliadas com base em sua capacidade de promover a felicidade dos seus membros específicos, em vez de serem julgadas por padrões externos arbitrários (Martineau, 1838). Porém, diferente de Smith, Martineau não exercitava apenas uma empatia especulativa. Ela tomou sua ideia de empatia e desenvolveu ao redor dela uma série de regras e protocolos que permitissem o envolvimento real e direto entre observadores e observados (Vetter, 2008).
Assim, Martineau estabeleceu bases para tratar o conhecimento social a partir das suas próprias especificidades: diferente de outras ciências, que observavam marés, pedras ou astros, o estudioso da moral precisava encontrar o caminho até “o coração e a mente das pessoas”. Isso passava por evitar o julgamento precipitado, controlar seus sentimentos diante da diferença e afastar o preconceito e orgulho nacional. Confrontado com a diversidade de arranjos em torno da subsistência, dos métodos de casamento e dos acordos da convivência, o viajante deveria evitar ficar repelido ou enjoado, sob pena de não compreender a moral e os costumes dos pesquisados (Martineau, 1838). À medida que prossegue com a pesquisa, diz Martineau, o viajante “aprenderá a condenar menos e a admirar, não menos, mas de forma diferente” (Martineau, 2024, p. 250).
HOMM apresenta tanto uma moldura filosófica para a ciência da moral, como também constrói uma moldura macrossociológica para o estudo das sociedades. Mais do que empatia e diálogo, o estudo de outros povos exigia objetivar suas práticas a partir da coleta e exame de dados sobre suas instituições, ocupações, taxas de mortalidade, padrões de estratificação social e assim por diante. Martineau descreve o estudo da moral como uma empreitada difícil, pois ela não pode ser observada diretamente. Embora esteja nas mentes comuns, a moral é inacessível apenas pelo discurso e, portanto, as falas dos informantes devem ser confrontadas com outras evidências – como registros cívicos, traços arquitetônicos, cemitérios, instituições e outros vestígios materiais. Aqui nos interessa particularmente a maneira como a autora marca a diferença da ciência da moral ao ensinar sobre a relação entre pesquisador e informantes. Além de variados, isto é, representativos de diversos grupos sociais distintos, eles deveriam ser ouvidos sem interrupção e as perguntas não deveriam se assemelhar a um interrogatório – mas a uma conversa genuína entre semelhantes (Martineau, 1838).
Em HOMM, Harriet Martineau define a moral como as noções de certo e errado, as ideias e sentimentos predominantes em cada nação. Embora considere moral e costumes indissociáveis, Martineau compreende os costumes como comportamentos e manifestações externas da moral mais facilmente observáveis, porém mais superficiais. Assim, aqueles que se limitam a descrever costumes sem investigar a moral não podem afirmar que compreendem profundamente uma sociedade. A autora entende que a moral varia conforme o tempo e as circunstâncias: aquilo que é considerado adequado e correto em uma época e lugar, pode ser visto como impróprio em outra. Ela então relaciona a formação e transformação da moral a aspectos econômicos, políticos e institucionais, como, por exemplo, a situação de prosperidade ou adversidade, a vida urbana ou rural, a organização política feudal ou o sistema de estados nacionais centralizados (Martineau, 1838).
No segundo volume de “Society in America” (1837), Martineau aprofunda melhor a relação complexa entre os sistemas econômicos e os valores morais. No capítulo intitulado “Morals of economy” (moral econômica), ela examina de que maneira as práticas econômicas, como a escravidão, as relações de trabalho e a distribuição de recursos, influenciam a moral, dando um contorno às virtudes, vícios, sentimentos e atitudes gerais de indivíduos e comunidades. Ela destaca que a estrutura econômica, política e social da escravidão promove formas limitadas e ambíguas de bondade – como piedade e indulgência –, que deformam ideias de benevolência e justiça em favor dos poderosos. Em HOMM, Martineau (1838) se pronuncia também sobre o colonialismo, observando que nações colonizadoras atrapalham o progresso moral dos povos colonizados, pois impõem regras exógenas à política, economia e sistema legal da colônia, além de adotar práticas econômicas nocivas.
O último capítulo de HOMM, intitulado “Métodos mecânicos”, apresenta técnicas práticas de exercício da reflexividade: Martineau recomenda que o viajante mantenha dois diários separados – um deles para o registro de reações e sentimentos; o outro para impressões, incidentes, histórias e acontecimentos cotidianos. A partir desses dois instrumentos, o viajante deve voltar ao seu país e só então meditar sobre suas reações, sobre a evolução da sua compreensão sobre o outro, bem como sobre os seus erros e acertos ao longo da pesquisa (Martineau, 1838). Em suas palavras, o viajante deve “adiar o trabalho de generalização até voltar para casa” (Martineau, 2024, p. 258). O tema da “empatia” aparece novamente em suas observações finais:
A empatia, por si só, tem grande valor: com os recursos intelectuais e mecânicos adequados, ela fará do viajante um homem sábio. Sua jornada pode durar apenas um ano, ou mesmo um mês; mas se, por sua própria empatia, ele compreender e trouxer consigo a vida de uma nova porção de sua raça, adquirirá uma sabedoria que o engrandecerá para sempre (Martineau, 2024, p. 262).
HOMM apresenta uma moldura teórica e metodológica flexível e adaptável para o estudo das sociedades, que incentiva os cientistas a construírem desenhos de pesquisa ajustados a diferentes objetos. Para Martineau, como a moral varia a cada época e lugar, ela também se manifesta de forma distinta em cada sociedade. Por exemplo, em países com governos representativos, a política é um domínio crucial para o estudo da moral. Já em outras sociedades, as relações familiares e de amizade podem ser o principal foco para observar ideias e sentimentos gerais. Sendo assim, cada pesquisador deve construir seus próprios parâmetros de observação. Sua proposta destoa de modelos rígidos e engessados de teoria social, pois enfatiza a variabilidade não apenas da moral, mas também dos arranjos sociais, políticos e econômicos a que ela está associada.
6. Conclusões: uma inovadora esquecida
Martineau tentou separar a viagem de lazer da viagem de pesquisa, ou, nos seus termos, distinguir o “viajante amador” do “viajante filosófico” (Martineau, 1838). A recepção de How to Observe: Morals and Manners na imprensa foi, de modo geral, fria e cética. Mesmo os resenhistas que elogiaram a obra tiveram dificuldades em aceitar a necessidade de tantas regras e protocolos científicos para a produção de relatos de viagem (Campos e Daflon, 2023). Diferente de seus outros livros, HOMM não foi reimpresso por mais de 150 anos (Hoecker-Drysdale, 2003).
Mesmo tornando-se um grande sucesso, sua outra obra, Society in America, mexeu com paixões políticas tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, ganhando resenhas furiosas dos dois lados do Atlântico (Scholl, 2009). Sustentamos que Martineau está no rol de personagens históricos inovadores, que tentaram injetar novidades em um meio social que ainda não lhes conferia um lugar legítimo (Elias, 1995). Martineau propôs uma “ciência da moral” baseada no equilíbrio entre razão e sentimento, em um momento em que os padrões coletivos de observação do social estavam marcados agudamente por paixões, ideologias e ortodoxias.
Além disso, não havia coletividades ou instituições dispostas a praticar o tipo de pesquisa que ela propunha. Se, por um lado, a sua exclusão da universidade e de instituições científicas poderosas não a impediram de obter sucesso como escritora, jornalista ou intelectual pública; por outro lado, essa mesma exclusão reduziu o impacto das suas inovações, ao impedir seu acesso a uma comunidade que pudesse levar seu trabalho a sério e adiante. Ao tentar, por seus esforços individuais, mudar um padrão social de produção de textos, Harriet Martineau esbarrou naquele início de século em dois muros: a barreira estrutural ao desenvolvimento da Sociologia e a barreira às mulheres na ciência.
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A pesquisa que originou este artigo recebeu recursos do programa Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. Os recursos permitiram construir uma extensa base de dados bibliográfica e adquirir obras de interesse da pesquisa.
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Trecho original: “On shipboard in 1834, on her way to a two-year intensive study of American society, she wrote the first draft of what later became a volume of instructions to travelers seeking to study foreign cultures, How to Observe Manners and Morals. This volume is, perhaps, the first book on the methodology of social research in the then still unborn disciplines of sociology and anthropology. Martineau realized that the study of social systems was a separate scientific discipline and called it the “science of morals and manners”. As her most recent biographer has written, “for years she had been preaching sociology without the name”. (Lipset, 1962, p. 7)
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Apenas em 1869, por exemplo, que a Universidade de Cambridge começou a oferecer aulas para alunas mulheres (Šalinović, 2014).
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Referências a uma “ciência do homem” e a uma “ciência da moral” começaram a aparecer na Europa no final do século XVIII. Essas expressões encapsulavam a ideia de tomar a “sociedade” como objeto de estudo específico, diferente das reflexões sobre o Estado, por exemplo (Porter, 2003).
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Trecho original: “I don’t remember when I first took up Shakespeare; but I was certainly under fifteen (...). Of all that crowd, I think Jacques, Hamlet, Lear (in his speculative scenes) & Henry V were my favorites. Of the women, Imogen. The Duke in Measure for Measure, also, I got by heart. It is odd that all this while the Veillees du Chateau were daily read by me. (...) Another favorite was Mmc Genlis’ Theatre. Also, Voltaire’s Charles XII. Also, a story about the French Revolution in ‘Mrs. Hurry’s Artless Tales'. (...) My memory was flooded with poetry I learned by heart as I made shirts, with the book on my knee; I went over it all in the night. I thus learned the Deserted Village between Sunday & Sunday. I did not care for Cowper (what is odd) nor yet for Byron, who seemed a cowardly grumbler. I did not conceive why the world admired him so much. Milton, Gray, Goldsmith, Thomson, Scott, Moore, Rogers, Pope (never Dryden), - these & sundry extracts of older ones, were my diet in those days. I read a good deal of Latin with great pleasure: but that was not a private luxury. The great book of all was Hartley. But I was 17 then.” (Martineau, 1990b, p. 61-62).
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Trecho original: "Las historias transcurren en un territorio concreto, son situadas y esto resulta de mucho interés en cuanto, más allá del sentido pedagógico, nos transmiten el funcionamiento de una sociedad real, lejos de abstracciones y referencias incontrastables.” (Joaquín, 2024, p. 8)
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Trecho original: “Careless reasoners who, without dishonest intentions, make use of ambiguous terms, are unable to arrive at truth themselves, and do much to obstruct the progress of others” (Martineau, 2016, p. 85).
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Trecho original: “(...) so the philosophical world was divided among jarring factions, till Bacon published the right method of discovering truth, which has caused philosophy to advance with rapid strides, and a new light to dawn on the world of science. This principle is so simple that it seems extraordinary that it should not sooner have been adopted; and yet so vast in its operation, that attempts to estimate its effects are vain. This method is to bring together an accumulation of facts previous to the formation of a theory; and having carefully observed their bearing upon a particular point, to deduce from them a principle which may be applied to the explanation of new facts” (Martineau, 2016, p. 72).
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Trecho original: “For this purpose, the processes of comparison and judgment should not only be carried on when the exertion cannot be avoided, but should be vigorously urged, and watched with incessant care. All the ideas which the faculty of observation presents should be compared with those which we have already stored up on the same subject; and thus new light may be cast on a familiar object, and new relations perceived between subjects which before appeared wholly unconnected” (Martineau, 2016, p. 95).
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As interpretações das premissas empiristas variavam. Para alguns, se o conhecimento vinha das impressões do mundo, então o método indutivo era um caminho seguro para a verdade, pois era fundado na observação e na experimentação. Para outros, nem a razão nem as observações eram totalmente confiáveis e, assim, o conhecimento era sempre incerto e probabilístico. Martineau se alinhava à primeira posição, mas sua epistemologia reflexiva levou-a a uma visão equilibrada da relação entre ciência e verdade.
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Trecho original: “Our periodical press is at work upon politics as well as literature; but in what way — stumbling on amidst a dark accumulation of facts or finding an uncertain and perilous way by the light of passing events. Political science, as taught by our periodical press, is in as crude a state as physical science two centuries and a half ago; and though the existence of a regenerator among us gives us hope of a rapid and certain advance, the Novum Organon with which he has furnished us, will not be in full use till his grey hairs have descended to the grave” (Martineau, 2016, p. 193).
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Trecho original: “I have been writing busily this Spring, – though I don’t pretend to compare my doings with yours. – I have been writing an 8vo vol,3 the second of a series by a company of us, – “How to Observe.” Delabeche began with Geology: I go on with Morals & Manners; & Eastlake follows with the Fine Arts; & so on.4 The title will tell the plan. Mr Bellenden Ker is the Editor. I found this the most difficult piece of work I ever had to do. It is to come out this week, before the flock of summer travellers takes wing” (Logan e Sanders, 2021b, p. 24).
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Editado por
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Editora responsável:
Mariana Barreto
Datas de Publicação
-
Publicação nesta coleção
26 Maio 2025 -
Data do Fascículo
2025
Histórico
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Recebido
30 Jan 2025 -
Aceito
21 Mar 2025
