Ontem, depois de participar de uma aula integrada impar de Filosofia, Ensino Religioso e Língua Portuguesa, para os meus alunos do Hebe Camargo sobre Rousseau e Renato Russo, deixei tudo de lado e fui viver o meu momento de ócio, assistindo ao filme Tim Maia. Não, não vou fazer nenhuma resenha sobre a película, mas ela me provocou lembranças doces e vividas com intensidade. A memória visitou o Cinema Gaumont, no Largo do Machado, nos idos anos de 1980, já século passado. Ganhávamos os ingressos da Hellen e do Grimaldo, que trabalhavam junto com a Bia e a Belina. Saímos da zona norte, respectivamente de Todos os Santos e Tijuca e íamos de ônibus para nossa aventura intelectual. O Estúdio Gaumont só apresentava filmes “cabeça”, hoje conhecido como de arte. Víamos Truffaut, Zeffirelli, Felline, Costa Gravas, Fassbinder, Jena Genet e depois discutíamos, éramos muito metidos e entendidos sobre essa sétima arte que nos deixava encantados, todos. Quando, algumas horas atrás, entrei no sala de projeção, minha mente entrou no nosso cinema emocional que tinha como companheiros, os meus primos, Marie, Mara, Speto, Rogério, Monica, Vera, Barata, Luis Carlos, Hellen e o Guto, que era o namorado do momento da Mara (como ela teve namorado!). Antes das sessões, ele entrava em uma casa de doces e comprava um monte de coisa, lembro perfeitamente da maria mole, nunca tinha visto ninguém comer maria mole dentro do cinema. Lá íamos nós todos, a pé, junto com o saco de doces de papel pardo do Guto. Não tínhamos celulares, carro e muito menos dinheiro, mas conseguíamos viver a arte, principalmente a de ser feliz.
Depois do cinema, voltávamos para Tijuca, passávamos pelo bar do Beco, para continuarmos o papo “cabeça” sobre o cine arte e principalmente ver o Belloba tocar junto com o Dynei. Belloba e sua cabeleira, achava um charme o jeito como ele segurava o cigarro entre os dedos seu vizinho e pai de todos. Minha alma viajava, Sangrando pela canção do Gonzaguinha, entoada pela voz do Belloba. Comíamos feijão na caneca, encontrávamos a Katia, Telma, Cosme, Marlynis, o meu irmão Betto, Ana Terra, Fernando, Eduardo (que eu chamava de estante porque ele me chamava de Bibelô) e tantos outros loucos e lúcidos que não lembro os nomes.
No Bar do Beco, escrevíamos poesias coletivas e sobre esse bar escrevi uma poema que fez parte de um livro, editado pela Christina Oiticica, mulher do Paulo Coelho, com direito a lançamento no Circo Voador e tudo.
Quanto ao filme do Tim Maia? Acho que o Roberto Carlos não vai gostar nada de ver como foi caracterizado.
Era 1985